sexta-feira, 25 de novembro de 2016

LIVROS POR METRO

Venham comprar, nesta sexta feira de terror e escuridão, pela metade do dobro, livros por metro, livros às mancheias. 

Comprar. Verbo intransitivo.

Tem coisa mais triste do que entrar numa casa e não ver nenhum livro? Aí  é que as aparências enganam. Já perceberam que muita gente tira fotografias tendo suas abarrotadas estantes como plano de fundo?

Minha gente, desconfiem dessas quilométricas estantes. Acho que já contei aqui. Certa feita, encontrei um arquiteto num sebo. Comprava livros, claro, não estava lá por causa do cheiro. Comprava livros por metro.

É. Na decoração da casa, o cliente pede, entre armários e mesas e sofás, dois metros lineares de livros. Do chão ao teto! Até que orna... fica assim como que um quadro vivo, parecido com aquelas instalações que infestam a Bienal...Me dizem - deve ser intriga - que nas Casas Bahia já se compram só as lombadas - as capas -, por metro quadrado.
 
O fato é que, se eu entrar numa casa e vir uma estante de dois metros de largura abarrotada de livros, do chão ao teto, ficarei impressionado favoravelmente com seu dono.  Sou um preconceituoso. Mas essa abundância de milhões de livros em livrarias que parecem supermercados ou feiras que ocupam pavilhões tem uma serventia: quebrar o fetiche; desmoralizar o feitiço da cultura por metro.

Esta não é uma crônica sobre o livro. É uma crônica sobre muitos livros todos juntos. São coisas completamente diferentes. Algo semelhante à oposição entre indivíduo e multidão. Aquele tem nome, personalidade; esta, tem tamanho, cheiro.

Um monte de livros num sebo quase fede. Numa biblioteca, é perfume inspirador... Numa livraria ou numa feira, confunde. Em comum, ácaros. Não tem nada mais desesperador do que entrar numa livraria ou numa feira de livros sem saber exatamente que livro procura. É parecido com o ato de entrar numa loja para comprar uma geladeira e ter de escolher entre 50 à mostra.

Meu avô não resistia a um vendedor de livros. Havia mascates especializados, ofereciam coleções vistosas, capas duras...muitas figuras...acho que vem daí o meu preconceito contra as lombadas e as capas duras e não da enciclopédia Barsa. Ele não perdia as generosas ofertas de comprar. No claro ou escuro, em qualquer dia da semana. Livros que nunca lia.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O ANTONOV

     Tão logo soube da vinda do Antonov ao Brasil, sabia que esse nome dava uma crônica. Só não sabia como nem porquê. Nem tentei escrevê-la, ia esquecendo, quando, nesta manhã, ouvi as peripécias da minha irmã para digitar Antonov no smartphone. A minha irmã é apenas um pouco menos analfabeta que eu em esmartefonês. Ela teclava as letras  a n t o n o v   e  o seu aparelho escrevia antonio. Ela logo emendou a me contar sobre os trabalhos de controle do tempo e da janela para ver o Antonio, ops, o Antonov passando sobre sua casa, que fica na rota de Cumbica, que não sei se, afinal, ela conseguiu fazer o seu display exibir "Antonov" ou se ela deixou por "Antonio" mesmo (tiro por mim, tento duas vezes, na terceira desisto do esmartefonês).

     Mas, pronto, tinha o tema da crônica. SQN. Tinha dois, tinha três, tinha temas para várias crônicas(mas fiquem tranquilos, vou enfiá-los todos aqui nesta única). Começa que eu também morri de vontade de ir ao aeroporto ver o Antonov com meus próprios olhos. Só não fui de vergonha...;  o que é que toda a vizinhança iria pensar? Eu nunca mais poderia dizer e menos escrever algo pretensamente racional. Teria de abdicar do meu pretenso humanismo em favor da máquina. Seria ridicularizado quando tentasse alguma tirada cética e nunca mais seria levado a sério quando desdenhasse do fetichismo tecnológico. Então, não fui. Mas vi os vídeos...

     E também consultei o google. Não tem nada mais anticapitalista do que o Antonov. Não, não é porque ele foi fabricado pelos sovietes da Rússia, ainda no tempo da URSS, década de 1980. Os comunistas fabricavam carros de passeio: não tem nada mais capitalista do que carros de passeio. O Antonov contraria todas as práticas capitalistas porque é único. É! Um único exemplar. Pensaram, projetaram, construíram galpões e máquinas especiais, desenvolveram materiais específicos, turbinas, janelas, pneus e então, quando já tinham gastado um monte de tempo e dinheiro e pestana, fizeram um e pararam. O capitalismo inundaria o céu de Antonovs...

     Então pensei: se os aeroportos estão todos atravancados com essas merrecas de airbus e boeings, com suas tímidas fuselagens e seus insignificantes pares de turbinas, imagina os céus cheios de Antonovs... O trem de pouso deve ter uns 50 pneus. Apenas um mal parafusado que despencasse sobre a cidade já seria um estrago, e isso seria bem provável, porque quem aguenta apertar 50 pneus numa mesma máquina em uma linha de montagem? E são 3 pares de turbinas, muito mais ronco e fumaça e, então, os aeroportos seriam expulsos para longínquas distâncias. Os carros comunistas não inundaram o planeta, tinham envergadura de menos... Ainda bem que foram os comunistas que conceberam e projetaram e fabricaram o Antonov...

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

CRÔNICA SOBRE CRIME PASSIONAL

Rodolfo, pai, mata Fernando, filho, depois mata a si próprio, porque...

Bem, foi um crime passional.

Tudo culpa da palavra "azimute" e da expressão  "statu quo".

O pai assassino era partidário de "azimute", enquanto o filho assassinado era partidário de "statu quo".

Minto, quer dizer, reajo. Não foi tudo culpa de azimute e statu quo. Contribuiu muito para o duplo assassinato a pistola ponto quarenta da delegada aposentada...

É, a esposa-mãe, agora viúva e sem filho, tinha no armário uma ponto quarenta, herdada do tempo de delegada de polícia. Segundo ela, essa arma garantia a segurança da família...

Continuo sendo parcial. Não foi com a ponto quarenta que o pai matou o filho e a si próprio.

O pai era engenheiro civil. Quando se casou, sua mulher já era delegada e trouxe a ponto quarenta para dentro de casa. Então ele, muito macho, comprou uma ponto quarenta e cinco e uma carabina e uma cartucheira de caça.

De modo que o filho, Fernando,  já nasceu nesse ambiente seguro.

Mas a vida teria continuado se o filho fosse um mamute, e tivesse na vida um só azimute, como o pai. Só que não. Era um menino normal, saudável, ligado no mundo - no círculo, no globo, no conjunto, no status quo.

domingo, 13 de novembro de 2016

MODA DA PEDRA DA MINA

MODA DA PEDRA DA MINA
(Para cantar sob viola de arame, ao ritmo de "Aparecida do Norte", de Anacleto Rosas Jr. e Tonico).

Todo inverno julho agosto assim que a safra termina
 vou armar minha barraca no alto da Pedra da Mina.
Falo com força:- no alto da Pedra da Mina
todo inverno julho agosto assim que a safra termina.

Apronto minha mochila para quebrar a rotina
vou me dar uma canseira no alto da Pedra da Mina.
Falo com força:- no alto da Pedra da Mina
Vou levar minha mochila para quebrar a rotina.

Corta-vento e fogareiro longe a vida severina
vou pousar minha carcaça no alto da Pedra da Mina.
Falo com força: - no alto da Pedra da Mina
corta-vento e fogareiro longe a vida severina.

enquanto a força me anima vou cumprir a minha sina
vamos eu mais meu irmão no alto da Pedra da Mina.
Falo com força:- no alto da Pedra da Mina
vou cumprir a minha sina enquanto a força me anima.

Se a planície desanima
se a tristeza me amofina
se a descrença é assassina
se a doença não me mina.

Grito bem forte:- se a doença não me mina
todo inverno julho agosto no alto da Pedra da Mina.

Se o zumbido é de buzina
se o cheiro é de gasolina
se o horizonte é uma cortina
se a moleza não me afina.

Grito bem forte:- se a moleza não me afina
todo meado de ano no alto da Pedra da Mina.

Atravesso a Mantiqueira na trilha da Serra Fina
e passo uma noite inteira no alto da Pedra da Mina.
Grito bem forte no alto da Pedra da Mina
e atravesso a Mantiqueira na trilha da Serra Fina.

Todo meado de ano dou uma volta na rotina
pego toda a minha tralha e atravesso a Serra Fina.
Vou e garanto que atravesso a crista inteira
Alto da Pedra da Mina o cume da Mantiqueira.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

DÓRIA E A GRAVATA

DÓRIA/JÂNIO & GRAVATA/BIQUINI.

João T. Dória dá uma de J.Quadros e proíbe a gravata. Ops, abole. A partir de janeiro que vem, ninguém na prefeitura de SP vai precisar usar gravata. Ora, mas atualmente há algum setor profissional na PMSP onde se é obrigado a usar gravata?

Jânio Quadros proibiu o uso do biquini. Eleito presidente, em 1960, proibiu no país inteiro, logo após a posse. Ambas as medidas, a de T.Dória e a de Jânio, são da mesma natureza. Só que uma proibiu e a outra vai abolir. Aquela uma se mostrou desastrada, com o verbo e como visão de futuro; esta é no mínimo simpática, já que pouca coisa no mundo é mais formal do que uma gravata bem posta. E o verbo permite que, quem quiser, continue usando, que faça bom-proveito... Duas medidas que não fedem nem cheiram mas que mexem com o imaginário e as emoções populares e rendem manchetes.

Mas, sério, a gravata já não foi abolida no mundo? Ainda tem gente que é obrigada a usar gravata, exceto os juristas e os legistas?   (aqui, legista é quem discute e aprova lei). Quando eu comecei a trabalhar em banco, em 1975, era obrigado a usar gravata. As nossas gravatas foram ficando tão cômicas que os banqueiros acharam por bem aboli-las. Somente os puxa-sacos e os estilosos continuaram a usá-las. No Banco Mercantil de SP havia até sugestão de cores mais adequadas para a tal.

A gravata é de Direita. A publicidade adoidada é de Direita. T.Dória é de Direita; Kassab é de Direita. Entretanto, um abole a gravata e outro abole a publicidade adoidada em SP(Lei cidade limpa). Misturando... não tem nada mais parecido com um Democrata (azul) do que um Republicano(vermelho) no poder; e vice-versa. Só que aqui no Brasil, o sistema político-institucional é de Direita:  que todo político de Esquerda, quando eleito, faz questão de fazer funcionar bem.