quarta-feira, 27 de setembro de 2017

UM NOJO.

UMA VONTADE DE SAIR CORRENDO.
Passo em frente ao Shopping Paulista quase todo dia, é caminho da minha casa. E faz tempo, desde os tempos da Mesbla, uma loja de departamentos onde eu era freguês ocasional. Demoliram a loja, construíram o shopping, ele ficou velho, remodelaram, ampliaram, ficou novo de novo, tudo coisa fina, piso vitrificado, ar perfumado e eu ali, na calçada, pra lá e pra cá, atônito. De cinco em cinco anos, mais ou menos, entro lá, quando estou muito distraído. Foi o que aconteceu hoje.
Das outras vezes, eu entrava, ia até o meio do corredor do primeiro piso, acordava e saía, quase correndo. Dessa vez não foi diferente mas, ao acordar, lembrei do comércio de rua do centrão da cidade, que visitei e escrevi sobre, dia desses. Então saquei meu caderninho e caneta e fui em frente, para registrar o contraponto.
Olhando aleatoriamente e anotando os nomes que via: Piso 13 de maio: Criatiff, Puket, Capodarte, Clinique, Shoulder, World Tennis, Häagen-Dozs, Fast, Swarovski, Intimissimi, Opaque; Piso Maestro Cardim: Burger King, Océane, Shades express, Loungerie, Bayard, Maison Depil, Gregory, Bluebeach, Green; Piso Paulista: Sephora, Brooksfield, Siberian, Kipling, Polishop, The Graces, Side Walk, Anna Pegova, L’Occitane Au Brésil, Track & Field, Any, Munny, Khelf, Stroke, Crawford, M.Officer, Practory; Piso Paraíso: Tennis Station, Starbucks Coffee, Mr.Jack’s, Havanna, Braugarten, Baked Potato, ArtWalk, Le Pain Quotidien, Bacio di Latte, Calvin Klein. E agora tem uma seção no último piso, onde você pode comer finamente no The Fiffies Burger, no Bubble Kill ou no Outback Steakhouse.
Não andei todo o shopping não. Anotei só alguns nomes, até para não dar bandeira. O Banco do Brasil, a Zelo e a Quem disse, Berenice? pareciam lojas estrangeiras, num shopping de Nova Iorque.
De soslaio, examinava os frequentadores, enquanto lia as fachadas. Mais ou menos, 99% eram brasileiros, dos quais uns 1(hum)% dominavam a língua inglesa básica. 98% era brasileiros monolingues. Mais da metade eram analfabetos funcionais, sabe essas pessoas que não conseguem traduzir uma ideia em texto? Mas todos em roupa de missa, fascinados com o Deus-Cosmopolita, pisando miúdo, fazendo biquinhos, muito contidos, bem-comportados, sentindo-se em Miami, deslumbrados com todos aqueles detalhes e lojas finas, arrotando barbecue e peidando candy potato. Foi esse povo que fugiu do centrão de São Paulo. É essa mentalidade que atrasa nossa vida.
Na saída secundária da 13 de maio, enojado, ainda tive a pachorra de notar que a Fotótica agora é GrandVision: grande merda! Mas se você não quiser comer chocolate fabricado aqui com cacau nacional, coma Lindt: Maitre Chocolatier Suisse Depuis 1845, fabricado on Suisse, com cacau importado. Du Brésil.
Agora, se você quiser uma sugestão de nome fino e de responsa para um puteiro, eu tenho: Coffee Phodô.




terça-feira, 26 de setembro de 2017

UM DESGOSTO, UMA VONTADE DE CHORAR.

Hoje caminhei por três horas pelo centrão de São Paulo. Liberdade, centro velho, centro novo, região da 25 de março. A Rua Galvão Bueno, na Liberdade, é o centro do comércio oriental da cidade. Mas a irrelevância e a decadência também lá chegaram. Somente bugigangas e produtos banais.
Na Rua Quintino Bocaiuva, centro velho, havia loja de chapéus, de artigos esportivos, bons produtos. Lojas de calçados, bons calçados. Na Rua Direita havia as Lojas Americanas e as Lojas Brasileiras; enormes, transbordavam para o quarteirão de cima. A Americanas ainda persiste, mas irreconhecível, vagabunda. Na Praça do Patriarca, havia uma elegante agência bancária do Unibanco, hoje só tapumes.
Até os camelôs mudaram de nome, hoje são ambulantes. De fato, vivem pra lá e pra cá, exibindo poucas e ordinárias mercadorias, fugindo dos fiscais. Miseráveis por toda parte, às mancheias, muita gente segurando bíblias, falando pelos cotovelos, pelos ventos, para os fantasmas, e para poucos gatos pingados de carne e osso e pobreza.
Pobres por todo lado, alguns deles loucos. Não há sanidade que suporte tanto descaso. Corpos jogados ante nossos olhos familiarizados, em meio ao corre-corre da batalha.
No Viaduto do Chá há um comércio religioso, que a prefeitura não pode reprimir, parece que está enquadrado em “manifestações religiosas”, que a lei protege. As Casas Bahia ocupam o espaço do antigo Mappin, em frente ao Teatro Municipal, praça Ramos de Azevedo; as casas bahia, loja-símbolo da avacalhação comercial que nos assola. Rua Barão de Itapetininga, parece que até os caçadores de mão de obra barata desapareceram. E tome irrelevância comercial. Não se trata de lojas simples, produtos baratos. Trata-se de lojas ordinárias, apressadas, e mercadorias vagabundas, descartáveis: irrelevantes. Mais que as mercadorias, as lojas são baratas.
Irrelevância. Eis a palavra mais adequada ao centrão da cidade de São Paulo. Um comércio mesquinho para uma população invisível, que não conta.
O comércio digno desse nome e o dinheiro para sustentá-lo há muito que se refugiaram nos shoppings ou fugiram para alguns bairros ainda não invadidos pelos pobres. Mas tudo é questão de tempo e muita porrada. São 42 anos de cidade em movimento ante meus olhos estrangeiros, por isso observadores. Na 25 de março consigo ver a massificação e a impessoalidade das redes e vidas virtuais na multidão de carne e osso e suor e olhos vidrados nas vitrinas, consigo ver os tentáculos da irrelevância se estendendo pelos interiores e sertões em enormes sacolões e sacoleiras e ônibus fretados de comerciantes cansados.
Me invadem um desgosto e uma vontade de chorar, um choro de tristeza e raiva. A elite econômica brasileira despreza os pobres. Considera-os irrelevantes. Mais: ignora-os. Em 1975 éramos 100 milhões e ainda vivíamos resquícios do milagre econômico promovido pela ditadura militar. Em 2017, dobramos a população e dizimamos o centrão da maior cidade do Brasil. Pelo que acontece aqui no centro do país, dá pra imaginar a barbárie que grassa pelos cantos e recantos desse imenso território . Até quando a elite econômica brasileira vai fugir da miséria? Sim, trinco os dentes: o verbo exato é fugir. Porque não tem escapatória, um dia a rataiada acua o gato.


sexta-feira, 22 de setembro de 2017

CONVERSA MOLE.

Na Praça Oswaldo Cruz, ali no começo da Paulista, a moça bonita e simpática queria conversar comigo. Perguntei qual era o assunto. Unicef. Eu não queria. Ainda assim, ela agradeceu sorrindo.
Sobre outros assuntos eu poderia sim conversar com ela, mas sobre dar esmolas via Unicef não. Não, eu não queria dar nem entrar nem falar de um sistema quarterizado de arrecadação e entrega de donativos e outras ajudas. Que a fome no mundo não dependia de migalhas esparsas, mas de 2 ou 3 bombas H a menos testadas por ano, a ONU bem sabia.
No Viaduto Pedroso o rapaz de calça e camisa pretas vinha pela calçada em minha direção. Roupas bem-arrumadas, cabelos curtos e penteados, uns 30 anos de idade, veio chegando e, sem parar, me perguntou se podia falar comigo sobre Jesus Cristo. Eu disse que não podia. Ele então me desejou que Deus me mandasse pro Inferno. Eu respondi Amém nóis tudo.
Menos pior, porque ele poderia ter me mandado diretamente, ele mesmo, em seu próprio nome, e isto seria pior, porque sem intermediários. No caso, eu ao menos estou nas mãos de Deus… Tudo bem, sei que Deus é cruel até com os crentes, imagina com os increntes. Mas, enfim, vai saber quando Ele terá tempo de se ocupar de mim, tão longe das Suas vistas, e ainda via desejo de outrem tão minúsculo e insignificante.
Menos pior também porque ele poderia ter me mandado (ou pedido para me mandarem) para os quintos do Inferno. Ou para as profundezas do Inferno. Mas não, apenas desejou que eu fosse mandado para o Inferno, assim, genericamente. E isso é bem menos pior, porque, de repente, eu posso ficar ali logo no começo, num bairro chamado Limbo. Porque lá pelos quintos do Inferno me parece que é um gelo só e mais lá no fundo, é quente demais, além de ser muito próximo do chefe. Um friozão de vez em quando, como esses 7º negativos que peguei na montanha, feriadão passado, ou um calorzão daqueles de janeiro ali na Praia, até que são bons, de vez em quando. Mas eternamente, não tem tatu que aguente.
E, pensando bem, se Deus quiser atender ao desejo lá do seu crente maleducado do Vd.Pedroso, é bem provável que Ele, na ausência de exata especificação, me mande para o Limbo, porque é um lugar destinado aos não-pecadores incréus, uma categoria de gente que, modestamente, acho que me pode ser atribuída. É um lugar razoável, porque longe dos dois Chefes: o do Mal e o do Bem. Os gramados são sempre verdes e bem-aparados, as ruas são limpas, não tem algazarra, o problema é que você nunca deixará de ser você pra toda vida. É um lugar sem esperança. Mas a contrapartida positiva é que não tem hierarquia (não tem Chefe, é um lugar onde você é esquecido), ao contrário do Paraíso, onde os gramados também são verdes e bem-cuidados, mas é difícil chegar perto do Chefe, por causa da legião de puxa-sacos e de cargos disputáveis. E ainda, todos santos e, hipocritamente, desejando que você se dê bem na vida eterna. Acho que não vale a pena trocar a desesperança não supervisionada pela quimera de virar arcebispo e conseguir ao máximo um posto de vigário numa paróquia de terceira.
Minha paciência para ouvir e retrucar pode ser infinita. Ou ínfima. Depende. É ínfima quando o sujeito vem com uma conversa desesperada de salvação. Esses jovens do Greenpeace, aqueles outros Hare krishna, essas mórmons todas bem-arrumadinhas, aqueles neopentecostais, essas ONG’s em geral, instituições de caridade, contra o câncer... Fico muito impaciente quando alguém vem todo preocupado querendo salvar o planeta ou minha alma. Querendo me converter ou me guiar. Quando alguém que não conheço se mostra tão interessado em meu equilíbrio interior, insistindo em seus livros e soluções milagrosas. Alguém bem-nutrido vem me convocar para matar a fome dos famintos. Não tenho a consciência pesada, não estou desesperado para salvar nada nem ninguém. Nem a mim. Porque a Salvação vem sempre acompanhada do Desespero. Então não gosto nem da uma, nem da outra, e vice-versa. Não suporto esse papo interessado. Gosto mesmo é de uma conversa mole.


terça-feira, 19 de setembro de 2017

A HONESTIDADE.

Já contei aqui do mecânico alemão, que se vangloriava da própria honestidade. E que funcionava comigo, tanto que, a cada quatro meses, me abalava daqui do centro até Interlagos com meu fusca, pra regular o carburador e outras manutenções. Era uma epopeia a viagem de ônibus pra voltar, depois pra ir buscar. Tudo por causa da honestidade do hômi. Tudo bem que a honestidade do hômi me era importante, mas já então me incomodava a autodeclaração.
Porque a honestidade é uma condição inata. Ou deveria ser. Assim como a humanidade. Declarar-se humano, ou desumano, é uma estultícia (uma tolice, pra economizar sua ida ao google). Ser honesto é uma obrigação primária e, da mesma forma que ninguém se declara desonesto, ninguém deveria se declarar honesto. A honestidade é uma condição necessariamente outorgada por outrem, um terceiro. Outorgada, mas não declarada. Constatada, apenas, para efeitos práticos… Mas, na época do mecânico alemão, eu tinha mais que fazer e apenas estranhava, ligeiramente. Acusava a anormalidade mas, na dúvida, fazia um sacrifício danado pra deixar meu fusca em mãos confiáveis… autodeclaradas confiáveis!
Sim, n’algum ponto, entre aqueles longínquos tempos e esta parte, tive alguma conversa íntima comigo mesmo sobre a honestidade. Constatei, com algum alarme, que nunca me declarara honesto. Vejam bem, não em voz alta, para algum interlocutor de carne e osso, mas para mim mesmo. De fato, nunca me declarei, nem a mim mesmo, ser honesto. E, cá entre nós, tenho alguma dúvida. Nada, porém, que me abale. Porque a honestidade, bem… vai vendo:
No banco de trás, a mulher se declarava mulher direita, honesta, muito honesta. Em voz alta e bem articulada, tanto que eu ouvia direitinho, apesar do ronco do próprio ônibus e do trânsito infernal da Rebouças. Acho que voltava do serviço, conversava com uma outra, talvez trabalhassem na faxina de algum grande escritório. Aí a autodeclaração se complicava ainda mais, por se tratar de mulher. Porque, como sabemos, na mulher, a condição de “direita”, de “honesta”, assume uma conotação sexual. Tanto que eu, muito preconceituoso, logo deduzi que a mulher era assexual. Quer dizer, era direita demais, era honesta demais, só podia não gostar de sexo.

Taí um dos motivos da minha bronca com a tal honestidade, em que não havia pensado. Um outro é a banalidade. Sendo que, por algum recôndito desconfiômetro, associo o "banal" ao "venal". De fato, nunca engoli muito bem essas pessoas e essas instituições que vivem alardeando a própria honestidade. Ou o fazendo indiretamente, ao alardear a desonestidade alheia.  Porque desonestidade não se comenta, se prova. E se pune. Enquanto isso, todos são honestos. É algo parecido com a caridade: quando alardeada, perde o efeito. Ou deveria perder...

É inconcebível tratar com um desonesto notório. Quem tem fama de desonesto, pode procurar outra freguesia. É algo perpétuo, o cara pode virar santo que não adianta. Sim, a honestidade é condição indispensável, na vida prática, todo mundo sabe. Daí porque os pobres de espírito não conseguem ser honestos e ficar calados. 

domingo, 17 de setembro de 2017

VOLTEI A JOGAR FUTEBOL.

Ressuscita o craque que habita em mim.
Campinho improvisado, gramado do Ibirapuera. Os velhos jogavam. Sete pra cada lado, vermelhos contra azuis. Solitários, torcida zero. Cheguei, parei, assisti. Torcida um. Gostaram, perguntaram se eu queria jogar. Eu queria. Tinha corrido 10 Km, mas nem parecia, diante da bola. Quer dizer, da vontade de jogar bola. Há mais de 30 anos que eu não chutava uma bola. Chutar, chutara, mas jogo mesmo, azuis contra vermelhos, há mais de 30 anos. Porém, antes, o dono da bola e das traves de cano e das fitas que delimitavam o gramado se acautelava quanto ao meu nível de categoria. Eu era bom de bola? Porque, se fosse, não jogava… Logo veio um outro dizendo que eu me parecia com o doutor Sócrates. Aproveitei a deixa para informar ao dono da bola que aquela era uma boa comparação… Meio ressabiado, ele me deixou entrar. Na terceira bola que me foi endereçada, a danada bateu em mim e saçaricou pra lá e pra cá como se tivesse vida própria e escapuliu feito um preá. Um dos meus parceiros aproveitou para me informar que eu estava aprovado, eles me deixavam jogar…
Mas dentro de mim habita um craque. Tudo questão de desenvolvimento… Tenho a maior admiração por quem consegue matar uma bola no peito. Nunca consegui. Também nunca treinei, nunca insisti. Diferente do estilingue. Com o estilingue, onde eu batia o olho, punha a pedra. Tá certo que, na maioria das vezes, o passarinho saía daquele lugar uma fração de segundos antes, mas se cochilasse, morria. Mas eu dormia com o estilingue no bolso, vejam bem. Com a bola… Bem, nem bola eu tinha.
Comecei jogando no gol, indício de perna de pau, segundo os experientes. Que nada, Pelé também começou jogando no gol. Eu tinha visão estratégica e boa noção espacial do gramado. Se tivesse insistido, teria me tornado um goleador. Não como o doutor Sócrates, que além de ter visão (não só do gramado, mas do jogo e da safadeza), era craque, desses que amansam a bola, mas como um Dario, talvez com um pouco mais de noção. Para os desinformados, Dario foi o centroavante imposto ao João Saldanha pelo Médici, na seleção tricampeã do mundo, no México, em 1970.
Enfim, a bola sobrou pra mim, limpa e quieta, dentro da grande área… Não tem coisa mais feliz no mundo que uma bola mansa só nossa dentro da grande área, de frente pro gol. Com uma frieza realmente digna do doutor Sócrates, só rolei a pelota para o canto esquerdo do goleiro, que aceitou. Antes de chutar, refleti que, se chutasse forte, a bola iria longe, atravessaria a avenida, coisa trabalhosa de se buscar. Foi nessa hora que decidi chutar com a esquerda. Sendo que, pra chutar, sou destro. Impressionado e demonstrando muita contradição, aquele mesmo parceiro que me comunicara que eu estava aprovado, naquele lance anterior e desastrado, me falou baixinho que eu tinha que maneirar, senão não me deixavam jogar…
Mas, ao final do tempo regulamentar, eu fui aprovado sim. Tanto que me convidaram para o sábado seguinte. Se não me divertir jogando bola, me divirto vendo quão fácil aqueles velhos caem. E a dificuldade que é se levantarem. Com uma coisa já estou conformado: para a copa da Rússia não dá mais tempo.


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

O COMUNISMO IN HOWARD ST.

O marxista de San Francisco.
Vou seguindo pela Howard St, louco pra chegar a 9th St e sair logo daquele sufoco, quando encontro o James:
Putz, que que ocê tá fazeno aqui, cara?
Oxente, passeando. Tamém posso!
É assim. Nego pega uma graninha e já vai pensando. Entramos numa padaria, quer dizer uma panederia, ou sei lá como eles chamam aquelas biroscas em que você come hot dog por metro e toma refrigerante aos quilômetros. É, à vontade, um atentado ao pudor do estômago.
Que que cê aprontô lá em S.J.Rio Preto, semana passada?
Só organizei uma pescaria no Rio Grande, eu, Cidão, Newton e Cleber mais Helena, Dayse, Vivi e Carminha.
O verão na norte-américa comia solto. Aquele sol era coisa de entocar tatu. Saímos andando pela calçada, finalmente dobramos na nona avenida, os táxis com aquela cor esquisita passavam devagarzinho… ou ventando, dependendo se estavam vazios ou cheios. De repente, passamos uma avenidona mais larga e, a cidade que era quadrada, passou a ser de esguelha, ô tristeza pra um turista de julho latinoamericano.
Quê que cê acha desse comunismo aqui, esse monte de gente comendo igual, vestindo igual, falando mal?
Ah, rapaiz, num repara. Aqui nos States é assim mesmo. Quem fala direitinho e não se mistura é maranhense. Isso aqui é enrolado porque é tudo mexicano. Mas em New Yorq é pior. E se você for subindo, cada vez pior, quanto mais brancos, mais alemães…
Alemães!?
É, marxistas. Os tataranetos daqueles irlandeses adoram imitar os vizinhos, obedecer aos comandos das agências publicitárias. Estadunidense de verdade não resiste a uma boa campanha. Adoram colaborar.
James era terrível. Pior era que o cara sabia das coisas. Batia o olho e sacava. Quem diria que aquele moleque descalço, sempre com o nariz escorrendo e o estilingue pronto, ira virar isso. Mas é claro que ia, onde punha o olho, punha a pedra. Moleque de dois rodamoinhos no centro da cuca, tava na cara. Sacou uma carteira de cigarros, me ofereceu um, falei que não fumava.

Na Grove Street, em frente a um monumento grandão, nos despedimos. Ele foi pro lado da Beach, eu fui pro lado do Embarcadero. Por hoje chega, que não aguento mais os pés. Turista sofre. Bem feito! Êta mundo pequeno, a Rússia é logo ali, depois do Alasca.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

MARXISTAS & ESPÍRITAS.

Me lembro bem da década de 1990, quando o neoliberalismo se aportou por aqui. Posso testemunhar algo talvez útil para os mais jovens. Trabalhava num banco estatal dirigido por um tucano mais realista que o tucano que o indicara. Trabalhava em meio à hierarquia carreirista ou inocente, quase todos oportunistas puxa-sacos dos poderosos de plantão. A coisa engrenou quando Collor, presidente desde 1990, declarou que os carros fabricados no Brasil eram todos carroças, e abriu o mercado e hoje nossos carros são maravilhosos… Itamar, que sucedeu o Collor, restaurou o fusquinha, para fazer um marketing-contraponto. E, em seguida, chegou a turma do FHC, para executar as diretrizes ditadas alhures e domesticar a hiperinflação à custa de recessão, desnacionalização e juros altíssimos, com congelamento salarial e repressão sindical.
E muita ladainha liberal.
Só lembrando que, em 1989, despontou o PL-Partido Liberal, cujo candidato à presidência era um tal Afif Domingos, militante da Associação Comercial. Liberal de livre-iniciativa. Esse tal Afif hoje dirige o SEBRAE, voltaremos a ele.
No governo FHC foi um tal de cortar, privatizar, desestimular, esvaziar empresas estatais. Funcionários eram convidados a se demitirem, com alguma indenização. É aí que entra o tal Afif e seu evangelho da livre-iniciativa. Esse evangelho tinha até livro: chamava-se “Quem mexeu no meu queijo”, de um escritor de best sellers estadunidense, especialista no mundo corporativo. (aliás, é dessa época a expressão mundo corporativo). Era uma parábola que objetivava convencer nossas mentes acomodadas a se acostumarem com o futuro incerto, o queijo imponderável. Sugeria que mandássemos às favas nossas carteiras profissionais, pegássemos o dinheirinho da indenização e abríssemos um negócio próprio, que demitíssemos nosso patrão.
Era um tal de “eficiente e eficaz” pra cá, um tal de “quebra de paradigmas” pra lá…
E, no miolo de campo, o baixo clero tucano com suas planilhas e seu vocabulário (que fez a carreira do Macaco Simão, ao sistematizar o tucanês) e suas sinecuras de assessoria (alguns amigos do rei oriundos das estatais ou das academias se deram bem aí) e o Afif e o SEBRAE e sua turma a nadar braçadas entre os tolos e suas pequenas boladas e seus sonhos de patronato.
Crentes convictos, abriam logo suas bodegas, para fechar depois de um ano, e sair sem nada, no desespero, caindo em qualquer ratoeira, indo atrás do queijo em Ciudad del Este, arrastando sacolas entre a 25 de março e consumidores esparsos pela cidade, entrando feito vacas loucas em pirâmides, vendendo salgadinhos, se virando em freelas, e nunca deixando de acreditar no sonho. As naturas e avons e herbalifes estão aí para corroborar tal inquebrantável fé. Porque no mundo da concorrência verdadeira, enfrentada pelos pequenos, sobrevive apenas raros eleitos e outros poucos de cotovelo duro.
É gente que não entende de linguagem figurada, gente que faz das lendas uma aventura literal. É gente pobre, inculta, rasa. Subgente, cidadãos de segunda, vivendo debaixo do tacão da liberdade zero, sob o lema “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Nós todos, a grande maioria, todos potenciais ou reais vítimas desses gurus explícitos ou dissimulados.
Porque, minha gente, a Matemática! A Física! (vamos dar um tempo à História, é complicado demais…). Essa conversa de livre-iniciativa é para os tolos. Não existe espaço para todos, no mundo dos negócios, segundo essa visão do Afif, do Sebrae, do Partido Liberal, que queria selecionar seus candidatos através de concursos. Não, não eram nem são inocentes, esses do fracassado PL. São exímios manipuladores das nossas mentes tolas. Inspiraram os tucanos que, mais numerosos e pragmáticos, erigiram uma língua própria e uma macroeconomia de fachada.
Os tucanos erigiram uma língua e um muro e, de lá de cima, passaram a descrever e operar uma próspera Economia virtual… Nas planilhas e relatórios e atas e colunas de jornais e TV, o mundo brasileiro nunca fora tão pleno, exceto a Previdência, que ia quebrar no semestre seguinte (e olha que o salário mínimo valia 1/3 — um terço — do que vale hoje). Passamos os 8 anos (de 1994 a 2002) sob esse terrorismo. Se você estava desempregado e sem renda, a culpa era sua, que não ousava, não inovava, não empreendia, não saía pelo labirinto a procurar a nova localização do queijo (já perceberam que essa lenga-lenga voltou, sob o neogoverno?).
Porque, pessoas, insisto: não há saída fora dos grandes aglomerados estruturantes da economia, sejam privados, sejam estatais, sejam coletivos. Essa coisa de cada um por si e o mercado para todos é colóquio flácido para acalentar bovinos e enriquecer gurus (esses vendedores de receitas e palestras e livros de autoajuda, além daqueles outros mais prosaicos, que cuidam das nossas dúvidas existenciais).
O individualismo — a liberdade individual —, não vai além do direito de espernear. Ainda assim, de forma muito limitada, de maneira muito localizada, no tempo e no espaço.
A menos que nos libertemos das necessidades do corpo. A menos que não mais tenhamos que ir atrás do queijo todo dia, de nos preocupar com moradia, transporte, alimentação, saneamento, aposentadoria… É aí que entram os marxistas e os espíritas:
Quando as estruturas forem tão poderosas e tão organizadas e tão fartas e tão produtivas e tão automatizadas, a igualdade será inevitável e ninguém mais precisará correr atrás do queijo-mercadoria farto e variado e todos poderão ficar o dia inteiro escrevendo tolices no feicibuque.
Ou então, que se salvem os mais espertos enquanto puderem, porque a nosotros a felicidade é certa: quando nossa alma se livrar desse nosso corpo corrupto e exigente.




terça-feira, 12 de setembro de 2017

SHIT TUBE.

Para quem começou fazendo no mato e usando folha de vivo vegetal, é quase como se tivesse morrido e nascido de novo vir a público numa crônica sobre shit tube e papel higiênico. Um dispositivo que todo mundo que sai por aí andando pelas estradas deveria levar. Que deveria ser obrigatório para quem sobe a montanha. Mas se você nunca foi nem pretende ir, vai pensar que fiquei fresco. Como custa pouco, escrevo.
Sim, shit é merda e tube é tubo. Nós, analfabetos funcionais em inglês, já sacamos. Tubo de merda, sem raiva ou ironia.
O fato é que, na montanha, obrar é um problema. Próprio e alheio. Na montanha altona é só pedra, não há como se esconder (porque faz parte da condição humana defecar escondido). Defeca-se na pedra e não no mato. Tem uns que levam uma pazinha para enterrar a merda. Na pedra não é possível. Nos picos menores, há uma área restrita lá em cima, coberta de capim, e, em volta, o precipício. Os montanhistas acampam lá, em poucas clareiras interligadas por trilhas. Algumas dessas trilhas e clareiras viram banheiro a céu aberto. É um perigo. E constrangedor, porque alguns muito desavisados deixam também o papel higiênico, que pra trazer nem precisa de shit tube. A trilha é estreita, as áreas de acampamento são poucas e pequenas, o que sobra é pirambeira. Um monte de merda é uma mina que, quase sempre, explode no pé de alguém. No Aconcágua já é obrigatório trazer a merda lá de cima.
Aliás, isso vale para qualquer tipo de lixo. Tem uns guias de montanha que levam presos à mochila shit tubes coletivos. Mais apropriado seria chamá-los de shit tambores. Coisa civilizada.
E você, cheirosa e sensível leitora, que está a se perguntar como pôde ter caído nas garras de um texto tão chulo, dê-me graças por levá-la lá fora do seu limpinho casulo, ainda que virtualmente. Assim você fica sabendo que lá existe (existe o lá), que é bão e que tem mulher de carne e osso, mulheres bicharedas de boas, com ou sem shit tube.

Enfim, aos que falam “vou fazer o nº2”, sou pela reabilitação do verbo cagar (nem fazer, nem obrar, nem defecar, pelamordedeus). Se você não gostar, vai cagar no mato. Mas se o mato for na montanha, leve shit tube. Tem no google. Só que, se um dia eu levar um, vou traduzir o nome para nossa língua pátria. 

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

VIDA & LOTERIA.

O cara ganhou uma bolada na loteria. Na Caixa, pediu tudo em espécie. Era muito, tiveram que provisionar pro outro dia. Teve de ir com uma mochila cargueira pra trazer a grana. Chegou em casa depois do almoço, a mulher dormia. Despejou os pacotes de dinheiro sobre a cama, ao lado dela. Quando a mulher abriu os olhos e viu o dinheiro sobre a cama, teve um piripaque. Ficou muito puta com ele, onde já se viu colocar dinheiro sobre o lençol, dinheiro é coisa suja. É, todo mundo pega, vai saber por onde passaram aquelas notas. O lençol, a fronha do travesseiro, aquela imundície…
Terminado o piripaque, a mulher quis saber como é que ele tinha arranjado todo aquele dinheiro. Ou seja, começou outro piripaque. Porque, vejam bem, tão importante quanto o dinheiro, é a origem do dinheiro. É, a mulher era fresca. Dessas que, no banheiro, tem uma toalha para os pés, outra para as mãos e outra para o resto do corpo. Dessas que passam a ferro quente toalhas e lençóis. Dessas que usam muito amaciante e sabão e as roupas ficam até cheirando demais… Dessas que nunca faltaram nem chegaram atrasadas no serviço a vida inteira. É, porque a mulher, assim como o marido, já eram aposentados, depois de 38 anos de contribuição ao INSS.
Juntando as merrecas das aposentadorias dos dois, dava pra viver bem. Os filhos já se viravam por conta própria. Uma vida simples, regrada. Casinha própria na Vila Matilde, um golzinho 98, TV via antena parabólica, nenhum crediário, nenhum papagaio, nenhuma dívida. Nenhum gato pra gastar com veterinário… Lendo de cabo a rabo os panfletos do supermercado, pra aproveitar as ofertas. E nenhum dos dois gostava de pizza nem de entregador de pizzas nem do glamour de comer fora. Era uma vida besta, mas tranquila.
O marido, aquele somongozão, podia ter caído numa trapaça, alarmava-se a mulher. Dinheiro, ela gostava, desde que muito bem explicado. A frescura dela não subia a dilemas filosóficos, tipo se um tem muito, necessariamente muitos têm pouco. Daí que, quando ela soube que o marido tinha ganhado na loteria, começou um terceiro piripaque. Este, de alegria. Enquanto jogava lençóis e fronhas no lixo…
Naquela mesma tarde, o felizardo novo milionário já não suportava seu impecável carrinho de 12 anos. Nem aguentava mais os vizinhos nem a linha vermelha do metrô nem a Vila Matilde. Não conseguia entender como vivera tanto tempo naquele muquifo. A felizarda nova milionária marcou uma depilação e o cabeleireiro para aquela mesma tarde. E, pra comemorar, pediram uma pizza… com cocacola, que as transformações são rápidas, mas nem tanto…
Claro, depositaram a grana na poupança. Bom, isso aqui daria um romance, coisa de 200 páginas bem cheias.  Começaria tipo "Inocentes endinheirados é vexame na certa...". Mas não tenho saco. Se mudaram prum apartamento um por andar nos Jardins e passaram a consumir tudo isso que vive nos tentando nas vitrinas nas ruas nas novelas nos sonhos…

Mudaram de bairro de carro de hábitos de amigos, mas mantiveram a alma de assalariados. Inocentes enrolados nas teias das propagandas. Se tivessem virado capitalistas, a ruína viria lá pela terceira ou quarta geração. Felizmente, não deixaram esse amargo legado. Daí que, passados cinco anos, o dinheiro acabou e voltaram pra Vila Matilde. Mentira, foram pra Casa Verde, para fazer novos amigos… Ah, sim, a merreca do INSS nunca parou de pingar. Retomaram a vida digna. Mas infeliz. 

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

DE COMO MORRER FEITO UMA GALINHA.


Conto de 7 partes.

A hora em que todos os gatos são pardos ajudava o policial, que caminhava despreocupado pela calçada da sua rua, já no quarteirão de casa. Calça jeans, tênis, camiseta com frase em inglês no peito e um símbolo que todo mundo conhece o significado, menos eu, brinco na orelha, tatuagem no antebraço, pequena mochila nas costas. Fundão da Zona Leste. Policial, mas nem seu vizinho de tantos anos sabia. Policial, mas pardo. Pardo, porque pobre e porque filho de pai branco e mãe negra e avô índio. Pardo, porque é uma tonalidade fácil de passar despercebida. E ali, chegando em casa após o serviço, tudo que ele queria era passar despercebido. Na flor da idade, trinta anos, ainda se divertia com esse detalhe da própria cor dentro de sua integral desgraça. Ria, mas caminhava tenso, à espera da emboscada. A despreocupação aparente era apenas mais um componente do disfarce.
Mas essa condição natural do nosso personagem era a sua salvação e a sua perdição, dentro do seu propósito de se misturar e se igualar à vizinhança. Salvação, porque ali naquele fim de mundo precário e descuidado, havia muitos brancos compartilhando a miséria, mas a maioria era parda. E perdição porque, se fosse descoberto, seu castigo seria dobrado. Pardo, ali naquele mundo precário e descuidado e sem fim no tempo e no espaço, era o principal sinal visível de pertencimento ao povo pobre; e branco era o seu oposto. Por isso, os brancos que ali viviam, sofriam duplamente, por serem pobres e por serem brancos. Entretanto, se um branco fosse descoberto policial, recebia um castigo relativamente brando da comunidade, mas se um pardo fosse descoberto policial, era severamente castigado por dupla traição.
Enfim, o nosso personagem era um morenão boa figura, nascido ali mesmo no bairro, recém-casado, cuja mulher já andava barriguda e mal humorada com aquelas fardas presas na cordinha esticada sobre a cama, e o quarto sempre no escuro e fechado à chave. Dessa forma, só restava a ela a cozinha, dos exíguos dois cômodos sem quintal no final do corredor da viela, e as doenças respiratórias decorrentes de dormir naquele quarto que nunca recebia a esterilizante luz do sol e nenhuma ventilação. O que seria do bebê, naquele quarto úmido e escuro e entupido de varais? E tudo por quê? Porque ninguém podia sequer desconfiar que havia dependurada no varal daquele quarto-cozinha-sem-quintal-no-final-do-corredor-da-viela uma farda da polícia militar. Sendo que a mulher mulata-parda-sarada-bonita era muito dada a vizinhas e a visitas e contravisitas e não tinha outro jeito senão trancar o quarto.
O que você acha, minha tendência é acabar com isso logo. O povo do lugar é pobre e tonto, mas não é besta, e vê que a polícia militar só serve para matar e prender pobre e pardo. Deduzem então que um irmão polícia ou é traíra ou é otário e um ou outro não merece consideração. Casa e vida de pobre têm muros tênues, frágeis, difíceis de defender. Pelo bem e pelo mal a vida acaba compartilhada com a comunidade. Quanto tempo você dá a esse policial? Se o pobre comum já não é besta, imagina o comitê dirigente da comunidade. Já disse que o policial vai pela calçada, caprichado no disfarce, aparentemente despreocupado, já está quase chegando na entrada da viela, onde, diabos, justamente a lâmpada da prefeitura está queimada — pior, estourada —, um carrão se aproxima no sentido contrário, caralho, já deveria ter acendido os faróis… Se tivesse chegado dez minutos mais cedo, quando a molecada ainda estava toda na rua... No bairro de casas baixas e poucas luzes, a noite chega como se desse um bote, as mães recolhem a prole antes, quem pode não fica de bobeira.

II

O carrão com os faróis apagados vinha devagar feito um jacaré, no sentido contrário do policial disfarçado. Faltando cinco metros para se cruzarem, parou e dele desceram os dois homens pardos que estavam do lado direito do veículo, um em cada porta, e, apenas com gestos, convidaram o atônito pedestre que caminhava na calçada a entrar no carro, para um passeio. Ele não queria, já estava chegando em casa, a entrada da viela é logo aqui, a casa fica lá no fundo, mas, enfim, era o jeito, entrou no banco traseiro e logo atrás entrou o homem que dali descera há pouco. Lá dentro, do outro lado, havia um homem branco, que ali permanecera enquanto o carro estava parado, e, ao volante, esperava outro homem pardo. O carrão, com os cinco homens dentro, arrancou, agora com os faróis acessos, como se fosse uma onça.
Então, com ares de comandante, o homem branco informou ao recém-chegado que eram da Associação, que zelavam pela pureza das relações civis, militares e eclesiásticas dos moradores do bairro. Deu um tempo na falação e, diante do silêncio do novo passageiro, continuou, informando-o que sabiam, mediante profundas e minuciosas pesquisas, que a população da vila era composta de 40% de otários e 5% de sábios e o restante, de gente tonta, que, em meio ao tiroteio, não sabia pra onde correr, mas corria sempre pensando só no próprio nariz. Bom seria se a maioria fosse de otários, porque, como são muito medrosos e nunca se expõem, não dão trabalho. Infelizmente, a maioria era de tontos, aqueles que davam mais trabalho. Era desse segmento da população que saíam alguns mais tontos querendo de fininho resolver seus problemas e, mui espertos, se deixavam recrutar pela polícia militar. E davam um trabalhão danado, porque uma vez PM, iam logo para a Rota, e se tornavam os mais ferozes e eficazes matadores de outros tantos tontos e otários.
O suposto comandante, carrancudo, fez mais uma pausa, para ver se havia contraditório e, diante do silêncio, continuou, dizendo que aquela elite de tontos — e enfatizou a expressão, que não era exata, mas era a que mais se aproximava — aquela elite de tontos não tinha salvação, falava manso e baixo, encarando o passageiro sentado no meio, dando um tempo para sustentar seu olhar. “E você pertence a essa elite”, concluiu firme e forte, acusando e condenando.
Era um julgamento sumário, legítimo em tempos de guerra. O comandante era o homem mais triste daquele comando, por isso era o mais feio, avaliou o réu. Parecia ser o mais inconformado, e tudo levava a crer que era o mais violento. Isso explicava o fato de ser o comandante. Talvez por ser branco, é dura a vida de branco pobre, carregam nas costas as consequências da dupla incompetência, sempre ouviram dizer que os brancos se dão bem na vida, daí o inconformismo e, quando entram na guerra, costumam galgar mais rapidamente a hierarquia, forma oblíqua de afirmarem a superioridade da cor, na qual sem saber acreditam, segundo ensinou-lhes o ambiente.
O carrão agora deslizava novamente como um jacaré, com os faróis apagados na noite escura de lua nova, numa ruazinha sem postes, esparsamente rasgada por fachos pálidos que escapavam de exíguas janelas. Logo adiante havia um enorme terreno vazio, que o passageiro sentado entre os dois homens no banco de trás reconheceu como cenário de uma cena em que fora protagonista, coisa de duas semanas atrás. Num lance rápido, digno da sua audácia, o passageiro do meio vislumbrou pelo canto do rabo do olho, uma nesga de cabo de pistola dando sopa no bolso da jaqueta do comandante e, ato simultâneo, que a situação valia qualquer risco, num bote certeiro e fulminante, apoderou-se da arma e, com eficácia digna dos mais experientes policiais de Hollywood, quase tudo ao mesmo tempo, num único segundo, viu-se dono de um refém e da situação, com o pescoço do comandante dentro do laço do seu braço esquerdo e a pistola empunhada pela mão direita com o cano muito bem encaixado na têmpora direita do infeliz chefe então deposto.

III

Dono da situação, foi logo despejando seu jargão acumulado em dois anos de farda. Tratando todos os elementos de bandidos, gritou para o safado ao volante que acendesse os faróis e andasse rápido, pra sair daquele buraco logo, e os outros dois que colocassem as mãos bem visíveis sobre a parte superior do banco da frente; o que estava no banco da frente, que alçasse as mãos para trás, juntando-as com as mãos do que estava ao seu lado no banco traseiro, que tivessem muito cuidado, que ao menor deslize mataria todo mundo...
O ex-comandante, então refém, grunhiu algo, enquanto o motorista continuava em sua pasmaceira, deixando o policial mais irritado e com o laço do braço esquerdo mais arrochado, para desespero do ex-comandante, que, quase sem voz, ordenou ao motorista que cedesse às ordens do seu agressor.
E seu agressor queria ir pra avenida o mais rápido possível, na esperança de encontrar uma viatura da PM, coisa difícil naquele fim de mundo durante o dia, imagina naquela hora escura. Mas indo sempre em direção ao centro, uma hora as viaturas apareceriam aos bandos. Só que o paspalho do motorista, apesar de acender os faróis e aumentar a velocidade, não saía do labirinto de ruelas. Assim, mais irritado, o policial pressionava com mais força o cano da arma na têmpora do ex-comandante. Este, com voz sofrida, pediu mais uma vez ao motorista que seguisse as ordens do policial.
E o policial animava-se com o desespero do seu refém, sob a pressão do cano da arma, entendendo que era, afinal, um branco fraco e, à constatação, emendou que, se não fossem logo para a avenida, daria início à sessão de furos, começando por aquela cabeça cheia de merda encostada em seu próprio peito.
Nesse momento, o carrão corria numa ruazinha sem poste, ao lado de um terreno vazio que não dava pra ver, mas os cinco sabiam que ali era um campo de futebol de domingo. Diante do entusiasmo do policial e dos grunhidos do refém, o motorista freou bruscamente o automóvel e apagou os faróis e ficou como quem espera alguém ordenar algo.
Quem falou foi seu colega do lado, dirigindo-se agressivamente ao policial, dizendo para ele abaixar a crista, porque ele não teria tempo de fazer o segundo furo, cairiam em cima dele antes do segundo tiro, que perderiam um soldado mas não perderiam a guerra, que todo dia morria gente deles nas mãos da polícia, que um a mais um a menos não faria diferença, no que foi ferozmente interrompido pelo refém, muito puto por já ter sido descartado, chamando seu comparsa de filho da puta e prometendo vingança se saísse vivo.
Um pouco surpreso, o policial esbravejou que tentassem tal besteira, que poderia morrer, mas seguramente levaria um ou dois, além do comandante ali no ponto da bala. Percebeu, então, que sua fala foi convincente, porque ninguém mais ousou qualquer bravata, preferiam não apostar na escolha da sorte nem no resultado final da guerra.
Diante dessa situação, o ex-comandante começou uma ladainha de lamentos, quase um choro, pedindo pelo amor de Deus por sua vida, uma atitude sem cabimento — coisa constrangedora —, e o resultado foi o descontrole visível dos outros três, no sentido de se renderem, de se entregarem, num estado emocional de submissão que não passou desapercebido ao policial. A noite era escura, o lugar era ermo, a situação era propícia, o policial pensou na nova condecoração e possível promoção salarial e resolveu matá-los os quatro ali mesmo.

IV

Dentro do carro não era conveniente, porque os três estavam muito separados e meio protegidos pelos bancos, um deles poderia requerer mais de um disparo e então sobraria quem sabe algum para si próprio, que aquilo não era cinema. A operação de saída dos cinco do carro também era arriscada começou a lamentar não ter requerido suas armas logo que fez o refém, com medo de que um deles, ao tocá-las, fizesse alguma besteira , mas, enfim, aqueles três babacas estavam totalmente submissos, talvez nem mais se lembrassem de que estavam armadosse é que estavam. Finalmente, comandou a saída muito cuidadosa do grupo, todos pelo mesmo lado, numa leva só e, mais fácil do que avaliara, se viu do lado de fora, com os quatro dominados, ordenando aos três que ficassem bem juntos, de frente para ele, enquanto mantinha o refém em seu laço inflexível. Ao fundo, o breu riscado por vagalumes cobria o campo de futebol, e ali perto, talvez num rego de esgoto, coaxavam uma boataria de sapos. Os casebres esparsos já estavam dormindo e, àquela hora, nem os gatos se aventuravam ao rés do chão, a testemunhar qualquer delito ali pras bandas do campinho. Aquilo sairia na TV, renderia grossa condecoração...
Dono da situação, o policial ajeitou os três numa posição conveniente ao pelotão de fuzilamento que, no caso, era constituído apenas dele próprio, sendo que, antes da execução convencional propriamente dita, esse já mínimo pelotão deveria executar, por fora e primeiro e muito rapidamente o refém cuja têmpora já ancorava a arma executiva, para não alongar a agonia nem suscitar qualquer ousadia dos condenados e também para economizar manobra e tempo.
Os condenados, alinhados, aguardavam a execução. E aguardavam como? Eu garanto-lhes que aguardavam tranquilos, se é que se pode usar esse termo nessa situação. Tranquilos, no sentido superficial que a noite escura permitia visualizar, ajudada apenas pelos laivos pálidos que saíam da iluminação interna do carrão, pelas duas portas abertas que davam para aquele lado. Mais preciso seria dizer que aguardavam a execução de maneira normal, ou seja, com a cabeça erguida.
O sujeito, diante do pelotão de fuzilamento, depara-se com um dilema: obedece à natureza do ser físico e superficial e exigente de vida e fraco-vulnerável e grita ou chora ou desmorona e morre abjetamente, como uma galinha, ou recolhe todas suas forças morais e intelectuais e culturais e racionais e consegue congregar ainda e eficazmente forças mentais e lógicas para erigir um herói e criar um bordão e brandi-lo contra o fogo de maneira audível e bem articulada, com a cabeça erguida, e morre, da mesma forma, mas dignamente, como um sujeito. É por isso que quase todos morrem ou deveriam morrer assim, com a cabeça erguida: para golpear o inimigo ainda uma última vez e, ainda, porque, podendo escolher, ninguém morre como uma galinha. Nenhum fuzilamento é testemunhado por fotógrafos ou cinegrafistas ou, ao menos, tais testemunhos não são divulgados, e esse fato em si já é um atestado de culpa dos executores — independente de suas razões —, culpa muito agravada pelo olhar firme e a postura humana de quem tomba, ou, ao contrário, quase anulada, se o executado estrebucha e esperneia e baba.
Entretanto, apesar do escuro, os três condenados não pareciam dar-se conta da hora que se aproximava, era o que me parecia. O executor, dentro da cena, talvez vislumbrasse os rostos sofridos e, quem sabe, conformados ou, atavicamente acostumados. O executor, acostumado, assenhoreava-se cada vez mais do branco sob seu garrote e dos três pardos, prontos para morrer, na sua frente e sob seu engenho e, assim, cada vez mais, confiava e cuidava do desfecho a ele favorável.
Isso, até o primeiro tiro, aquele que deveria ser sem anúncio e fulminante e muito barulhento, e que só gerou um clik, tal qual o som do grilo que compunham a orquestra da fauna do banhado, que escorria quase aos pés do grupo, sob o capim-gordura.

V

O policial era tão hábil e havia mentalizado tão bem os movimentos da execução, que só se deu conta da trapaça após o quarto clik chocho. Com a arma fria e silenciosa na mão, o policial piscou e, quando abriu o olho, viu o desmoronamento do seu pedestal de glória e promoção e vida. Com a arma ainda em posição de ataque, o policial assistia à evolução dos quatro oponentes, que assumiam novas posições, em silêncio, como num balé surdo e bem ensaiado.
No mesmo átimo tão decisivo foram produzidos quatro pífios cliks, como se fossem marcadores dos próximos passos dos bailarinos que, tal como componentes de uma coreografia desumana, desenharam um quadrado em volta do policial estupefato, marcando seus vértices como estátuas de braços cruzados. Nenhum grito de escárnio, nem mesmo um suspiro de alívio, sequer um sorriso de vitória, os quatro permaneciam impassíveis feito pedras, cada um guardando o seu ângulo e fixando seus respectivos olhares severos na figura patética ao centro, ainda com a arma apontada para o espaço vazio ocupado no átimo anterior por um dos pardos reposicionados.
Ato contínuo, o policial caiu de joelhos no chão, pedindo clemência. Caiu de joelhos, pediu clemência e, em seguida, intimamente, arrependeu-se de tamanha humilhação. Morria como uma galinha. Se tivesse pensado, teria permanecido de pé, com o olhar duro. Mas tudo fora rápido demais para seu sistema intelectual.
O sistema lógico-racional de um sujeito requer instantes prévios de encenação. Quando, em dada circunstância, inexistem esses instantes, o coração assume as rédeas da ação. E o coração é sangue e músculos. O coração é um mero órgão físico do nosso corpo físico e age por conta própria, segundo os interesses da matéria e, quase sempre, à revelia do indivíduo-titular. Quando tem o consentimento do próprio dono, suas decisões quase sempre o levam a grandes enrascadas, porque o coração é simplório.
Enfim, estava diante de um pelotão de fuzilamento — agora sim, um verdadeiro pelotão —, pensou o policial, ainda ajoelhado e babando, mas agora era tarde, morreria como uma galinha. E já que não tinha mais escolha e ultrapassara o mais baixo nível da condição humana, com seus joelhos dobrados e sua baba, continuou babando e chorando e invocando a mulher barriguda e pedindo perdão.
O comandante, reassumindo suas funções, determinou que o homem se levantasse e, com voz calma, dirigiu-se a ele, dizendo-lhe que a partida chegava ao seu final, que durante o jogo as partes puderam expor seus lances, demonstrar seus estilos, usar seus recursos, despir suas máscaras e, escancaradas as intenções e esgotadas as alternativas, chegava a hora do movimento final e, numa entonação mais forte, articulou bem claro: “xeque-mate!”.
O policial nunca havia jogado xadrez na vida, nem conhecera ninguém que jogasse, nem nunca se interessara por aquele jogo, até porque nunca tivera a oportunidade de tal escolha, ela nunca lhe fora apresentada, nunca tinha ouvido aquela palavra composta antes, mas entendeu perfeitamente a metáfora do comandante.
Mas, afinal, era ou não era xeque-mate? Porque o comandante não se mexeu e continuou falando, colocando-se mais claramente em frente ao homem vencido e dizendo-lhe que ele estava pedindo perdão, mas que eles não podiam perdoar-lhe, que não possuíam tal poder. Em seguida, calmo, mas decidido, indicou aos três companheiros: “Vamos terminar o passeio”.
O próprio policial já usara essa frase, em contexto semelhante, porém antagônico. Por isso, um arrepio de terror subiu-lhe a espinha. Era objeto das odiosas metáforas daquele homem de fala mansa e voz sibilina.
Ainda como se fosse uma dança, cada um dos três pardos ocupou seu posto, com o policial no centro do banco traseiro, e o carrão voou em sentido contrário, aterrizando na ruela familiar. Atônito, o policial viu o carrão parar em frente à entrada da viela da sua casa e, entendendo o que aquilo queria dizer, sentiu seu coração disparar: não bastava ele, queriam também sua mulher e a barriga dela.

VI

Àquela hora da madrugada, até os cachorros já haviam se recolhido. Somente os gatos ainda rondavam ressabiados as alturas dos telhados, cruzando os vazios com seus olhos vidrados, cujo brilho a fraca iluminação pública não conseguia apagar. Nas sombras, esses últimos vigias se transformavam em vagalumes, planando em duplas, com seus corpos pardos-invisíveis e seus olhos fosforescentes.
De repente, o cheiro de suor, que já abafava o interior do veículo, recebeu uma nuance amoníaca, provocadora de lágrimas involuntárias, por cauda do forte odor. Alguém mijava nas calças. Alguém que via a cena mais tétrica que jamais ousara imaginar: a sua execução na frente da mulher e da barriga dela, depois a execução da mulher e da descendência.
A imaginação é fruto da experiência e da necessidade. O policial ia além, para aumentar o próprio desespero, e imaginava que a execução seria com arma branca, para não acordar a vizinhança. Não havia dúvidas, a contenção dos seus algozes indicava o desejo e a necessidade de discrição. Morreria com o pescoço cortado, como uma galinha nas mãos de uma matrona neopentecostal. Por isso, acreditou sinceramente que o mundo havia virado de ponta cabeça quando, após ver o pardo do seu lado direito abrir a porta do carrão e descer, ouviu a voz do comandante, pedindo que ele descesse e fosse em paz.
Dadas as circunstâncias, era uma grande vantagem morrer com um balaço nas costas, pertinho de casa...
Só que não. Era para ele ir em paz, de verdade.
Eu, aqui, do alto da minha narrativa, também não sei qual é a desses quatro. Eles podiam acabar com esse policial tranquilamente, sem que com isso perdessem qualquer minuto de sono, sem qualquer protesto da consciência, as razões foram expostas. Os quatro foram “executados” pelo outro — todos leram —, tinham o direito, segundo a lei da ação e reação. Talvez estejam pensando lá na frente, nalgum lance mais complexo, que leve em conta vários outros elementos da conjuntura. Porque eu, sinceramente, desconfio de toda condescendência.
E como veremos, o policial estava comigo, e devo confessar que sinto o incômodo de tal constatação. Vendo-se livre, tratou de correr para casa, pegar a mulher e algumas coisas que cabiam em duas mochilas, e dar no pé. Não ficou mais de dez minutos dentro de casa, escapuliu pelos fundos, mais sorrateiro que o mais leve dos gatos pardos que infestavam os telhados na grave hora da fuga. Sua atitude era mais eloquente que qualquer frase bem feita: não acreditava no perdão daqueles bandidos.
Escorregões, pisadas de bola, faltas, crimes: uma vez no mundo, não tinha mais jeito. Podia-se obter uma desclassificação, uma pena de morte podia virar prisão perpétua, uma coisa escrita podia se acabar apenas em bronca, uma anotação podia ser apagada, mas a acusação indelével da memória ia além de qualquer arbítrio. Sendo a memória do próprio indultado a mais implacável. Por isso o culpado não suporta o perdão. Por isso, o culpado não acredita no perdão. Por isso, ele vira fantasma, e foge da própria sombra.
Só que não pensou nada disso o olheiro que, no outro dia, enviado pela Associação para averiguar como ia a situação no barraco do policial, constatou a fuga. Fuga imediata e apressada, pois roupas, móveis e utensílios continuavam intactos. O olheiro só não queimou tudo ali naquela mesma hora porque o fogo se alastraria pela vila toda, onde moravam muitos correligionários e, principalmente, porque, após avisar pelo celular, recebeu ordens expressas de alguém da Associação para que não tocasse em nada.

VII

No muquifo-sede da Associação, diante da notícia da fuga do policial, os quatro componentes do comando da noite passada viraram motivo de chacota da parte do homem que atendera ao telefonema do olheiro. “Vocês não depenaram direito aquele pato”, gozou em direção ao fundo do barraco logo após desligar o telefone, onde os quatro conversavam e comiam pão com manteiga e bebiam café. E, enquanto outros ali presentes se juntavam ao gozador, expondo o pouco talento teatral dos quatro, estes contra-atacavam, dizendo que podiam não ter talento, mas ao menos fizeram a plateia se molhar de mijo. A algazarra continuava quando um dos gozadores ficou sério, bateu palmas, e anunciou que a peça ainda não havia acabado.
E avisou que não era hora de moleza, que não demorava e um batalhão de milicos baixaria lá na casa do amigo para fazer a mudança, e instigou os quatro a saírem a campo para continuar o trabalho. Quebrar tudo, ou queimar tudo, era atitude passional. Além de que aqueles móveis e eletrodomésticos enferrujados e funcionando sob gambiarras não mereciam a mínima energia de destruição, a precariedade daquela casa estava de acordo com o previsto e destruir tudo seria um favor prestado ao ex-inquilino, que teria facilmente reposta aquela miséria, com uma vaquinha dos colegas ou uma coleta rápida entre os comerciantes do bairro.
E era líquido e certo: ainda na manhã do domingo baixaria ali um caminhão, escoltado por um escarcéu de viaturas, para levar aquela mixaria embora. E isso era um desaforo, no entendimento dos associados. Ninguém estava surpreso, porém. O motorista do comando nem precisou de ordem para embicar o carrão na direção da casa de outro associado, especialista em gambiarras eletrônicas adaptadas a artefatos duros e prosaicos, para que este enriquecesse o mobiliário do fugitivo com uma lembrancinha sucinta e discreta.
Instalaram o petardo atrás da serpentina, dentro da carcaça preta do compressor da geladeira, de tal maneira que nem um especialista descobria. Artefato acionado à distância, coisa banal para o novo associado que os acompanhava. Ainda bem cedo, no domingo, de fato lá estava o aparato bélico relampejando a manhã sonolenta do povo trabalhador que ainda dormia, a escoltar o caminhão-baú que teimava em entrar na viela de ré, fazendo estragos nas construções adjacentes. O estardalhaço dos raios desferidos pelas lâmpadas de sinalização das viaturas já era suficiente para estragar a domingueira manhã dos moradores, única da semana em que podiam dormir um pouco mais, ver a primeira claridade do dia ainda deitados. Entretanto, tais raios eram apenas coadjuvantes no turbilhão de sirenes e roncos de motores e guinchadas de pneus e gritos de homens e apitos e buzinas e palmadas na funilaria das viaturas, que compunham a coreografia da incursão resgatadora.
Resgatada a ninharia, rumaram para o quartel, em cortejo luminoso e barulhento, com o caminhão-baú em posição intermediária. Já era hora do almoço, deixaram o caminhão no meio do pátio e as viaturas devidamente estacionadas e desmobilizaram a tropa. No outro dia cedo destinariam os badulaques do colega.
No outro dia cedo — segunda feira —, logo depois da formação da tropa e das manobras e solenidades protocolares que se desenrolam no pátio... No outro dia cedo, a explosão se deu em meio a tais solenidades aglomerativas. Mas não deve ter estropiado ninguém. Os muros do quartel são altos e indevassáveis, inacessíveis aos olhos da vizinhança civil, que esqueceu rápido o estrondo da forte explosão, após as explicações boca a boca que recebeu diretamente de representantes da tropa, discreta e imediatamente destacados para tal, porque, afinal, acidentes acontecem, e um simples teste de granada mal calibrada provoca um barulhão danado...
Os três homens pardos e o branco do carrão, ao passarem ali na avenida em frente ao quartel, até hoje ainda discutem a opção por um cavalo e alguns peões, deixando a Torre intacta, a guarnecer o Rei. (FIM).