quarta-feira, 29 de março de 2017

CRUZ DE BEIRA DE ESTRADA.

     Em minhas longas caminhadas pelas estradinhas desse mundão caipira de São Paulo e Minas Gerais, vejo muitas cruzes fincadas ao lado do caminho. Antigas estradas boiadeiras, de barrancos altos; estradas vicinais ligando sítios à cidade e até estradas municipais asfaltadas: morre alguém ali, a família finca uma cruz no local. Nelas escrito o nome do finado e as datas de nascimento e morte. Até hoje nunca vi o nome de uma mulher. E olha que leio todos. Por que as mulheres não morrem à beira da estrada? (a primeira cruz que vejo, no dia seguinte, após pensar isto, vou ler o nome, Francisc...Francisca!).  Só não faço o sinal da cruz porque não sou populista. De vez em quando, uma família mais abonada constrói uma capela, que a gente chama de igrejinha. Mais triste que uma cruz abandonada, é uma igrejinha abandonada na beira do caminho, as paredes se desintegrando, o telhado caindo. E o povo ainda tem o costume de descartar os santos quebrados ali. É assim, a imagem do santo — de barro — cai, quebra. O fiel não tem coragem de jogar os cacos no lixo ou deles fazer melhor proveito. Pensa que, deixando os cacos ali na capelinha da beira da estrada, estará livre de qualquer descontentamento do santo de verdade,  que tudo vê lá de cima. 

     E me mata a curiosidade de saber os detalhes da tragédia. Todos pensam num  acidente ou atropelamento. Os mais antigos lembram os assassinatos nas tocaias. Ninguém aventa a hipótese de um ataque cardíaco ou cerebral. Seria broxante morrer do coração à beira da estrada. E se o finado caiu do cavalo, quebrou o pescoço? Ou morreu de canseira? Deitou pra descansar, dormiu, não acordou mais...  Mas e se fosse o ataque de uma onça? Uma cobra? Uma abelha! Foi! No Caminho da Fé, perto de Consolação (MG), um peregrino morreu de picada de abelha. Tinha alergia, morreu. Três ou quatro abelhas, morreu ali, sem socorro. E sabe qual a profissão dele? Médico. 

     E tenho pena dos mortos cujas cruzes estão capengas abandonadas. A família se muda para longe, a cruz fica descuidada. Há cruzes que, de tão desamparadas, despertam a comiseração da população vizinha e, sem mais nem menos, põem-se a inspirar feitos e curas inexplicáveis. Seus titulares galgam o imaginário coletivo e triunfam sobre o ostracismo familiar. Agora fico pensando: e se alguém deixasse um par de muletas ou uma cadeira de rodas ou uma garrafa de pinga ou uma seringa de injeção na veia nas proximidades de uma dessas cruzes esquecidas? Seria uma forma de induzir os passantes a acreditar que o morto virou santo, é capaz de curar gente que não consegue andar, viciado em drogas... Seria uma jogada de marketing legítima do santo — à luz do princípio de que a fé remove montanhas —, para avisar a nós ignorantes e pecadores da sua bem aventurança nos terrenos eternos.

      Mas esse hábito de cultivar os mortos está entranhado em nós, caipiras. Porém, somos de poucas palavras e raríssimas letras. Escrevemos o nome, a data em que nasceu e a data em que morreu, lá na cruzinha. O povo da cidade escreve, além dos dados essenciais que registramos, mais alguma coisa: os epitáfios. Alguns mais afoitos arriscam frases ou versos de autoria do finado. Consideramos isso uma temeridade, esculpir um pensamento ou uma ideia ou uma opinião no monumento eterno da nossa morte. Porque nós respeitamos o princípio, aqui e além, de que em boca fechada não entra mosquito. Somente que, de vez em quando, arriscamos uns petardos capazes de furar a couraça cética de certos viajantes: me emocionou o epitáfio numa cruzinha perto de Liberdade, cidadezinha mineira à beira do Rio Grande, de alguém que morreu com 28 anos, em 2006: “Se perguntarem por mim, diga que fui morar na casa do pai”.

terça-feira, 28 de março de 2017

VAGABUNDOS !!!

     Assalariado é tudo vagabundo! Aposentado é tudo vagabundo! Fui ao IBGE/Censo 2010 e arrisco uma explicação. É fato que parte dos brasileiros não vê com bons olhos os aposentados. Em maio/1998, o então presidente da república (FHC) disse que os aposentados eram vagabundos. Depois quis remediar, dizendo que só aqueles aposentados antes dos 50 anos. Recentemente, o deputado-fazendeiro gaúcho Alceu Moreira, relator da reforma de Previdência indicado por Temer,  disse que os aposentados são vagabundos remunerados, referindo-se àqueles aposentados por invalidez.

     Ouso dizer que 48% dos brasileiros consideram os aposentados vagabundos ou, no mínimo, privilegiados.

     É que, grosso modo, 48% dos brasileiros não se aposentam: São os patrões (2%), os que trabalham por conta própria (26%) e os assalariados sem carteira assinada (20%). Esse povo ou é coitado ou desavisado ou confia no próprio taco. Poucos conseguem guardar dinheiro para uma velhice tranquila; a maioria vai viver de favor quando não puder mais ganhar seu próprio sustento. Esse é o povo que odeia os impostos e os assalariados e tudo que lhes diz respeito, como aposentadoria e sindicato.

     Sendo que nem contei a parte dos altos assalariados — diretores, gerentes, altos funcionários públicos,  alguns militares, juízes, etc. — que se aposenta com polpudos benefícios (como o próprio FHC, aposentado aos 37 anos) e, por motivos ideológicos, considera os aposentados vagabundos.

     Enfim, parte da elite brasileira divide os homens em "brancos" e "pretos". Após 1888, atualizaram a nomenclatura para "ricos" e "pobres". Sendo que os pretos ricos viram brancos. (os homens, porque, para essa elite, as mulheres não contam, são rainhas do lar). Na época da escravidão institucional, havia uma regra para dividir os homens: quem trabalhava era escravo; quem não trabalhava era branco. No feudalismo, os nobres não deviam trabalhar. O trabalho ainda continua desonroso para muita gente boa: são os órfãos da escravidão (ou da nobreza).  Porém os tempos mudaram e o custo social de não trabalhar vai ficando cada vez mais alto. Daí a odiarem quem adquire o direito de não trabalhar é um pulo.

     Outra coisa: regra geral, para se aposentar é preciso, antes, ser assalariado. Em geral, assalariado é aquele que se opõe ao gerente, ao diretor, ao patrão, é aquele que se organiza em sindicato, é aquele que cumpre seu horário e vai embora, é aquele que, sob o chicote do autoritarismo patronal, não se compromete,  não vai além,  não cria, leva o patrão ao tribunal... Daí que o ódio ao aposentado tem a mesma natureza e origem do ódio ao assalariado. Daí que a primeira coisa que um governo de Direita pensa é acabar com a Previdência e com os Direitos Trabalhistas.

domingo, 26 de março de 2017

ARMAS E MÉDICOS

     Vamos supor que a Rede Globo lançasse uma campanha contra os médicos. Mandasse repórteres aos hospitais para garimpar erros médicos, desvendasse acordos comerciais entre médicos e laboratórios, fotografasse as luxuosas residências de alguns, contasse em quais restaurantes comem, onde passam as férias. Divulgasse os casos de assédios moral/sexual que acontecem em consultórios, os valores cobrados por algumas intervenções cirúrgicas, etc., noticiasse as condenações judiciais de médicos que acontecem normalmente por aí todo dia, tudo com um viés generalizante e em rede nacional, todo dia, de manhã, ao meio dia, antes da novela,  no jornal da madrugada, no canal aberto, no canal pago, no rádio, no site, no jornal, na revista, no escambau, por dias, semanas, meses, anos a fio, ininterruptamente, diuturnamente.

     Acho que, após uns 10 anos, o povão iria pra Av.Paulista num domingo ensolarado, gritar atrás de um enorme trio elétrico em que uma enorme faixa pregaria: ABAIXO OS MÉDICOS!

     E quem ocuparia os postos dos médicos nos hospitais e consultórios, para cuidar da nossa saúde?

     No caminhão da Paulista, hoje, estava escrito ABAIXO OS POLÍTICOS! E então? Quem colocamos no lugar deles para cuidar da Política? Porque a Política existe, independente da nossa vontade. A Política é a gestão dos bens comuns, dos interesses coletivos. A Política é uma realidade social objetiva, está aí, gostemos ou não, assim como os acasalamentos ou os funerais. Colocar militar no governo é como colocar açougueiro na funilaria, padeiro no hospital...

     Fui andar na Paulista agora de manhã, devagar, recomendação médica, dez costelas quebradas... A agência de publicidade contratada pelo Vem pra Rua estava dispondo os enormes caminhões ao longo da avenida, para a manifestação de logo mais à tarde. Ia andando e ouvindo diálogos entrecortados dos operários e seus contramestres na corrida contra o tempo para organizar os trios elétricos, fixar faixas, instalar caixas de som, "esse era pra ser o carro nº 7 mas vai ser o 5", ouvi de algum coordenador enquanto passava. É um trabalho insano, esse, porque, além de ser desgastante fisicamente, tem hora improrrogável para terminar. Só que, diferente das manifestações Vermelhas, essas são milimétrica e unificadamente organizadas.

     No pós 1964 e até 2013 só havia manifestações Vermelhas. Era impensável manifestações verde-amarelas como essa que acontece hoje na Paulista. "Mais polícia, menos bandido", "Pela intervenção militar", "abaixo os políticos", "menos estado, mais mercado", "mais consumidores, menos cidadãos", "não ao comunismo". "ARMAS PARA A VIDA". Éééhhhh! Armas para Vida, pregava uma enorme faixa das mais adiantadas, já fixada na lateral do trio elétrico. Fundo verde, bordas amarelas, exibia uma enorme fotografia do Sérgio Moro à direita e o ARMAS PARA A VIDA ocupava todo o resto, acho que alguém em campanha para a legalização do porte de armas.

     O aspecto impensável dessas manifestações não é o fato de ocorrerem nem suas palavras de ordem. É a quantidade de gente que vai lá apoiar. Mas vejo nisso um aspecto positivo. Elas conseguem mobilizar uma parte da população que jamais se levantaria do sofá para atender a um chamado dos vermelhos. Todos nascem desmobilizados e a maioria assim permanece até morrer. E gente desmobilizada defende sempre o status quo, aqui ou na China. Muitos desses que irão à Paulista hoje descobrirão logo mais sua verdadeira tribo.

terça-feira, 21 de março de 2017

ZONA CEREALISTA.

     Você mora em SP há mais de 10 anos e não conhece a Zona Cerealista? Preocupa-se com a autossustentabilidade do planeta e nunca comprou arroz ou feijão a granel? É vegetariano e nunca entrou num dos armazéns da Av. Mercúrio/Rua Santa Rosa? Ah! mas aposto que você já foi pagar caro num sanduíche de mortadela logo ali depois do Tamanduateí, no Mercado Municipal.

     A Zona Cerealista fica no Brás, na Av. Mercúrio e suas transversais, entre a Av. do Estado e a Rua do Gasômetro. Quase em frente fica o Palácio das Indústrias, que já foi delegacia de polícia, sede da prefeitura e atualmente é o Museu Catavento. É composta de centenas de pequenos  armazéns que vendem alimentos quase sempre in natura, no atacado e no varejo.

     Na Zona Cerealista tem farinhas e farelos e grãos dos quais você nunca ouviu falar. E frutas secas ou caramelizadas de toda ordem. E castanhas e sementes de todo tipo. E temperos secos e folhas e chás e pós. Picados, triturados, inteiros. Grãos de todos os tamanhos e cores. De muitas procedências, nacionais ou importados, tudo a granel. Em geral, são produtos imperecíveis - se conservam fora da geladeira.

     Há alguns armazéns médios. Neles, o conceito de compra/atendimento é em tudo oposto ao dos supermercados. Os produtos a granel ficam expostos em grandes escaninhos,  com tampas de acrílico transparente. O ambiente é delimitado por uma parte interna, exclusiva dos atendentes, e a parte externa, onde circulam os consumidores. O comprador chega, pega uma senha e aguarda ser chamado. O atendente embala o produto em sacos plásticos e pesa. O consumidor não pode tocar nos produtos dentro dos escaninhos, mas pode prová-los, oferecidos pelo atendente.

     Farelo de aveia, uva passa sem sementes, farinha de linhaça dourada, amendoim cru sem pele, arroz vermelho, agulhinha, integral; feijões de todo tipo, tamanho e cor; açúcares cristal, demerara, mascavo; leite em pó, de soja, clara de ovo em pó; alho frito ou em pó; tomate seco, tâmara chilena, farelo de quinoa, farinha de chia, fubá italiano, farinha de amendoim, ameixa seca, castanha-do-pará inteira, quebrada, pistache, polvilho doce/azedo, amido de milho, cacau em pó, amêndoa, castanha de caju, granolas diversas, germe de trigo, farinhas e grãos integrais de toda ordem e uma infinidade de produtos que você nem sabe pra que serve e muito, muito mais baratos que no supermercado. E talvez mais frescos, porque a rotatividade do que entra e sai é alta.

     Para começar, sugiro uma bomba de fibras: no desjejum, banana amassada com farelo de aveia/germe de trigo/farinha de amendoim/farelo de quino/farinha de linhaça. Na proporção e na quantidade que achar melhor. Acompanhado de água/chá/leite/café/tereré/chimarrão...; ou não. Mas se quiser simplificar ao extremo e ter o mesmo excelente efeito alimentar, basta 1 banana, 4 colheres de sopa de farelo de aveia e água. Vá de metrô, desça na Estação Pedro II da linha vermelha, leve duas sacolas. Na volta, imagine-se na academia, sessão de musculação.

domingo, 19 de março de 2017

MÚLTIPLAS COSTELAS QUEBRADAS

     Antes de falar sobre as tais costelas, quero registrar aqui — pra não deixar passar batido o assunto da ordem do dia — que fiquei sabendo ainda na infância de que a mortadela era feita de carne de cavalo velho. Passava uns compradores de cavalo velho na região. Não demorou e o povo descobriu que tais compradores eram de Araguari (MG) e que lá havia um frigorífico...Por coincidência, havia uma marca de mortadela fabricada em...Araguari. Pronto! Tanto é verdade que, se você quiser ofender um cavaleiro lá na minha terra, basta chamar seu cavalo de Araguari. Ainda assim, continuei, vida afora, basicamente, um comedor de mortadela.

     Ainda que tarde, descubro que a fraqueza do homem é a costela. Falta de aviso não foi, pois desde sempre ouço a conversa de que o Criador tirou uma nossa costela para fazer a mulher. Há mais tempo eu deveria ter entendido a linguagem figurada. A perdição do homem nunca foi a mulher, mas suas costelas. Suas, as próprias, os doze pares de costelas que o homem leva em seu tórax. Quer dizer, nem sei se são pares, sei que formam uma gaiola muito mal ajambrada envolvendo o que temos de mais nobre e útil, que são os pulmões e o coração. Mal soldadas no osso que temos no peito, na frente, e na coluna vertebral, atrás. O Criador não estava num dia inspirado quando projetou nossas costelas. A prova é que considerou-as tão inúteis que arrancou uma delas para dar início à construção da mulher.

     A gente pensa que as pessoas só quebram o braço ou a perna, porque é isso que vemos engessado por aí. Até o dia que quebramos nossas próprias costelas. Então descobrimos que o pai, o sogro, o vizinho, o amigo, já quebraram costelas, e que elas não podem ser imobilizadas, têm de se consertar em pleno movimento. E que nunca se quebra apenas uma. Sempre quebramos mais de uma de cada vez. Mais uma evidência de que aquele conjunto de ossinhos tortos e finos realmente foi muito mal projetado. Mas o erro maior de projeto está no lugar em que tais ossinhos foram alojados: envolvendo os pulmões! Ora, os pulmões são a urgência do nosso viver. Cuja essência é encher e esvaziar, num vai-e-vem de poucos segundos, como duas grandes bexigas, levando junto, pra lá e pra cá, os tais ossinhos, as costelas. Quebra uma delas e o vivente não pode nem respirar direito, que dirá tossir, rir, soluçar, espirrar. Não pode nem dormir deitado, muito menos se virar na cama; ora, todo nosso equilíbrio passa pelo tórax, se sua gaiola está avariada, estamos inválidos.

     Pois foi. Numa barbeiragem tamanha, caí da bicicleta e bati meu ponto fraco no asfalto da mesma forma que uma abóbora se espatifa contra a superfície do planeta sob o efeito da gravidade. Tanto lugar pra bater — ombros, quadris, joelhos — mas não, fui bater logo a lateral esquerda das costelas. Resultado: múltiplas fraturas. A médica da tomografia nem quis me dizer quantas. Disse que era mais fácil dizer quantas não quebraram.  E vale registrar que, em plena região central da megalópole, vários anônimos passantes pararam e me guardaram enquanto eu me recuperava estendido na calçada. Só continuaram seu caminho quando me viram deixar o local ainda pedalando. Três quarteirões depois, quando a adrenalina baixou, tive de chamar um táxi e me entregar a três dias de internação hospitalar.

     Ah, sim! A bicicleta passa bem, nenhum arranhão.

segunda-feira, 13 de março de 2017

QUEM É ADONIRAN BARBOSA?

     Levei um susto quando abri a porta para o moço que ia instalar a pia. Era a cara do Adoniran Barbosa. Ele começou seu trabalho e eu, por ali, conversa vai, conversa vem, perguntei se ele era parente do Adoniran Barbosa. A pergunta cabia, porque, além da semelhança física, o moço tinha seu domicílio laboral ali na Manoel Dutra, coração do Bixiga. Como se sabe, o Bixiga era o pedaço preferido do Adoniran.

— Quem é esse Donirão?  — perguntou o moço.

— A-d-o-n-i-r-a-n. Adoniran Barbosa... — esclareci.

— Não. Não conheço — disse o sósia do Adoniran.

— Não conhece Adoniran BarBOSA? perguntei, estupefato.

— Não. Nunca ouvi falar.

— Você conhece aquela música que fala assim: "moro em Jaçanã/ se eu perder esse trem..." ou aquela assim: "O Arnesto nos convidou/ prum samba, ele mora no Brás"?

— Ah, sim. Conheço. Demônios da Garoa.

— Isso. Essas músicas foram compostas pelo Adoniran — e continuei, indignado, desancando o cara, onde já se viu um senhor de 50 anos nunca ter ouvido falar em Adoniran Barbosa.

— Se você me perguntar o nome de qualquer sanfoneiro de forró, eu sei, mas esse aí,  nunca tinha ouvido falar não — confirmou ele mais uma vez.

     O moço tinha uns 50 anos;  nasceu nas Alagoas, mas mora em São Paulo há 30 anos. Trabalha no Bixiga, bairro onde Adoniran vivia batucando Trem das Onze, música-símbolo de São Paulo. Na hora me lembrei de crônica publicada aqui mesmo, (http://cronicas-cronicas-sujeito-predicado.blogspot.com.br/2015/06/mundos-paralelos.htmlem), comentando a morte do famoso cantor Cristiano Araújo, com o título "Mundos Paralelos". Eu estava, então, estupefato com a minha ignorância, pois nunca havia suspeitado da existência daquele cantor tão famoso. Quer dizer, eu vivia em outro mundo, como o moço com quem eu conversava agora.

     Não se trata de ignorância. Nós, cheios de bancos escolares, somos muito arrogantes, tachamos logo de ignorante alguém que desconhece algo óbvio para nós.  Nesse mundo massificado de gentes e fatos e notícias e interesses, composto por distintas camadas sociais, culturais, econômicas, algo notório para um, pode ser desconhecido para outro. Isso vale inclusive para as opiniões... Mais que viver em bolhas, vivemos em mundos paralelos. Há que se exercitar a empatia, minha gente.

sexta-feira, 10 de março de 2017

A GARÇONETE

     Ela trabalha quantas horas por dia num dos botecos que ocupam três esquinas da Consolação com a Antônia de Queiroz, centro da megalópole? A quarta esquina restante é ocupada por uma escola estadual de ensino fundamental. Esses bares tão abundantes em SP nunca se dão mal nas crises econômicas porque seus donos são gente do povo, que se contentam com pouco, diferentes dessas birosquinhas da moda que abrem e fecham conforme o sobe-e-desce da Bolsa, abertas por gente graúda sazonalmente desempregada.

     Está sempre com um sorriso contido pregado no rosto, não sei se de bom humor ou de disfarce. Em frente, cinco faixas que descem, cinco faixas que sobem, ela assiste com olhos transparentes à fauna que ronca: menos as bicicletas, nas duas faixas vermelhas. Os ônibus fazem a base, correspondente ao contra-baixo. Os floreios e os ponteios e os solos de clarineta e outros metais todos estridentes são feitos pelas motocicletas de intermitentes businices e motores destemperados de fumaça e guinchos ansiosos. Os carros de motoristas solitários preenchem o meio do campo nas três faixas que descem e nas outras tantas que sobem, na pandomina sinfônica, ali onde a ladeira ensaia uma trégua.

     O bar tem apenas sete mesas. Ela trabalha sozinha, servindo passantes solitários e ocasionais. O lugar não fica lotado, poucas vezes os quatro lugares de cada mesa são ocupados. Quase todos são homens, vêm sozinhos, pedem uma cerveja para acompanhar o prato do dia, treze reais. A garçonete, apesar de bonita, não suscita gracejos. Acho que os fregueses se intimidam diante do sorriso a meio mastro e das rugas na testa de pele saudável.

     A moça se diverte enquanto trabalha. Não com os clientes, todos sem sabor, homens gordos ou esquálidos, suados e assustados da vida sibilina. Se diverte com os dois palhaços que vê pela janela a distrair os motoristas que aguardam ansiosos na demorada transversal. Um é atleta de roupas justas e se equilibra numa monocicleta enquanto manipula três peças no ar;  o outro assopra uma gaita dessas de teclas sustentada por uma mão, enquanto a outra segura as calças largas de propósito.

     No espaço exíguo, a garçonete se movimenta segura de gestos opacos, com  imperceptíveis sobressaltos que se seguem às rangentes freadas e correspondentes gritos e imprecações oriundas da paisagem lindeira. Sua testa mais se franze e consegue se deixar parecer tensa no horário da saída da escola em frente, com a algazarra e as imprudências da molecada que se derrama pela calçada em meio aos carros que sobem e descem e transpassam e não raro atropelam.

     Mas não tem nada não, o final do expediente há de chegar e ela vai virar pedestre e vai pegar o metrô  e depois o trem e depois o ônibus e depois o lotação e depois a garupa da moto do irmão, que já será noite e ela mora numa quebrada muito pra lá de Santo Amaro. No domingo o bar não abre, ela vai à igreja e, de longe, vê o João e a felicidade ainda se sufoca num discreto arrepio das partes, enquanto ouve o pastor a sugerir-lhe perseverança e subserviência  junto ao seu futuro homem.

     Meu comercial chega. Num gesto único, derramo todo o feijão no prato e devolvo a travessinha de aço inoxidável vazia à garçonete,  para desentupir a mesa. Tenho a esperança de que meu deselegante proceder a diverte. Felicidade é arroz e feijão e apetite. Na escola, os portões já se fecharam, agora ali reina a paz. Torna a algazarra difusa de escapamentos e buzinas e freadas e respiros dos zumbis afoitos na calçada. Para os lados do cemitério, uma fumaça mais densa desenha uma espiral no ar, em meio à algaravia de fios e postes e uma quaresmeira ressequida no canteiro central, sob o fundo de perfis desbotados de prédios impessoais. Cismo que essa mulher enviará essa vida besta à merda.

segunda-feira, 6 de março de 2017

ME EMPRESTA FARINHA OVOS ÓLEO LEITE FERMENTO...

...e um vidro de leite de coco pra mór de regá por cima.

     De repente o cara sentiu uma alegria incontrolável de fazer um bolo. Algum ingrediente que faltasse ele pedia pra vizinha, moça previdente.

— Me empresta aí farinha ovos óleo leite fermento... e um vidro de leite de coco pra jogar por cima do bolo quente. Ah, e uma colher de açúcar.

— Péra aí, você quer tudo? retrucou a  vizinha, que era bem esperta, ainda que previdente.

— Não, eu tenho o forno e a forma. E a vontade.

     O cara tinha a disposição de fazer. E isso é muito importante. Porém, se o sujeito tiver disposição, mas nenhuma ousadia, morre na vontade. Morre, literalmente. É, vai acumulando vontades, chega uma hora explode.

     Ah, sim;  e além do forno, da forma e da disposição, também tinha a receita. Sabia fazer. Não, não era um aproveitador e nem estava usando a desculpa pra cantar a vizinha. Solitário era sim, mas um simples vivente, que, de repente, desejou mais que qualquer outra coisa assar um bolo, ver o milagre do trigo que se fez pó e depois, quente, se fez flor. Que o desabrochar de uma massa na forma, sob muito calor, é aquele da flor que se faz pétalas, doce, bomba calórica de lipídeos, carbohidratos e proteínas, coisa cheirosa de se comer com muita saliva. Desolado, abriu os armários. Sim, havia armários em sua cozinha, mas ocupados apenas dos carunchos dos últimos grãos há tempo não repostos.

     Que a vida do cozinheiro é dura e magra. Antes precisa ir ao comércio comprar os ingredientes; depois, precisa lavar panelas, assadeiras e muito mais. Mas se o cara fosse ao supermercado, na volta ele se igualaria à vizinha: teria farinha, óleo, ovos, leite, fermento; forno e forma. E cansaço. Então ele achou melhor não arriscar. Ou melhor, ele se arriscou a ser chamado de folgado-atrevido, e teve a sorte de encontrar uma vizinha bem humorada.

     E aí, quando farinha ovos óleo leite fermento se encontram numa massaroca e se misturam com o bom humor e a disposição e ainda são submetidos a 250 ºC o resultado é um bolo, alimento de muita sustança, que, afinal, foi devidamente repartido, metade pra fornecedora dos ingredientes, metade pro imprevidente moço disposto.

     Quem me contou a história foi o moço. Vocês perceberam que ela lhe é levemente favorável. Eu embarquei em sua versão: enquanto ele explodia de alegria, disposição e miséria, a vizinha implodia de acumulação e inércia. E os ingredientes e a tecnologia jaziam improdutivos. E para evitar tal desperdício, nada melhor que produzir e repartir o bolo. Mas agora penso que o cara era machista. Chegou a me florear que, "enquanto a vizinha só chutava dentro da faixa,  ele só cheirava fora do cocho". Minha conclusão provisória e parcial é que o impossível acontece, desde que não haja tanto recato.

quarta-feira, 1 de março de 2017

MARIGHELLA E OUTRAS HISTÓRIAS.

      Em 1969, eu tinha 13 anos e muito medo do Marighella. Apesar de morar no interior e sequer ter TV em casa, sabia que Carlos Marighella era um terrorista muito, muito perigoso. Quer dizer, todo terrorista era muito, muito perigoso, mas o Marighella era tudo isso e um pouco mais. Só o Lamarca o ameaçava, em termos de periculosidade. Os terroristas me amedrontavam e a toda vizinhança porque, além de muito, muito perigosos, eram muito, muito maus: comiam criancinha. Mas, graças a Deus, no final do ano o Marighella foi morto pelo mocinho bonzinho delegado Moro Fleury. Há uma pedra no local, Al. Casa Branca, entre José Maria Lisboa e Lorena, no J.Paulista. E o Marighella, além de muito, muito perigoso e mau, andava com gente de igual teor, os... frades dominicanos! Isso não fiquei sabendo na época não...

     No tempo do império, tudo era do imperador e sua família. Tudo bem, era vontade de Deus, não havia o que fazer. Depois Deus deu um cochilo e instauraram a república. Só que ela já nasceu velha e foi ficar um pouco mais nova uns 40 anos depois. Na República Velha a confusão entre o público e o privado era institucionalizada. Isto quer dizer que na República Velha não havia corrupção: escrevi acima: a confusão entre o público e o privado estava na lei. Era legal meter a mão.

     Entre 1930 e 1964, tivemos uma quase república, descontada a ditadura esclarecida do Vargas. Em comparação com o período café com leite anterior, esses 34 anos foram semelhantes a um governo de freiras puritanas. E tiraram o país do bananal e levaram-no às portas da industrialização. E vejam: foi o período em que os políticos paulistas menos influenciaram a república.

     Mas em 1964 os paulistas retomaram o baralho. "Os paulistas" são os donos da carne seca ou aqueles que pensam como ou aspiram a tais, e os há em todo o Brasil.

     Entre 1964 e 1985, não temos história. Não dá pra saber se houve muita ou pouca corrupção. Folheando as colunas sociais dos jornais da época, percebe-se a eclosão de personas e famílias que, assim, assim, descobriram-se ricas, ricas. Constituídas em grupos financeiros, cimenteiros, metalúrgicos, químicos, petroquímicos, comerciais, construtores. Tudo gente muito diligente...

     Sim, propina havia. Propina havia desde a época dos bandeirantes, propina há na Dinamarca, no Canadá, na Nova Zelândia, na Guatemala. No Japão! Propina havia até nos impérios Maya, Azteca, Inca. Talvez não houvesse propina entre os índios brasileiros, porque eram todos iguais na pobreza, não empreitavam, faziam as próprias obras, não contratavam com a iniciativa privada...

     Entre 1985 e 1994, zanzamos tontos na hiperinflação. A partir de 1994, os paulistas paulistas de pensamento e berço retomaram a república. Marromeno, porque o FHC nasceu no Rio de Janeiro (o paulista Chico Buarque também nasceu lá, então estamos quites).Governaram até 2002. Foi o período mais traumático da minha vida profissional, graças ao congelamento econômico/salarial/sindical e a um meu tecnocrata-patrão cearense-paulista de obscura e condizente índole.

     Em seguida, tivemos 12 anos de governo quase popular e quase republicano, também muito influenciado por ideias paulistas de São Bernardo e laivos nordestinos, sempre acossado pelos paulistas e mineiros do café com leite. Nem é preciso dizer que os três governos quase populares eleitos nesses 12 anos perderam de lavada a eleição em S.Paulo.  E governaram com parlamento e judiciário da República Velha. E, enfim, deu a lógica. A República Velha prevaleceu. Vingaram Júlio Prestes, aquele defenestrado por Vargas em 1930. Ganharam de lavada, 7 a 1! E, de lambuja, mas feio, botaram brasileiro na rua pra protestar contra futebol. E gente de barriga cheia a bater panela. Restou-nos o ódio e o bananal.