Em 1969, eu tinha 13 anos e muito medo do Marighella. Apesar de morar no interior e sequer ter TV em casa, sabia que Carlos Marighella era um terrorista muito, muito perigoso. Quer dizer, todo terrorista era muito, muito perigoso, mas o Marighella era tudo isso e um pouco mais. Só o Lamarca o ameaçava, em termos de periculosidade. Os terroristas me amedrontavam e a toda vizinhança porque, além de muito, muito perigosos, eram muito, muito maus: comiam criancinha. Mas, graças a Deus, no final do ano o Marighella foi morto pelo mocinho bonzinho delegado Moro Fleury. Há uma pedra no local, Al. Casa Branca, entre José Maria Lisboa e Lorena, no J.Paulista. E o Marighella, além de muito, muito perigoso e mau, andava com gente de igual teor, os... frades dominicanos! Isso não fiquei sabendo na época não...
No tempo do império, tudo era do imperador e sua família. Tudo bem, era vontade de Deus, não havia o que fazer. Depois Deus deu um cochilo e instauraram a república. Só que ela já nasceu velha e foi ficar um pouco mais nova uns 40 anos depois. Na República Velha a confusão entre o público e o privado era institucionalizada. Isto quer dizer que na República Velha não havia corrupção: escrevi acima: a confusão entre o público e o privado estava na lei. Era legal meter a mão.
Entre 1930 e 1964, tivemos uma quase república, descontada a ditadura esclarecida do Vargas. Em comparação com o período café com leite anterior, esses 34 anos foram semelhantes a um governo de freiras puritanas. E tiraram o país do bananal e levaram-no às portas da industrialização. E vejam: foi o período em que os políticos paulistas menos influenciaram a república.
Mas em 1964 os paulistas retomaram o baralho. "Os paulistas" são os donos da carne seca ou aqueles que pensam como ou aspiram a tais, e os há em todo o Brasil.
Entre 1964 e 1985, não temos história. Não dá pra saber se houve muita ou pouca corrupção. Folheando as colunas sociais dos jornais da época, percebe-se a eclosão de personas e famílias que, assim, assim, descobriram-se ricas, ricas. Constituídas em grupos financeiros, cimenteiros, metalúrgicos, químicos, petroquímicos, comerciais, construtores. Tudo gente muito diligente...
Sim, propina havia. Propina havia desde a época dos bandeirantes, propina há na Dinamarca, no Canadá, na Nova Zelândia, na Guatemala. No Japão! Propina havia até nos impérios Maya, Azteca, Inca. Talvez não houvesse propina entre os índios brasileiros, porque eram todos iguais na pobreza, não empreitavam, faziam as próprias obras, não contratavam com a iniciativa privada...
Entre 1985 e 1994, zanzamos tontos na hiperinflação. A partir de 1994, os paulistas paulistas de pensamento e berço retomaram a república. Marromeno, porque o FHC nasceu no Rio de Janeiro (o paulista Chico Buarque também nasceu lá, então estamos quites).Governaram até 2002. Foi o período mais traumático da minha vida profissional, graças ao congelamento econômico/salarial/sindical e a um meu tecnocrata-patrão cearense-paulista de obscura e condizente índole.
Em seguida, tivemos 12 anos de governo quase popular e quase republicano, também muito influenciado por ideias paulistas de São Bernardo e laivos nordestinos, sempre acossado pelos paulistas e mineiros do café com leite. Nem é preciso dizer que os três governos quase populares eleitos nesses 12 anos perderam de lavada a eleição em S.Paulo. E governaram com parlamento e judiciário da República Velha. E, enfim, deu a lógica. A República Velha prevaleceu. Vingaram Júlio Prestes, aquele defenestrado por Vargas em 1930. Ganharam de lavada, 7 a 1! E, de lambuja, mas feio, botaram brasileiro na rua pra protestar contra futebol. E gente de barriga cheia a bater panela. Restou-nos o ódio e o bananal.
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