quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

OPERÁRIOS DE METAFÍSICA.

O DIA DA SUA SORTE? CARTOMANTE DONA LURDES!

     Minha lucidez desatina entre a física e a metafísica. Ia eu pelo calçadão da Praça da Sé. Um pregador instalava sua banca. Eram grandes panos que ele desfraldava entre uma palmeira imperial e outra, com inscrições em latim. Quer dizer, um latim lá dele, que só vendo, qualquer dia tiro uma foto e ponho aqui. Sim, porque ele está sempre lá, sempre o vejo. Por toda a praça pipocavam homens em ameaçadoras ladainhas, dispostos a salvar a alma dos passantes, em nossa língua mui brasileira mesmo. Mas devo tratar de um homem real, instalado numa calçada concreta, respirando o mesmo ar e falando a mesma língua pátria ou devo tratar de assuntos extraordinários?

     Pois bem. Na Barão de Itapetininga, quase chegando na Praça da República, instalam-se, para proselitismo dominical, uns 20 homens de branco. É o povo do Mundo Racional, que está desencantado com o Universo. Todo domingo. Vi-os domingo desses na Paulista, não sei se se mudaram ou se criaram uma filial. Acho que se desencantaram com a pasmaceira do centro novo, que ali agora só passa ovelha sem salvação, perdida de verdade e pra sempre. Instalam uns cartazes em suportes próprios, distribuem panfletos e não sei se ainda vendem os mil livros do Universo em Desencanto, que o carioca líder da seita escreveu lá pela década de 1930.

     Então, tento atender ao meu indeciso espírito. Estou tratando de fatos palpáveis relativos a assuntos impalpáveis, perceberam? Descrevendo as rotinas muito ordinárias dos arautos do Evangelho, ops, arautos do além. Se você quer prender seu amor, ou desfazer um pacto, consulte Pai Aristóteles. Não é picaretagem, pagamento após  o resultado. Melhor que nos consultórios de notas fiscais e curas  mui intangíveis. Se alguém te fizer um desaforo, procure Mãe Dinah e contrate uma quebra de demanda pra riba do desaforento. O dia da sua sorte? Cartomante Dona Lurdes! Trabalhos para o amor? Consulte Pai Tim ou Pai Vivo. Oi? Claro!

     O que acontece é  que meu povo é chegado num Além. Mistério, Saci, bruxa, mago... macumbeiro, monge, padre, pastor, profeta. Confissões, fuxicos, fraquezas, tragédias, acidentes, violência. Política não, o povo gosta é de eleição: ganhar, perder, fla-flu.  Autocrítica esse povo gosta. Muxoxo pra fome e miséria(miséria, só a da alma e a do vizinho). Concluo que tá todo mundo de barriga cheia e saco cheio e ninguém aguenta mais o cotidiano, tirante o sexo(imbatível). Depois que inventaram a maizena, a margarina e o frango de 38 dias, ninguém mais tem fome de bucho. Aquela fome física lamentada por humanistas e políticos já não existe. Subiu pra cabeça, foi toda transformada em fome metafísica (Enfim, meu povo adora populista, propagandista e palestrista).

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