sábado, 11 de fevereiro de 2017

VAI, BAIANO !

     Fui chamado de baiano, na rua. Estou exultante. Nunca gostei da minha sisudez paulistana. Vivo tentando amenizar minha excessiva objetividade, minha pressa. Não tenho jogo de cintura, não sei dançar. Sou mau contador de piadas, rio pouco. Não toco nenhum instrumento. Meu bom humor é fino demais, invisível. Sempre admirei a 'folga' dos baianos, o corpo moreno, a mente criativa,  flexíveis. Sou branco transparente, qualquer calor estraga; meu olho é claro, precisa de proteção contra o sol. E a inteligência baiana é inquestionável. Inteligência e criatividade. Como se sabe, baiano burro nasce morto. E por tudo isso, baiano é muito mais tolerante que paulista; tem uma capacidade de empatia muito maior que a nossa.

     Ia pedalando em frente à quadra da Vai-Vai, quase na 14 Bis. (a Praça 14 Bis, no Bixiga, é rica em tipos e situações humanas - vide a crônica O Rabecão e vide o João Trabalhador e sua cidade linda, que pegou a praça pra Cristo). A mulher cinquentona queria atravessar a rua no meio do quarteirão, eu pedalava devagar, ela se exasperou e bradou, enquanto me esperava passar:

— Vai, baiano!

     Pelo jeito, ia fazer limpeza numa casa próxima, estava atrasada... Vestuário simples, cabelos castanhos, pele branca-parda, já vi muitas cearenses, pernambucanas e até baianas com aquele biotipo. Nenhuma ascendência ariana... Mas de uma intolerância e um preconceito que só consigo encontrar em paulistanos natos. Enfim, uma mulher pobre, porque ali naquele trecho, a pé, só passa gente pobre. (nesse caso, pobre e de direita, rsrs).

     O fato é que minha aparência física não é de baiano. Se não penso nem ajo como os baianos, menos ainda pareço, de perto ou de longe.  Nem forçando a barra. Mas vestia camiseta rosa-cheguei (visibilidade sobre bicicleta), usava chapéu panamá(proteção solar) e... pedalava. Talvez tenha sido por causa do óculos escuros, receitados  pelo oftalmologista (outra vez a proteção solar...). A pobre não teve dúvidas: só pode ser baiano(ela estava com pressa, lembram? creio que a pressa aflora no cidadão os mais íntimos instintos, os mais sinceros conceitos). Porque nenhum bom paulistano zanza pela cidade assim, de maneira tão descontraída ('paulista' é quase sinônimo de 'tenso'). Na hora, quase corri atrás dela. Para esclarecer se era sério, pedir que repetisse o elogio.

Nenhum comentário:

Postar um comentário