sábado, 30 de dezembro de 2017

SEXAGENÁRIOS.

Estava comprando abobrinhas no Extra quando o locutor me chamou pra comprar ismartifonis. Notei na hora que o tal aportuguesou “smartphone” e que ele nunca chamaria quem estava comprando ismartifonis pra comprar abobrinhas. Que era um pobre coitado fazendo bico ganhando uns trocados com a voz que Deus lhe deu e que devia ser muito mais lucrativo vender o objeto do desejo criado do que vender o arroz com feijão nosso de cada dia. Que a vontade deste nunca passava da medida e a daquele era sempre desmedida. E que sua entonação manjada me desagradava, mas eu era minoria, entre surdos e cegos.
Entrei na Caixa pra pagar uma conta de luz e o guarda me cercava na porta, não me deixando entrar na agência propriamente dita. Quer dizer, isso foi o que eu logo deduzi, dado os meus quarenta anos de janela. O pobre só estava plantado na frente da porta giratória, sem saber que assustava a freguesia ignota. Não, a mim ele não assustava mas, intimamente não deixei de pensar que, com guarda ou sem guarda, eu nem queria entrar mesmo, preferia pagar minha conta pra uma máquina a pagar pra uma pessoa que ia me oferecer seguro título de capitalização plano de previdência cartão e o diabo e sorrir, se eu comprasse, e fechar a cara, se eu negasse, como se eu fosse culpado do seu salário e da sua saliva.
Ia pela Paulista quando, lá na frente, vi um bando de jovens dinâmicos. Pronto!, mais uma barreira de coleta de grana para salvar o clima do planeta ou salvar as crianças do planeta. Então já fui me preparando para a abordagem, porque ela é realmente insistente do tipo assim poxa, você não vê como sou justa e urgente e humanitária, como você tem coragem de negar?, seu sovina. Mas os jovens sorridentes e serelepes me ignoraram e isso muito me preocupou. Será que meu velho ceticismo finalmente vazou e está estampado em minha cara? Ou será que minha cara de pastor luterano os afugentou? e ambas as alternativas me são desanimadoras, com tantos sibilinos na via pública.

Sexagenário é o que sou. E atônito. O problema dos velhos é ver segundas e outras intenções em toda obra. Inquietarem-se com sintomas e sintagmas. Uns dizem que isso é sabedoria. Eu desconfio que é saturação. Do bombardeio de símbolos, signos e sinais. De sonhos que não sonhamos mais. 

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

IR E VIR

QUE POSSAMOS IR E VIR SEM MUITO ESFORÇO.
Passeávamos, eu e Bici III, pelo centrão, São Luís com Consolação, da República em direção à João Mendes. Há uma ciclovia pintada na calçada, que passa em frente a entrada da biblioteca circulante da Mário de Andrade. Quer dizer, um dia pintaram uma faixa vermelha ali, mas só minha memória vê. O prefeito não vai ser besta de reavivar e conservar uma das marcas do adversário. Uma minha concorrente pedestre esperava para atravessar. Dois milhões de motores deixaram a cidade, mas restaram seis milhões. Isto quer dizer que ainda precisamos esperar o farol fechar para os carros para atravessar a rua. Quando a senhora viu que eu também queria atravessar, me alertou que o farol estava apagado. E sabemos que farol apagado significa verde eterno para os motores. Porque farol apagado significa regras em pane, ausentes. E quando as regras deixam de funcionar, os direitos são todos apropriados pelos mais fortes. Então eu fui embicando a Bici e metendo a mão espalmada na cara dos motoristas dos motores e já fui entrando e a cambada de motores foi parando e a senhora foi junto comigo e atravessamos, sob sons nada amistosos de cilindros e bielas a rosnar. Sãos e salvos na calçada oposta, ela se mostrava visivelmente agradecida a mim e me agradeceu em palavras e, inclusive, me desejou boa tarde e boas festas e feliz ano novo. Só então me dei conta do meu ato de extraordinária ousadia. Porque na cidade grande capitalista competitiva de oito milhões de motores e respectiva tonelada e outras tantas casas espalhadas ou amontoadas umas sobre as outras e arranha-céus e subsolos e asfalto e faróis e fios e almas suficientes para ocupar tudo isso, a simples necessidade de atravessar a rua carece de atrevimento.  

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

CAUSO DE AMOR DO TEMPO DA ZAGAIA.

Cheguei em casa, meu cônjuge me deu um esporro verbal porque não fui ao supermercado comprar as coisas elementares que estavam faltando em casa já há dois dias. Verbal, porque meu cônjuge é do sexo feminino. Ouvi quieto e calado, não por submissão, mas por sangue frio. A expressão “sangue frio” só tem sentido num sujeito de sangue quente… Fundamental em meu autocontrole foi minha consciência do meu valor nas lides do lar. Se eu não soubesse nem fritar um ovo, talvez tivesse retrucado grosso. Mas diante da veemência dela, perguntei-lhe — não, só pensei, que minha ousadia tem limite — que se ela estava tão descontente assim com meu desempenho doméstico nas artes de cozinha e mesa, por que ela não me devolvia à minha mãe? Então foi aí que lembrei do causo de amor do tempo da zagaia.
Primeiro, causo é a mesma coisa que conto, em caipirês. E zagaia é uma arma branca de madeira com uma ponta afiada, usada para alvejar ou aparar a caça ou o agressor. A zagaia, além de antiga, era muito ineficiente, por isso ficou velha. Talvez venha daí o costume que muita gente tem de confundir antigo com velho e de achar que todo velho é ineficiente. Mas a expressão tempo da zagaia, em caipirês, quer dizer, apenas, tempo em que viveram nossos bisavós, mais ou menos.
É que, no tempo da zagaia, os homens eram machistas e as mulheres… também. Normal, porque, afinal, as ideias dominantes são as ideias da classe dominante. E, assim sendo, o homem podia devolver a mulher ao pai dela, e pedir a anulação do casamento, caso constatasse que ela não estava apta a satisfazer as necessidades dele e do lar. Nos tempos atuais, os homens continuam machistas, mas algumas mulheres deixaram de ser. E essas poucas já são suficientes para me pôr em apuros e suscitar em mim pensamentos tão extravagantes quanto aquele lá do primeiro parágrafo.
Aconteceu assim: João foi devolver a Maria ao pai dela, após uns dois meses de casados. Parêntese para informar que naquele tempo o homem considerava a mulher tão inapta para as coisas mundanas, que uma mulher não podia permanecer sem um tutor masculino em nenhum momento de sua vida. Quando pequena, era tutelada por seu pai. Uma vez casada, o pai passava a tutela ao marido. Na velhice, se viúva, era tutelada pelo próprio filho mais velho. Daí porque essa cerimônia de devolução da filha ao pai era, não só importante, como necessária, e feita pessoalmente.
João chegou pro sogro e comunicou-lhe que estava devolvendo sua filha, apontando para a moça, ao lado.
O sogro se assustou por três motivos. Primeiro, porque, apesar de ser uma cerimônia prevista, era rara. Poucos homens devolviam as mulheres assim. Segundo, porque, além de saudável, tinha certeza que sua filha era pura, crescera sob severa vigilância, física e moral… E, terceiro, já passava de dois meses! Essas devoluções, raras, costumavam acontecer com uma semana de casamento, no máximo. Mas, como todo bom caipira, começou pelas bordas, ou pelas metáforas. Perguntou ao João se sua filha não sabia lavar, passar, cozinhar, bordar, tricotar, crochetar, costurar. João ficou assim meio enrolado, sem dizer nem sim nem não, ao que o sogro aproveitou para enfatizar que sua filha era excelente cozinheira e engomadeira, ensinada pela própria mãe e que, além de realizar impecáveis trabalhos de bordado, tricô e crochê, não somente costurava, como havia tirado diploma de corte e costura. Diante do silêncio e do titubeio do João, o pai da moça continuou, perguntando se era algo de natureza moral… acrescentando imediatamente que sua filha fora educada dentro dos severos preceitos de uma família de respeito, mas que, se fosse, seria estranho, pois já se passara dois meses…
Não, não tinha a ver com lavar, passar, cozinhar, costurar, bordar, nem era nada de natureza moral, ao contrário:
Sabe o que é, seu Antônio (era esse o nome do sogro). É algo mais prático. Sua filha não sabe amar.

(Embora fiel aos fatos, o causo é fictício, inclusive os acontecimentos do primeiro parágrafo — até porque sou impecável dono-de-casa).

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

PUBLICAR UM LIVRO.

Quem lê tanto livro? Fui na Feira do Livro. Entrei na Saraiva. Na Cultura. Na Martins Fontes. Na Biblioteca Florestan Fernandes. Quem lê tanto livro? Na biblioteca, tudo bem, ficam lá guardados, registrados para o futuro, dando lastro aos pesquisadores, tem uma estudantada adoidada lendo tudo aquilo, lendo, copiando, anotando, citando… Mas nas feiras, nas livrarias, nas editoras? Como se pacotes de biscoito, à venda? Quem consegue digerir tanto biscoito, ou melhor, tanto livro? A grande maioria, sem a menor importância literária? Estão ali nas prateleiras, nos catálogos (físicos e eletrônicos), nas pechinchas, se colar colou. Ao comerciante, tudo bem, a lógica dele é montar um estoque rico e variado e colorido e atrair os compradores e, ao final do dia, somar o faturamento e descartar o encalhe. Mas ao autor, aquele que tem seu único livrinho perdido no meio daquela imensidão de volumes, é desesperador.
Vários motivos levam alguém a publicar um livro: enriquecimento do currículo de acadêmicos e intelectuais em geral; vaidade; registro ou perpetuação do texto; comercial(lucro); artístico; militância literária; instrumentos de pressão (política, judicial, etc.); apoio a campanhas publicitárias diversas; muitos outros… Muito pouco se salva, de tudo que é publicado. Quase tudo volta pra picotadora. Uma pequena parte nunca vai ser lida, mas vai ficar juntando poeira e criando ácaros nas estantes residenciais por décadas. Destino justo, porque quase tudo que é publicado não tem qualquer relevância.
Escrever um texto passível de publicação não é tão difícil. Há milhares de pessoas capazes de tal feito. Difícil é transformar esse texto em livro. Não, com menos de 10 mil reais você se autopublica. Contrata uma editora ou você mesmo prepara o texto em programas de computador próprio e o encaminha a uma gráfica. Escolhe a capa, o papel, o livro fica bonito. Recebe em casa os 500 exemplares contratados, bem embalados em pacotes de 20. Manda o entregador depositá-los no chão, num canto morto da sala, porque aquilo é um volume enorme, não cabe em nenhum outro lugar da casa. Se cada livro pesar 300 gramas, a coisa toda dá 150 quilos! São 25 pacotes do tamanho dessa sua impressora aí ao lado cada pacote! Aí você vai ver o que é bom pra tosse, o desespero de fazer cada um desses 500 tesouros (na sua concepção) chegar às mãos de outros tantos e condescendentes leitores. E o seu desgosto está só começando, porque, à medida que o tempo passa e o trambolho não diminui e seu cônjuge começa a cobrar uma solução para “aquilo”…
Um livro não é só aquele charmoso e cheiroso voluminho de 300 gramas. Um livro é o voluminho e sua repercussão. E, na maioria dos casos, o livro para no voluminho. Não tem repercussão alguma. Isso explica muito autor deprimido. Mas é bem feito. Quem mandou ele bancar a publicação? Por que ele não foi mais paciente, perseverante, militante, humilde? Por que ele não se submeteu aos filtros de reconhecimento, como os concursos, os programas de incentivo, as editoras de verdade? Quem mandou ele não se contentar com seus 10 leitores no feicibuque? Ou quem mandou ele se iludir com os comentários desses seus 10 leitores de feicibuque?
E quanto às editoras: há as sérias e as de araque. De araque não é bem o termo, são empresas comerciais capacitadas a preparar seu texto e mandá-lo a uma gráfica, mediante pagamento, e depois enviar os 150 Kg a sua casa. E as editoras de verdade são aquelas que recebem seu texto e ficam entusiasmadas com ele e resolvem correr o risco de publicá-lo por conta própria. Mas para despertar esse entusiasmo, não basta um texto genial. Porque se você, anônimo e pacato autor, enviar seu texto genial para uma dessas editoras, desacompanhado de qualquer indicação, ele fatalmente não será considerado. Pelo simples fato de que não será lido. Afinal, quem aguenta ler o original de um autor desconhecido? Até porque, salvo raríssimas exceções, o destino final de um ótimo livro de um autor desconhecido é a picotadora. Principalmente se os amigos e parentes do autor comprarem livros suficientes para cobrir os custos da editora e lhe darem algum lucro. Porque uma campanha de distribuição custa muito, muito mais que os 10 mil reais da edição/publicação. E é arriscada e carece de muito, muito mais entusiasmo do editor-empresário.

Mas se você teimar em bancar seu próprio livro, em querer brincar de Deus, em tentar a imortalidade, prepare-se para receber o castigo por tal ousadia. Para atenuar, ao menos não cometa a besteira de deixar os 150 quilos, produto desse desatino, adentrarem ao sossego do seu lar. 

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

VOZES DO ALÉM.

Era ali pelos anos 1970 e a voz do Aeroporto de Congonhas chegou a ficar famosa. O povo ia lá, nos feriados, pra ver os aviões no chão, um tempo em que viajar de avião era impensável. A voz de mulher soava no saguão, como se do além, uma deusa a tornar nossos dias menos inglórios, suave, lembrando um amarelo azulado que ia se arroxeando, ficando sensual e o povão ali, bem-comportado, misturado aos bacanas que tinham o direito de ir e vir de norte a sul e alhures. Quem sabe a mulher locutora fosse uma simples assalariada, mas, soava naquele ambiente com a elegância da elite endinheirada. E o povão, pacato, a consumir a tarde de domingo e a treinar para entrar no mundo do consumo que as gentes superiores já estavam experimentando. O povão embasbacado com a voz feminina do saguão do Aeroporto de Congonhas.
Porque esse povão enfrentava, com regularidade, a voz da rodoviária da Duque de Caxias, ali em frente a Estação Júlio Prestes. Era uma voz masculina, apressada, rude e confusa. Era uma voz que lembrava um marrom mal rabiscado, de alguém que estava falando sem vontade, com raiva, sempre no mesmo tom, como se fosse uma metralha. Naquele labirinto de lojas rasteiras e escadas estreitas e sujas e mal iluminadas e teto multicolorido, quem não estava apressado, se punha a correr. Todos ficavam atônitos, a voz espalhava insegurança. Locução de palavras mal articuladas e um equipamento de som de qualidade sofrível, essencialmente, a voz traduzia e transmitia todo o desprezo dos citadinos para com os que chegavam. Se não ficou famosa, ficou conhecida, a voz da rodoviária de São Paulo dos anos 1970. Pela deselegância.
Esse povão ouvia rádio. A TV ainda era artigo de luxo. Mas a voz do rádio, apesar de cair do céu, não vinha do além. A voz do rádio tinha nome e personalidade. Era diferente dessas vozes que ribombavam num amplo ambiente público a transmitir mensagens impessoais. O locutor de rádio, sem corpo, estabelecia familiaridade com o ouvinte. Nas pequenas cidades, de onde afluía o povão pra São Paulo, não havia necessidade de voz ambiente para orientar os pequenos espaços públicos. Na megalópole, conhecemos a voz dos ricos e a voz dos pobres: a moça de congonhas e o homem da rodoviária. O dono da bola e da narrativa estabeleceu que rico era fino e pobre era bronco. E vamos enroscados nessa tramoia até hoje…

Tudo isso pra falar da voz masculina da linha amarela do metrô de São Paulo, aquela que faz os avisos no idioma inglês. Pego aquela linha de vez em quando. Creio que, se tivesse de ouvir aquela voz todo dia, acabaria tendo um piripaque. De raiva. Porque ela é melosa demais, ondulada demais. Não é possível que aquele jeito de falar seja representativo do modo de falar dos estadunidenses ou dos ingleses. Pelo pouco que ouço nos filmes, aquilo é uma caricatura. Então, viajando hoje na tal linha e ouvindo aquela voz, elaborei a seguinte teoria da conspiração: a pessoa que escolheu aquela voz – um funcionário ou funcionária da linha amarela — odeia a civilização anglo-saxã, a começar pela língua inglesa. Aquela voz de homem dando os avisos em inglês é um verdadeiro boicote ao idioma do império.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

UMA CIDADE FANTASMA NO MEIO DA ESTRADA.

Como você reagiria se fosse andando por uma estradinha de terra e encontrasse uma cidade inesperada? E, como se não bastasse a surpresa de encontrar uma cidade onde só prevíamos cana e pasto, essa cidade estivesse deslocada no tempo e no espaço? E se, ao invés de uma cidade, encontrasse duas, uma perto da outra?
Pois foi o que aconteceu comigo. Só que eu não ia andando. Ia pedalando.
Eu havia dormido em Artemis, uma cidadinha envolvida pelas curvas do Rio Piracicaba, que nem município é ainda, é distrito de Piracicaba. Precisava chegar em Brotas. Mas não queria passar por Águas de São Pedro e São Pedro, muita muvuca e eu já havia passado lá a pé, em 2004. Esse trecho tem uma serra interessante a transpor. Então resolvi ir por Charqueada. Para isso eu poderia ir pelo confortável acostamento da SP-304 até a periferia de Piracicaba e depois pegar a SP-308 e chegar até Charqueada, no pé da serra.
Mas não. Preferi traçar uma linha reta entre os dois pontos, e enfrentar a malha de estradas vicinais e essa é uma das principais características da minha viagem. Ir sempre pela hipotenusa quando vejo no mapa que há interligação entre as estradinhas. Ir pelo atalho. Sendo que a palavra “malha”, aí em cima, é bem apropriada, porque são muitos nós que temos que destrinchar. Com nós quero dizer cruzamentos, bifurcações, derivadas, tangentes… e nenhuma placa informativa. Não raro temos de escolher entre três alternativas. E muitas e muitas vezes a alternativa menos óbvia é a correta.
Ia eu pela estradinha quando vi, lá na frente, uns caminhões parados ao lado duma montanha escura, esquisita e fora de hora. Cheguei a uns 100 metros de distância e ainda assim tive de perguntar a um dos caminhoneiros o que era aquele monte artificial. Era pedra. Pedra britada, dessas de fazer pavimento em estrada e concreto para construção. É que eu não estava esperando uma jazida de granito daquela magnitude ali, em meio a amenas colinas de canaviais. Vi algumas casas lá na frente e segui naquela direção. Fui chegando, era uma cidadinha não detectada em minhas pesquisas no google maps. Havia uma igreja grande, uma padaria que não servia pão com manteiga nem café com leite e vários pontos de ônibus, onde muitos idosos e idosas esperavam, chiachierando. Havia um enorme garrafão de vinho feito com garrafas pet, fazendo a propaganda da festa do vinho. Se chamava Santana. Ou Sant’Ana ou Santa Ana. E as velhas e velhos se pareciam todos com meus pais e tios e avós.
Andei mais um pouco, havia asfalto nas ruas, aquilo era uma cidade. Uma cidade não prevista, inesperada. Aqueles velhos de características familiares, comecei a achar estranho. As casas deram uma trégua, andei mais uns dois quilômetros e elas voltaram. Outra igreja. Grande, quase suntuosa, vendo de fora. Ladeiras, ruas íngremes, tortuosas. Tudo muito bem arrumado no espaço público, fachadas bem conservadas e um toque de lugar antigo nas construções. Algumas lojinhas bem transadas, dessas de vender besteira cara pra turista endinheirado, comuns nos pequenos burgos aos pés dos...Alpes italianos! Essa outra cidadinha se chamava Santa Olímpia. Sim, era isso! Aquilo parecia um pedaço da Itália, tive a impressão. Mas meu estranhamento parou por aí, não conversei com ninguém, estava com pressa de chegar em Charqueada e comer, já que a padaria do lugar não servia pra nada.

Tudo bem, segui viagem, levando comigo aquele estranhamento daquelas duas cidadinhas agarradas às poucas pirambeiras da região majoritariamente ondulada. Muitos dias depois, tive a ideia de pesquisar “Santana, Piracicaba” e “Santa Olímpia, Piracicaba”. E descobri que se trata de uma colônia de italianos que se juntaram e compraram uma fazenda ali ainda no século XIX. E é incrível como conseguiram reproduzir e manter as características da terra natal. Nem é preciso dizer que se trata de um ponto turístico de Piracicaba e não tem importância nenhuma que eu ignorasse tal fato histórico e tal localidade. 

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

CAMINHONAR, COMER, CAMINHONAR.

Havia umas 50 mesas, quase todas ocupadas. Boa parte delas com apenas uma pessoa e outras tantas com duas. Nenhuma mulher. Na hora não pude deixar de dizer a mim mesmo que estava lascado. Pudera! Tinha invadido o território sagrado dos caminhoneiros. Isso, caminhonar, a ação do caminhoneiro.
Ser caminhoneiro foi a minha primeira frustração profissional. Eu tinha uns 5 anos e achava o máximo manobrar aqueles monstros. Ao mesmo tempo que desejava muito, sabia que era impossível, porque eu não suportava o barulho do escapamento do fenemê e do mercedão de cara chata, recém-lançados. Isso era início dos anos 1960. Não que eu tivesse bronca, eu tinha era medo daquele barulhão.
O caso é que era hora do almoço e eu escolhi aquele lugar pra comer. Eu, um sujeito tão refinado, em meio àqueles homens brutos. Brutos, no bom sentido. Refinado, no mau sentido. Certamente, eu era o menos pançudo deles. E o mais sujo e o mais suado e o mais fedido do salão. E a minha barba não era de 3 dias, era de 3 anos e pouco cultivo. E, afinal, eu não estava de bermuda nem de chinelo de dedo nem com a camisa aberta no peito. De resto, a fome e a vontade de comer eram as mesmas.
Mas eu não caí de gaiato lá não. Antes de parar, de entrar, eu sabia o clima e o microclima que ia encontrar. Porque era uma churrascaria e, como se não bastasse, se chamava O Gaúcho. Como se gaúcho e churrascaria não fossem sinônimos, na beira da estrada. A placa dizia que a gente podia comer à vontade no fogão a lenha por 12 reais. Todo cidadão minimamente viajado sabe que fogão a lenha é a senha para frituras e feijão gordo e banha de porco, porque a lenha e o respectivo fogão só servem para enfeitar. Tudo é feito lá no fundo, em fogões a gás. E em termos de alimentação, caminhoneiro gosta de carne, sabor e sustança. E preço baixo. E nenhum limite na quantidade.
E havia outro detalhe fundamental para espantar os turistas e atrair os caminhoneiros: o acesso de 150 metros não era pavimentado. O turista convencional não gosta de colocar seu carrão pra rodar nem 10 metros fora do asfalto. E caminhoneiro não gosta de turista. E vice-versa. Vai ver se caminhoneiro para nesses graaaals e frangos torrados da vida. Prefere passar fome, mas não para. Ciclista sujo para, porque não tem vergonha na cara.

O fato é que, antes de estacionar a Bici ao lado de uma jamanta de 34 pneus, eu vi bem as outras tantas jamantas estacionadas, de modo que, ao empurrar a porta vai e vem e adentrar ao salão, eu já estava com os coldres desabotoados. Mas encontrei paz e acolhimento. E este ciclista almoçou bem e sossegado em Presidente Venceslau, bêra da Raposo Tavares, essa terra que gosta de homenagear os presidentes da república velha: Prudente, Bernardes, Venceslau, Epitácio. Porque, se tem alguém que caminhoneiro respeita é ciclista. No meu caso, isso é fato. Acho que eles entendem que, como eles, a alma que vai sobre uma bicicleta é de uma pessoa destemida. Que, da mesma forma que é preciso vigor e valentia para conduzir um bólido com 20 toneladas por mais de 500 quilômetros, igualmente, é preciso coração e coragem para viajar sobre 15 quilos de alumínio, ferro e borracha e nenhum para-choque. (Crônicas de Guardanapo).

sábado, 2 de dezembro de 2017

QUATRO NUMA MESA DE BAR.

(Crônicas de Guardanapo).
Era um barzinho simpático, onde entrei pra comer qualquer coisa e não dormir com fome, já que arroz com feijão não havia, à noite, em Nova Independência, SP. Acho que nem nas casas, nos lares, havia arroz com feijão naquela noite de sábado. Noto que muitas pessoas têm preconceito contra arroz com feijão. Uns consideram comida de pobre, outros consideram comida pobre. Tanto é verdade que “arroz com feijão” virou sinônimo de coisa banal. Coisa banal deveria ser pão com salsicha. Salgadinho em pacote com cocacoca. Pizza por telefone. Pacote de bolacha. Balde de pipoca.
Na mesa em minha frente sentaram quatro jovens. Pouco mais que adolescentes. Logo percebi que eram de pouca conversa. Duas palavras daqui, uma resposta monossilábica de lá, um sorriso amarelo da esquerda, um olhar compreensivo da direita. Até que um deles acendeu o smartphone. Presenciei todo o processo, desde a falta de assunto inicial até o primeiro celular aceso. Restaram três, mas não demorou para o segundo também acender seu aparelho. Restaram dois. Continuaram tentando, duas palavras daqui, outra de lá, e olhares de soslaio em direção às telas retangulares e brilhantes dos outros dois. E, enfim, esses dois remanescentes acenderam suas próprias telas retangulares quase ao mesmo tempo, tão logo perceberam a pobreza do assunto ao vivo.

E eu em frente, não sabia se ria ou se chorava. E comiam e bebiam e chupavam e navegavam. E, de vez em quando, grunhiam, um para o outro. E eu comia, e assuntava. Deixara meu celular no quarto alugado. Num lance mental ousado, me incorporei a um dos quatro. Acabei de comer e beber e chupar, limpei os beiços, apaguei o retângulo, olhei na direção dos rostos dos outros três sem receber nada em troca, me levantei e saí em silêncio, sem ser notado e sem fazer falta. 

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

A ALEMOA.

Procuro um jantar, mas a essa hora a alemoa já fechou. Oito horas da noite. E nem sei se ela serve jantar. Acho que só almoço. “Ali em cima tem várias lanchonetes...”. Vou ver. De chinelo croc, bermuda azulada e camiseta vermelha e cabeça descoberta, minha passagem tem a mesma natureza da de um marciano. Jovens tomam cerveja. Homens não usam barba. Cowboys de chapéu e desodorante. Comem algo que não me interessa, salsichas, talvez. Sertanejos altos e universitários na caixa da brasília. Casais casando no canto do jardim. Arremedos de dança e pegação, debaixo do nariz da madona padrona na torre da matriz. A missa já acabou e alguns estão chegando, ainda com gosto de hóstia. Atravesso a muvuca e vou além. E encontro uma lanchonete-sorveteria que me agrada, mais lá longe. E peço um pão-com-ovo, mais popularmente conhecido como xis egue-salada. E recomendo: “Dêxa que o molho eu ponho, principalmente a maionese...”.
Mas agorinha, o que preciso mesmo é de uma cerveja, pra rebatê e acentuá a desidratação. A dona-atendente, que estava lá fora numa mesa, como se fora uma cliente, e entrou só pra me atender, sai rebolando em busca da cerveja urgente. Ô vida besta e boa, sô! Ela quer saber a marca. Ora, é tudo a lesma lerda, traz a que estiver mais perto.
E daí a pouco, no tempo exato, quando dei o último gole, chegou o sanduíche. E me ponho a comer pelas tabelas e lamber e limpar e tentar em vão abrir, com os dedos lambuzados, o sachê de quétixupi, e extrair adoidado guardanapos de papel da guardanapera e limpar e aparar e comer e me lambuzar, como se babasse, e tem hamburguer e ovo e muzzarella e alface e tomate e estou realmente entretido quando vejo o casal atravessando a rua.
A moça é uma alemoa alta e rochonchuda e o moço é um rapagão cor da terra, também alto e rechonchudo. Ela com um vestido de peça única, altura do joelho, cabelo preso do lado com uma borboleta de plástico, ele de tênis naique e gomalina no cabelo. Moram a duzentos metros daqui, um em cada casa, com as respectivas mães, que cozinham, lavam e passam, de graça e com amor, mas hoje querem gastar dinheiro na comida. A comida é cara, mas o moço paga, porque ele tá levando a namorada — quiçá noiva — pra comer fora e ela merece, porque além de bonita, é prendada e ele vai casar com ela e eles entram na lanchonete um segurando escrupulosamente a mão do outro e vice-versa e ele e ela já estão sossegados, porque um encontrou o outro e o outro encontrou o um e assim a vida se finda já toda estabelecida até o final dos tempos.

Mas não. Não vêm jantar. Vêm tomar a sobremesa. Um balde de sorvete pra cada um. Porque nesta cidade, todos tomam sorvete, toneladas de sorvete. Não, eles não aprenderam na escola que esse sorvete cremoso é uma bomba calórica, entupido de açúcar e gordura. Não, ninguém lhes avisou que, daqui a pouco, depois dos trinta, ela vai ficar balofa, sassaricando em sua cozinha pra lá e pra cá entre garrafas de cocacola e ele vai ficar balofo, acomodado o dia inteiro sentado na cabine envidraçada do trator em meio ao canavial. Mas, por enquanto, já lhes restam alguma esbeltez e a inocência da ignorância. E vejo o tempo e o mundo a girar curto e se repetir e quase me engasgo com o nó na garganta. (Crônicas de Guardanapo).

domingo, 26 de novembro de 2017

TELETELA.

Embevecida, a garçonete vê a notícia. Eu vejo a notícia, você vê a notícia, todo mundo vê a notícia, não tem como escapar da notícia do dia. Todo dia acontece algo muito, muito importante, que ninguém pode deixar de saber. Enquanto a moça fica pesarosa ou embasbacada em frente a TV, eu tento escapar dela — da TV —, viro pro outro lado mas, lá está outra TV, ligada na mesma estação. O narrador narra e enfatiza, que esse é o seu papel. E a moça se prostra em frente, sabe lá o que está pensando da tragédia do dia. Ela está trabalhando, e vendo a notícia, mas se estivesse no médico, no pronto-socorro, no supermercado, na rodoviária, no correio, no dentista, no banco, no metrô, no smartphone, no quarto, na sala, na cozinha, estaria vendo a mesma notícia. É uma coisa pesada, grave, ela realmente se preocupa e sente muito, mas não pode fazer nada. Aliás, não deve fazer nada. Enquanto ser passivo, ela não deve fazer nada. É isso que esperam dela e é essa a função dessas notícias urgentes e diárias. E ela sente muito de verdade, mas tem certeza que nada pode fazer, a julgar pela sua retirada pesarosa da frente da tela da TV. É uma mulher jovem, de boas carnes, parece saudável de corpo e boa de cabeça. O diabo é que essa moça, assim como o pessoal da cozinha e a mulher do balcão-caixa, são pessoas dinâmicas, criativas e eficientes, tanto que me serviram, em dois pratos — um grande e um pequeno —, uma travessa de inox e uma cumbuca de cerâmica, arroz, feijão, bife acebolado com fritas, salada de alface e tomate e, na cumbuca, farofa. Tudo cozido e temperado no ponto, na temperatura certa, na combinação certa, com os toques da salada crua e da farofa, uma combinação alimentar digna de pessoas inteligentes. Mas, diante da TV, a moça e seus colegas silenciam, passivos e compungidos. E eu engulo. (Da séria “Crônicas de Guardanapo”).

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

2 MIL KM, 85 CIDADES E 20 DIAS DEPOIS…

...eis me de volta ao aconchego, segurança e limites do meu lar.
Por que cê tá fazeno isso? Promessa?
Não. Pra arrumá o que fazê, mesmo. Procurá assunto, dá uma de gostoso, aparecê…
O senhor é aposentado?
E então, quando eu confirmava o que o interlocutor já tinha como certo, recebia aquela carga de inveja. Inveja de verdade, daquela encontrada por Dante num dos quintos dos infernos. Um sujeito novo ainda, cheio de saúde, a vagabundear por aí, dias e dias, almoçando e jantando todo dia, dormindo em hotéis.
O senhor não tem família?
Há, no imaginário popular, a ideia de que alguém que tem família não tem o direito de sair por aí, sozinho, gastando o suado dinheirinho egoisticamente, deixando os familiares desprotegidos.
O povo pensa que todo aposentado tem ou deveria ter saúde precária. E que todo aposentado não ganha o suficiente nem pras despesas fundamentais. E pensa também que todo sujeito que recebe dinheiro do governo todo mês, sem trabalhar, é um privilegiado. O povo pensa tudo isso baseado na realidade em que vive. Porque, de fato, a maioria só consegue algum benefício do governo ali pela hora da morte.
Um aposentado de verdade, com disposição para viajar de bicicleta e dinheiro para pagar almoço e hotel, é quase um marajá, nesse nosso mundão de Deus. Precisamos entender que vivemos num país cultural e tecnologicamente dependente, de economia associada e subalterna e pobre. Os políticos e o povo e as ideias e os aposentados sempre serão subprodutos desse subdesenvolvimento.

Após dois mil quilômetros, oitenta e cinco cidades e vinte dias a traçar um triângulo retângulo pelo Estado de São Paulo (São Paulo – Santa Fé do Sul – Presidente Epitácio – São Paulo); após quinhentos quilômetros de estradas vicinais em terra e mais de mil de vicinais asfaltadas; após constatar que as mangas caipiras amadurecem mais cedo no norte que no sul do estado, após consertar três vezes o pneu furado...
Após uns 10 presídios e outras tantas usinas de produção de etanol e canavial por toda parte...

 ...estou achando que nosso país deveria se chamar Capitanias Hereditárias do Brasil. Porque as tais capitanias determinaram nosso presente.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

DEUS É FIEL, EM SOROCABA.

(da série “Crônicas de Guardanapo”).
Bici lá fora, no meio-fio da Av.Ipanema, debaixo do sol do meio-dia, enquanto eu esperava o prato-feito no restaurante em que Deus é fiel. Nenhuma onda, nenhuma árvore, nem praia, nem floresta. Era Sorocaba, aqui na zona da...sorocabana!, interior de São Paulo. A avenida Ipanema é o prolongamento da estrada vicinal que vem de Iperó, que passa ao lado da Floresta Nacional de Ipanema, uma mata cheia de história duns 10 Km de extensão.
Era um desses locais puros, que só abrem para o almoço e servem um único prato já montado. O freguês só escolhe a mistura, coisa de três ou quatro opções. Bem do jeito que eu queria, nada de self-service, comida por quilo, essas coisas. Porque eu já tava farto de self-service, prático e variado demais pro meu gosto e que virou praga no mundo. E ainda vão piorando, com a moda do “coma a vontade”, sendo que nunca tive vontade de comer vontade nenhuma.
O problema desse restaurante era que, nele, Deus era fiel. Ao menos, estava escrito a giz, ao final das opções de mistura, numa lousa-cavalete na entrada. Mas o sol estava quente, eu estava cansado do terrível trecho em que acabara de pedalar, e o resto casava tão direitinho com as minhas necessidades, que acreditei assim mesmo.
Era pequeno, havia umas 10 mesas de dois lugares e eu aguardava o PF sozinho, nenhum outro freguês. De repente, um carrão parou na porta, quase atropelando a Bici, e dele desceu uma dona exuberante com um decote generoso e um escandaloso salto quinze no sapato, que entrou e se sentou em outra mesa, sem que nem ela nem ninguém da casa pedissem ou servissem algo. Daí a pouco se juntou a ela, na mesa, um homem bem mais velho, desses de óculos escuros e corrente e pulseira de um metal amarelo-lustroso.
Parece que eu fora o primeiro freguês do dia, porque, daí a pouco, entraram dois homens elegantes de corpos e vestes e se sentaram na mesma mesa, segurando um na mão do outro e falando baixo. Foi por essa hora que meu PF chegou, trazido por uma senhora curtida de sol e de tempo, mas de traços bem expressivos, com jeito de cozinheira e dona. O feijão estava no ponto, grãos inteiros e bem cozidos, quase nenhum caldo. O arroz do lado estava bom, mas eu e minha fome comeríamos o dobro. Sendo que o PF não era bem um PF, porque acompanhava mais dois pratinhos, um com uma salada com toques de trigo e outro com o filé de pescada frito.

Entretanto, comi e fiquei satisfeito. Tudo muito discreto, simples e refinado, não fora a humana e escrita declaração da fidelidade divina. Ao contrário do “coma três, pague dois” dos desesperados que proliferam no comércio da fome, nenhum preço escrito em lugar nenhum. Dirigi-me ao caixa, já conformado com a facada. Então vi uma imagem da Nossa Senhora Aparecida sobre o balcão. E fiquei mais desconcertado ainda quando tive de pagar apenas 10 reais. O ícone dos católicos convivendo pacificamente com o bordão dos crentes e uma freguesia nada convencional nem conservadora. Saí rápido, porque aquilo tava cheirando a covil de irônicos materialistas. 

sábado, 21 de outubro de 2017

PÍLULAS DE ÓDIO.

Estava eu de bobeira na esquina da Rua Luiz Seraphico Junior com a Rua Bragança Paulista, em Santo Amaro, quando apareceu um homem nu, coberto apenas com um sujo cobertor fazendo o papel de capa. Sei que ele não tinha nenhuma roupa por baixo da capa porque num dado momento ele escancarou a abertura frontal. E sei também porque o segurança da casa de show ali da esquina me contou depois.
Era uma quinta feira, por volta das 5h da tarde. Não havia ninguém na rua. Somente alguns carros e ônibus passavam. O comércio da região atende ao povo que gosta da noite. E ainda era dia. O mendigo zanzava pra lá e pra cá, segurando um saco de plástico cheio nas costas com uma mão e, com a outra, segurava as abas do cobertor que cobria seu corpo. O saco continha suas roupas, suponho.
O segurança se aproximou de mim e puxou conversa, me perguntando se eu tinha visto o doido, só com o cobertor. Reafirmou que o homem era doido, que era um perigo, que podia atacar alguém. Em verdade, penso que o segurança, de longe, desconfiou de mim, e chegou para averiguar e, se necessário, me afugentar. Eu estava de bermuda, chinelo, camiseta molambenta, parado na esquina… Chegou perto, viu que eu estava no time dos homens que não têm necessidade de agir como doidos, disfarçou. E destampou a me contar histórias de doidos e mendigos que ele conhecia em sua variada militância de leão de chácara pelas diversas casas e hotéis da cidade. E faltou pouco para ele me declarar que a melhor coisa a fazer com tais seres humanos era matá-los. Desconversei, dizendo que a doidice era uma maneira de enfrentar a dureza da vida.
Depois fiquei pensando: o sujeito fica doido e vai morar na rua ou vai morar na rua e fica doido? Porque um sujeito normal não dura nem uma semana na rua. Ou morre ou fica doido ou vira bandido. Um ser humano que perde o direito a um teto particular sofre o mesmo efeito de alguém que toma uma caixa inteira de pílulas de ódio. E basta tomar algumas pílulas de ódio para morrer ou ficar doido ou virar bandido.
Mas o segurança lá da casa de shows me contou outra, para que eu visse nele um sujeito esperto (tem gente tão fraca de espírito que precisa contar vantagens o tempo todo para se autoafirmar). Disse que tinha uns caras que vendiam relógios pra ele. Que acabara de receber uma ligação, me mostrando o celular, que um dos vendedores lhe comunicara que já tinha vendido todos os 20 relógios recebidos. Me disse, fazendo jeito de cansaço, que dissera ao outro que amanhã teria mais… Dando uma de sonso, eu perguntei como era aquilo. E ele, dando uma de ingênuo — ou esperto demais — me disse que pegava os relógios na Galeria Pagé a R$10; quem vendia seus relógios deveria lhe pagar R$20. Me disse que, normalmente, os vendedores vendiam ao consumidor final por R$25, ficando com R$5 de lucro e ele, atravessador, ficava com R$10 líquidos.
Então, todas essas relações de poder, de domínio e exploração do homem pelo homem, de carências absolutas ou relativas, são pílulas de ódio. Mas você, ô olho grande, que não quer nem saber, que só quer se dar bem, que se phoda os otários, que já está aí a esticar o pescoço sobre a rentável e leve intermédia travessa lá do segurança de Santo Amaro, não vá se metendo a besta não. Sabe qual o apelido do cara? Pit Bull.



sexta-feira, 20 de outubro de 2017

UMA GOTA DE PAZ.

UMA GOTA NO OCEANO DA NECESSIDADE DE SE CONSPIRAR PELA PAZ. Ia eu pela ciclovia da ponte rodoferroviária da Avenida Cruzeiro do Sul, ali ao lado do Terminal Rodoviário do Tietê, quando… Bom, tenho muitos amigos de fora de SP, então preciso explicar. É uma ponte sobre o Rio Tietê. No meio, passam os trens da linha norte-sul (azul) do metrô. Nas laterais, as pistas rodoviárias. Os trens trafegam num plano mais elevado que os carros, trilhos isolados por muros ou grades altos. As ciclovias unidirecionais, uma de cada lado, bem estreitas, ficam espremidas entre a parede alta da linha do metrô, à esquerda, e o degrau alto do meio-fio da pista dos automóveis, à direita, de tal maneira que foi necessário isolá-la com uma grade de ferro de uns 80 cm de altura, para que os ciclistas não caíssem na frente dos veículos, dada sua exígua largura. Tão estreita que só passa uma bicicleta de cada vez, não é possível ultrapassagem. Não é problema, porque são só cerca de 200 metros, nós ciclistas temos paciência. Mas se um pedestre estiver dividindo a ciclofaixa, temos de passar por ele com muito cuidado, sob pena de riscar o guidão em suas costelas.
Durante a construção, o complexo de vigas e colunas e pilares e pisos e lajes e beirais foi, nas partes superiores dos barrancos, cuidadosamente interligado por sólidos painéis de alvenaria, de maneira a blindar os espaços sob as pontes, contra esse povo que costuma morar debaixo de viadutos. Nos espaços inferiores, abertos, passam, transversalmente, as pistas das marginais e as águas do rio. São muito inóspitos, pelo barulho e velocidade dos carros e pelo fedor e ameaça de enchentes das águas, ninguém se aventura a acampar por ali. Mas as encostas altas embaixo dos pisos das pontes, isoladas pelas paredes, são excelentes espaços para se dormir, se levarmos em conta a alternativa das desprotegidas calçadas. E alguns homens, como animais, entram ali, abrindo buracos nas tais paredes isolantes. São acessos irregulares, muitos em formato circular, como se roídos por...ratos! Então ali virou uma regular habitação humana.
Ultrapassada a ponte, a linha do metrô segue elevada, pra lá e pra cá, sobre um espaçoso canteiro central, ora gramado, ora pavimentado. A ciclovia se unifica em bidirecional e ainda sobra muito espaço para o bem-estar do povo de rua. Muitas barracas — que as barracas hoje são muito simples e baratas, quase descartáveis — e muita gente fazendo da larga e saliente faixa uma espécie de longa habitação coletiva quarto-sala-cozinha. Pessoas em grupo, sentadas, conversando, ou caminhando; alguns deitados sobre o gramado, curtindo o sono ou a cachaça; outros improvisando um fogareiro e uma panela; há até viajantes, com suas bagagens, que ali perto está o terminal de ônibus de longa distância. O prefeito Haddad começou a construção de sanitários, mas não terminou. As bicicletas passam por ali, em meio aos pedestres, sem problemas, porque o espaço permite.
Ia eu pedalando pela ínfima faixa, sobre a ponte. Alcancei um pedestre, que não ouviu minha aproximação. Minha bicicleta até tem um sininho para essas ocasiões, que nunca uso. Acho impertinente. Emito um contido assobio, até o pedestre perceber. Ele finalmente percebe, se espreme todo na parede do metrô, me pede desculpas, eu respondo que não há de quê e digo-lhe muito obrigado, enquanto o ultrapasso empurrando a bicicleta. Mais adiante, vem um homem com um carrinho de mão — que na minha terra se chama carriola — carregado de raízes de mandioca. Desses que vendem mandioca na rua, em toletes, descascados na hora. Há, sobre as raízes, alguns ramos da planta, ainda verdes, uma maneira muda do homem dizer e garantir que a mercadoria é fresca. E a mercadoria é realmente fresca, de primeira, que mandioca é coisa precária, e conheço bem, só de ver, de longe, uma raiz em bom estado.

Quem projetou esse conjunto de elevados e canteiros centrais e ponte só previu o trânsito de trens e carros. Nem se lembrou das gentes e das bicicletas e das carriolas...Uma carriola é mais larga que um homem, é preciso mais cuidado ainda no cruzamento. O homem se esgueira pra lá, eu me esgueiro pra cá, e a gente se cruza sem problemas. Percebendo meu aspecto amistoso, o homem me diz que, há pouco, havia encontrado um ciclista que o havia destratado por estar trafegando em local indevido. Me disse que ficou muito puto — "gente ignorante!" —, que quase tirou a faca, e me mostrou a faca enfiada num baldinho anexo à carriola, com a qual ele trabalha a mandioca. Eu respondi-lhe, com sinceridade, que há muita gente insensível no mundo. Muita gente que interpreta os regulamentos e a vida com a habilidade de um elefante num depósito de cristais. Ele se despediu, me agradecendo pela boa educação. Eu só não comprei um pacote de mandioca fresca porque não tinha como levar, na bicicleta sem mochila e sem bagageiro. Mas deixei e levei uma gota de paz.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

QUEM ATIRA EM QUEM

 (CRÔNICA APRESSADA).

É assim: os cristãos atiram nos mouros, os mouros atiram nos cristãos. Os estadunidenses e os judeus atiram nos palestinos, os palestinos atiram nos estadunidenses e nos judeus. O mundo ocidental atira nos árabes, os árabes atiram no mundo ocidental. Os franceses atiram nos argelinos, os argelinos atiram nos franceses. Os japoneses atiram nos chineses, os chineses atiram nos japoneses. Os doidos dos EUA atiram nos doidos da Coreia, os doidos da Coreia atiram nos doidos dos EUA. Os exércitos espalham o terror, que atira nos exércitos. Os portugueses atiram nos angolanos, os angolanos atiram nos portugueses. A polícia atira nos bandidos, os bandidos atiram na polícia. Os grileiros atiram nos posseiros, os posseiros atiram nos grileiros. Os patrões atiram nos empregados, os empregados atiram nos patrões. Os católicos atiram nos crentes, os crentes atiram nos católicos. Os espanhóis atiram nos catalães, os catalães atiram nos espanhóis. Os alemães atiram nos russos, os russos atiram nos alemães. Os eslavos atiram nos latinos, os latinos atiram nos eslavos. Os contrabandistas atiram nos mafiosos, os mafiosos atiram nos contrabandistas. Os credores atiram nos devedores, os devedores atiram nos credores. A oposição atira na situação, a situação atira na oposição. Os gregos atiram nos troianos, os troianos atiram nos gregos. Os cães atiram nos gatos, os gatos atiram nos cães. Os ingleses atiram nos indianos. Os colonizadores atiram nos índios. Os imperialistas atiram nos colonos. Os homofóbicos atiram nos gays. Os racistas atiram nos negros. Os higienistas atiram nos mendigos. Os vigias atiram nos ladrões. Os senhores atiram nos escravos. Os xerifes do sul atiram nos mexicanos. Os reacionários atiram nos artistas. Os caçadores atiram na caça. Os meninos atiram nos passarinhos. Os homens atiram nas mulheres. Em meio ao acúmulo de tanto ódiossugestão e na falta urgente de em quem atirar, e com um monte de armas e munições à disposição, o cara de Las Vegas atira em todo mundo. 

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

A CHINA, OS EUA, E A TROPA DE CAVALOS DE TROIA.

Será possível que haja algum lugar no mundo sem facebook?
Ouço Chomsky dizer, numa entrevista, que os meios de comunicação de massa (MÍDIA) dos EUA não divulgam o que o governo manda, só pra reafirmarem a liberdade de imprensa. Mas publicam o que os conglomerados econômicos querem. Então o governo manda os empresários mandarem… O fato é que isso funciona bem, porque a mídia lá deles nunca dá bola fora nas questões estratégicas.
Só que a coisa é sofisticada. Editada. Acatam sim divergências, noticiam tudo, até os fatos inconvenientes. Abordam o inconveniente de forma conveniente… Lá pelos cantos, após as 34ª páginas ímpares, em rápidos segundos e altas horas, tipos minúsculos, aparições fugazes… E as ideias-chave são trabalhadas em multimídias multifacetadas, doses homeopáticas, merchandásicas, subliminares, filmes, seriados, novelas, entrevistas, entretenimento, notícias, programas infantis, pra jovens, pra velhos, religiosos, esportivos, culinários, turísticos...o escambau. Enquanto a nossa MÍDIA dita séria (dos partidos ditos sérios, dos sindicatos ditos sérios, das universidades ditas sérias…) nos enfiam, goela abaixo, o remédio todo de uma vez só, sem nenhum refresco e nenhum afeto, a verdadeira mídia ideológica, a grande, a dominante, trabalha o conteúdo de tal maneira a nos convencer, em primeiro lugar, de que são isentos, neutros, democráticos, livres. E nós acreditamos.
É que ninguém governa sem convencer as massas. No amor ou na dor, todo governo precisa de um mecanismo de convencimento das massas. É uma temeridade governar sem um tal dispositivo.
Antes havia uma segmentação dos mecanismos de convencimento: Para o povão: o Faustão, O Sílvio Santos, o Datena, a fé cristã, as novelas. Para a classe média baixa-média: o Jornal Nacional/Globonews/CBN/Veja e similares concorrentes. E para a elite: as facções partidárias ou universitárias ou maçônicas ou mafiosas ou associativas. E Roliúde pra todos.
Agora há facebook; google; whatsapp, youtube; instagram; twitter; amazon; uber… e seus algoritmos, satisfazendo todo mundo numa tacada só, desde o milionário até o mais pobre, desde o mais esperto até o mais bronco; simplificam ao extremo o mecanismo de doutrinar e controlar e arrecadar, porque o fazem de forma lúdica e remota e aparentemente útil (Muito melhores que o sistema antigo dos royalties e patentes e direitos autorais — também máquinas de arrecadar e controlar —, mas que, às vezes, exigiam uma viagem mais prolongada de algum porta-aviões e até algum desembarque de marines…). Sugam e extraem e caçam e colhem tudo e todos via satélite, sem sair do conforto e segurança das próprias fronteiras, erigindo, colateralmente, mais alguns bilionários humanófilos.

Seria o fim da História, não fosse a China. Dizem que a China bloqueou essa tropa toda. 

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

UM NOJO.

UMA VONTADE DE SAIR CORRENDO.
Passo em frente ao Shopping Paulista quase todo dia, é caminho da minha casa. E faz tempo, desde os tempos da Mesbla, uma loja de departamentos onde eu era freguês ocasional. Demoliram a loja, construíram o shopping, ele ficou velho, remodelaram, ampliaram, ficou novo de novo, tudo coisa fina, piso vitrificado, ar perfumado e eu ali, na calçada, pra lá e pra cá, atônito. De cinco em cinco anos, mais ou menos, entro lá, quando estou muito distraído. Foi o que aconteceu hoje.
Das outras vezes, eu entrava, ia até o meio do corredor do primeiro piso, acordava e saía, quase correndo. Dessa vez não foi diferente mas, ao acordar, lembrei do comércio de rua do centrão da cidade, que visitei e escrevi sobre, dia desses. Então saquei meu caderninho e caneta e fui em frente, para registrar o contraponto.
Olhando aleatoriamente e anotando os nomes que via: Piso 13 de maio: Criatiff, Puket, Capodarte, Clinique, Shoulder, World Tennis, Häagen-Dozs, Fast, Swarovski, Intimissimi, Opaque; Piso Maestro Cardim: Burger King, Océane, Shades express, Loungerie, Bayard, Maison Depil, Gregory, Bluebeach, Green; Piso Paulista: Sephora, Brooksfield, Siberian, Kipling, Polishop, The Graces, Side Walk, Anna Pegova, L’Occitane Au Brésil, Track & Field, Any, Munny, Khelf, Stroke, Crawford, M.Officer, Practory; Piso Paraíso: Tennis Station, Starbucks Coffee, Mr.Jack’s, Havanna, Braugarten, Baked Potato, ArtWalk, Le Pain Quotidien, Bacio di Latte, Calvin Klein. E agora tem uma seção no último piso, onde você pode comer finamente no The Fiffies Burger, no Bubble Kill ou no Outback Steakhouse.
Não andei todo o shopping não. Anotei só alguns nomes, até para não dar bandeira. O Banco do Brasil, a Zelo e a Quem disse, Berenice? pareciam lojas estrangeiras, num shopping de Nova Iorque.
De soslaio, examinava os frequentadores, enquanto lia as fachadas. Mais ou menos, 99% eram brasileiros, dos quais uns 1(hum)% dominavam a língua inglesa básica. 98% era brasileiros monolingues. Mais da metade eram analfabetos funcionais, sabe essas pessoas que não conseguem traduzir uma ideia em texto? Mas todos em roupa de missa, fascinados com o Deus-Cosmopolita, pisando miúdo, fazendo biquinhos, muito contidos, bem-comportados, sentindo-se em Miami, deslumbrados com todos aqueles detalhes e lojas finas, arrotando barbecue e peidando candy potato. Foi esse povo que fugiu do centrão de São Paulo. É essa mentalidade que atrasa nossa vida.
Na saída secundária da 13 de maio, enojado, ainda tive a pachorra de notar que a Fotótica agora é GrandVision: grande merda! Mas se você não quiser comer chocolate fabricado aqui com cacau nacional, coma Lindt: Maitre Chocolatier Suisse Depuis 1845, fabricado on Suisse, com cacau importado. Du Brésil.
Agora, se você quiser uma sugestão de nome fino e de responsa para um puteiro, eu tenho: Coffee Phodô.




terça-feira, 26 de setembro de 2017

UM DESGOSTO, UMA VONTADE DE CHORAR.

Hoje caminhei por três horas pelo centrão de São Paulo. Liberdade, centro velho, centro novo, região da 25 de março. A Rua Galvão Bueno, na Liberdade, é o centro do comércio oriental da cidade. Mas a irrelevância e a decadência também lá chegaram. Somente bugigangas e produtos banais.
Na Rua Quintino Bocaiuva, centro velho, havia loja de chapéus, de artigos esportivos, bons produtos. Lojas de calçados, bons calçados. Na Rua Direita havia as Lojas Americanas e as Lojas Brasileiras; enormes, transbordavam para o quarteirão de cima. A Americanas ainda persiste, mas irreconhecível, vagabunda. Na Praça do Patriarca, havia uma elegante agência bancária do Unibanco, hoje só tapumes.
Até os camelôs mudaram de nome, hoje são ambulantes. De fato, vivem pra lá e pra cá, exibindo poucas e ordinárias mercadorias, fugindo dos fiscais. Miseráveis por toda parte, às mancheias, muita gente segurando bíblias, falando pelos cotovelos, pelos ventos, para os fantasmas, e para poucos gatos pingados de carne e osso e pobreza.
Pobres por todo lado, alguns deles loucos. Não há sanidade que suporte tanto descaso. Corpos jogados ante nossos olhos familiarizados, em meio ao corre-corre da batalha.
No Viaduto do Chá há um comércio religioso, que a prefeitura não pode reprimir, parece que está enquadrado em “manifestações religiosas”, que a lei protege. As Casas Bahia ocupam o espaço do antigo Mappin, em frente ao Teatro Municipal, praça Ramos de Azevedo; as casas bahia, loja-símbolo da avacalhação comercial que nos assola. Rua Barão de Itapetininga, parece que até os caçadores de mão de obra barata desapareceram. E tome irrelevância comercial. Não se trata de lojas simples, produtos baratos. Trata-se de lojas ordinárias, apressadas, e mercadorias vagabundas, descartáveis: irrelevantes. Mais que as mercadorias, as lojas são baratas.
Irrelevância. Eis a palavra mais adequada ao centrão da cidade de São Paulo. Um comércio mesquinho para uma população invisível, que não conta.
O comércio digno desse nome e o dinheiro para sustentá-lo há muito que se refugiaram nos shoppings ou fugiram para alguns bairros ainda não invadidos pelos pobres. Mas tudo é questão de tempo e muita porrada. São 42 anos de cidade em movimento ante meus olhos estrangeiros, por isso observadores. Na 25 de março consigo ver a massificação e a impessoalidade das redes e vidas virtuais na multidão de carne e osso e suor e olhos vidrados nas vitrinas, consigo ver os tentáculos da irrelevância se estendendo pelos interiores e sertões em enormes sacolões e sacoleiras e ônibus fretados de comerciantes cansados.
Me invadem um desgosto e uma vontade de chorar, um choro de tristeza e raiva. A elite econômica brasileira despreza os pobres. Considera-os irrelevantes. Mais: ignora-os. Em 1975 éramos 100 milhões e ainda vivíamos resquícios do milagre econômico promovido pela ditadura militar. Em 2017, dobramos a população e dizimamos o centrão da maior cidade do Brasil. Pelo que acontece aqui no centro do país, dá pra imaginar a barbárie que grassa pelos cantos e recantos desse imenso território . Até quando a elite econômica brasileira vai fugir da miséria? Sim, trinco os dentes: o verbo exato é fugir. Porque não tem escapatória, um dia a rataiada acua o gato.


sexta-feira, 22 de setembro de 2017

CONVERSA MOLE.

Na Praça Oswaldo Cruz, ali no começo da Paulista, a moça bonita e simpática queria conversar comigo. Perguntei qual era o assunto. Unicef. Eu não queria. Ainda assim, ela agradeceu sorrindo.
Sobre outros assuntos eu poderia sim conversar com ela, mas sobre dar esmolas via Unicef não. Não, eu não queria dar nem entrar nem falar de um sistema quarterizado de arrecadação e entrega de donativos e outras ajudas. Que a fome no mundo não dependia de migalhas esparsas, mas de 2 ou 3 bombas H a menos testadas por ano, a ONU bem sabia.
No Viaduto Pedroso o rapaz de calça e camisa pretas vinha pela calçada em minha direção. Roupas bem-arrumadas, cabelos curtos e penteados, uns 30 anos de idade, veio chegando e, sem parar, me perguntou se podia falar comigo sobre Jesus Cristo. Eu disse que não podia. Ele então me desejou que Deus me mandasse pro Inferno. Eu respondi Amém nóis tudo.
Menos pior, porque ele poderia ter me mandado diretamente, ele mesmo, em seu próprio nome, e isto seria pior, porque sem intermediários. No caso, eu ao menos estou nas mãos de Deus… Tudo bem, sei que Deus é cruel até com os crentes, imagina com os increntes. Mas, enfim, vai saber quando Ele terá tempo de se ocupar de mim, tão longe das Suas vistas, e ainda via desejo de outrem tão minúsculo e insignificante.
Menos pior também porque ele poderia ter me mandado (ou pedido para me mandarem) para os quintos do Inferno. Ou para as profundezas do Inferno. Mas não, apenas desejou que eu fosse mandado para o Inferno, assim, genericamente. E isso é bem menos pior, porque, de repente, eu posso ficar ali logo no começo, num bairro chamado Limbo. Porque lá pelos quintos do Inferno me parece que é um gelo só e mais lá no fundo, é quente demais, além de ser muito próximo do chefe. Um friozão de vez em quando, como esses 7º negativos que peguei na montanha, feriadão passado, ou um calorzão daqueles de janeiro ali na Praia, até que são bons, de vez em quando. Mas eternamente, não tem tatu que aguente.
E, pensando bem, se Deus quiser atender ao desejo lá do seu crente maleducado do Vd.Pedroso, é bem provável que Ele, na ausência de exata especificação, me mande para o Limbo, porque é um lugar destinado aos não-pecadores incréus, uma categoria de gente que, modestamente, acho que me pode ser atribuída. É um lugar razoável, porque longe dos dois Chefes: o do Mal e o do Bem. Os gramados são sempre verdes e bem-aparados, as ruas são limpas, não tem algazarra, o problema é que você nunca deixará de ser você pra toda vida. É um lugar sem esperança. Mas a contrapartida positiva é que não tem hierarquia (não tem Chefe, é um lugar onde você é esquecido), ao contrário do Paraíso, onde os gramados também são verdes e bem-cuidados, mas é difícil chegar perto do Chefe, por causa da legião de puxa-sacos e de cargos disputáveis. E ainda, todos santos e, hipocritamente, desejando que você se dê bem na vida eterna. Acho que não vale a pena trocar a desesperança não supervisionada pela quimera de virar arcebispo e conseguir ao máximo um posto de vigário numa paróquia de terceira.
Minha paciência para ouvir e retrucar pode ser infinita. Ou ínfima. Depende. É ínfima quando o sujeito vem com uma conversa desesperada de salvação. Esses jovens do Greenpeace, aqueles outros Hare krishna, essas mórmons todas bem-arrumadinhas, aqueles neopentecostais, essas ONG’s em geral, instituições de caridade, contra o câncer... Fico muito impaciente quando alguém vem todo preocupado querendo salvar o planeta ou minha alma. Querendo me converter ou me guiar. Quando alguém que não conheço se mostra tão interessado em meu equilíbrio interior, insistindo em seus livros e soluções milagrosas. Alguém bem-nutrido vem me convocar para matar a fome dos famintos. Não tenho a consciência pesada, não estou desesperado para salvar nada nem ninguém. Nem a mim. Porque a Salvação vem sempre acompanhada do Desespero. Então não gosto nem da uma, nem da outra, e vice-versa. Não suporto esse papo interessado. Gosto mesmo é de uma conversa mole.


terça-feira, 19 de setembro de 2017

A HONESTIDADE.

Já contei aqui do mecânico alemão, que se vangloriava da própria honestidade. E que funcionava comigo, tanto que, a cada quatro meses, me abalava daqui do centro até Interlagos com meu fusca, pra regular o carburador e outras manutenções. Era uma epopeia a viagem de ônibus pra voltar, depois pra ir buscar. Tudo por causa da honestidade do hômi. Tudo bem que a honestidade do hômi me era importante, mas já então me incomodava a autodeclaração.
Porque a honestidade é uma condição inata. Ou deveria ser. Assim como a humanidade. Declarar-se humano, ou desumano, é uma estultícia (uma tolice, pra economizar sua ida ao google). Ser honesto é uma obrigação primária e, da mesma forma que ninguém se declara desonesto, ninguém deveria se declarar honesto. A honestidade é uma condição necessariamente outorgada por outrem, um terceiro. Outorgada, mas não declarada. Constatada, apenas, para efeitos práticos… Mas, na época do mecânico alemão, eu tinha mais que fazer e apenas estranhava, ligeiramente. Acusava a anormalidade mas, na dúvida, fazia um sacrifício danado pra deixar meu fusca em mãos confiáveis… autodeclaradas confiáveis!
Sim, n’algum ponto, entre aqueles longínquos tempos e esta parte, tive alguma conversa íntima comigo mesmo sobre a honestidade. Constatei, com algum alarme, que nunca me declarara honesto. Vejam bem, não em voz alta, para algum interlocutor de carne e osso, mas para mim mesmo. De fato, nunca me declarei, nem a mim mesmo, ser honesto. E, cá entre nós, tenho alguma dúvida. Nada, porém, que me abale. Porque a honestidade, bem… vai vendo:
No banco de trás, a mulher se declarava mulher direita, honesta, muito honesta. Em voz alta e bem articulada, tanto que eu ouvia direitinho, apesar do ronco do próprio ônibus e do trânsito infernal da Rebouças. Acho que voltava do serviço, conversava com uma outra, talvez trabalhassem na faxina de algum grande escritório. Aí a autodeclaração se complicava ainda mais, por se tratar de mulher. Porque, como sabemos, na mulher, a condição de “direita”, de “honesta”, assume uma conotação sexual. Tanto que eu, muito preconceituoso, logo deduzi que a mulher era assexual. Quer dizer, era direita demais, era honesta demais, só podia não gostar de sexo.

Taí um dos motivos da minha bronca com a tal honestidade, em que não havia pensado. Um outro é a banalidade. Sendo que, por algum recôndito desconfiômetro, associo o "banal" ao "venal". De fato, nunca engoli muito bem essas pessoas e essas instituições que vivem alardeando a própria honestidade. Ou o fazendo indiretamente, ao alardear a desonestidade alheia.  Porque desonestidade não se comenta, se prova. E se pune. Enquanto isso, todos são honestos. É algo parecido com a caridade: quando alardeada, perde o efeito. Ou deveria perder...

É inconcebível tratar com um desonesto notório. Quem tem fama de desonesto, pode procurar outra freguesia. É algo perpétuo, o cara pode virar santo que não adianta. Sim, a honestidade é condição indispensável, na vida prática, todo mundo sabe. Daí porque os pobres de espírito não conseguem ser honestos e ficar calados. 

domingo, 17 de setembro de 2017

VOLTEI A JOGAR FUTEBOL.

Ressuscita o craque que habita em mim.
Campinho improvisado, gramado do Ibirapuera. Os velhos jogavam. Sete pra cada lado, vermelhos contra azuis. Solitários, torcida zero. Cheguei, parei, assisti. Torcida um. Gostaram, perguntaram se eu queria jogar. Eu queria. Tinha corrido 10 Km, mas nem parecia, diante da bola. Quer dizer, da vontade de jogar bola. Há mais de 30 anos que eu não chutava uma bola. Chutar, chutara, mas jogo mesmo, azuis contra vermelhos, há mais de 30 anos. Porém, antes, o dono da bola e das traves de cano e das fitas que delimitavam o gramado se acautelava quanto ao meu nível de categoria. Eu era bom de bola? Porque, se fosse, não jogava… Logo veio um outro dizendo que eu me parecia com o doutor Sócrates. Aproveitei a deixa para informar ao dono da bola que aquela era uma boa comparação… Meio ressabiado, ele me deixou entrar. Na terceira bola que me foi endereçada, a danada bateu em mim e saçaricou pra lá e pra cá como se tivesse vida própria e escapuliu feito um preá. Um dos meus parceiros aproveitou para me informar que eu estava aprovado, eles me deixavam jogar…
Mas dentro de mim habita um craque. Tudo questão de desenvolvimento… Tenho a maior admiração por quem consegue matar uma bola no peito. Nunca consegui. Também nunca treinei, nunca insisti. Diferente do estilingue. Com o estilingue, onde eu batia o olho, punha a pedra. Tá certo que, na maioria das vezes, o passarinho saía daquele lugar uma fração de segundos antes, mas se cochilasse, morria. Mas eu dormia com o estilingue no bolso, vejam bem. Com a bola… Bem, nem bola eu tinha.
Comecei jogando no gol, indício de perna de pau, segundo os experientes. Que nada, Pelé também começou jogando no gol. Eu tinha visão estratégica e boa noção espacial do gramado. Se tivesse insistido, teria me tornado um goleador. Não como o doutor Sócrates, que além de ter visão (não só do gramado, mas do jogo e da safadeza), era craque, desses que amansam a bola, mas como um Dario, talvez com um pouco mais de noção. Para os desinformados, Dario foi o centroavante imposto ao João Saldanha pelo Médici, na seleção tricampeã do mundo, no México, em 1970.
Enfim, a bola sobrou pra mim, limpa e quieta, dentro da grande área… Não tem coisa mais feliz no mundo que uma bola mansa só nossa dentro da grande área, de frente pro gol. Com uma frieza realmente digna do doutor Sócrates, só rolei a pelota para o canto esquerdo do goleiro, que aceitou. Antes de chutar, refleti que, se chutasse forte, a bola iria longe, atravessaria a avenida, coisa trabalhosa de se buscar. Foi nessa hora que decidi chutar com a esquerda. Sendo que, pra chutar, sou destro. Impressionado e demonstrando muita contradição, aquele mesmo parceiro que me comunicara que eu estava aprovado, naquele lance anterior e desastrado, me falou baixinho que eu tinha que maneirar, senão não me deixavam jogar…
Mas, ao final do tempo regulamentar, eu fui aprovado sim. Tanto que me convidaram para o sábado seguinte. Se não me divertir jogando bola, me divirto vendo quão fácil aqueles velhos caem. E a dificuldade que é se levantarem. Com uma coisa já estou conformado: para a copa da Rússia não dá mais tempo.


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

O COMUNISMO IN HOWARD ST.

O marxista de San Francisco.
Vou seguindo pela Howard St, louco pra chegar a 9th St e sair logo daquele sufoco, quando encontro o James:
Putz, que que ocê tá fazeno aqui, cara?
Oxente, passeando. Tamém posso!
É assim. Nego pega uma graninha e já vai pensando. Entramos numa padaria, quer dizer uma panederia, ou sei lá como eles chamam aquelas biroscas em que você come hot dog por metro e toma refrigerante aos quilômetros. É, à vontade, um atentado ao pudor do estômago.
Que que cê aprontô lá em S.J.Rio Preto, semana passada?
Só organizei uma pescaria no Rio Grande, eu, Cidão, Newton e Cleber mais Helena, Dayse, Vivi e Carminha.
O verão na norte-américa comia solto. Aquele sol era coisa de entocar tatu. Saímos andando pela calçada, finalmente dobramos na nona avenida, os táxis com aquela cor esquisita passavam devagarzinho… ou ventando, dependendo se estavam vazios ou cheios. De repente, passamos uma avenidona mais larga e, a cidade que era quadrada, passou a ser de esguelha, ô tristeza pra um turista de julho latinoamericano.
Quê que cê acha desse comunismo aqui, esse monte de gente comendo igual, vestindo igual, falando mal?
Ah, rapaiz, num repara. Aqui nos States é assim mesmo. Quem fala direitinho e não se mistura é maranhense. Isso aqui é enrolado porque é tudo mexicano. Mas em New Yorq é pior. E se você for subindo, cada vez pior, quanto mais brancos, mais alemães…
Alemães!?
É, marxistas. Os tataranetos daqueles irlandeses adoram imitar os vizinhos, obedecer aos comandos das agências publicitárias. Estadunidense de verdade não resiste a uma boa campanha. Adoram colaborar.
James era terrível. Pior era que o cara sabia das coisas. Batia o olho e sacava. Quem diria que aquele moleque descalço, sempre com o nariz escorrendo e o estilingue pronto, ira virar isso. Mas é claro que ia, onde punha o olho, punha a pedra. Moleque de dois rodamoinhos no centro da cuca, tava na cara. Sacou uma carteira de cigarros, me ofereceu um, falei que não fumava.

Na Grove Street, em frente a um monumento grandão, nos despedimos. Ele foi pro lado da Beach, eu fui pro lado do Embarcadero. Por hoje chega, que não aguento mais os pés. Turista sofre. Bem feito! Êta mundo pequeno, a Rússia é logo ali, depois do Alasca.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

MARXISTAS & ESPÍRITAS.

Me lembro bem da década de 1990, quando o neoliberalismo se aportou por aqui. Posso testemunhar algo talvez útil para os mais jovens. Trabalhava num banco estatal dirigido por um tucano mais realista que o tucano que o indicara. Trabalhava em meio à hierarquia carreirista ou inocente, quase todos oportunistas puxa-sacos dos poderosos de plantão. A coisa engrenou quando Collor, presidente desde 1990, declarou que os carros fabricados no Brasil eram todos carroças, e abriu o mercado e hoje nossos carros são maravilhosos… Itamar, que sucedeu o Collor, restaurou o fusquinha, para fazer um marketing-contraponto. E, em seguida, chegou a turma do FHC, para executar as diretrizes ditadas alhures e domesticar a hiperinflação à custa de recessão, desnacionalização e juros altíssimos, com congelamento salarial e repressão sindical.
E muita ladainha liberal.
Só lembrando que, em 1989, despontou o PL-Partido Liberal, cujo candidato à presidência era um tal Afif Domingos, militante da Associação Comercial. Liberal de livre-iniciativa. Esse tal Afif hoje dirige o SEBRAE, voltaremos a ele.
No governo FHC foi um tal de cortar, privatizar, desestimular, esvaziar empresas estatais. Funcionários eram convidados a se demitirem, com alguma indenização. É aí que entra o tal Afif e seu evangelho da livre-iniciativa. Esse evangelho tinha até livro: chamava-se “Quem mexeu no meu queijo”, de um escritor de best sellers estadunidense, especialista no mundo corporativo. (aliás, é dessa época a expressão mundo corporativo). Era uma parábola que objetivava convencer nossas mentes acomodadas a se acostumarem com o futuro incerto, o queijo imponderável. Sugeria que mandássemos às favas nossas carteiras profissionais, pegássemos o dinheirinho da indenização e abríssemos um negócio próprio, que demitíssemos nosso patrão.
Era um tal de “eficiente e eficaz” pra cá, um tal de “quebra de paradigmas” pra lá…
E, no miolo de campo, o baixo clero tucano com suas planilhas e seu vocabulário (que fez a carreira do Macaco Simão, ao sistematizar o tucanês) e suas sinecuras de assessoria (alguns amigos do rei oriundos das estatais ou das academias se deram bem aí) e o Afif e o SEBRAE e sua turma a nadar braçadas entre os tolos e suas pequenas boladas e seus sonhos de patronato.
Crentes convictos, abriam logo suas bodegas, para fechar depois de um ano, e sair sem nada, no desespero, caindo em qualquer ratoeira, indo atrás do queijo em Ciudad del Este, arrastando sacolas entre a 25 de março e consumidores esparsos pela cidade, entrando feito vacas loucas em pirâmides, vendendo salgadinhos, se virando em freelas, e nunca deixando de acreditar no sonho. As naturas e avons e herbalifes estão aí para corroborar tal inquebrantável fé. Porque no mundo da concorrência verdadeira, enfrentada pelos pequenos, sobrevive apenas raros eleitos e outros poucos de cotovelo duro.
É gente que não entende de linguagem figurada, gente que faz das lendas uma aventura literal. É gente pobre, inculta, rasa. Subgente, cidadãos de segunda, vivendo debaixo do tacão da liberdade zero, sob o lema “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Nós todos, a grande maioria, todos potenciais ou reais vítimas desses gurus explícitos ou dissimulados.
Porque, minha gente, a Matemática! A Física! (vamos dar um tempo à História, é complicado demais…). Essa conversa de livre-iniciativa é para os tolos. Não existe espaço para todos, no mundo dos negócios, segundo essa visão do Afif, do Sebrae, do Partido Liberal, que queria selecionar seus candidatos através de concursos. Não, não eram nem são inocentes, esses do fracassado PL. São exímios manipuladores das nossas mentes tolas. Inspiraram os tucanos que, mais numerosos e pragmáticos, erigiram uma língua própria e uma macroeconomia de fachada.
Os tucanos erigiram uma língua e um muro e, de lá de cima, passaram a descrever e operar uma próspera Economia virtual… Nas planilhas e relatórios e atas e colunas de jornais e TV, o mundo brasileiro nunca fora tão pleno, exceto a Previdência, que ia quebrar no semestre seguinte (e olha que o salário mínimo valia 1/3 — um terço — do que vale hoje). Passamos os 8 anos (de 1994 a 2002) sob esse terrorismo. Se você estava desempregado e sem renda, a culpa era sua, que não ousava, não inovava, não empreendia, não saía pelo labirinto a procurar a nova localização do queijo (já perceberam que essa lenga-lenga voltou, sob o neogoverno?).
Porque, pessoas, insisto: não há saída fora dos grandes aglomerados estruturantes da economia, sejam privados, sejam estatais, sejam coletivos. Essa coisa de cada um por si e o mercado para todos é colóquio flácido para acalentar bovinos e enriquecer gurus (esses vendedores de receitas e palestras e livros de autoajuda, além daqueles outros mais prosaicos, que cuidam das nossas dúvidas existenciais).
O individualismo — a liberdade individual —, não vai além do direito de espernear. Ainda assim, de forma muito limitada, de maneira muito localizada, no tempo e no espaço.
A menos que nos libertemos das necessidades do corpo. A menos que não mais tenhamos que ir atrás do queijo todo dia, de nos preocupar com moradia, transporte, alimentação, saneamento, aposentadoria… É aí que entram os marxistas e os espíritas:
Quando as estruturas forem tão poderosas e tão organizadas e tão fartas e tão produtivas e tão automatizadas, a igualdade será inevitável e ninguém mais precisará correr atrás do queijo-mercadoria farto e variado e todos poderão ficar o dia inteiro escrevendo tolices no feicibuque.
Ou então, que se salvem os mais espertos enquanto puderem, porque a nosotros a felicidade é certa: quando nossa alma se livrar desse nosso corpo corrupto e exigente.