domingo, 26 de novembro de 2017

TELETELA.

Embevecida, a garçonete vê a notícia. Eu vejo a notícia, você vê a notícia, todo mundo vê a notícia, não tem como escapar da notícia do dia. Todo dia acontece algo muito, muito importante, que ninguém pode deixar de saber. Enquanto a moça fica pesarosa ou embasbacada em frente a TV, eu tento escapar dela — da TV —, viro pro outro lado mas, lá está outra TV, ligada na mesma estação. O narrador narra e enfatiza, que esse é o seu papel. E a moça se prostra em frente, sabe lá o que está pensando da tragédia do dia. Ela está trabalhando, e vendo a notícia, mas se estivesse no médico, no pronto-socorro, no supermercado, na rodoviária, no correio, no dentista, no banco, no metrô, no smartphone, no quarto, na sala, na cozinha, estaria vendo a mesma notícia. É uma coisa pesada, grave, ela realmente se preocupa e sente muito, mas não pode fazer nada. Aliás, não deve fazer nada. Enquanto ser passivo, ela não deve fazer nada. É isso que esperam dela e é essa a função dessas notícias urgentes e diárias. E ela sente muito de verdade, mas tem certeza que nada pode fazer, a julgar pela sua retirada pesarosa da frente da tela da TV. É uma mulher jovem, de boas carnes, parece saudável de corpo e boa de cabeça. O diabo é que essa moça, assim como o pessoal da cozinha e a mulher do balcão-caixa, são pessoas dinâmicas, criativas e eficientes, tanto que me serviram, em dois pratos — um grande e um pequeno —, uma travessa de inox e uma cumbuca de cerâmica, arroz, feijão, bife acebolado com fritas, salada de alface e tomate e, na cumbuca, farofa. Tudo cozido e temperado no ponto, na temperatura certa, na combinação certa, com os toques da salada crua e da farofa, uma combinação alimentar digna de pessoas inteligentes. Mas, diante da TV, a moça e seus colegas silenciam, passivos e compungidos. E eu engulo. (Da séria “Crônicas de Guardanapo”).

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