Embevecida,
a garçonete vê a notícia. Eu vejo a notícia, você vê a notícia,
todo mundo vê a notícia, não tem como escapar da notícia do dia.
Todo dia acontece algo muito, muito importante, que ninguém pode
deixar de saber. Enquanto a moça fica pesarosa ou embasbacada em
frente a TV, eu tento escapar dela — da TV —, viro pro outro lado
mas, lá está outra TV, ligada na mesma estação. O narrador narra
e enfatiza, que esse é o seu papel. E a moça se prostra em frente,
sabe lá o que está pensando da tragédia do dia. Ela está
trabalhando, e vendo a notícia, mas se estivesse no médico, no
pronto-socorro, no supermercado, na rodoviária, no correio, no
dentista, no banco, no metrô, no smartphone, no quarto, na sala, na cozinha,
estaria vendo a mesma notícia. É uma coisa pesada, grave, ela
realmente se preocupa e sente muito, mas não pode fazer nada. Aliás,
não deve fazer nada. Enquanto ser passivo, ela não deve fazer nada.
É isso que esperam dela e é essa a função dessas notícias
urgentes e diárias. E ela sente muito de verdade, mas tem certeza
que nada pode fazer, a julgar pela sua retirada pesarosa da frente da
tela da TV. É uma mulher jovem, de boas carnes, parece saudável de
corpo e boa de cabeça. O diabo é que essa moça, assim como o
pessoal da cozinha e a mulher do balcão-caixa, são pessoas
dinâmicas, criativas e eficientes, tanto que me serviram, em dois
pratos — um grande e um pequeno —, uma travessa de inox e uma
cumbuca de cerâmica, arroz, feijão, bife acebolado com fritas,
salada de alface e tomate e, na cumbuca, farofa. Tudo cozido e
temperado no ponto, na temperatura certa, na combinação certa, com
os toques da salada crua e da farofa, uma combinação alimentar
digna de pessoas inteligentes. Mas, diante da TV, a moça e seus
colegas silenciam, passivos e compungidos. E eu engulo. (Da séria
“Crônicas de Guardanapo”).
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