quarta-feira, 22 de novembro de 2017

DEUS É FIEL, EM SOROCABA.

(da série “Crônicas de Guardanapo”).
Bici lá fora, no meio-fio da Av.Ipanema, debaixo do sol do meio-dia, enquanto eu esperava o prato-feito no restaurante em que Deus é fiel. Nenhuma onda, nenhuma árvore, nem praia, nem floresta. Era Sorocaba, aqui na zona da...sorocabana!, interior de São Paulo. A avenida Ipanema é o prolongamento da estrada vicinal que vem de Iperó, que passa ao lado da Floresta Nacional de Ipanema, uma mata cheia de história duns 10 Km de extensão.
Era um desses locais puros, que só abrem para o almoço e servem um único prato já montado. O freguês só escolhe a mistura, coisa de três ou quatro opções. Bem do jeito que eu queria, nada de self-service, comida por quilo, essas coisas. Porque eu já tava farto de self-service, prático e variado demais pro meu gosto e que virou praga no mundo. E ainda vão piorando, com a moda do “coma a vontade”, sendo que nunca tive vontade de comer vontade nenhuma.
O problema desse restaurante era que, nele, Deus era fiel. Ao menos, estava escrito a giz, ao final das opções de mistura, numa lousa-cavalete na entrada. Mas o sol estava quente, eu estava cansado do terrível trecho em que acabara de pedalar, e o resto casava tão direitinho com as minhas necessidades, que acreditei assim mesmo.
Era pequeno, havia umas 10 mesas de dois lugares e eu aguardava o PF sozinho, nenhum outro freguês. De repente, um carrão parou na porta, quase atropelando a Bici, e dele desceu uma dona exuberante com um decote generoso e um escandaloso salto quinze no sapato, que entrou e se sentou em outra mesa, sem que nem ela nem ninguém da casa pedissem ou servissem algo. Daí a pouco se juntou a ela, na mesa, um homem bem mais velho, desses de óculos escuros e corrente e pulseira de um metal amarelo-lustroso.
Parece que eu fora o primeiro freguês do dia, porque, daí a pouco, entraram dois homens elegantes de corpos e vestes e se sentaram na mesma mesa, segurando um na mão do outro e falando baixo. Foi por essa hora que meu PF chegou, trazido por uma senhora curtida de sol e de tempo, mas de traços bem expressivos, com jeito de cozinheira e dona. O feijão estava no ponto, grãos inteiros e bem cozidos, quase nenhum caldo. O arroz do lado estava bom, mas eu e minha fome comeríamos o dobro. Sendo que o PF não era bem um PF, porque acompanhava mais dois pratinhos, um com uma salada com toques de trigo e outro com o filé de pescada frito.

Entretanto, comi e fiquei satisfeito. Tudo muito discreto, simples e refinado, não fora a humana e escrita declaração da fidelidade divina. Ao contrário do “coma três, pague dois” dos desesperados que proliferam no comércio da fome, nenhum preço escrito em lugar nenhum. Dirigi-me ao caixa, já conformado com a facada. Então vi uma imagem da Nossa Senhora Aparecida sobre o balcão. E fiquei mais desconcertado ainda quando tive de pagar apenas 10 reais. O ícone dos católicos convivendo pacificamente com o bordão dos crentes e uma freguesia nada convencional nem conservadora. Saí rápido, porque aquilo tava cheirando a covil de irônicos materialistas. 

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