(da
série “Crônicas de Guardanapo”).
Bici
lá fora, no meio-fio da Av.Ipanema, debaixo do sol do meio-dia,
enquanto eu esperava o prato-feito no restaurante em que Deus é
fiel. Nenhuma onda, nenhuma árvore, nem praia, nem floresta. Era
Sorocaba, aqui na zona da...sorocabana!, interior de São Paulo. A
avenida Ipanema é o prolongamento da estrada vicinal que vem de
Iperó, que passa ao lado da Floresta Nacional de Ipanema, uma mata
cheia de história duns 10 Km de extensão.
Era
um desses locais puros, que só abrem para o almoço e servem um
único prato já montado. O freguês só escolhe a mistura, coisa de
três ou quatro opções. Bem do jeito que eu queria, nada de
self-service, comida por quilo, essas coisas. Porque eu já tava
farto de self-service, prático e variado demais pro meu gosto e que
virou praga no mundo. E ainda vão piorando, com a moda do “coma a
vontade”, sendo que nunca tive vontade de comer vontade nenhuma.
O
problema desse restaurante era que, nele, Deus era fiel. Ao menos,
estava escrito a giz, ao final das opções de mistura, numa
lousa-cavalete na entrada. Mas o sol estava quente, eu estava cansado
do terrível trecho em que acabara de pedalar, e o resto casava tão
direitinho com as minhas necessidades, que acreditei assim mesmo.
Era
pequeno, havia umas 10 mesas de dois lugares e eu aguardava o PF
sozinho, nenhum outro freguês. De repente, um carrão parou na
porta, quase atropelando a Bici, e dele desceu uma dona exuberante
com um decote generoso e um escandaloso salto quinze no sapato, que
entrou e se sentou em outra mesa, sem que nem ela nem ninguém da
casa pedissem ou servissem algo. Daí a pouco se juntou a ela, na
mesa, um homem bem mais velho, desses de óculos escuros e corrente e
pulseira de um metal amarelo-lustroso.
Parece
que eu fora o primeiro freguês do dia, porque, daí a pouco,
entraram dois homens elegantes de corpos e vestes e se sentaram na
mesma mesa, segurando um na mão do outro e falando baixo. Foi por
essa hora que meu PF chegou, trazido por uma senhora curtida de sol e
de tempo, mas de traços bem expressivos, com jeito de cozinheira e
dona. O feijão estava no ponto, grãos inteiros e bem cozidos, quase
nenhum caldo. O arroz do lado estava bom, mas eu e minha fome
comeríamos o dobro. Sendo que o PF não era bem um PF, porque
acompanhava mais dois pratinhos, um com uma salada com toques de
trigo e outro com o filé de pescada frito.
Entretanto,
comi e fiquei satisfeito. Tudo muito discreto, simples e refinado,
não fora a humana e escrita declaração da fidelidade divina. Ao
contrário do “coma três, pague dois” dos desesperados que
proliferam no comércio da fome, nenhum preço escrito em lugar
nenhum. Dirigi-me ao caixa, já conformado com a facada. Então vi
uma imagem da Nossa Senhora Aparecida sobre o balcão. E fiquei mais
desconcertado ainda quando tive de pagar apenas 10 reais. O ícone
dos católicos convivendo pacificamente com o bordão dos crentes e
uma freguesia nada convencional nem conservadora. Saí rápido,
porque aquilo tava cheirando a covil de irônicos materialistas.
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