sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Da minha janela, brinquedos.

PARQUE DE DIVERSÕES.

Tomei café e saí na janela para ver o mundo. Céu luminoso e mais ou menos limpo, por causa da chuva de ontem, friozinho gostoso, eu estava predisposto querendo ser feliz. De repente vi que o mundo havia se transformado num parque de diversões. Carrinhos pra todo lado, pra lá e pra cá, nas paralelas e transversais e no entremeio. Dentro de cada um, um homem brincando, feliz com seus badulaques.

Explico. Em frente ao meu prédio há um grande terreno vazio, que atravessa o quarteirão, resultado de múltiplas demolições de casarões antigos da Bela Vista. (Há placas anunciando que serão erguidas algumas torres nele). Minha janela fica a uns 15 metros de altura, de modo que vejo a minha rua e a rua de trás e também a transversal da esquerda. E é aí que vejo os carrinhos de brinquedo que vão e que vêm e que sobem e que descem. E adivinho o abrir e fechar dos faróis vendo os três trechos se entupirem e se esvaziarem com os brinquedos. E vejo centenas de brinquedos entupindo estáticos o terreno vazio em frente. E vejo também o posto de gasolina na esquina à esquerda e sinto o cheiro da oficina mecânica embaixo e ouço os esguichos do lava-rápido ao fundo e me divirto com a estridência do apito do marronzinho porque o farol embandeirou.

E ninguém buzina. Estão brincando, não carece de ter pressa. A buzina está fora de moda. Pior: a buzina denuncia amadorismo, ou seja, impaciência. E só os inexperientes são impacientes, os que vão trabalhar de ônibus todo dia e, eventualmente, tiram o brinquedo da garagem. Então sofrem, se desesperam, buzinam. Para escárnio dos experientes motoristas de todo dia, já devidamente adaptados ao parque.


Não, não é circo. É parque. Um parque pobre, porque só tem um brinquedo, mas grande. Um parque do tamanho do mundo que me envolve, que me aliena.  

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

CRÔNICA DE BICICLETA Nº DOIS.

CUIDADO! VIDRO NA PISTA.


Ia eu pela ciclovia da Rua Humaitá, coração do Bixiga, quando comecei e ver grãos de vidro no asfalto. Já havia visto vidro no asfalto em outros trechos e dera de ombros. Faria o mesmo ali, não fora um carro invadir a faixa vermelha bem na minha frente, para dar passagem ao carro que vinha atrás, enquanto aguardava para entrar numa garagem. Aproveitei a guia rebaixada e invadi a calçada, desmontando em seguida. Ao mesmo tempo apareceu na calçada alguém que saiu de uma porta qualquer e parou bem na minha frente. Era um sujeito gordo de cerca de 30 anos, nem preto nem branco nem amarelo, vestido de modo desleixado. Aproveitei sua presença para destilar meu veneno: “Como se quebra garrafa neste trecho da rua, não!”. O cara passou recibo na hora: “Esse prefeito tá de brincadera cu nóis. Isso aqui é um abissurdo”. “Você num gosta da ciclovia?”, perguntei. “A mulher dele abriu uma loja de tinta, oitocentos por quilômetro, não pense que isso é bom pra vocês não”, retrucou ele. Eu ia responder alguma coisa, mas olhei bem pra ele, pra rua, pras casas, vi a tristeza do comércio pobre decadente e senti a presença de indivíduos solitários em cada uma daquelas portas, reformando, consertando, costurando, engraxando, sendo achacados por fiscais, aterrorizados por contabilistas, esmagados pela Justiça Trabalhista contra eventuais empregados informais do passado, assaltados por pivetes... e, como desgraça pouca é bobagem, ainda vinha a prefeitura e passava uma faixa vermelha na porta para afugentar de vez os minguados clientes motorizados que não mais parariam ali em busca de um oportuno quebra-galho. Senti a vida desses pobres coitados donos de lojinhas à mercê da sorte e da braba concorrência que realmente funciona para eles, sem dinheiro para pagar plano de saúde e escola para os filhos, serviço diferenciado que eles tanto valorizam, em suas burguesas expectativas. Adivinhei o desespero que se apossa dessas criaturas ali pelos quarenta anos, quando começam a pensar na aposentadoria, que só virá, quando muito, aos 65 anos, com o mísero salário mínimo. Nada perdoei, porque nem eu era o mocinho nem ele era o bandido e nós dois estávamos ali de gaiatos. Mas a fita precisava rodar e alguém precisava puxar o gatilho. Então saquei da mochila um papel e uma caneta e fingi anotar o endereço, olhando pra fachada e pros cacos de vidro. Simulava anotar, como se numa operação de guerrilha, no meio da selva, frente ao exército regular do que está estabelecido. 

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Dando uma de Prof. Pasquale

ENTORNO DO BAOBÁ:
(Dando uma de Prof.Pasquale.)

Um professor Pasquale de meia tigela. Ou tijela?

Estava eu viajando pelo Parque Ibirapuera quando, no meio da viagem, vi um baobá. Viagem ou Viajem?

Curioso, andei em volta dele pra ver melhor. Não é todo dia que a gente vê um baobá. A gente ou agente? Em volta ou envolta? Era perto da marquise, que estava envolta por uma fina fuligem suspensa no ar. Ou marquize, fulijem e suspença?

Sei lá, uma coisa tinha tudo a ver com a outra. Ou tinha tudo haver?
Um baobá criança. Não, um baobá bebê. Sendo que fica uma árvore tão grande, tão barriguda...
Alfim, parei pra ver melhor. Havia uma placa ao lado da árvore-bebê. Uma lusitana que estava por ali se aproximou e me disse, zombando, que eu havia, ao fim, sossegado.  Alfim ou ao fim?

Então, fui ler a placa. Sendo que, pra mim, não existe escrita errada, erro de português, essas frescuras. Desde que não gravadas em metal e fixadas na via pública.

Porque o título da placa era: ENTORNO DO BAOBÁ. Era não. É. A placa continua lá. A chapa é de uma lata vagabunda pra ninguém recolher para o ferro-velho; não, acho que deve ser de plástico; foi-se o tempo em que se fixava placa de bronze ou de chumbo ou mesmo de ferro para esses registros. A coisa tá tão braba que não dura uma noite. Tá ou está? Braba ou brava?

Fui lendo, de repente:
Ou Derrepente?

De repente:

“Na África, o baobá é uma árvore sagrada. Reza a história que alguns africanos saídos da Costa Ocidentes, antes de embarcarem nos navios negreiros, eram obrigados por seus captores a dar voltas entorno de uma baobá, conhecido assim como "Árvore do Esquecimento": pois a ideia era forçar os africanos a se esquecerem de suas culturas e da vida livre que levavam nas suas terras natais.”

Olhei bem, me belisquei, eu havia detectado algum erro grosseiro na placa. Se fosse no jornal ou no livro eu não teria visto. Mas era na placa. Olhei em volta. Gente em cima, gente embaixo, o parque estava cheio, eu estava acordado. Ou gente encima, gente em baixo?

Menos pior seria “dar voltas em volta de uma baobá”. Uma baobá? Porque o título – fui conferir – avisava que estávamos no entorno do baobá. Afinal, é homem ou mulher esse ou essa baobá? Ops, masculino ou feminino? Estava eu a fim de complicar? Ou afim? Atônito, dei algumas voltas em torno da arvorezinha.

Então me lembrei da lusitana, mas, quando fui procurá-la para elucidar tantas dúvidas, cadê a lusitana? Não encontrei nenhuma lusitana. Nem uma!


Enfim – ou em fim? -, o que me consola é que o baobá não tem nada com isso. Aproveito para parabenizar o Museu AfroBrasil pelo plantio dela, a árvore, a baobá. E recomendo a visita ao museu, que é excelente. Tudo isso no Brasil. Com “S”.

sábado, 15 de agosto de 2015

Crônica de Bicicleta nº Um.

CRÔNICA DE BICICLETA Nº UM.

Pego a ciclovia da Avenida Liberdade em direção ao centro velho. Passo ao lado da praça onde há uma feirinha com temas orientais. Na Praça da Sé ouço um som mavioso que escapa pela porta lateral da catedral. No largo em frente à igreja o mundo se enche de sons retalhados de pregações diversas. Fora isso, o centro velho está morto no sábado pós-almoço. Mas na Praça Ramos, em frente ao antigo Mappin, um senhor com uma parafernália eletrônica e um violão canta músicas norte-americanas dos anos oitenta.

A Ipiranga com a São João já não é mais aqui. Vou passar lá no final da viagem, aguardem. Praça da República. Arouche. Avenida São João, sob o elevado. Ciclovia nova. Nada. Nenhuma cidade. Parque Fernando Costa. Muita música ao vivo, em pequenas rodas. Uma roda de violeiros, música caipira. Pavões e guarnizés. Atravesso empurrando, não pode andar de bicicleta no parque. Não fale bike perto de mim. Não despreze uma das mais bonitas palavras da nossa língua.

Avenida Sumaré. Estádio do Palmeiras. Paro na banca. Leio na revista que Lula ganhou R$27 milhões. De 2011 a 2014, 48 meses. Ladrão? Nem tanto. Faço a conta, dá R$560 mil por mês. Cerca de ¼ do salário do Neymar. Sendo que Lula é muito mais craque do que Neymar, em suas respectivas searas. Bem menos do que ganha o ex-presidente Clinton, mas mais do que ganha FHC. FHC é perna-de-pau... É imoral? É imoral. Mas também é imoral um gerentinho de banco ganhar dez vezes mais que um funcionário comum. O capitalismo é imoral. Sigo. Subidona. Amoras e pitangas. É tempo de amoras. Logo mais teremos pitangas também.

Avenida Paulista. Avenida Ipiranga com a São João: Augusta. Em frente ao Banco do Brasil, um homem, um violão e uma caixa-de-som cantam desafinado. Do João Gilberto. No canteiro central eu paro pra ouvir. Do outro lado, em frente ao Banco Safra, há uma epidemia de artistas e artesãos. E alguém faz estripulias numa guitarra. Ao vivo. Sob a marquise do Conjunto Nacional, um casal dança. Bicicletas esvoaçam por toda parte, muitas bicicletas agarradas a postes, portões e grades.

No vão livre do MASP muitas bandeiras verde-amarelas. Vejo de longe. Mas não é amanhã? São muitas bandeiras, deve ter muita gente. Aproximo. Sete manifestantes e quinze bandeiras. Bandeiras enormes. Bandeiras da pátria. Seguram quatro cartazes, três em inglês e um em português. “Não queremos o comunismo no Brasil”. De fato, porque como será pra viajar de avião quando o comunismo for implantado no Brasil? se já está um inferno com um arremedo de governo popular?

Embaixo da FIESP há uma mini-banda de metais. Sendo dois bombardões, dois pistons, um trombone, uma bateria. Os músicos tocam dançando. Há outros metais que não identifiquei, uns dez, jovens garotas e garotos. Pouco adiante, do outro lado, em frente à mansão dos matarazzos, mais músicos tocando ao vivo. A mais cosmopolita das avenidas da cidade é uma festa, neste sábado à tarde. O que será dela quando a prefeitura fechá-la aos domingos para os automóveis?

Enquanto isso, na periferia, a guerra local come solta, sem nenhum charme.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Rato de Biblioteca.

RATO DE BIBLIOTECA

Não me considero um rato de biblioteca, mas tenho frequentado com alguma assiduidade a Biblioteca Mário de Andrade e a do Centro Cultural SP.  Não leio lá, contudo; empresto os livros pra ler em casa. Aproveito para informá-lo que a Prefeitura de São Paulo tem muitas bibliotecas espalhadas por diversos bairros da cidade (Veja aqui). Você pode se cadastrar numa delas e vale para toda a rede. Basta um documento de identidade e um comprovante de residência. Então você pode levar os livros para casa. Para ler na própria biblioteca o acesso é livre. O acervo pode ser consultado on-line (Acesse aqui) .

Frequento bibliotecas desde os 13 anos de idade. Havia uma no IEEF – Instituto de Educação Estadual de Fernandópolis, em que cursava a sétima série, em 1970. Nunca me esqueço, dentro dela havia também um piano. Minha professora de música levava a gente lá, às vezes, pra se exibir. Ela tocava. Foi minha primeira biblioteca. Ela tinha um cheiro peculiar. Desde então, em toda biblioteca que entro, sinto aquele cheiro. Eu lia lá dentro, nos intervalos regulares e nas janelas de aulas de professores que faltavam. Nem sei se havia a possibilidade de levar os livros para casa. Isso nunca me passou pela cabeça. Em minha casa eu tinha mais quê fazer... Tudo ficção, contos, romances, novelas... sem qualquer critério, sem qualquer orientação. Hoje penso que se os professores tivessem faltado mais, eu teria aprendido mais. Quando batia o sinal, eu devolvia o livro na estante e marcava na memória a página em que havia parado. No outro dia, retomava. Nunca deixei de encontrar o livro no lugar em que deixara. Não havia perigo, não havia concorrência...


Mas na Biblioteca Mário de Andrade há concorrência. E descobri um truque antiético usado por alguns leitores. Eles escondem o livro que estão lendo ou que irão ler em breve. Para tanto, basta deixá-lo fora da ordem nas estantes. Não, não vou dizer qual o livro que se encontra perdido lá nas estantes da Mário de Andrade e que estou procurando há tempos, para não despertar seu interesse e aumentar a concorrência. Eu entro no catálogo on-line e o livro está lá, disponível. Só que ele não se encontra onde deveria. Está perdido. Está escondido. Sacanagem. Mas, enfim, ler é um bom passatempo. Não tem contraindicações. Não faz mal para as vistas, não deixa ninguém abilolado.  

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

"PREFEITO DE MERDA !"

“PREFEITO DE MERDA, ESSE...”

Só no carro, eu chegava em casa, parei no farol. Abri a janela da direita, para cumprimentar o porteiro do prédio daí a pouco. Outro carro parou do lado direito, com a janela aberta, o motorista falava algo olhando pra mim. Meneei a cabeça, perguntando se era comigo. “Prefeito de merda, esse...”, ele me falou, contando com minha concordância. Eu discordei, mas não deu pra ver sua reação, porque o farol abriu e eu virei à esquerda e ele seguiu reto.

Fui inábil. Deveria ter inquirido o motivo. Desconfio de dois motivos. A ciclovia recente que avermelhava a lateral da rua e as obras de canalização subterrânea dos fios elétricos e de telefonia. Estas, nem sei se são atribuídas à prefeitura e creio que são bem-vindas por todos. Sobram as ciclovias como motivo do ódio manifestado pelo cidadão.

Poxa! Por que tanto ódio? O cidadão odiava, não tive dúvida. Era um senhor de uns 50 anos, que não se destacava pela aparência. A discordância e até a luta contrária são normais, até necessárias para a não acomodação do administrador público, mas o ódio? Tudo bem, que seja, é humano, mas por um motivo tão banal?

A ciclovia estava ali, sem atrapalhar tráfego nenhum de automóveis, somente ajudando os donos de estacionamentos e os táxis. Porque onde antes era estacionamento, agora é ciclovia. O paulistano aprendeu há muito a não contar com esses estacionamentos de rua, porque quase nunca há vagas. Ou vai de táxi ou já vai direto para o estacionamento particular. De maneira que a ciclovia não atrapalha ninguém. Mas me intriga o ódio que ela desperta.

Não é possível que seja por causa da cor. O vermelho é a cor do Partido Republicano dos EUA (de direita). Convencionou-se usar o vermelho em tudo que deva ser claramente notado. E a ciclovia deve ser bem notada, bem vista por todo mundo, principalmente pelos motoristas. Não creio que sejam tão primários, que odeiem por tão pouco.(sendo que odiar custa tão caro ao corpo de quem odeia).

A ciclovia é jogar dinheiro fora, ninguém usa. Esse argumento também é fraco para suscitar ódio, mas válido para argumentar contra. Concordo que elas ainda são pouco usadas, mas tenho notado que esse uso tem aumentado muito (eu mesmo comprei uma bicicleta há dez dias). A rede ainda está incompleta, falta estrutura de apoio ao ciclista e campanhas de conscientização. E o dinheiro que se gasta é insignificante quando comparado ao gasto com qualquer obra viária destinada aos carros.

A ciclovia atende pouca gente, mesmo que intensamente usada. Esse argumento subentende que a prefeitura está fazendo apenas ciclovias para resolver o grave problema da mobilidade na cidade. As faixas exclusivas para ônibus e táxis e os corredores de transporte coletivo são tão justos que é melhor fazer de conta que o atual prefeito não mexeu nem continua mexendo nisso.


Ou o ódio seria por causa da diminuição da velocidade máxima nas ruas da cidade? Ou por causa da interdição do minhocão aos sábados a partir das 15 horas? (com perspectiva de transformá-lo num parque, futuramente). Ou por causa do fechamento da Paulista aos carros nos domingos? Seria um ódio de classe? Da classe dos motoristas individuais, que usam seus bólidos, egoísticamente, para entupir a via pública? De fato, o prefeito não governa para essa faixa minoritária da população. De minha parte, está valendo meu voto.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

VIZINHO.

VIZINHO

Seja Joaquim o meu vizinho, um senhor idoso, 86 anos. Roncolho, coluna torta, diz que teve nove mulheres e nenhum filho. Vive com uma secretária, que lhe faz a comida, lava a roupa e o acompanha ao médico e à vida. Tem o corpo torto e imprestável mas a cabeça boa. Bem-humorado. Ganha mais do que precisa, nasceu no interior. Me diz que estou acabado, quando me encontra no térreo, a área comum do prédio.

Me convida para entrar em seu apartamento, me mostra uma porta com defeito, me pergunta o que acho, se precisa trocar. Não gosta de nada errado, estragado, por ele, troca. Gosta de tudo funcionando perfeitamente, me serve um café. A secretária me serve um café... Está morrendo, não tem filhos, mas zela da casa em seus detalhes, cuida do futuro da casa, preocupa-se com a qualidade dos materiais. Gosta do bom e do melhor.

Faz questão de se igualar a mim, me pergunta o que estou fazendo, se ainda estou correndo no parque. E, a essa pergunta, sempre adiciona que parou com a academia por causa da coluna, usa um aparelho estruturador, reclama. Diz que vai se submeter a uma cirurgia, não vê a hora, sugiro-lhe uma funilaria. Me mostra o retrato de quando era moço sobre a estante sem nenhum livro, digo-lhe que parece um galã de roliúde.

Me pergunta sobre o condomínio, o que acho do preço. Digo que está caro, ele diz que está bom, é puxa-saco do síndico. Digo-lhe que o síndico é cheio de nove-horas, gosta de inventar moda, ele dá de ombros. Tenho certeza que não vai me dedurar. Diz que tem apartamento pequeno com seis moradores, isso é que mata, aumenta as despesas de água e luz. Ele tem apartamento grande e mora só, a secretária não conta...


Como bons mineiros, nossa conversa é densa de estocadas e recuos, e recheada de floreios de humor e espírito. Não deixamos vazio nem quina em nossa obra coloquial. E sabemos onde lixar e onde deixar áspero. E não pintamos, gostamos de tudo cru natural. Não gostamos de verniz nem de objetos almofadados. Vamos, reciprocamente e de modo lento e discreto, desvendando os mistérios. De quê teria vivido aquele homem, meu Deus?

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Os cachorros argentinos.

LOS PERROS


     Primeiro, que na Argentina tem muito cachorro vira-lata na rua. E andam em grupos de 3 ou 4. Segundo, que não vi nenhum argentino gritando ou chutando cachorro. Passei por lá há dois anos. Enquanto esperava o início da viagem, dentro do ônibus, no terminal em Córdoba, um cachorro tentava desvirar um balde plástico numa plataforma vazia. O vigilante aproximou-se para afastá-lo. Mas o fez de maneira tão delicada, como se fora seu próprio filho. O cachorro saiu mas voltou. O vigilante novamente afastou-o, ainda sem qualquer violência.

 Três dias depois, num restaurante do calçadão da elegante rua Sarmiento, em Mendoza, um vira-lata passeava entre as mesas, sem ser molestado. Ao contrário, o vi recebendo vários afagos por onde passava. No pescoço, uma coleira com a inscrição destacada: ADOTE-ME, com instruções aos interessados. E minha interlocutora, que estivera em Santiago do Chile semana antes, me informava que lá tinha mais cachorros ainda.

 Parece que os cachorros são realmente amigos dos argentinos. Não no sentido sacana e passional, aquele do “o cão é o melhor amigo do homem” — seu dono —, mas no sentido fraternal, de amar os cães sem dono. 

Bem, tive um choque, porque, na minha terra, até os cães de estimação são tratados a berros e ponta pés. Eu mesmo sou autor de uma teoria bélica de como enfrentar cachorros vira-latas pelos caminhos.

Gol dos argentinos! E dos chilenos!!

sábado, 1 de agosto de 2015

Paulistas antipetê.

A HISTERIA ANTIPETÊ EM SÃO PAULO.

Antes é bom contrapor a histeria pró-petê na São Paulo dos anos 1980. De repente os paulistas souberam o que era militância. Nem era necessário qualificar o substantivo. Militância era sinônimo de cidadãos ativamente pró-petê. Caracterizavam-se pelo indefectível broche no peito. Eram muito criativos. Lembram-se do famoso oPTei? Havia um publicitário famoso a serviço da causa, trabalhava com entusiasmo e de graça, o Carlito Maia. Esses cidadãos faziam questão de se declarar petista em qualquer espaço público. Colavam adesivos nos carros. Sindicalista era sinônimo de petista e era quase um sacerdócio. Os policiais e a bandidagem respeitavam, num misto de medo e admiração. “Esses caras são machos!”, admitiam, botando o rabo entre as pernas ao menor grito. Sendo que metade desses machos eram fêmeas. Companheir@s cada um(a) mais brabo(a) que o(a) outro(a). Gente estudada, cada um mais sabido que o outro, com um monte de discursos na ponta da língua. Eram comunistas apoiados pelo bispo, para espanto das senhoras católicas. E, meus Deus do céu, como eram moralistas! Se houvesse uma pesquisa dos Datafolhas da época – que não havia – meio mundo se declararia no mínimo simpático ao Petê. Mas na hora do vamovê – a eleição para governador em 1982 – Lula ficou em quarto lugar. Ou seja, a grande maioria já era antipetê e não sabia. Ops, sabia, mas tinha dúvidas. Ou não tinha coragem de dizer. Era a maioria silenciosa, conforme vangloriavam os políticos tradicionais. E elegiam Maluf adoidado, mas na moita. Na eleição pra prefeito, FHC até sentou na cadeira de véspera. Mas na hora deu Jânio, outro ícone da direita.

De maneira que a maioria dos paulistas nunca deixou de ser antipetê. Falo do Estado, porque na capital a história é outra bem diferente. A diferença para os dias atuais é que aquela maioria deixou de ser silenciosa. A Tevê e os jornais/revistas/rádios eram simpáticos ao Petê e aos seus líderes loquazes e ruins de voto. E o discurso moralista sempre entusiasmou a audiência. O Petê não era perigoso, afinal, não ganhava eleição. Em 2005 o Petê já amedrontava os paulistas tradicionais, porque ganhava eleição e conseguia governar. E ao perder o discurso moralista, com a crise do financiamento de campanha eleitoral a partidos de aluguel coligados, com recursos de caixa dois, o Petê perdeu qualquer atrativo de audiência e passou a ser uma ameaça à escandalosa estrutura de desigualdade social imperante no Brasil desde Cabral. Desde então, a Tevê e os grandes jornais/revistas/rádios vêm sistematicamente batendo no Petê. Mas foram necessários dez anos de bombardeio cotidiano e sistemático – dez anos de bombardeio de saturação, na linguagem militar – para que a maioria paulista antipetê criasse coragem para imitar os petistas de trinta anos atrás.

De fato, há uma histeria antipetê em São Paulo. Vá a um local público usando um símbolo do Petê e logo você será desrespeitosamente confrontado. Publique qualquer comentário pró-petê nas redes sociais e receberá uma saraivada de comentários desaforados. Não são robôs, é gente de carne e osso. Em São Paulo, essa maioria se manifesta espontaneamente, como faziam os petistas de 1980, indo a passeatas, batendo panelas, desancando as autoridades petistas no espaço público... Só não fazem greve. Eis um aspecto a ser desenvolvido. Por que não fazem greve? Isso daria outra crônica... Mas como, em São Paulo, só se vê o que acontece nos bairros centrais e Jardins – desde sempre habitados por imensa maioria antipetê -, temos talvez uma falsa impressão de antipetismo generalizado na cidade.

Só que não há novidade nisso. São Paulo já foi antipetista mais histérico. Na década de 1930, os paulistas eram antipetistas mais histéricos que atualmente. Claro, não havia o Petê. Getúlio era o Petê da época. Getúlio, aquele Zé-Ninguém da fronteira, querendo governar o Brasil, segundo o dono do Estadão... Getúlio, falando português com sotaque argentino, era o Lula da época. Em 23 de maio de 1932 os paulistas antipetê estavam tão exaltados que tentaram invadir a sede do partido, localizada na Barão de Itapetininga, perto da Praça da República. Mas os petistas da época também eram mais enfáticos e receberam os invasores a bala. Morreram mais de quatro, mas sabe-se lá porque,  passaram à posteridade paulista apenas M. M. D. e C. Getúlio não somente já havia concordado com a eleição de uma constituinte, como até a data já estava marcada. Então os paulistas iniciaram a guerra constitucionalista só para o ditador não esquecer, na falta de melhor argumento...


Na hora do vamovê, o Brasil inteiro ficava com o Petê e contra os paulistas. Foi assim em 1930 (derrubada da República Velha), em 1932(Revolução constitucionalista) e em 1938(Golpe integralista). Getúlio, o caudilho, pessoa física. Um Petê matável... diverso da instituição coletiva, enraizada e bem distribuída no território dos dias atuais.