sábado, 1 de agosto de 2015

Paulistas antipetê.

A HISTERIA ANTIPETÊ EM SÃO PAULO.

Antes é bom contrapor a histeria pró-petê na São Paulo dos anos 1980. De repente os paulistas souberam o que era militância. Nem era necessário qualificar o substantivo. Militância era sinônimo de cidadãos ativamente pró-petê. Caracterizavam-se pelo indefectível broche no peito. Eram muito criativos. Lembram-se do famoso oPTei? Havia um publicitário famoso a serviço da causa, trabalhava com entusiasmo e de graça, o Carlito Maia. Esses cidadãos faziam questão de se declarar petista em qualquer espaço público. Colavam adesivos nos carros. Sindicalista era sinônimo de petista e era quase um sacerdócio. Os policiais e a bandidagem respeitavam, num misto de medo e admiração. “Esses caras são machos!”, admitiam, botando o rabo entre as pernas ao menor grito. Sendo que metade desses machos eram fêmeas. Companheir@s cada um(a) mais brabo(a) que o(a) outro(a). Gente estudada, cada um mais sabido que o outro, com um monte de discursos na ponta da língua. Eram comunistas apoiados pelo bispo, para espanto das senhoras católicas. E, meus Deus do céu, como eram moralistas! Se houvesse uma pesquisa dos Datafolhas da época – que não havia – meio mundo se declararia no mínimo simpático ao Petê. Mas na hora do vamovê – a eleição para governador em 1982 – Lula ficou em quarto lugar. Ou seja, a grande maioria já era antipetê e não sabia. Ops, sabia, mas tinha dúvidas. Ou não tinha coragem de dizer. Era a maioria silenciosa, conforme vangloriavam os políticos tradicionais. E elegiam Maluf adoidado, mas na moita. Na eleição pra prefeito, FHC até sentou na cadeira de véspera. Mas na hora deu Jânio, outro ícone da direita.

De maneira que a maioria dos paulistas nunca deixou de ser antipetê. Falo do Estado, porque na capital a história é outra bem diferente. A diferença para os dias atuais é que aquela maioria deixou de ser silenciosa. A Tevê e os jornais/revistas/rádios eram simpáticos ao Petê e aos seus líderes loquazes e ruins de voto. E o discurso moralista sempre entusiasmou a audiência. O Petê não era perigoso, afinal, não ganhava eleição. Em 2005 o Petê já amedrontava os paulistas tradicionais, porque ganhava eleição e conseguia governar. E ao perder o discurso moralista, com a crise do financiamento de campanha eleitoral a partidos de aluguel coligados, com recursos de caixa dois, o Petê perdeu qualquer atrativo de audiência e passou a ser uma ameaça à escandalosa estrutura de desigualdade social imperante no Brasil desde Cabral. Desde então, a Tevê e os grandes jornais/revistas/rádios vêm sistematicamente batendo no Petê. Mas foram necessários dez anos de bombardeio cotidiano e sistemático – dez anos de bombardeio de saturação, na linguagem militar – para que a maioria paulista antipetê criasse coragem para imitar os petistas de trinta anos atrás.

De fato, há uma histeria antipetê em São Paulo. Vá a um local público usando um símbolo do Petê e logo você será desrespeitosamente confrontado. Publique qualquer comentário pró-petê nas redes sociais e receberá uma saraivada de comentários desaforados. Não são robôs, é gente de carne e osso. Em São Paulo, essa maioria se manifesta espontaneamente, como faziam os petistas de 1980, indo a passeatas, batendo panelas, desancando as autoridades petistas no espaço público... Só não fazem greve. Eis um aspecto a ser desenvolvido. Por que não fazem greve? Isso daria outra crônica... Mas como, em São Paulo, só se vê o que acontece nos bairros centrais e Jardins – desde sempre habitados por imensa maioria antipetê -, temos talvez uma falsa impressão de antipetismo generalizado na cidade.

Só que não há novidade nisso. São Paulo já foi antipetista mais histérico. Na década de 1930, os paulistas eram antipetistas mais histéricos que atualmente. Claro, não havia o Petê. Getúlio era o Petê da época. Getúlio, aquele Zé-Ninguém da fronteira, querendo governar o Brasil, segundo o dono do Estadão... Getúlio, falando português com sotaque argentino, era o Lula da época. Em 23 de maio de 1932 os paulistas antipetê estavam tão exaltados que tentaram invadir a sede do partido, localizada na Barão de Itapetininga, perto da Praça da República. Mas os petistas da época também eram mais enfáticos e receberam os invasores a bala. Morreram mais de quatro, mas sabe-se lá porque,  passaram à posteridade paulista apenas M. M. D. e C. Getúlio não somente já havia concordado com a eleição de uma constituinte, como até a data já estava marcada. Então os paulistas iniciaram a guerra constitucionalista só para o ditador não esquecer, na falta de melhor argumento...


Na hora do vamovê, o Brasil inteiro ficava com o Petê e contra os paulistas. Foi assim em 1930 (derrubada da República Velha), em 1932(Revolução constitucionalista) e em 1938(Golpe integralista). Getúlio, o caudilho, pessoa física. Um Petê matável... diverso da instituição coletiva, enraizada e bem distribuída no território dos dias atuais.  

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