A HISTERIA
ANTIPETÊ EM SÃO PAULO.
Antes é bom
contrapor a histeria pró-petê na São Paulo dos anos 1980. De repente os
paulistas souberam o que era militância. Nem era necessário qualificar o
substantivo. Militância era sinônimo de cidadãos ativamente pró-petê.
Caracterizavam-se pelo indefectível broche no peito. Eram muito criativos.
Lembram-se do famoso oPTei? Havia um
publicitário famoso a serviço da causa, trabalhava com entusiasmo e de graça, o
Carlito Maia. Esses cidadãos faziam questão de se declarar petista em qualquer
espaço público. Colavam adesivos nos carros. Sindicalista era sinônimo de
petista e era quase um sacerdócio. Os policiais e a bandidagem respeitavam, num
misto de medo e admiração. “Esses caras são machos!”, admitiam, botando o rabo
entre as pernas ao menor grito. Sendo que metade desses machos eram fêmeas.
Companheir@s cada um(a) mais brabo(a) que o(a) outro(a). Gente estudada, cada
um mais sabido que o outro, com um monte de discursos na ponta da língua. Eram
comunistas apoiados pelo bispo, para espanto das senhoras católicas. E, meus
Deus do céu, como eram moralistas! Se houvesse uma pesquisa dos Datafolhas da
época – que não havia – meio mundo se declararia no mínimo simpático ao Petê.
Mas na hora do vamovê – a eleição para governador em 1982 – Lula ficou em
quarto lugar. Ou seja, a grande maioria já era antipetê e não sabia. Ops,
sabia, mas tinha dúvidas. Ou não tinha coragem de dizer. Era a maioria
silenciosa, conforme vangloriavam os políticos tradicionais. E elegiam Maluf
adoidado, mas na moita. Na eleição pra prefeito, FHC até sentou na cadeira de
véspera. Mas na hora deu Jânio, outro ícone da direita.
De maneira
que a maioria dos paulistas nunca deixou de ser antipetê. Falo do Estado,
porque na capital a história é outra bem diferente. A diferença para os dias
atuais é que aquela maioria deixou de ser silenciosa. A Tevê e os
jornais/revistas/rádios eram simpáticos ao Petê e aos seus líderes loquazes e
ruins de voto. E o discurso moralista sempre entusiasmou a audiência. O Petê
não era perigoso, afinal, não ganhava eleição. Em 2005 o Petê já amedrontava os
paulistas tradicionais, porque ganhava eleição e conseguia governar. E ao
perder o discurso moralista, com a crise do financiamento de campanha eleitoral
a partidos de aluguel coligados, com recursos de caixa dois, o Petê perdeu
qualquer atrativo de audiência e passou a ser uma ameaça à escandalosa
estrutura de desigualdade social imperante no Brasil desde Cabral. Desde então,
a Tevê e os grandes jornais/revistas/rádios vêm sistematicamente batendo no
Petê. Mas foram necessários dez anos de bombardeio cotidiano e sistemático – dez
anos de bombardeio de saturação, na linguagem militar – para que a maioria
paulista antipetê criasse coragem para imitar os petistas de trinta anos atrás.
De fato, há
uma histeria antipetê em São Paulo. Vá a um local público usando um símbolo do
Petê e logo você será desrespeitosamente confrontado. Publique qualquer
comentário pró-petê nas redes sociais e receberá uma saraivada de comentários
desaforados. Não são robôs, é gente de carne e osso. Em São Paulo, essa maioria
se manifesta espontaneamente, como faziam os petistas de 1980, indo a
passeatas, batendo panelas, desancando as autoridades petistas no espaço
público... Só não fazem greve. Eis um aspecto a ser desenvolvido. Por que não
fazem greve? Isso daria outra crônica... Mas como, em São Paulo, só se vê o que
acontece nos bairros centrais e Jardins – desde sempre habitados por imensa
maioria antipetê -, temos talvez uma falsa impressão de antipetismo
generalizado na cidade.
Só que não
há novidade nisso. São Paulo já foi antipetista mais histérico. Na década de
1930, os paulistas eram antipetistas mais histéricos que atualmente. Claro, não
havia o Petê. Getúlio era o Petê da época. Getúlio, aquele Zé-Ninguém da
fronteira, querendo governar o Brasil, segundo o dono do Estadão... Getúlio,
falando português com sotaque argentino, era o Lula da época. Em 23 de maio de
1932 os paulistas antipetê estavam tão exaltados que tentaram invadir a sede do
partido, localizada na Barão de Itapetininga, perto da Praça da República. Mas
os petistas da época também eram mais enfáticos e receberam os invasores a
bala. Morreram mais de quatro, mas sabe-se lá porque, passaram à posteridade paulista apenas M. M.
D. e C. Getúlio não somente já havia concordado com a eleição de uma
constituinte, como até a data já estava marcada. Então os paulistas iniciaram a
guerra constitucionalista só para o ditador não esquecer, na falta de melhor
argumento...
Na hora do
vamovê, o Brasil inteiro ficava com o Petê e contra os paulistas. Foi assim em
1930 (derrubada da República Velha), em 1932(Revolução constitucionalista) e em
1938(Golpe integralista). Getúlio, o caudilho, pessoa física. Um Petê
matável... diverso da instituição coletiva, enraizada e bem distribuída no território
dos dias atuais.
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