terça-feira, 28 de julho de 2015

Fim de noivado.

PERDEU A NOIVA E FOI AO CINEMA.

Ia eu pela Barão de Paranapiacaba, aquele quarteirão entre a Quintino Bocaiúva e a Praça da Sé, quando me deparei com uma peneira de distribuidores de cartões de lojas de compra e venda de joias. Frequento essa região há muito, mas não me lembrava de ter passado naquele pedaço. As duas moças saíam de uma loja em acalorada discussão e se dirigiam à loja ao lado e, nesse curto intervalo, foram assediadas por um enxame de distribuidores de cartões. Esta é uma história verídica, baseada em fatos imaginários. A tragédia é mais sutil, mas vai na linha daquela do filme “Matou a família e foi ao cinema”, daí o título.

Digamos que Maria era a noiva e João era o noivo. Não sei se haviam combinado entre si ou se João quis fazer uma surpresa à Maria, o fato é que João faltou um dia no serviço pra ir comprar uma aliança de noivado ali na Barão de Paranapiacaba. O sujeito sofre quando há um descompasso entre seu sentimento do mundo e sua condição financeira. Perdão, leitor, mas carece de explicar: sentimento do mundo é diferente de visão de mundo ou ideologia. Sentimento do mundo é aquilo que o sujeito é sem pensar, sem perceber. Por exemplo, a Maria, doméstica, querer casar de vestido véu e grinalda e aliança de ouro no dedo na igreja em flores. O João, coitado, foi atrás.  Servente de pedreiro em início de carreira, teve que se virar com suas parcas economias.

Mas ali na Barão de Paranapiacaba tem aliança de todo tipo e de todo preço... aí, outro parêntese, fico pensando no meu pai comprando aliança, porque isso aconteceu, é fato, minha mãe me contou como as trocaram... mas chego mais perto, eu mesmo um dia comprei alianças, só que minha memória apagou tudo que se refere a tal fato... Enquanto isso, o João tirou um dia inteiro de serviço, vestiu sua melhor roupa, andou meia hora a pé, pegou dois ônibus e um trem, e estava ele ali na Barão com seus minguados caraminguás para a insana tarefa de escolher uma aliança de ouro.

Ora, eu e o João conhecemos bem um bom arame de aço, um vergalhão cinco oitavos... mas ouro? Para nós qualquer liga estranha e amarela serve. E doía ao João gastar aquela fortuna num anel, mas não queria perder a intransigente Maria. Era tão difícil arrumar uma noiva... é, tem homem que encontra muita dificuldade em arrumar noiva, já tem outros que só arrumam noiva, saem à procura de mulher e encontram noiva, o coitado se depara com um casamento em cada esquina, mas o João, a muito custo, arrumara uma noiva, após passar por muitas mulheres... e aqui não acrescento nenhuma explicação sobre eventuais diferenças e só faço o registro para ser fiel aos fatos, me isentando de qualquer responsabilidade conceitual. Tenho amigas terríveis e algum desconfiômetro para meter minha mão nessa cumbuca.


Bem, o fato é que o João percorreu todo o quarteirão de lado a lado da Barão de Paranapiacaba e parou na loja mais iluminada. E dali saiu satisfeito com um par de vistosas alianças por uma pechincha. Sendo que a Maria não se importava de lavar e cozinhar, mas não aceitava aquela aliança vagabunda, considerou um insulto o anel barato, podia ser pobre e analfabeta funcional, mas conhecia muito bem uma semijoia. Tudo bem, não correu nenhum sangue, e agora vemos João ali no cinema, sem casamento à vista, assistindo a dois filmes inclassificáveis, em atenção aos seus animalescos instintos.  

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