PERDEU A
NOIVA E FOI AO CINEMA.
Ia eu pela
Barão de Paranapiacaba, aquele quarteirão entre a Quintino Bocaiúva e a Praça
da Sé, quando me deparei com uma peneira de distribuidores de cartões de lojas
de compra e venda de joias. Frequento essa região há muito, mas não me lembrava
de ter passado naquele pedaço. As duas moças saíam de uma loja em acalorada
discussão e se dirigiam à loja ao lado e, nesse curto intervalo, foram
assediadas por um enxame de distribuidores de cartões. Esta é uma história
verídica, baseada em fatos imaginários. A tragédia é mais sutil, mas vai na
linha daquela do filme “Matou a família e foi ao cinema”, daí o título.
Digamos que
Maria era a noiva e João era o noivo. Não sei se haviam combinado entre si ou
se João quis fazer uma surpresa à Maria, o fato é que João faltou um dia no
serviço pra ir comprar uma aliança de noivado ali na Barão de Paranapiacaba. O
sujeito sofre quando há um descompasso entre seu sentimento do mundo e sua
condição financeira. Perdão, leitor, mas carece de explicar: sentimento do
mundo é diferente de visão de mundo ou ideologia. Sentimento do mundo é aquilo
que o sujeito é sem pensar, sem perceber. Por exemplo, a Maria, doméstica,
querer casar de vestido véu e grinalda e aliança de ouro no dedo na igreja em
flores. O João, coitado, foi atrás.
Servente de pedreiro em início de carreira, teve que se virar com suas
parcas economias.
Mas ali na
Barão de Paranapiacaba tem aliança de todo tipo e de todo preço... aí, outro
parêntese, fico pensando no meu pai comprando aliança, porque isso aconteceu, é
fato, minha mãe me contou como as trocaram... mas chego mais perto, eu mesmo um
dia comprei alianças, só que minha memória apagou tudo que se refere a tal fato...
Enquanto isso, o João tirou um dia inteiro de serviço, vestiu sua melhor roupa,
andou meia hora a pé, pegou dois ônibus e um trem, e estava ele ali na Barão
com seus minguados caraminguás para a insana tarefa de escolher uma aliança de
ouro.
Ora, eu e o
João conhecemos bem um bom arame de aço, um vergalhão cinco oitavos... mas
ouro? Para nós qualquer liga estranha e amarela serve. E doía ao João gastar
aquela fortuna num anel, mas não queria perder a intransigente Maria. Era tão
difícil arrumar uma noiva... é, tem homem que encontra muita dificuldade em
arrumar noiva, já tem outros que só arrumam noiva, saem à procura de mulher e
encontram noiva, o coitado se depara com um casamento em cada esquina, mas o
João, a muito custo, arrumara uma noiva, após passar por muitas mulheres... e
aqui não acrescento nenhuma explicação sobre eventuais diferenças e só faço o
registro para ser fiel aos fatos, me isentando de qualquer responsabilidade
conceitual. Tenho amigas terríveis e algum desconfiômetro para meter minha mão
nessa cumbuca.
Bem, o fato
é que o João percorreu todo o quarteirão de lado a lado da Barão de
Paranapiacaba e parou na loja mais iluminada. E dali saiu satisfeito com um par
de vistosas alianças por uma pechincha. Sendo que a Maria não se importava de
lavar e cozinhar, mas não aceitava aquela aliança vagabunda, considerou um insulto
o anel barato, podia ser pobre e analfabeta funcional, mas conhecia muito bem
uma semijoia. Tudo bem, não correu nenhum sangue, e agora vemos João ali no cinema,
sem casamento à vista, assistindo a dois filmes inclassificáveis, em atenção
aos seus animalescos instintos.
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