RAPIDINHA
Acordei com uma dorzinha esquisita no pescoço. Espiei a rua e caía uma chuvinha mole. Tempinho feio! Apesar do dezembro, estava bem friozinho. Pra esquentar, pensei num copo de leite com café bem quentinho. Ao ver a manchete, não contive a exclamação: eta jornalzinho de merda! No hall, meu vizinho reclamava: “elevadorzinho demorado!”. Na rua, já ensaiava um solzinho. A chuva parara e estava gostosinho. Soprava um ventinho morno, a temperatura subia. Um rapazinho empurrava a bicicleta carregada de potes d’água. A subidinha da Martiniano me matava. Eu estava em jejum, sentindo o fundinho do estômago. Um escapamento estourado acorda o povinho: eta carrinho barulhento! Um passarinho avoa.
Na portaria do hospital, a mocinha me cadastra: “vira o rostinho e olha aqui”, me apontando uma esfera com um pontinho preto no meio. “Prontinho”, me informou ela, devolvendo minha carteira de identidade. É um procedimento simplesinho. Um segurança baixinho e troncudo me indicou o fundo do corredor: “no finalzinho, à esquerda. Pode ser pelo elevador ou pela escadinha ao lado”. No trajeto, quase fui atropelado por um jovem em sua cadeira de motorzinho. Ao desviar, quase esbarro no guarda-chuva - molhadinho - de uma senhora que acabava de entrar. A chuva fininha retornara. Vendo a molhaceira, a faxineira fez biquinho. Pela porta principal entra um carrinho empurrado por dois enfermeiros.
No segundo subsolo, um aparelhinho distribuía as senhas. Só o descobri após a indicação de uma atendente lourinha. Telinhas nas paredes distraíam o público. Parecia pequenininha a sala de espera, diante da quantidade de gente. Um bebezinho berrava. Enfermeiras flutuavam sobre sapatinhos baixos, em passinhos nervosos. Um luminoso sozinho chamava para o atendimento. Quatro mocinhas atendiam em seus escaninhos. Passei bem uma horinha ali esperando. Não agüentava mais aqueles programinhas matutinos da TV.
“Por favor, siga aquela mocinha”, ordenou uma fulaninha empertigada que coordenava o serviço. Um velhote de chinelinhas se arrastava em minha frente. Me deixaram esperando numa salinha lá no fundo, onde outra telinha distraía outro público, esse ralinho. Loguinho veio uma enfermeira: “e então, vamos tirar um sanguinho?” e me indicou uma porta: “naquela salinha ali”. Era uma salinha, mesmo. “Me dá seu bracinho”. A enfermeira fez um torniquete no meu braço: “isso, agora fecha a mãozinha”. A veia não aparecia. “Cadê a veinha do senhor?” E eu: “Está aízinho. Pode procurar que está bem aízinho”. Ela espetou a agulha: “Bem fininha a veia do senhor”. O sangue fluía devagarinho, eu aumentei a respiração para elevar o fluxo. “O senhor está passando mal?”, ela me inquiriu com seus olhinhos preocupados. “Tudo certinho”, respondi. Daí a pouco, outra vez: “Está bonzinho?”. E eu: “fica sossegadinha: não estou nem vou estar passando mal. Meu auto-controle funciona direitinho”. Na saída, me deram um lanchinho.
Na volta, passei na padaria para levar uns pãezinhos. Quentinhos. Um velhinho embromava na fila. A caixa contava moedinhas. O lanche do hospital era fraquinho, meu estômago ainda reclamava. Uma gorda assobiava baixinho. Na minha frente, impaciente, sassaricava uma magrinha.
Cheguei em casa, minha mulher me fez um carinho. Piquinininho. Rapidinho.
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