quarta-feira, 1 de julho de 2015

A estátua viva.

A ESTÁTUA VIVA

     Sabe aquelas brincadeiras de bom gosto que ofendem tanto a algumas pessoas?

     Então pensei em brincar com uma estátua viva. Esses verdadeiros artistas que se imobilizam na via pública para angariar uns trocados. Me lembro da primeira vez que vi uma: foi no Parque Ibirapuera. Era uma mulher, fiquei boquiaberto de admiração. O negócio deles é esse: despertar aquele entusiasmo infantil contido em todos nós. Por isso se vestem com roupas de outras épocas, se pintam inteiros da cor do bronze ou da cor do gesso, inclusive os cabelos, os pés...

     Esse um em quem planejei pregar uma peça fazia ponto na esquina da Paulista com a Carlos Sampaio, na mureta do prédio do Chig Lig. Essa mureta se eleva cerca de um metro acima da calçada. Ele a utilizava como se fora o pedestal. O seu “chapéu” era um vazo cerâmico cor de vinho, de cerca de meio metro de altura, colocado sobre o piso da calçada, no meio do fluxo de pedestres. Há muito que eu vinha planejando atacar um desses “chapeús” – me fingindo de bobo e pegando ostensivamente todas as notas -, só para obrigar a estátua a sair correndo atrás de mim. Eu me divertia só em imaginar a cena: uma estátua correndo atrás de um vivo.

     O artista se vestia com um roupão que só deixava transparecer suas sandálias, à moda dos profetas bíblicos e tinha a cor única – dos cabelos às sandálias – do alumínio. Para ser uma estátua viva é preciso vários talentos. É preciso ser ator, pintor, historiador, modista e dançarino, no mínimo. É preciso ser artesão e artista. É preciso ser ousado e corajoso. E acrobata, porque haja equilíbrio para ficar imóvel tanto tempo. Mas o meu maior sonho era fazer um deles sair correndo – ou saltar, ou ao menos andar, como um reles mortal. Seu roupão fazia aquelas dobras que, devidamente aluminizadas, permaneciam imóveis tanto quanto as feições do artista, com se fora um Cristo Redentor impassível ali na mureta. E os pedestres pra lá e pra cá a desviarem-se do enorme vaso cerâmico de boca aberta esperando notas e moedas.

     Ora, todos olham onde pisam, daí porque o vaso permanecia ali intacto. Daí porque a confiança e o atrevimento do artista. Esqueci de dizer: uma estátua viva precisa ter noções de psicologia coletiva – quase um antropólogo. Aquele conhecia o público daquela calçada, por isso postou seu vaso ali a disputar o chão dos passantes, com a certeza de recolhê-lo inteiro e recheado ao final do expediente. Aquele sabia que os paulistas são cuidadosos e bem-comportados e têm consciência pesada.

     A calçada ali é larga. Uns dez metros. O vaso ficava cerca de um metro distante da extremidade que se limitava com o muro do prédio. No lado oposto, a sarjeta, a rua. De repente um senhor magrelo e desconjuntado passa no meio da calçada visivelmente abilolado, olhando pro céu e tropeçando em tudo que encontra. Tão espalhafatoso que as pessoas se desviam dele de longe. Esse senhor vai até a esquina e – oh, destino – volta rente aos prédios, bem no rumo do vaso! E vem feito um touro bravo, com o pescoço torto de tal maneira que o rosto fica sempre virado para o céu, enquanto do canto da boca escorre um fino filete de baba espumosa. Ele se movimenta mais dos lados do que para a frente, de tal maneira que avança devagar, parecendo um caranguejo, com mil patas a abalroar tudo que encontra pela frente. É um avanço completamente titubeante, mas incrivelmente certo na fatal direção do vaso, parecendo aquelas máquinas de varrer rua usadas pela prefeitura. A distância de trinta metros se encurta a cada instante. Após percorrer dois terços desse espaço, a trajetória não deixa dúvidas quanto ao iminente destino do vaso, obrigando a estátua a voar da mureta para interceptar a tragédia. E eu, isento e realizado, ria da estatua voadora, como um moleque.  



Um comentário: