A ESTÁTUA VIVA
Sabe
aquelas brincadeiras de bom gosto que ofendem tanto a algumas pessoas?
Então
pensei em brincar com uma estátua viva. Esses verdadeiros artistas que se
imobilizam na via pública para angariar uns trocados. Me lembro da primeira vez
que vi uma: foi no Parque Ibirapuera. Era uma mulher, fiquei boquiaberto de
admiração. O negócio deles é esse: despertar aquele entusiasmo infantil contido
em todos nós. Por isso se vestem com roupas de outras épocas, se pintam
inteiros da cor do bronze ou da cor do gesso, inclusive os cabelos, os pés...
Esse
um em quem planejei pregar uma peça fazia ponto na esquina da Paulista com a
Carlos Sampaio, na mureta do prédio do Chig Lig. Essa mureta se eleva cerca de
um metro acima da calçada. Ele a utilizava como se fora o pedestal. O seu
“chapéu” era um vazo cerâmico cor de vinho, de cerca de meio metro de altura,
colocado sobre o piso da calçada, no meio do fluxo de pedestres. Há muito que
eu vinha planejando atacar um desses “chapeús” – me fingindo de bobo e pegando
ostensivamente todas as notas -, só para obrigar a estátua a sair correndo
atrás de mim. Eu me divertia só em imaginar a cena: uma estátua correndo atrás
de um vivo.
O
artista se vestia com um roupão que só deixava transparecer suas sandálias, à
moda dos profetas bíblicos e tinha a cor única – dos cabelos às sandálias – do
alumínio. Para ser uma estátua viva é preciso vários talentos. É preciso ser
ator, pintor, historiador, modista e dançarino, no mínimo. É preciso ser
artesão e artista. É preciso ser ousado e corajoso. E acrobata, porque haja
equilíbrio para ficar imóvel tanto tempo. Mas o meu maior sonho era fazer um
deles sair correndo – ou saltar, ou ao menos andar, como um reles mortal. Seu
roupão fazia aquelas dobras que, devidamente aluminizadas, permaneciam imóveis
tanto quanto as feições do artista, com se fora um Cristo Redentor impassível
ali na mureta. E os pedestres pra lá e pra cá a desviarem-se do enorme vaso
cerâmico de boca aberta esperando notas e moedas.
Ora,
todos olham onde pisam, daí porque o vaso permanecia ali intacto. Daí porque a
confiança e o atrevimento do artista. Esqueci de dizer: uma estátua viva
precisa ter noções de psicologia coletiva – quase um antropólogo. Aquele
conhecia o público daquela calçada, por isso postou seu vaso ali a disputar o
chão dos passantes, com a certeza de recolhê-lo inteiro e recheado ao final do
expediente. Aquele sabia que os paulistas são cuidadosos e bem-comportados e
têm consciência pesada.
A
calçada ali é larga. Uns dez metros. O vaso ficava cerca de um metro distante
da extremidade que se limitava com o muro do prédio. No lado oposto, a sarjeta,
a rua. De repente um senhor magrelo e desconjuntado passa no meio da calçada
visivelmente abilolado, olhando pro céu e tropeçando em tudo que encontra. Tão
espalhafatoso que as pessoas se desviam dele de longe. Esse senhor vai até a
esquina e – oh, destino – volta rente aos prédios, bem no rumo do vaso! E vem
feito um touro bravo, com o pescoço torto de tal maneira que o rosto fica
sempre virado para o céu, enquanto do canto da boca escorre um fino filete de
baba espumosa. Ele se movimenta mais dos lados do que para a frente, de tal
maneira que avança devagar, parecendo um caranguejo, com mil patas a abalroar
tudo que encontra pela frente. É um avanço completamente titubeante, mas
incrivelmente certo na fatal direção do vaso, parecendo aquelas máquinas de
varrer rua usadas pela prefeitura. A distância de trinta metros se encurta a
cada instante. Após percorrer dois terços desse espaço, a trajetória não deixa
dúvidas quanto ao iminente destino do vaso, obrigando a estátua a voar da
mureta para interceptar a tragédia. E eu, isento e realizado, ria da estatua
voadora, como um moleque.
teste teste
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