sábado, 25 de julho de 2015

Casa das Certezas

"CASA DAS CERTEZAS"
Quando me aposentar, penso em me tornar comerciante. Em realidade, acho que vou abrir uma tenda mística no interior. Não sei se fundo meu estabelecimento numa rua movimentada de uma pequena cidade e, nesse caso, a placa seria "Tenda Mística" ou "Casa das Certezas" - resolvo depois -, ou vou para a beira do Rio Grande e construo um rancho lá, num lugar recanteado. Sim, se for essa a opção, radicalizarei. Será onde a estrada de terra faz a curva, no final da linha, um oco de mundo, numa baixada bem arborizada, onde anoitece mais cedo e amanhece mais tarde e a noite não clareia bem nem na semana de lua cheia. Talvez construa uma casa de tijolo, ferro, cimento e laje, com paredes amarelas, portas e janelas vermelhas e rodapés e molduras pretos, mas penso também em optar, com cuidados de arquiteto,  por um rancho de pau-a-pique, com paredes de taipa caipira,  cobertura de sapé e piso de chão batido. Será num lugar em que nem o Luz para Todos da Dilma chega, por isso não sei se compro um gerador a diesel para a eletricidade ou se radicalizo nos lampiões e na comida fresca de verdade por causa da impossibilidade de geladeira. Se escolher o misticismo urbano, me depararei com o problema de qual guia ou guru seguir. Não, não se trata de detalhe, se devo usar bola de cristal, interpretar os astros, ler mãos ou jogar búzios, cartas ou tarô;   é dúvida de raiz: não sei se ancoro meus arrazoados na doutrina cristã, no budismo, se retrocedo ao mundo judaico ou se vou com Maomé. Parece-me que não seria o caso de seguir Confúcio; quanto ao candomblé ou à macumba, poderia optar, mas somente se escolhesse o mundo rural em casa sólida de alvenaria, casa de branco velho. Em sendo o rancho de pau-a-pique, eu simplificaria anunciando-me apenas benzedor. O problema é o meu nome, que não é nome de benzedor, mas tanta gente muda de nome para fins de publicidade, eu não teria problema comigo, com meus familiares nem com a lei em me chamar Dito ou Bastião benzedor. Nesse caso eu não precisaria me preocupar com os grandes profetas do ocidente ou do oriente, mas teria de escolher entre a linha seca ou a linha molhada, ou seja, se trabalharia apenas com orações e barbantes e nós ou se usaria  garrafadas, ungüentos, poções, animais e incensos. Quanto ao meu aspecto visual, acredito que não teria problemas, eu poderia facilmente me apresentar como um sujeito jovial e bem sucedido em minha tenda mística instalada numa sobreloja com secretária, ar condicionado, banheiros e sala-de-espera,  ou me apresentar como um velho branco encardido com verdadeira cara de feiticeiro, nas brenhas do Rio Grande. Essa última opção só me desanima quando penso na impossibilidade da internet/telefone, mas acho que pode ser contornada, com tanto satélite no espaço.  Restaria escolher entre águas paradas ou águas correntes. Eu poderia me estabelecer próximo à Represa de Água Vermelha, em municípios como Mira Estrela, Cardoso ou Riolândia.  Mas acho que esse mar de água doce não combinaria com minha condição de branco velho tradicionalista. Um rio de verdade, de água corrente e barranco combina melhor com um caipira praticante de rezas bravas;  nesse caso, eu poderia me assentar no município de Orindiúva. Mas eu poderia também escolher outras represas ou outros trechos de água corrente, mais a leste, no mesmo rio. Ainda...,não sei se dum lado ou do outro, em terras paulistas ou em terras mineiras...

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