Aqui,
n’O Asfalto, do Dória, pretendo meter A Ciclovia, do Haddad.
Preciso
dizer, antes, que tenho uma relação traumático-afetiva com
asfalto. É uma característica daqueles que nasceram em meados do
século passado.
Quem
morava nas grandes cidades, viu os pisos de paralelepípedos serem
substituídos pelo asfalto. Quem morava nas pequenas cidades ou nas
periferias, viu a rua de terra ser coberta pelo asfalto.
Eu
vi o quadrilátero central da minha cidadezinha ser cercado por
quatro quarteirões asfaltados, enquanto estudava a primeira série
do ginásio, que ficava do outro lado de um desses segmentos de rua
cobertos de preto. Houve festa, os professores realizaram uma gincana
em volta da tal praça; deveriam realizar provas, como estourar
bexigas com o próprio sopro, por ex., em oito postos. Para
percorrerem a distância de 50 metros entre um posto de prova e
outro, iam com seus carros – fuscas, gordinis, dkv’s — pelo
asfalto novo. É, naquele tempo, professor de escola pública
estadual era classe média alta…
Vi uma rodovia ser rasgada no meio do nada, ou melhor, vi os tratores
invadirem os canaviais e laranjais e algodoais e milharais e abrirem
um sulco largo e reto… e aquele sulco de terra pura ser aberto ao
tráfego de automóveis e caminhões; só depois de alguns anos
aquilo foi coberto pela capa asfáltica.
Viajei
de carro e ônibus e outros bichos por estradas de terra pura; sequer
um cascalho pra atenuar a argila lisa nos dias de chuva. Tive viagens
embarreadas e encravadas... Quando não era barro, era poeira...
Minha
geração cresceu aplaudindo a chegada do asfalto (e agora, enquanto
escrevo, a chuva cai aos baldes lá fora, nenhuma gota infiltra no
solo, vai tudo para o vale mais próximo; o lençol freático se
esvazia e as baixadas se inundam…).
O
prefeito e governador Maluf detectou essa relação de amor da
população. Não propriamente com o asfalto, mas com o concreto
armado. E danou-se a construir minhocões e viadutos e rodovias com
muitas obras de arte (é assim que se chamam, na engenharia, as
pontes e viadutos). E a prova de que se trata de algo primário — bem visível e
palpável — é que a população retribuiu, elegendo-o por muitos e
muitos anos…
(Niemeyer
também abusou do concreto armado em outras obras de arte mais significativas..., mudando ou fundando a personalidade de cidades inteiras. Sendo que, enquanto
Maluf, predador-capitalista, o fazia da forma mais rasteira possível,
em troca de votos, Niemeyer nunca pediu um voto e era comunista).
Dória
— o predador da vez — farejou a relação de amor do povo com o
asfalto e, em tempos bicudos de orçamento curto, resolveu tirar o
atraso da “Cidade Feia”, recobrindo poucas ruas estrategicamente
distribuídas pela cidade com a capa preta, signo de progresso.
Ou
seja, Dória, em fase de retirada, após impregnar a administração
da cidade com bombásticos e efêmeros eventos de marketing (e nomear alguns corruptos, pra variar, como se descobriu esta semana),
vislumbrou uma última cartada, para explorar aquele velho e infantil
sentimento da população com o asfalto. E fez dele móvel de massiva
campanha propagandística em faixas nas ruas, em comerciais de TV, em
comentários de locutores amigos…
À
moda do Haddad com as ciclovias, Dória quer que os eleitores
associem sua passagem pela prefeitura com o asfalto novo nas ruas.
Digo à moda do Haddad, porque as ciclovias também foram feitas
assim meio nas coxas…
Sim, o asfalto do Dória está sendo feito
nas coxas, sim. Não a campanha publicitária, essa está impecável…
O
que aconteceu com as ciclovias é que eram novidade, confrontavam o
imaginário popular favorável ao automóvel, e precisavam se impor,
sem muita delonga (e, ao contrário, tiravam votos). Já o asfalto vai
exatamente a favor desse sentimento ultrapassado mas ainda dominante
pró-automóvel. Acredito que ainda gera muitos e muitos votos.
Tivemos
Ademar de Barros, depois Jânio Quadros, depois Maluf e agora, Dória.
Sendo pessimista-realista, creio que não vai ser ainda dessa vez que
a tradição será rompida, porque a perspicácia histórica do
eleitorado não vai além do próprio nariz e nosotros não temos
como furar a grossa e dura barreira da barbárie.