quarta-feira, 28 de março de 2018

O ASFALTO.


Aqui, n’O Asfalto, do Dória, pretendo meter A Ciclovia, do Haddad.
Preciso dizer, antes, que tenho uma relação traumático-afetiva com asfalto. É uma característica daqueles que nasceram em meados do século passado.
Quem morava nas grandes cidades, viu os pisos de paralelepípedos serem substituídos pelo asfalto. Quem morava nas pequenas cidades ou nas periferias, viu a rua de terra ser coberta pelo asfalto.
Eu vi o quadrilátero central da minha cidadezinha ser cercado por quatro quarteirões asfaltados, enquanto estudava a primeira série do ginásio, que ficava do outro lado de um desses segmentos de rua cobertos de preto. Houve festa, os professores realizaram uma gincana em volta da tal praça; deveriam realizar provas, como estourar bexigas com o próprio sopro, por ex., em oito postos. Para percorrerem a distância de 50 metros entre um posto de prova e outro, iam com seus carros – fuscas, gordinis, dkv’s — pelo asfalto novo. É, naquele tempo, professor de escola pública estadual era classe média alta…
Vi uma rodovia ser rasgada no meio do nada, ou melhor, vi os tratores invadirem os canaviais e laranjais e algodoais e milharais e abrirem um sulco largo e reto… e aquele sulco de terra pura ser aberto ao tráfego de automóveis e caminhões; só depois de alguns anos aquilo foi coberto pela capa asfáltica.
Viajei de carro e ônibus e outros bichos por estradas de terra pura; sequer um cascalho pra atenuar a argila lisa nos dias de chuva. Tive viagens embarreadas e encravadas... Quando não era barro, era poeira...
Minha geração cresceu aplaudindo a chegada do asfalto (e agora, enquanto escrevo, a chuva cai aos baldes lá fora, nenhuma gota infiltra no solo, vai tudo para o vale mais próximo; o lençol freático se esvazia e as baixadas se inundam…).
O prefeito e governador Maluf detectou essa relação de amor da população. Não propriamente com o asfalto, mas com o concreto armado. E danou-se a construir minhocões e viadutos e rodovias com muitas obras de arte (é assim que se chamam, na engenharia, as pontes e viadutos). E a prova de que se trata de algo primário — bem visível e palpável — é que a população retribuiu, elegendo-o por muitos e muitos anos…
(Niemeyer também abusou do concreto armado em outras obras de arte mais significativas..., mudando ou fundando a personalidade de cidades inteiras. Sendo que, enquanto Maluf, predador-capitalista, o fazia da forma mais rasteira possível, em troca de votos, Niemeyer nunca pediu um voto e era comunista).
Dória — o predador da vez — farejou a relação de amor do povo com o asfalto e, em tempos bicudos de orçamento curto, resolveu tirar o atraso da “Cidade Feia”, recobrindo poucas ruas estrategicamente distribuídas pela cidade com a capa preta, signo de progresso.
Ou seja, Dória, em fase de retirada, após impregnar a administração da cidade com bombásticos e efêmeros eventos de marketing (e nomear alguns corruptos, pra variar, como se descobriu esta semana), vislumbrou uma última cartada, para explorar aquele velho e infantil sentimento da população com o asfalto. E fez dele móvel de massiva campanha propagandística em faixas nas ruas, em comerciais de TV, em comentários de locutores amigos…
À moda do Haddad com as ciclovias, Dória quer que os eleitores associem sua passagem pela prefeitura com o asfalto novo nas ruas. Digo à moda do Haddad, porque as ciclovias também foram feitas assim meio nas coxas… 
Sim, o asfalto do Dória está sendo feito nas coxas, sim. Não a campanha publicitária, essa está impecável…
O que aconteceu com as ciclovias é que eram novidade, confrontavam o imaginário popular favorável ao automóvel, e precisavam se impor, sem muita delonga (e, ao contrário, tiravam votos). Já o asfalto vai exatamente a favor desse sentimento ultrapassado mas ainda dominante pró-automóvel. Acredito que ainda gera muitos e muitos votos.
Tivemos Ademar de Barros, depois Jânio Quadros, depois Maluf e agora, Dória. Sendo pessimista-realista, creio que não vai ser ainda dessa vez que a tradição será rompida, porque a perspicácia histórica do eleitorado não vai além do próprio nariz e nosotros não temos como furar a grossa e dura barreira da barbárie.



quarta-feira, 21 de março de 2018

"CIDADE FEIA"


Vi no jornal que proibiram o Dória de usar o slogan “Cidade Linda”. Pensando bem, acho que foi uma jogada dele, uma desculpa pra parar de falar no assunto. Porque, quanto mais se fala, AGORA, em cidade linda, mais salta aos olhos que a cidade está mais feia do que nunca.
Não que eu dê muita importância pra esse negócio de cidade bonita, limpinha, pintadinha, tudo no lugar, nenhunzinho lixo no passeio, calçadas impecáveis, fachadas impecáveis. Procuro gastar minhas energias com coisas menos palpáveis e mais substanciosas. Mas é que o Dória chegou chegando, se vestindo de gari, falando em zeladoria… (uma palavra que eu nunca tinha visto aplicada à administração pública); espalhando o slogan aos quatro ventos. Então martelo o assunto, pra certos eleitores deixarem de ser bestas.
E, claro, porque não quero de jeito nenhum que esse cara se eleja governador. Mas, continuando, me lembro que, na eleição municipal de 1988, um dos meus bordões, na boca-de-urna (naquele tempo era permitida e acirrada), era: “se a Erundina for eleita, ela não vai ficar aí pintando meio-fio...”. E, então, emendava a cantilena de que ela ia cuidar das creches, escolas, postos de saúde, transporte e só lá pelas secundárias tabelas ia se preocupar com asfalto lisinho, sarjetas branquinhas, jardins... Naquele tempo, nem plantar árvores eu considerava importante.
Aí Erundina ganhou. E as equipes de manutenção continuaram pintando o meio-fio, acho que vários daqueles trabalhadores nem tinham se tocado que havia mudado o prefeito. Algum tempo depois me contaram que pintar meio-fio não é pura frescura não, é medida de segurança, recomendada pela engenharia de trânsito. Mas, de duas uma: ou eu era ignorante e fanático ou o bordão era adequado para a época…
Aliás, me lembro que, na fiscalização da apuração dos votos, no Ginásio do Ibirapuera, lá pelas duas da manhã (não havia urna eletrônica, os votos eram contados papelzinho por papelzinho, sob os olhos dos fiscais dos vários candidatos), fui entrevistado por um repórter com microfone: “Por que você apoia a Erundina?” E eu, seco e curto: “Por que sou favorável ao Socialismo”. Entrevista sumariamente encerrada.
Aí me aparece, em 2016, um tal João Dória, em cuja casa, no Jardim Europa, tem até campo de futebol no quintal, se dizendo “trabalhador” e “não político”. E eu, passados tantos anos e tantas eleições, continuei com minha ingenuidade, pensando que ele não ia nem pro segundo turno, que o povo não era besta…
Tudo bem, trabalhador ele era, sem dúvida, porque alguém que acumula tanto dinheiro como ele acumulou só pode ser um cara bem dinâmico, digamos. Sobre dinamismo, tenho pra mim que poucos cargos executivos exigem tanto quanto o de gerente do PCC. Um bandido mole e preguiçoso não vai longe. Mas “trabalhador”, no sentido social do termo, ele não era não, tava na cara, todo mundo tava vendo… ele era um hábil intermediário de interesses privados, com acesso privilegiado aos altos meandros privados e públicos, daí seu sucesso de juntar dinheiro com rastelo.
Mas não-político? Ora, como é que alguém iria acreditar que o sujeito que disputa o cargo de prefeito da maior cidade do continente, por um dos principais partidos, poderia ser não-político? Eu mesmo, que nunca disputei um cargo, se me candidatar, não poderei dizer que sou não-político. Aliás, seria temerário entregar a administração pública duma cidade como S.Paulo a um real não-político, pelo simples fato de que se trata de um alienado.
Mas o eleitorado acreditou nessa conversa e eu, mais uma vez, fiquei com minha brilhante cara de tacho. Quem sabe não teria sido por causa do “administrador”? Digo, “gestor”. O cara devia ser bom mesmo, pra ganhar tanto dinheiro. Há, no populacho, a crença de que alguém fica rico porque trabalha muito e é bom gestor. Ora, ao populacho só resta acreditar na pureza e na inocência…
Só que eu achava que, quem sabe, por algum tempo, num setor restrito e bem visível como a “beleza da cidade”, ele poderia empregar de maneira bem-sucedida sua esperteza gestora e continuar sua ladainha então vencedora, na disputa por cargos subsequentes. Mas não. Nem isso ele conseguiu. A cidade está visivelmente mais feia do que há dois anos.
Está claro, portanto, que não precisou mais que meio mandato pra comprovar que Dória não era não-político, nem trabalhador (passou o tempo viajando, lembram?), nem gestor. Aliás, acho que é por isso que os políticos do PSDB falam tanto em privatização/concessão: é porque aí não precisa gerir, ou melhor, precisa gerir apenas os gestores privados – aí sim são especialistas. Será incompetência dos adversários, se esse cara for eleito governador.


quinta-feira, 15 de março de 2018

OS MERCADORES DO TREM.


Não é todo dia que ando no metrô. Mas todo dia que ando no metrô, encontro mercadores e, enquanto eles mercadejam, eu vejo. E penso e fico atônito. Já escrevi sobre um desses, que vi em desabalada carreira, fugindo do fiscal, na Estação São Bento.
Ando com mais frequência entre São Joaquim e Santana, na linha azul, e vou até o Butantã, na amarela. Antes, coisa de 3 anos atrás, o meu vagão, na linha azul, nem sempre era agraciado com um mercador. E nunca mais de um de cada vez. Mas hoje o meu vagão foi agraciado com cinco (5) de uma vez só, cada um com um produto diferente:
: fones de ouvido. “Lá fora tão cobrando quinze, aqui faço por cinco”;
: Brasil cacau. “Gente, desculpa o incômodo, é rapidinho; tô vendendo um produto da Brasil cacau, uma delícia; bolinhas de chocolate com recheio de nutela; São 30 bolinhas no pacote; 1 pc dois real; e tem 30 bolinhas mesmo, você pode abrir e contar na minha frente. Vamos, 3 por 5, 7 por 10; quem vai? Tá bom, gente, 5 por 5, é melhor assim do que entregar de graça pro fiscal; só 1 real o pacote, quem vai?”
: porta-documentos. “Não deixe seu RG desbeiçar, é só 1 real e cabe 3; compre 6 e proteja seus 18 cartões; tá bom, pessoal, 4 paga 6; duas notas de 2 e você tá protegido; cuidado, gente, a polícia não gosta de documento desbeiçado”.
: bala de gengibre. “Gente, tenho aqui bala de gengibre; gengibre com mel; uma delícia; 1 real o pacote; boa pra garganta; mas, gente, atenção!: ela só é doce no começo; depois ela fica meio ardidinha; é assim mesmo, gente, é o gengibre, excelente pra garganta; 1 real”.
: alicate p’ra cutícula. “Não deixe sua unha toda remelada, tire as cutículas; tenho aqui um excelente alicate, próprio para tirar cutículas; já vem afiado e esterilizado; 10 real; produto de ótima qualidade; só 10 real”.

Agora entendi porque o Meireles e o Goldfajn estão eufóricos com a recuperação do emprego. Esses linguistas tucanos! É isso que dá botar linguista pra tomar conta da economia. Não, gente, não é a raposa tomando conta do galinheiro não. É algo assim como o ministro da economia da Dinamarca tomando conta da economia da … Dinamarca. Só que em Brasília. Em R$real. E em neoliberal.
Mas tenho o propósito de informar. A mercancia ferroviária aqui na capital está no seguinte pé: 1) nos trens da CPTM, liberada; tem mais mercador do que passageiro, dia desses fui até a Lapa, tô sabeno; 2) no metrô público (as linhas administradas pelo estado): mercancia liberada na prática; os fiscais já desistiram de correr atrás; 3) na linha amarela: proibida e ninguém tasca; e “não dê esmolas nem compre produtos de ambulantes, prezado passageiro”.
Ainda bem que não pediram pr’aquele cara que fala em inglês repetir esse recado lá na língua dele. Gente, eu não aguento a voz daquele cara; não, não é a voz, é a entonação; não é possível que haja alguma população de algum país de língua inglesa que tenha aquela entonação. Vocês aí, meus amigos poliglotas e viajados, por favor, me avisem, para que eu nunca, jamais, pise lá, se houver. Porque será morte certa. Se apenas um me dá brotoejas, imagina uma população inteira.
O emprego está crescendo, minha gente. Quando a linha amarela liberar geral, o problema do emprego no Brasil estará resolvido.
Agora, sério: o CCO da linha amarela fica na Suíça. Não é só o trem e a língua que são de primeiro mundo; os administradores também, até os maquinistas, que são remotos. Tem caroço nesse angu. Ainda não descobriram que a máquina é de primeira, mas os usuários são de terceira, mais da metade no provisório, uns 15% no adjutório. Tudo bem, não correm o risco de terem seus computadores confiscados e seus executivos expostos na coletiva da PF/JN, mas não custa colaborar um pouco com a recuperação do patológico emprego tucano. Eu tenho um palpite de que essa mania de expulsar os mercadores do trem ainda vai provocar a crucificação da linha amarela. No mínimo terão que engolir alguns sapos.
Mas uma coisa me deixou alarmado, hoje. Os maquinistas das outras linhas estão falando nékis esteixam. Por enquanto, só nékis esteixam, de viva voz. Assim mesmo, com todos os esses e vogais. Estou atônito, ansioso e alarmado.



terça-feira, 13 de março de 2018

MEU GATO NÃO TINHA NOME.


Começa que não era meu, era nosso. Da casa. Da família. Assim como o cachorro, o pato, o marreco, a galinha d’Angola… Ninguém tinha animal particular, nenhum animal tinha dono específico. Não era como agora, em que o gato é da mãe, o cachorro é do pai, a tartaruga é do filho… e o individualismo é de todos. Outra coisa: bicho nenhum tinha cobertor de gente, médico de gente, carinho de gente, velório de gente, casamento de gente, nome de gente…

Os animais eram divididos entre nominados e inominados. Os potros e bezerros não tinham nome. A vaca só ganhava nome quando paria. Virava mãe, ganhava um filho e um nome, pra facilitar na hora da chamada oral da ordenha. O potro, quando virava égua ou cavalo ou burro ou mula, ganhava nome, pra poder ser guiado no grito quando puxava a carroça ou o arado. Patos, marrecos, gansos, perus e galinhas não tinham nome por causa da quantidade e da impessoalidade típicas desses bichos: havia centenas, todos muito parecidos, agindo em bandos, eram como os habitantes humanos de uma cidade grande, tinham a personalidade destruída pela quantidade, a massificação. Jamais alguém deu nome a uma galinha, a chamou de minha. Os porcos não tinham nome porque iam pra panela com muita frequência, mortos ali no terreiro mesmo, pelo dono da casa: um nome individualiza, um afeto humaniza, de repente o chefe da família corria o risco de ser chamado de assassino por um dos filhos… então chefe de família nenhum era besta de pôr nome em porco.
Cachorro tinha nome, era de lei. Senão ficava difícil gritar com ele quando chegava uma visita e ele se punha a fazer escândalo. Porque é assim: cachorro ama realmente seu dono, mas odeia todos demais semelhantes ao seu dono. No cachorro de caça ou no de guarda, o nome tinha importância prática, mas depois que todos os bichos silvestres foram caçados e os ladrões perderam o respeito a esse tipo de vigia, o nome em cachorro perdeu a função, só se mantendo pelo excesso de fidelidade canina, muito puxasaquismo, e pelo costume.
Sim, em minha memória animalesca, havia, pela ordem hierárquica, cachorros, gatos, bípedes vários (menos passarinhos, que os havia também, porém livres esvoaçantes como o vento no quintal), porcos, muares, equinos e bovinos. E era assim: vaca dormia no pasto, porco no chiqueiro, galinha no poleiro, cães e gatos no terreiro e, dentro de casa, dormíamos nós humanos. Durante o dia eles podiam entrar sim, até porcos, às vezes, assim como os silvestres sapos e cobras. Mas, na hora de dormir, cada um no seu canto.
E os gatos, apesar de bem colocados na hierarquia, não tinham nome. Explico porque, mas antes vale dizer que nós humanos tínhamos a vital atribuição de dar nomes aos animais (não, boi nenhum tinha nome, pelo motivo inverso ao das galinhas). Quem nomeia, domina. Sim, nós mandávamos, mas com respeito: atribuíamos aos bichos nomes de bichos. Nenhum bicho tinha nome de gente. E tratávamos os bichos como bichos, não como gentes. Pela lógica elementar de que, se você não gosta de ser tratado como bicho, bicho não gosta de ser tratado como gente. Por exemplo, dando a eles espaço próprio e a liberdade de escolherem onde e como se agasalharem durante a noite. Então nossa relação era gente — bicho; exceto com os gatos! Acho que não dávamos nomes aos gatos em represália à indiferença felina com que nos tratavam. Com os gatos, era uma relação bicho — bicho. 


segunda-feira, 5 de março de 2018

NÃO TENHO INIMIGOS E…


começo a desconfiar que isso não é motivo de comemoração. Dia desses escrevi que não tenho inimigos, achando que era o máximo. Mas, cá entre nós, será que essa inexistência de inimigos não quer dizer que ando fugindo do pau? Que não tenho sido omisso ou covarde? Porque o simples fato de descer do muro já vai desagradar os que estão do outro lado. Tudo bem que não sou muito chegado a ferrenhas disputas e é certo que não entro em bola dividida (só literalmente) nem corro atrás das coisas com muita afoiteza, mas será que não tenho exagerado? Não poderia ser excesso de desinteresse, indiferença?
Tudo bem, às vezes lavo as mãos, me abstenho… Será que não tenho sido cuidadoso demais? Ou será que é por causa do meu excesso de elegância, que é porque deixo o futuro inimigo sacar primeiro, quando entro num duelo? (e, por isso, sempre morro no final).
Então, vejam que pode não ser tão lisonjeira assim a inexistência de inimigos. Certo, é tranquilizante saber que ninguém deseja sua destruição, mas pode indicar também que você é um paspalhão, que ninguém te leva a sério. Porque, neste mundo de tantas quinas, é improvável que um sujeito vivo não desagrade seriamente a alguém. Um mundo tão desigual, tão violento, tão apertado e o cara ali, olímpico, de bem com gregos e troianos. O cara ali, em brancas nuvens, sempre negando as contradições ou, ao contrário, sempre cuidando de identificá-las muito bem e sempre ficando do lado conveniente… O cara burramente interpretando ao pé da letra aquela metáfora cristã de sempre oferecer a outra face.
Vejam, portanto, que tem fundamento essa minha preocupação com o fato de eu não ter inimigos.
Mas, para atenuar meu desconsolo, tenho desafetos. Desafeto é um sujeito que não gosta de você, não vai com a tua cara, mas não chega a ser teu inimigo. Inimigo se conquista em guerra quente; desafeto, em guerra fria. Ele te cumprimenta na rua — sempre com o mesmo bordão e o mesmo sorriso padronizado — e, se você o convidar, ele até toma um café junto na padaria. Um seu desafeto é alguém com quem você mantém uma disputa morna, não declarada, de baixa intensidade, decorrente de uma antipatia difusa, sem objeto identificável; ou, então, algo concreto, mas banal. Enfim, a existência de desafetos indica traços de opinião própria, posições tomadas, algum esqueleto a vergar, tudo sem muito barulho, nada emocionante. Entretanto, uma vida, ainda que mínima, ainda que morna. Menos que nada.
Claro que o desafeto não quer te ver morto. Ele só quer te ver longe. (Por isso, ele pode muito bem ser teu amigo no feicibuque rsrsrs). Um tipo assim que realmente nunca pensou em comer teu fígado. Ele só quer comer teu pudim.

quinta-feira, 1 de março de 2018

AH, O FÍGADO !

Esse todo mundo conhece. Um monte de gente morre do fígado. Ele tem doenças próprias: hepatite, cirrose…
O fígado é tão popular quanto o coração, mas é menos falado. Porque o coração é o amor e o fígado é o rancor. E ninguém gosta de falar do Coisa Ruim. Sim, porque o coração é deus e o fígado é o diabo.
O coração entra nas horas leves, enquanto o fígado entra nas horas brutas. Aliás, uma pessoa má nem tem coração...
Ninguém beija o fígado, todo mundo só beija o coração (coisa mais esquisita essa de beijar o coração). Entretanto, ninguém diz que vai comer o coração de alguém, quando deseja destruir esse alguém. Aí é o fígado que ele quer comer.
Nunca ninguém disse p’ra mim — assim, que eu ouvisse —, que queria comer meu fígado. Mas o dia que eu ouvir isso da boca de alguém, vou ficar horrorizado. Aos meus inimigos que não tenho, já vou avisando: se vocês quiserem me desestabilizar, basta manifestarem o desejo de comer meu fígado. Nem precisam chegar às vias de fato de afirmarem que vão comer meu fígado, porque aí eu entraria em pânico.
Contudo, há uma contradição aí, nessa comparação entre esses dois órgãos: o coração é o órgão da paixão, mas quem é vermelho é o fígado. E o coração, tão bonzinho e tão fogoso, é roxo-pálido feioso.
É vermelho sim, rapá! Tô falando de fígado de gente, não de fígado de boi. E tô falando de fígado vivo, não de fígado fatiado na bandeja. Claro que tô falando de fígado de gente séria bem-comportada, não desses que todo dia passam no boteco pra tomar duas latinhas de cerveja. O fígado desses é pardo embaçado e eles não perdem por esperar…
Sendo que fígado é fel. E o fel é amargo. Os indivíduos que se deixam dominar pelo fígado são amargos. E a amargura leva à descrença, à desesperança. E aí o bom e saudável fígado, com sua amarga bile, sobe à cabeça e o sujeito odeia e adoece. Porque o modo mais fácil e rápido de adoecer é odiar.

É isso: o fígado destila fel e algumas pessoas sofrem de amargura. E esta crônica figadal sofre pra ser coerente, mas queria mesmo era falar de doçura.