Esse
todo mundo conhece. Um monte de gente morre do fígado. Ele tem
doenças próprias: hepatite, cirrose…
O
fígado é tão popular quanto o coração, mas é menos falado.
Porque o coração é o amor e o fígado é o rancor. E ninguém
gosta de falar do Coisa Ruim. Sim, porque o coração é deus e o
fígado é o diabo.
O
coração entra nas horas leves, enquanto o fígado entra nas horas
brutas. Aliás, uma pessoa má nem tem coração...
Ninguém
beija o fígado, todo mundo só beija o coração (coisa mais
esquisita essa de beijar o coração). Entretanto, ninguém diz que
vai comer o coração de alguém, quando deseja destruir esse alguém.
Aí é o fígado que ele quer comer.
Nunca
ninguém disse p’ra mim — assim, que eu ouvisse —, que queria
comer meu fígado. Mas o dia que eu ouvir isso da boca de alguém,
vou ficar horrorizado. Aos meus inimigos que não tenho, já vou
avisando: se vocês quiserem me desestabilizar, basta manifestarem o
desejo de comer meu fígado. Nem precisam chegar às vias de fato de
afirmarem que vão comer meu fígado, porque aí eu entraria em
pânico.
Contudo,
há uma contradição aí, nessa comparação entre esses dois
órgãos: o coração é o órgão da paixão, mas quem é vermelho é
o fígado. E o coração, tão bonzinho e tão fogoso, é roxo-pálido
feioso.
É
vermelho sim, rapá! Tô falando de fígado de gente, não de fígado
de boi. E tô falando de fígado vivo, não de fígado fatiado na
bandeja. Claro que tô falando de fígado de gente séria
bem-comportada, não desses que todo dia passam no boteco pra tomar
duas latinhas de cerveja. O fígado desses é pardo embaçado e eles
não perdem por esperar…
Sendo
que fígado é fel. E o fel é amargo. Os indivíduos que se deixam
dominar pelo fígado são amargos. E a amargura leva à descrença, à
desesperança. E aí o bom e saudável fígado, com sua amarga bile,
sobe à cabeça e o sujeito odeia e adoece. Porque o modo mais fácil
e rápido de adoecer é odiar.
É
isso: o fígado destila fel e algumas pessoas sofrem de amargura. E
esta crônica figadal sofre pra ser coerente, mas queria mesmo era
falar de doçura.
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