quinta-feira, 1 de março de 2018

AH, O FÍGADO !

Esse todo mundo conhece. Um monte de gente morre do fígado. Ele tem doenças próprias: hepatite, cirrose…
O fígado é tão popular quanto o coração, mas é menos falado. Porque o coração é o amor e o fígado é o rancor. E ninguém gosta de falar do Coisa Ruim. Sim, porque o coração é deus e o fígado é o diabo.
O coração entra nas horas leves, enquanto o fígado entra nas horas brutas. Aliás, uma pessoa má nem tem coração...
Ninguém beija o fígado, todo mundo só beija o coração (coisa mais esquisita essa de beijar o coração). Entretanto, ninguém diz que vai comer o coração de alguém, quando deseja destruir esse alguém. Aí é o fígado que ele quer comer.
Nunca ninguém disse p’ra mim — assim, que eu ouvisse —, que queria comer meu fígado. Mas o dia que eu ouvir isso da boca de alguém, vou ficar horrorizado. Aos meus inimigos que não tenho, já vou avisando: se vocês quiserem me desestabilizar, basta manifestarem o desejo de comer meu fígado. Nem precisam chegar às vias de fato de afirmarem que vão comer meu fígado, porque aí eu entraria em pânico.
Contudo, há uma contradição aí, nessa comparação entre esses dois órgãos: o coração é o órgão da paixão, mas quem é vermelho é o fígado. E o coração, tão bonzinho e tão fogoso, é roxo-pálido feioso.
É vermelho sim, rapá! Tô falando de fígado de gente, não de fígado de boi. E tô falando de fígado vivo, não de fígado fatiado na bandeja. Claro que tô falando de fígado de gente séria bem-comportada, não desses que todo dia passam no boteco pra tomar duas latinhas de cerveja. O fígado desses é pardo embaçado e eles não perdem por esperar…
Sendo que fígado é fel. E o fel é amargo. Os indivíduos que se deixam dominar pelo fígado são amargos. E a amargura leva à descrença, à desesperança. E aí o bom e saudável fígado, com sua amarga bile, sobe à cabeça e o sujeito odeia e adoece. Porque o modo mais fácil e rápido de adoecer é odiar.

É isso: o fígado destila fel e algumas pessoas sofrem de amargura. E esta crônica figadal sofre pra ser coerente, mas queria mesmo era falar de doçura.  






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