segunda-feira, 5 de março de 2018

NÃO TENHO INIMIGOS E…


começo a desconfiar que isso não é motivo de comemoração. Dia desses escrevi que não tenho inimigos, achando que era o máximo. Mas, cá entre nós, será que essa inexistência de inimigos não quer dizer que ando fugindo do pau? Que não tenho sido omisso ou covarde? Porque o simples fato de descer do muro já vai desagradar os que estão do outro lado. Tudo bem que não sou muito chegado a ferrenhas disputas e é certo que não entro em bola dividida (só literalmente) nem corro atrás das coisas com muita afoiteza, mas será que não tenho exagerado? Não poderia ser excesso de desinteresse, indiferença?
Tudo bem, às vezes lavo as mãos, me abstenho… Será que não tenho sido cuidadoso demais? Ou será que é por causa do meu excesso de elegância, que é porque deixo o futuro inimigo sacar primeiro, quando entro num duelo? (e, por isso, sempre morro no final).
Então, vejam que pode não ser tão lisonjeira assim a inexistência de inimigos. Certo, é tranquilizante saber que ninguém deseja sua destruição, mas pode indicar também que você é um paspalhão, que ninguém te leva a sério. Porque, neste mundo de tantas quinas, é improvável que um sujeito vivo não desagrade seriamente a alguém. Um mundo tão desigual, tão violento, tão apertado e o cara ali, olímpico, de bem com gregos e troianos. O cara ali, em brancas nuvens, sempre negando as contradições ou, ao contrário, sempre cuidando de identificá-las muito bem e sempre ficando do lado conveniente… O cara burramente interpretando ao pé da letra aquela metáfora cristã de sempre oferecer a outra face.
Vejam, portanto, que tem fundamento essa minha preocupação com o fato de eu não ter inimigos.
Mas, para atenuar meu desconsolo, tenho desafetos. Desafeto é um sujeito que não gosta de você, não vai com a tua cara, mas não chega a ser teu inimigo. Inimigo se conquista em guerra quente; desafeto, em guerra fria. Ele te cumprimenta na rua — sempre com o mesmo bordão e o mesmo sorriso padronizado — e, se você o convidar, ele até toma um café junto na padaria. Um seu desafeto é alguém com quem você mantém uma disputa morna, não declarada, de baixa intensidade, decorrente de uma antipatia difusa, sem objeto identificável; ou, então, algo concreto, mas banal. Enfim, a existência de desafetos indica traços de opinião própria, posições tomadas, algum esqueleto a vergar, tudo sem muito barulho, nada emocionante. Entretanto, uma vida, ainda que mínima, ainda que morna. Menos que nada.
Claro que o desafeto não quer te ver morto. Ele só quer te ver longe. (Por isso, ele pode muito bem ser teu amigo no feicibuque rsrsrs). Um tipo assim que realmente nunca pensou em comer teu fígado. Ele só quer comer teu pudim.

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