… começo
a desconfiar que isso não é motivo de comemoração. Dia desses
escrevi que não tenho inimigos, achando que era o máximo. Mas, cá
entre nós, será que essa inexistência de inimigos não quer dizer
que ando fugindo do pau? Que não tenho sido omisso ou covarde?
Porque o simples fato de descer do muro já vai desagradar os que
estão do outro lado. Tudo bem que não sou muito chegado a ferrenhas
disputas e é certo que não entro em bola dividida (só
literalmente) nem corro atrás das coisas com muita afoiteza, mas
será que não tenho exagerado? Não poderia ser excesso de
desinteresse, indiferença?
Tudo
bem, às vezes lavo as mãos, me abstenho… Será que não tenho
sido cuidadoso demais? Ou será que é por causa do meu excesso de
elegância, que é porque deixo o futuro inimigo sacar primeiro,
quando entro num duelo? (e, por isso, sempre morro no final).
Então,
vejam que pode não ser tão lisonjeira assim a inexistência de
inimigos. Certo, é tranquilizante saber que ninguém deseja sua
destruição, mas pode indicar também que você é um paspalhão,
que ninguém te leva a sério. Porque, neste mundo de tantas quinas,
é improvável que um sujeito vivo não
desagrade seriamente a alguém. Um mundo tão desigual, tão
violento, tão apertado e o cara ali, olímpico, de bem com gregos e
troianos. O cara ali, em brancas nuvens, sempre negando as
contradições ou, ao contrário, sempre cuidando de identificá-las
muito bem e sempre ficando do lado conveniente… O cara burramente
interpretando ao pé da letra aquela metáfora cristã de sempre
oferecer a outra face.
Vejam,
portanto, que tem fundamento essa minha preocupação com o fato de
eu não ter inimigos.
Mas,
para atenuar meu desconsolo, tenho desafetos. Desafeto é um sujeito
que não gosta de você, não vai com a tua cara, mas não chega a
ser teu inimigo. Inimigo se conquista em guerra quente; desafeto, em
guerra fria. Ele te cumprimenta na rua — sempre com o mesmo bordão
e o mesmo sorriso padronizado — e, se você o convidar, ele até
toma um café junto na padaria. Um seu desafeto é alguém com quem
você mantém uma disputa morna, não declarada, de baixa
intensidade, decorrente de uma antipatia difusa, sem objeto
identificável; ou, então, algo concreto, mas banal. Enfim, a
existência de desafetos indica traços de opinião própria,
posições tomadas, algum esqueleto a vergar, tudo sem muito barulho,
nada emocionante. Entretanto, uma vida, ainda que mínima, ainda que
morna. Menos que nada.
Claro
que o desafeto não quer te ver morto. Ele só quer te ver longe.
(Por isso, ele pode muito bem ser teu amigo no feicibuque rsrsrs). Um
tipo assim que realmente nunca pensou em comer teu fígado. Ele só
quer comer teu pudim.
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