terça-feira, 13 de março de 2018

MEU GATO NÃO TINHA NOME.


Começa que não era meu, era nosso. Da casa. Da família. Assim como o cachorro, o pato, o marreco, a galinha d’Angola… Ninguém tinha animal particular, nenhum animal tinha dono específico. Não era como agora, em que o gato é da mãe, o cachorro é do pai, a tartaruga é do filho… e o individualismo é de todos. Outra coisa: bicho nenhum tinha cobertor de gente, médico de gente, carinho de gente, velório de gente, casamento de gente, nome de gente…

Os animais eram divididos entre nominados e inominados. Os potros e bezerros não tinham nome. A vaca só ganhava nome quando paria. Virava mãe, ganhava um filho e um nome, pra facilitar na hora da chamada oral da ordenha. O potro, quando virava égua ou cavalo ou burro ou mula, ganhava nome, pra poder ser guiado no grito quando puxava a carroça ou o arado. Patos, marrecos, gansos, perus e galinhas não tinham nome por causa da quantidade e da impessoalidade típicas desses bichos: havia centenas, todos muito parecidos, agindo em bandos, eram como os habitantes humanos de uma cidade grande, tinham a personalidade destruída pela quantidade, a massificação. Jamais alguém deu nome a uma galinha, a chamou de minha. Os porcos não tinham nome porque iam pra panela com muita frequência, mortos ali no terreiro mesmo, pelo dono da casa: um nome individualiza, um afeto humaniza, de repente o chefe da família corria o risco de ser chamado de assassino por um dos filhos… então chefe de família nenhum era besta de pôr nome em porco.
Cachorro tinha nome, era de lei. Senão ficava difícil gritar com ele quando chegava uma visita e ele se punha a fazer escândalo. Porque é assim: cachorro ama realmente seu dono, mas odeia todos demais semelhantes ao seu dono. No cachorro de caça ou no de guarda, o nome tinha importância prática, mas depois que todos os bichos silvestres foram caçados e os ladrões perderam o respeito a esse tipo de vigia, o nome em cachorro perdeu a função, só se mantendo pelo excesso de fidelidade canina, muito puxasaquismo, e pelo costume.
Sim, em minha memória animalesca, havia, pela ordem hierárquica, cachorros, gatos, bípedes vários (menos passarinhos, que os havia também, porém livres esvoaçantes como o vento no quintal), porcos, muares, equinos e bovinos. E era assim: vaca dormia no pasto, porco no chiqueiro, galinha no poleiro, cães e gatos no terreiro e, dentro de casa, dormíamos nós humanos. Durante o dia eles podiam entrar sim, até porcos, às vezes, assim como os silvestres sapos e cobras. Mas, na hora de dormir, cada um no seu canto.
E os gatos, apesar de bem colocados na hierarquia, não tinham nome. Explico porque, mas antes vale dizer que nós humanos tínhamos a vital atribuição de dar nomes aos animais (não, boi nenhum tinha nome, pelo motivo inverso ao das galinhas). Quem nomeia, domina. Sim, nós mandávamos, mas com respeito: atribuíamos aos bichos nomes de bichos. Nenhum bicho tinha nome de gente. E tratávamos os bichos como bichos, não como gentes. Pela lógica elementar de que, se você não gosta de ser tratado como bicho, bicho não gosta de ser tratado como gente. Por exemplo, dando a eles espaço próprio e a liberdade de escolherem onde e como se agasalharem durante a noite. Então nossa relação era gente — bicho; exceto com os gatos! Acho que não dávamos nomes aos gatos em represália à indiferença felina com que nos tratavam. Com os gatos, era uma relação bicho — bicho. 


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