Começa
que não era meu, era nosso. Da casa. Da família. Assim como o
cachorro, o pato, o marreco, a galinha d’Angola… Ninguém tinha
animal particular, nenhum animal tinha dono específico. Não era
como agora, em que o gato é da mãe, o cachorro é do pai, a
tartaruga é do filho… e o individualismo é de todos. Outra coisa:
bicho nenhum tinha cobertor de gente, médico de gente, carinho de
gente, velório de gente, casamento de gente, nome de gente…
Os
animais eram divididos entre nominados e inominados. Os potros e
bezerros não tinham nome. A vaca só ganhava nome quando paria.
Virava mãe, ganhava um filho e um nome, pra facilitar na hora da
chamada oral da ordenha. O potro, quando virava égua ou cavalo ou
burro ou mula, ganhava nome, pra poder ser guiado no grito quando
puxava a carroça ou o arado. Patos, marrecos, gansos, perus e
galinhas não tinham nome por causa da quantidade e da impessoalidade
típicas desses bichos: havia centenas, todos muito parecidos, agindo
em bandos, eram como os habitantes humanos de uma cidade grande,
tinham a personalidade destruída pela quantidade, a massificação.
Jamais alguém deu nome a uma galinha, a chamou de minha. Os porcos
não tinham nome porque iam pra panela com muita frequência, mortos
ali no terreiro mesmo, pelo dono da casa: um nome individualiza, um
afeto humaniza, de repente o chefe da família corria o risco de ser
chamado de assassino por um dos filhos… então chefe de família
nenhum era besta de pôr nome em porco.
Cachorro
tinha nome, era de lei. Senão ficava difícil gritar com ele quando
chegava uma visita e ele se punha a fazer escândalo. Porque é
assim: cachorro ama realmente seu dono, mas odeia todos demais
semelhantes ao seu dono. No cachorro de caça ou no de guarda, o nome
tinha importância prática, mas depois que todos os bichos
silvestres foram caçados e os ladrões perderam o respeito a esse
tipo de vigia, o nome em cachorro perdeu a função, só se mantendo
pelo excesso de fidelidade canina, muito puxasaquismo, e pelo
costume.
Sim,
em minha memória animalesca, havia, pela ordem hierárquica,
cachorros, gatos, bípedes vários (menos passarinhos, que os havia
também, porém livres esvoaçantes como o vento no quintal), porcos,
muares, equinos e bovinos. E era assim: vaca dormia no pasto, porco
no chiqueiro, galinha no poleiro, cães e gatos no terreiro e, dentro
de casa, dormíamos nós humanos. Durante o dia eles podiam entrar
sim, até porcos, às vezes, assim como os silvestres sapos e cobras.
Mas, na hora de dormir, cada um no seu canto.
E
os gatos, apesar de bem colocados na hierarquia, não tinham nome.
Explico porque, mas antes vale dizer que nós humanos tínhamos a
vital atribuição de dar nomes aos animais (não, boi nenhum tinha
nome, pelo motivo inverso ao das galinhas). Quem nomeia, domina. Sim,
nós mandávamos, mas com respeito: atribuíamos aos bichos nomes de
bichos. Nenhum bicho tinha nome de gente. E tratávamos os bichos
como bichos, não como gentes. Pela lógica elementar de que, se você
não gosta de ser tratado como bicho, bicho não gosta de ser tratado
como gente. Por exemplo, dando a eles espaço próprio e a liberdade
de escolherem onde e como se agasalharem durante a noite. Então
nossa relação era gente — bicho; exceto com os gatos! Acho que
não dávamos nomes aos gatos em represália à indiferença felina
com que nos tratavam. Com os gatos, era uma relação bicho —
bicho.
Nenhum comentário:
Postar um comentário