Não
é todo dia que ando no metrô. Mas todo dia que ando no metrô,
encontro mercadores e, enquanto eles mercadejam, eu
vejo. E penso e fico atônito. Já escrevi sobre um desses, que vi em
desabalada carreira, fugindo do fiscal, na Estação São Bento.
Ando
com mais frequência entre São Joaquim e Santana, na linha azul, e
vou até o Butantã, na amarela. Antes, coisa de 3 anos atrás, o
meu vagão, na linha azul, nem sempre era agraciado com um mercador.
E nunca mais de um de cada vez. Mas hoje o meu vagão foi agraciado
com cinco (5) de uma vez só, cada um com um produto diferente:
—:
fones de ouvido. “Lá fora tão cobrando quinze, aqui faço por
cinco”;
—:
Brasil cacau. “Gente, desculpa o incômodo, é rapidinho; tô
vendendo um produto da Brasil cacau, uma delícia; bolinhas de
chocolate com recheio de nutela; São 30 bolinhas no pacote; 1 pc
dois real; e tem 30 bolinhas mesmo, você pode abrir e contar na
minha frente. Vamos, 3 por 5, 7 por 10; quem vai? Tá bom, gente, 5
por 5, é melhor assim do que entregar de graça pro fiscal; só 1
real o pacote, quem vai?”
—:
porta-documentos. “Não deixe seu RG desbeiçar, é só 1 real e
cabe 3; compre 6 e proteja seus 18 cartões; tá bom, pessoal, 4 paga
6; duas notas de 2 e você tá protegido; cuidado, gente, a polícia
não gosta de documento desbeiçado”.
—:
bala de gengibre. “Gente, tenho aqui bala de gengibre; gengibre com
mel; uma delícia; 1 real o pacote; boa pra garganta; mas, gente,
atenção!: ela só é doce no começo; depois ela fica meio
ardidinha; é assim mesmo, gente, é o gengibre, excelente pra
garganta; 1 real”.
—:
alicate p’ra cutícula. “Não deixe sua unha toda remelada, tire
as cutículas; tenho aqui um excelente alicate, próprio para tirar
cutículas; já vem afiado e esterilizado; 10 real; produto de ótima
qualidade; só 10 real”.
Agora
entendi porque o Meireles e o Goldfajn estão eufóricos com a
recuperação do emprego. Esses linguistas tucanos! É isso que dá
botar linguista pra tomar conta da economia. Não, gente, não é a
raposa tomando conta do galinheiro não. É algo assim como o
ministro da economia da Dinamarca tomando conta da economia da …
Dinamarca. Só que em Brasília. Em R$real. E em neoliberal.
Mas
tenho o propósito de informar. A mercancia ferroviária aqui na
capital está no seguinte pé: 1) nos trens da CPTM, liberada; tem
mais mercador do que passageiro, dia desses fui até a Lapa, tô
sabeno; 2) no metrô público (as linhas administradas pelo estado):
mercancia liberada na prática; os fiscais já desistiram de correr
atrás; 3) na linha amarela: proibida e ninguém tasca; e “não dê
esmolas nem compre produtos de ambulantes, prezado passageiro”.
Ainda
bem que não pediram pr’aquele cara que fala em inglês repetir
esse recado lá na língua dele. Gente, eu não aguento a voz daquele
cara; não, não é a voz, é a entonação; não é possível que
haja alguma população de algum país de língua inglesa que tenha
aquela entonação. Vocês aí, meus amigos poliglotas e viajados,
por favor, me avisem, para que eu nunca, jamais, pise lá, se houver.
Porque será morte certa. Se apenas um me dá brotoejas, imagina
uma população inteira.
O emprego está crescendo, minha gente. Quando
a linha amarela liberar geral, o problema do emprego no Brasil estará
resolvido.
Agora,
sério: o CCO da linha amarela fica na Suíça. Não é só o trem e
a língua que são de primeiro mundo; os administradores também, até
os maquinistas, que são remotos. Tem caroço nesse angu. Ainda não
descobriram que a máquina é de primeira, mas os usuários são de
terceira, mais da metade no provisório, uns 15% no adjutório. Tudo
bem, não correm o risco de terem seus computadores confiscados e
seus executivos expostos na coletiva da PF/JN, mas não custa
colaborar um pouco com a recuperação do patológico emprego tucano. Eu tenho um
palpite de que essa mania de expulsar os mercadores do trem ainda vai
provocar a crucificação da linha amarela. No mínimo terão que engolir alguns sapos.
Mas
uma coisa me deixou alarmado, hoje. Os maquinistas das outras linhas
estão falando nékis esteixam. Por enquanto, só nékis esteixam, de
viva voz. Assim mesmo, com todos os esses e vogais. Estou atônito,
ansioso e alarmado.
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