quinta-feira, 15 de março de 2018

OS MERCADORES DO TREM.


Não é todo dia que ando no metrô. Mas todo dia que ando no metrô, encontro mercadores e, enquanto eles mercadejam, eu vejo. E penso e fico atônito. Já escrevi sobre um desses, que vi em desabalada carreira, fugindo do fiscal, na Estação São Bento.
Ando com mais frequência entre São Joaquim e Santana, na linha azul, e vou até o Butantã, na amarela. Antes, coisa de 3 anos atrás, o meu vagão, na linha azul, nem sempre era agraciado com um mercador. E nunca mais de um de cada vez. Mas hoje o meu vagão foi agraciado com cinco (5) de uma vez só, cada um com um produto diferente:
: fones de ouvido. “Lá fora tão cobrando quinze, aqui faço por cinco”;
: Brasil cacau. “Gente, desculpa o incômodo, é rapidinho; tô vendendo um produto da Brasil cacau, uma delícia; bolinhas de chocolate com recheio de nutela; São 30 bolinhas no pacote; 1 pc dois real; e tem 30 bolinhas mesmo, você pode abrir e contar na minha frente. Vamos, 3 por 5, 7 por 10; quem vai? Tá bom, gente, 5 por 5, é melhor assim do que entregar de graça pro fiscal; só 1 real o pacote, quem vai?”
: porta-documentos. “Não deixe seu RG desbeiçar, é só 1 real e cabe 3; compre 6 e proteja seus 18 cartões; tá bom, pessoal, 4 paga 6; duas notas de 2 e você tá protegido; cuidado, gente, a polícia não gosta de documento desbeiçado”.
: bala de gengibre. “Gente, tenho aqui bala de gengibre; gengibre com mel; uma delícia; 1 real o pacote; boa pra garganta; mas, gente, atenção!: ela só é doce no começo; depois ela fica meio ardidinha; é assim mesmo, gente, é o gengibre, excelente pra garganta; 1 real”.
: alicate p’ra cutícula. “Não deixe sua unha toda remelada, tire as cutículas; tenho aqui um excelente alicate, próprio para tirar cutículas; já vem afiado e esterilizado; 10 real; produto de ótima qualidade; só 10 real”.

Agora entendi porque o Meireles e o Goldfajn estão eufóricos com a recuperação do emprego. Esses linguistas tucanos! É isso que dá botar linguista pra tomar conta da economia. Não, gente, não é a raposa tomando conta do galinheiro não. É algo assim como o ministro da economia da Dinamarca tomando conta da economia da … Dinamarca. Só que em Brasília. Em R$real. E em neoliberal.
Mas tenho o propósito de informar. A mercancia ferroviária aqui na capital está no seguinte pé: 1) nos trens da CPTM, liberada; tem mais mercador do que passageiro, dia desses fui até a Lapa, tô sabeno; 2) no metrô público (as linhas administradas pelo estado): mercancia liberada na prática; os fiscais já desistiram de correr atrás; 3) na linha amarela: proibida e ninguém tasca; e “não dê esmolas nem compre produtos de ambulantes, prezado passageiro”.
Ainda bem que não pediram pr’aquele cara que fala em inglês repetir esse recado lá na língua dele. Gente, eu não aguento a voz daquele cara; não, não é a voz, é a entonação; não é possível que haja alguma população de algum país de língua inglesa que tenha aquela entonação. Vocês aí, meus amigos poliglotas e viajados, por favor, me avisem, para que eu nunca, jamais, pise lá, se houver. Porque será morte certa. Se apenas um me dá brotoejas, imagina uma população inteira.
O emprego está crescendo, minha gente. Quando a linha amarela liberar geral, o problema do emprego no Brasil estará resolvido.
Agora, sério: o CCO da linha amarela fica na Suíça. Não é só o trem e a língua que são de primeiro mundo; os administradores também, até os maquinistas, que são remotos. Tem caroço nesse angu. Ainda não descobriram que a máquina é de primeira, mas os usuários são de terceira, mais da metade no provisório, uns 15% no adjutório. Tudo bem, não correm o risco de terem seus computadores confiscados e seus executivos expostos na coletiva da PF/JN, mas não custa colaborar um pouco com a recuperação do patológico emprego tucano. Eu tenho um palpite de que essa mania de expulsar os mercadores do trem ainda vai provocar a crucificação da linha amarela. No mínimo terão que engolir alguns sapos.
Mas uma coisa me deixou alarmado, hoje. Os maquinistas das outras linhas estão falando nékis esteixam. Por enquanto, só nékis esteixam, de viva voz. Assim mesmo, com todos os esses e vogais. Estou atônito, ansioso e alarmado.



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