sábado, 22 de outubro de 2016

MULHERES E HOMENS DE BOA VONTADE

Ia eu em minha bici pela calçada da Tiradentes, quando uma família de 6 caminhava em linha, lado a lado,  impedindo a ultrapassagem. Encostei atrás do mais volumoso da turma, que caminhava próximo ao meio fio e adotei a velocidade deles, sem acionar qualquer gadget sonoro, que não tenho, muito menos gritar ou assobiar ou falar. O que caminhava no outro extremo da linha me viu e avisou o grandão, que, solícito e sorridente, me deu passagem, recebendo em troca meu silencioso e agradecido sorriso.

Vivo por essa megalópole pra lá e pra cá, de trem, ônibus, metrô, bicicleta, carro, táxi. Ando muito a pé. Não me lembro de ter sido deliberadamente atrapalhado em minha vida de ir e vir. Nem hostilizado. Ao contrário, recebo das mulheres e homens com quem cruzo, sinais de compreensão e de ajuda. É certo que muitos estão tensos, alguns atônitos, mas na hora da ação prática, como segurar algo que cai, todos se apresentam para ajudar.

É que a arraia miúda torce para dar certo. Essas pessoas que não ficam encasteladas em suas fortificações ou seus bólidos pessoais desejam que as coisas funcionem: as coisas práticas. E quase tudo que se apresenta na vida de um frequentador da cidade é prático: encontrar um endereço, um ônibus, onde almoçar, uma farmácia, uma banca de jornal.

O povão, o zé-povinho, faz o possível e o impossível para que nada quebre, que não acabe a energia, que o tráfego flua. E deseja, sem dúvida, que haja casa e comida e creche e escola e transporte e saúde para todos. O populacho, os que se mostram em público sem seguranças, não faz a guerra para obter a paz. Esse povo quer a paz pela paz. Esse povo conspira para o sucesso. Para esse povo, quanto melhor, melhor.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

TESTEMUNHO DE UM DATILÓGRAFO

Na realidade não encontrei nenhum datilógrafo ou ex-datilógrafo vivo para qualquer testemunho. O que informarei em seguida é fruto de pesquisa minuciosa em livros, jornais, lendo relatos de escritores antigos, revirando arquivos históricos, visitando museus, garimpando os raros documentos em papel e até algumas escavações. É que o datilógrafo era um ser pré-histórico, quero dizer, viveu em tempos remotos, embora já houvesse escrita.

Essa escrita que digitalizamos em nossos smartphones, atualmente, veio daquela usada pelos datilógrafos, em verdade é a mesma, com pequenas mudanças. Por ex., aki era aqui, naum era não e vc era você. Além de vc, eles e a gente, havia também  eu, tu, nós e vós. Havia  seis pessoas e uma flexão verbal para cada uma, ao contrário de agora, que há apenas uma flexão verbal:   a gente/ você(s)/ele(s) escreve, lê, faz, dorme...Pq era porque, s/ era sem, miga era amiga e niver era aniversário.

Se vc, meu jovem, desconhece a palavra, saiba que o datilógrafo era um humano que praticava a datilografia. Tem no google. Para tanto, havia a máquina de escrever. Se eu lhe contar vc não acredita, mas esse trambolho já escrevia imprimindo. O texto já nascia impresso. Para tanto havia um rolo, uma fita suja de tinta, uma centena de hastes com letras metálicas na ponta e... uma folha de papel. Mas o mais impressionante da máquina de escrever é que o teclado era praticamente igual ao usado nos microcomputadores, que talvez você tenha visto...

O datilógrafo pressionava forte e rápido com as pontas dos dedos as teclas. Cada tecla acionava uma haste, que se movimentava e imprimia uma letra no papel devidamente posicionado. Então  se dizia, para quem só tratava do mesmo assunto, que o tal batia sempre na mesma tecla. Acionada a tecla, não havia retorno. Até que inventaram o branquinho, que tinha em líquido e em papel, mas a gambiarra não ficava boa e era proibida nos textos oficiais.

Datilografia era profissão e se aprendia na escola. Havia exames de conclusão de curso e outorga de diplomas, algo semelhante às escolas de língua atuais. No futuro, as escolas de datilografia e de línguas existirão apenas na memória de alguns pesquisadores e ninguém acreditará, se alguém contar, que havia mais de duzentas palavras diferentes para expressar o objeto sobre o qual se dorme ou o gracioso arranjo de dois finos pneus sobre o qual se pedala. E o substantivo máquina e o verbo escrever constarão apenas em dicionários antigos.

Mas o mais inusitado que encontrei, em minha pesquisa, foi sobre a mudança de prestígio do dedão. O polegar. Na datilografia ele desempenhava o terciário papel de acionar a tecla de espaço.E como ele era grosso, inábil e mal posicionado, tal tecla era enorme, muito maior que as outras, para que ele não fizesse besteira. A condescendência que todos destinavam a ele era parecida com essa com que tratamos o filho do dono da firma, que vive no meio de nós. Nos atuais smartphones, o dedão saiu da subalterna e única tecla para o protagonismo de todos os ícones e dígitos, relegando aos demais dedos o acessório papel de segurar o tijolinho.

A meteórica ascensão do polegar é uma boa metáfora. Assim como o quase absoluto ostracismo da datilografia. Ah, sim: antes havia o calígrafo...

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

DARWIN E NÓIS.

No futuro teremos 6 dedos em cada mão... é, tive o vislumbre dentro do ônibus, subindo a Consolação. A mocinha digitava em seu smartphone, vi o futuro,  tenho quase certeza de que evoluiremos para 6 dedos em cada mão: dois polegares ou dois indicadores, será um desses dois que teremos a mais em cada mão num futuro próximo, em termos históricos. Em termos práticos, é coisa de longo prazo, mas tudo nos leva a tal evolução da espécie.

Costumo ter essas visões subindo a Rebouças, mas hoje ia no sentido contrário, centro-bairro. Sendo que os seis dedos serão mais finos, e, ao contrário de hoje, o dedo mais fino será o polegar, vindo em seguida o indicador. O dedo mais grosso será o mínimo, que continuará inútil e nem para limpar o nariz servirá mais. Isto porque não haverá mais unhas, eis que elas atrapalham a digitação dos tais aparelhos. Porém, confirmando Darwin, a permanência do mínimo será a exceção que confirma a regra.

Estamos acostumados a perder órgãos e partes para evoluir. Nada vi em minha bola de cristal sobre possíveis perdas que compensem os ganhos ora relatados. É possível que haja, pois ganharemos muito. Além dos dedos, teremos um 3º braço. Nascerá no começo do pescoço, na região chamada colo, e sua respectiva 3ª mão servirá para segurar o smartphone, enquanto os outros 4 polegares das outras 2 mãos digitam. Se o cidadão estiver de pé, uma mão segura no corrimão para não cair, outra segura o aparelho e a outra digita. Se bem que já tem gente que segura e digita com uma só mão...Vantagem secundária não menos importante é que será muito mais difícil quebrar ou cortar o pescoço de alguém.

Tais evoluções da espécie mostrarão primeiros indícios nas mulheres. É que elas têm necessidade de digitar mais rápido (já hoje digitam mais rápido), porque necessitam se comunicar mais do que os homens. Aliás, por isso mesmo elas tomarão o poder quando tais evoluções se completarem. Imaginem a rapidez de uma digitação a 4 polegares. Creio até que a voz feminina, com seu timbre agudo sonoro e límpido, é decorrência do uso intenso, em tempos passados, do telefone de Graham Bell, ao contrário de nós, homens, mudos, broncos e brutos de dedos e palavras.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

CASA DE BARRO NA BIENAL

Hoje acordei cedo e senti cheiro de café coado. Que esperança que alguém estivesse coando café em minha casa ou na vizinhança. Era um cheiro imaginado, produzido por minhas atávicas lembranças. Acordei com desejos autoimoladores de esfolar meu coração. Quero dizer, escrever um texto que mexesse com meu emocional.

É que visitei a 32ª Bienal de São Paulo, no Ibirapuera, e lá vi duas casas de barro. Só que uma delas, de um artista finlandês, se não me falha a memória. Uma, para suportar o frio; a outra, do artista brasileiro, para suportar o calor. Você aí, ó caboclo brasileiro, meu amigo, imagine uma casa de barro para suportar o frio.

Numa casa de barro tem café coado toda manhã. Não sei você, conterrâneo paulistano, se já se alimentou de cheiro de café; eu já. Eu já enchi a barriga da etérea sustança do odor simbólico do café coado. Foi numa madrugada fria, no Viaduto Pedroso, quando passava ao lado de uma banca-de-café-da-manhã. Você conhece, dessas que vendem bolo e café na garrafa.

Numa casa de barro. Tenho vontade de rir quando ouço expressões do tipo "consumo de baixo impacto" e palavras grandes e eloquentes como autosustentabilidade. Há lá na Bienal uma casa de barro que, ideia boa, mescla o rancho caipira com a oca indígena. Madeira roliça na estrutura, bambu e barro nas paredes e capim na cobertura. Piso da mãe Terra, ela mesma:chão. Fogão de barro, combustível de lenha, cama de varas, mesa e bancos de madeira chanfrada no machado. Dois poços, um para fornecer a água e outro para acolher o esgoto: era aí que muito caipira se perdia, por desconhecer  seus invisíveis parasitas e a mecânica do oculto subsolo...

Mas, enfim, pra contrabalançar tanto verme,  no quintal, um canteiro de couve (sendo que todo canteiro de couve compreende canteiros de cebolinha verde, alface, hortelã, erva-doce, arruda, erva-cidreira e giló); uma moita de bananeiras e outra de bambu, um pé de manga e muitos pés de mamão; uma moenda de cana; um forno de lenha pra assar pão e leitão; um moinho de café; um pilão pra descascar arroz e café e milho(canjica); um fogão no chão pra torrar café e fritar porco; um chiqueiro.

Vida vária, em que cheiro de café coado se perde a imaginação de um caipira finlandês? Que tenra folha, que suculento fruto, que útil grão? Quais engenhocas no quintal? Então me prendo nas paredes: taipa. Barro e bambu. Cor de terra. Que possui todos os tons de marron, mas quase chega a branca, quando essa terra é um bom saibro brasileiro, duns que sei bem onde tem... Sei não se na Finlândia tem dessas taipas, desconfio daquele artista... e me dou conta de que quintal só é possível em terras tropicais.

Continuando na Bienal, há lá uns canteiros na cambota, artista portuguesa, melhor estilo hortas urbanas. Ainda me veio a casa improvisada: bom lugar para descansar nossos restos de precárias e imorredouras convicções.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

DA FORÇA DA GRANA QUE ERGUE E ENGANA

Vi a frase num muro e agora ela não me sai da cabeça. Pensei logo no Duda Mendonça, no Nizan Guanaes, no João Santana. Pensei que tinha algo a acrescentar. Até porque já sou rodado o suficiente para ter visto com meus próprios olhos o famoso verso do Caetano pichado no muro da mansão que havia na esquina da Teixeira da Silva com a Paulista. Acho que ainda era anos 1970, o Patrimônio Histórico discutia o tombamento das mansões remanescentes da Paulista e, numa bela manhã, quase todas amanheceram semidestruídas por seus próprios proprietários. Então um gaiato pichou lá o da força da grana que ergue e destrói coisas belas e eu não sei se tive a felicidade ou a infelicidade de ver e registrar a poesia viva e acusatória diante da destruição histórica.

     Agora, outro gaiato é mais sucinto e mordaz, mas hermético.Assim tão curto, pouca gente vai entender, ao contrário do verso de SAMPA. É que eu me lembro que o Maluf amava São Paulo. Duda Mendonça criou o famoso "Amo São Paulo" e um coração vermelho bem redondinho, com os quais Maluf ganhou a eleição. Antes o Jânio já havia ganhado a eleição com a vassoura, que não sei quem criou. FHC ganhou a eleição com a palavra REAL, mas aí não foi criação de publicitários e sim de financistas mui espertos. Posteriormente, o mesmo Duda Mendonça adocicou o Lula perante as madames dos Jardins, criando o Lulinha paz e amor.

     João Santana não teve muito trabalho contra Alckmim, Serra e Aécio, bastou associar a chuchu e a pó. Pó de serra, minha gente, olha lá! Poeira de helicóptero, olha lá! A fórmula para eleger esse trio não é publicitária; é midiática...

     Quando pensava que a coisa estava esgotada enquanto modelo para se ganhar eleição, olha só o que nos enfiaram goela abaixo: João Trabalhador. E o popular gesto dos dois dedos em riste na horizontal, que dizem que significa "acelera". Só sei que o gesto é muito popular, meio transgressivo, quase subversivo, diria. E o João é trabalhador. Uma combinação perfeita, invencível mesmo, pra pulverizar qualquer brilhantina no cabelo.

     Maluf amava o comércio. Qualquer comércio. Lula amava a luta. Essa incontornável labuta popular. João ama o LIDE. João ama o lucro. João ama a livre iniciativa da força da grana.

domingo, 2 de outubro de 2016

JOÃO TRABALHADOR !

Bem, agora o nosso prefeito é o João Trabalhador. E se fosse um vídeo, eu nesse momento faria o V deitado com os dedos indicador e médio, que não sei o que significa, mas sei que é coisa de jovem de periferia.

Nem dá pra dizer que esse povo não sabe votar, porque, 4 anos atrás, esse mesmo povo elegeu Haddad.

É que, em 2012, o MARIA VAI COAS OTRAS foi com o Haddad e, agora, foi com o João Trabalhador. Sendo que esse maria-vai-coas-otras  já foi com Jânio, com Maluf, com Pita, com Kassab, com Serra... assim como já foi com Erundina e Marta.

Só que esse maria-vai-coas-otras vai mais resoluto e em manada para os candidatos da direita do que para os da esquerda. FHC foi eleito em primeiro turno nos dois mandatos; Alkmin aqui em SP também. Já Lula teve de fazer muitas concessões e passar raspando no 2º turno.

O problema é que a gente não conhece o maria-vai-coas-otras. Ou não quer conhecer. É que o maria-vai-coas-otras é duro de amar teresa... Esse eleitor que decide a eleição não sabe não a diferença entre cidadão, consumidor e cliente, que eu ficava falando aqui, com ares de muito sabido. Ao contrário, ele às vezes é consumidor e cliente, enquanto cidadão ele nunca foi e provavelmente nunca será.

O maria-vai-coas-otras não anda de bicicleta nem conhece a Av.Paulista. Ouso chutar que 60% dele nunca (eu escrevi "nunca") esteve pessoalmente naquela avenida. E os demais 40% esteve duas ou três vezes na vida. E eu aqui achando que a abertura da Paulista aos pedestres nos domingos e as ciclovias iam influenciar na eleição...

O maria-vai-coas-otras vai e vem de ônibus/trem/metrô. Antes das faixas exclusivas ele pegava 3 conduções pra ir e outras 3 pra voltar, ficando 6 horas no trânsito entre ir e vir. Agora ele é massacrado pelas mesmas 6 baldeações e fica 5 horas: grande merda!

O maria-vai-coas-otras agora morre menos atropelado, por causa da diminuição da velocidade dos carros. Mas continua morrendo por essas doenças da miséria: esquistossomose, amebíase, ancilostomíase, ascaridíase, dengue, disenterias, giardíase, hepatite, meningite, leptospirose, sem contar as diarreias e infecções na pele e nos olhos provocados pela falta de esgoto e água de qualidade.

É que 80% do maria-vai-coas-otras mora em casas e apartamentos precários. Precário é eufemismo de favela. Mais de 60% de São Paulo é  favela. As reconhecidas e as não reconhecidas. As casas são insalubres... esse povo passa o ano inteiro tossindo e alguns morrem de pneumonia. A caixa d'água é imunda, a instalação elétrica e hidráulica é na base das gambiarras, as tubulações de esgoto - quando há - estão rompidas, os rios todos são imundos. Sendo que esses imóveis são todos irregulares.

O maria-vai-coas-otras se alimenta mal. Come nescau com banana e maizena e pão-de-forma e margarina e bolachas e miojos e tubaínas e tudo que há de mais barato e mais vagabundo e mais apelativo-saboroso no mercado. A barriga cresce tanto que sufoca o cérebro. E salva a alma na igreja da esquina, deixando o próprio desespero fluir pelas mãos de pastores mercenários e políticos oportunistas. Sendo que a debandada em massa para o neopentecostalismo é uma tentativa própria de saída.

O maria-vai-coas-otras é tratado e conduzido como gado por todos os serviços públicos: saúde, educação, transporte, segurança. Os poucos que conseguem romper a barreira do ensino médio vão estudar nas unissetes da vida e aí eu não sei se não seria melhor ficar no analfabetismo funcional de nível médio, ao invés de ingressar no analfabetismo funcional de nível superior e passar a pagar mico,  confundindo conhaque de alcatrão com catraca de avião.

O maria-vai-coas-otras ainda não passou pela revolução francesa. Permanece no escravismo, o feudalismo das Américas. Seu sonho é comprar tv geladeira máquina de lavar, ou seja, ainda precisa se realizar como consumidor, antes da cidadania. E a gente aqui querendo que ele faça complexos raciocínios cívicos.

Se fosse possível dar um conselho ao maria-vai-coas-otras, eu lhe diria para se virar com seus próprios meios... porque todos que vêm de fora, cheirosos, vermelhos ou azuis, são oportunistas.