terça-feira, 18 de outubro de 2016

CASA DE BARRO NA BIENAL

Hoje acordei cedo e senti cheiro de café coado. Que esperança que alguém estivesse coando café em minha casa ou na vizinhança. Era um cheiro imaginado, produzido por minhas atávicas lembranças. Acordei com desejos autoimoladores de esfolar meu coração. Quero dizer, escrever um texto que mexesse com meu emocional.

É que visitei a 32ª Bienal de São Paulo, no Ibirapuera, e lá vi duas casas de barro. Só que uma delas, de um artista finlandês, se não me falha a memória. Uma, para suportar o frio; a outra, do artista brasileiro, para suportar o calor. Você aí, ó caboclo brasileiro, meu amigo, imagine uma casa de barro para suportar o frio.

Numa casa de barro tem café coado toda manhã. Não sei você, conterrâneo paulistano, se já se alimentou de cheiro de café; eu já. Eu já enchi a barriga da etérea sustança do odor simbólico do café coado. Foi numa madrugada fria, no Viaduto Pedroso, quando passava ao lado de uma banca-de-café-da-manhã. Você conhece, dessas que vendem bolo e café na garrafa.

Numa casa de barro. Tenho vontade de rir quando ouço expressões do tipo "consumo de baixo impacto" e palavras grandes e eloquentes como autosustentabilidade. Há lá na Bienal uma casa de barro que, ideia boa, mescla o rancho caipira com a oca indígena. Madeira roliça na estrutura, bambu e barro nas paredes e capim na cobertura. Piso da mãe Terra, ela mesma:chão. Fogão de barro, combustível de lenha, cama de varas, mesa e bancos de madeira chanfrada no machado. Dois poços, um para fornecer a água e outro para acolher o esgoto: era aí que muito caipira se perdia, por desconhecer  seus invisíveis parasitas e a mecânica do oculto subsolo...

Mas, enfim, pra contrabalançar tanto verme,  no quintal, um canteiro de couve (sendo que todo canteiro de couve compreende canteiros de cebolinha verde, alface, hortelã, erva-doce, arruda, erva-cidreira e giló); uma moita de bananeiras e outra de bambu, um pé de manga e muitos pés de mamão; uma moenda de cana; um forno de lenha pra assar pão e leitão; um moinho de café; um pilão pra descascar arroz e café e milho(canjica); um fogão no chão pra torrar café e fritar porco; um chiqueiro.

Vida vária, em que cheiro de café coado se perde a imaginação de um caipira finlandês? Que tenra folha, que suculento fruto, que útil grão? Quais engenhocas no quintal? Então me prendo nas paredes: taipa. Barro e bambu. Cor de terra. Que possui todos os tons de marron, mas quase chega a branca, quando essa terra é um bom saibro brasileiro, duns que sei bem onde tem... Sei não se na Finlândia tem dessas taipas, desconfio daquele artista... e me dou conta de que quintal só é possível em terras tropicais.

Continuando na Bienal, há lá uns canteiros na cambota, artista portuguesa, melhor estilo hortas urbanas. Ainda me veio a casa improvisada: bom lugar para descansar nossos restos de precárias e imorredouras convicções.

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