quinta-feira, 20 de outubro de 2016

TESTEMUNHO DE UM DATILÓGRAFO

Na realidade não encontrei nenhum datilógrafo ou ex-datilógrafo vivo para qualquer testemunho. O que informarei em seguida é fruto de pesquisa minuciosa em livros, jornais, lendo relatos de escritores antigos, revirando arquivos históricos, visitando museus, garimpando os raros documentos em papel e até algumas escavações. É que o datilógrafo era um ser pré-histórico, quero dizer, viveu em tempos remotos, embora já houvesse escrita.

Essa escrita que digitalizamos em nossos smartphones, atualmente, veio daquela usada pelos datilógrafos, em verdade é a mesma, com pequenas mudanças. Por ex., aki era aqui, naum era não e vc era você. Além de vc, eles e a gente, havia também  eu, tu, nós e vós. Havia  seis pessoas e uma flexão verbal para cada uma, ao contrário de agora, que há apenas uma flexão verbal:   a gente/ você(s)/ele(s) escreve, lê, faz, dorme...Pq era porque, s/ era sem, miga era amiga e niver era aniversário.

Se vc, meu jovem, desconhece a palavra, saiba que o datilógrafo era um humano que praticava a datilografia. Tem no google. Para tanto, havia a máquina de escrever. Se eu lhe contar vc não acredita, mas esse trambolho já escrevia imprimindo. O texto já nascia impresso. Para tanto havia um rolo, uma fita suja de tinta, uma centena de hastes com letras metálicas na ponta e... uma folha de papel. Mas o mais impressionante da máquina de escrever é que o teclado era praticamente igual ao usado nos microcomputadores, que talvez você tenha visto...

O datilógrafo pressionava forte e rápido com as pontas dos dedos as teclas. Cada tecla acionava uma haste, que se movimentava e imprimia uma letra no papel devidamente posicionado. Então  se dizia, para quem só tratava do mesmo assunto, que o tal batia sempre na mesma tecla. Acionada a tecla, não havia retorno. Até que inventaram o branquinho, que tinha em líquido e em papel, mas a gambiarra não ficava boa e era proibida nos textos oficiais.

Datilografia era profissão e se aprendia na escola. Havia exames de conclusão de curso e outorga de diplomas, algo semelhante às escolas de língua atuais. No futuro, as escolas de datilografia e de línguas existirão apenas na memória de alguns pesquisadores e ninguém acreditará, se alguém contar, que havia mais de duzentas palavras diferentes para expressar o objeto sobre o qual se dorme ou o gracioso arranjo de dois finos pneus sobre o qual se pedala. E o substantivo máquina e o verbo escrever constarão apenas em dicionários antigos.

Mas o mais inusitado que encontrei, em minha pesquisa, foi sobre a mudança de prestígio do dedão. O polegar. Na datilografia ele desempenhava o terciário papel de acionar a tecla de espaço.E como ele era grosso, inábil e mal posicionado, tal tecla era enorme, muito maior que as outras, para que ele não fizesse besteira. A condescendência que todos destinavam a ele era parecida com essa com que tratamos o filho do dono da firma, que vive no meio de nós. Nos atuais smartphones, o dedão saiu da subalterna e única tecla para o protagonismo de todos os ícones e dígitos, relegando aos demais dedos o acessório papel de segurar o tijolinho.

A meteórica ascensão do polegar é uma boa metáfora. Assim como o quase absoluto ostracismo da datilografia. Ah, sim: antes havia o calígrafo...

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