TEMPLOS. Caminho pelo parque, são cinco horas da tarde e faz 18ºC. Está frio, para nossos padrões tropicais. Lá na frente, próximo a um equipamento de ginástica da prefeitura (aqueles instalados pela gestão Haddad), um homem sem camisa, só de bermuda, anda lentamente, com os braços pendentes, à moda dos macacos. Seus ritmo e vestimenta destoam dos demais caminhantes. O homem para, faz um giro de 180ºC, e continua no mesmo ritmo, agora em sentido contrário, em minha direção. Chego mais perto, o homem abre e fecha as mãos, estica e encolhe os braços, apalpa o peito e, não demora, retoma os exercícios no equipamento da prefeitura. É um halterofilista amador. Acho que as pessoas nem sabem mais o que seja um halterofilista, de tão antigo e fora de moda que é o termo. O termo, não a prática. Acho que nem “puxador de ferro” se usa mais. Mas, por que digo que era um halterofilista amador? Existe halterofilista profissional? Sim, existe gente que ganha dinheiro levantando peso para fins esportivos… Mas, sabiam que existe gente que ganha dinheiro cultivando o próprio corpo? Não, não estou falando das mulheres que se candidatam nos concursos de miss. Estou falando dos homens que passam o dia inteiro (exceto lá aquelas 6 horas em que tem de trabalhar para ganhar algum) exercitando essa ou aquela parte do corpo e comendo a comida correspondente necessária para seus respectivos desenvolvimentos, com o intuito de modelar o próprio corpo e participar de um concurso equivalente ao de miss. O corpo imediato e físico é seu templo e tudo gira em torno dele. O puxador de ferro amador acaba invariavelmente com o corpo deformado, quando não adquire uma intoxicação permanente ou algo pior, e se exercita de graça, no equipamento da prefeitura, no parque e não, não participa do tal concurso não.
Aí, saio do parque e, na rua do Paraíso, perto da Oswaldo Cruz, começo a ouvir uma música, que sai de um estabelecimento comercial logo à frente, enquanto caminho naquela direção. É uma igreja, penso. Como se sabe, em São Paulo, as igrejas neopentecostais pipocam nas ruas em meio às lojas comerciais. Se a loja de utilidades domésticas põe uma caixa de som e um locutor para atrair a freguesia, por que a lojinha da fé não pode fazer o mesmo? Mas essa igreja, penso, é mais sofisticada: põe uma música grandiloquente, encorpada, quase solene, penso, a julgar pela antecedência com que este meio surdo nota o som. Fico curioso, estico o pescoço para antecipar a informação que terei com mais alguns passos. Chego, por fim, em frente ao estabelecimento. É uma academia de crossfit.