terça-feira, 28 de julho de 2015

Fim de noivado.

PERDEU A NOIVA E FOI AO CINEMA.

Ia eu pela Barão de Paranapiacaba, aquele quarteirão entre a Quintino Bocaiúva e a Praça da Sé, quando me deparei com uma peneira de distribuidores de cartões de lojas de compra e venda de joias. Frequento essa região há muito, mas não me lembrava de ter passado naquele pedaço. As duas moças saíam de uma loja em acalorada discussão e se dirigiam à loja ao lado e, nesse curto intervalo, foram assediadas por um enxame de distribuidores de cartões. Esta é uma história verídica, baseada em fatos imaginários. A tragédia é mais sutil, mas vai na linha daquela do filme “Matou a família e foi ao cinema”, daí o título.

Digamos que Maria era a noiva e João era o noivo. Não sei se haviam combinado entre si ou se João quis fazer uma surpresa à Maria, o fato é que João faltou um dia no serviço pra ir comprar uma aliança de noivado ali na Barão de Paranapiacaba. O sujeito sofre quando há um descompasso entre seu sentimento do mundo e sua condição financeira. Perdão, leitor, mas carece de explicar: sentimento do mundo é diferente de visão de mundo ou ideologia. Sentimento do mundo é aquilo que o sujeito é sem pensar, sem perceber. Por exemplo, a Maria, doméstica, querer casar de vestido véu e grinalda e aliança de ouro no dedo na igreja em flores. O João, coitado, foi atrás.  Servente de pedreiro em início de carreira, teve que se virar com suas parcas economias.

Mas ali na Barão de Paranapiacaba tem aliança de todo tipo e de todo preço... aí, outro parêntese, fico pensando no meu pai comprando aliança, porque isso aconteceu, é fato, minha mãe me contou como as trocaram... mas chego mais perto, eu mesmo um dia comprei alianças, só que minha memória apagou tudo que se refere a tal fato... Enquanto isso, o João tirou um dia inteiro de serviço, vestiu sua melhor roupa, andou meia hora a pé, pegou dois ônibus e um trem, e estava ele ali na Barão com seus minguados caraminguás para a insana tarefa de escolher uma aliança de ouro.

Ora, eu e o João conhecemos bem um bom arame de aço, um vergalhão cinco oitavos... mas ouro? Para nós qualquer liga estranha e amarela serve. E doía ao João gastar aquela fortuna num anel, mas não queria perder a intransigente Maria. Era tão difícil arrumar uma noiva... é, tem homem que encontra muita dificuldade em arrumar noiva, já tem outros que só arrumam noiva, saem à procura de mulher e encontram noiva, o coitado se depara com um casamento em cada esquina, mas o João, a muito custo, arrumara uma noiva, após passar por muitas mulheres... e aqui não acrescento nenhuma explicação sobre eventuais diferenças e só faço o registro para ser fiel aos fatos, me isentando de qualquer responsabilidade conceitual. Tenho amigas terríveis e algum desconfiômetro para meter minha mão nessa cumbuca.


Bem, o fato é que o João percorreu todo o quarteirão de lado a lado da Barão de Paranapiacaba e parou na loja mais iluminada. E dali saiu satisfeito com um par de vistosas alianças por uma pechincha. Sendo que a Maria não se importava de lavar e cozinhar, mas não aceitava aquela aliança vagabunda, considerou um insulto o anel barato, podia ser pobre e analfabeta funcional, mas conhecia muito bem uma semijoia. Tudo bem, não correu nenhum sangue, e agora vemos João ali no cinema, sem casamento à vista, assistindo a dois filmes inclassificáveis, em atenção aos seus animalescos instintos.  

sábado, 25 de julho de 2015

Casa das Certezas

"CASA DAS CERTEZAS"
Quando me aposentar, penso em me tornar comerciante. Em realidade, acho que vou abrir uma tenda mística no interior. Não sei se fundo meu estabelecimento numa rua movimentada de uma pequena cidade e, nesse caso, a placa seria "Tenda Mística" ou "Casa das Certezas" - resolvo depois -, ou vou para a beira do Rio Grande e construo um rancho lá, num lugar recanteado. Sim, se for essa a opção, radicalizarei. Será onde a estrada de terra faz a curva, no final da linha, um oco de mundo, numa baixada bem arborizada, onde anoitece mais cedo e amanhece mais tarde e a noite não clareia bem nem na semana de lua cheia. Talvez construa uma casa de tijolo, ferro, cimento e laje, com paredes amarelas, portas e janelas vermelhas e rodapés e molduras pretos, mas penso também em optar, com cuidados de arquiteto,  por um rancho de pau-a-pique, com paredes de taipa caipira,  cobertura de sapé e piso de chão batido. Será num lugar em que nem o Luz para Todos da Dilma chega, por isso não sei se compro um gerador a diesel para a eletricidade ou se radicalizo nos lampiões e na comida fresca de verdade por causa da impossibilidade de geladeira. Se escolher o misticismo urbano, me depararei com o problema de qual guia ou guru seguir. Não, não se trata de detalhe, se devo usar bola de cristal, interpretar os astros, ler mãos ou jogar búzios, cartas ou tarô;   é dúvida de raiz: não sei se ancoro meus arrazoados na doutrina cristã, no budismo, se retrocedo ao mundo judaico ou se vou com Maomé. Parece-me que não seria o caso de seguir Confúcio; quanto ao candomblé ou à macumba, poderia optar, mas somente se escolhesse o mundo rural em casa sólida de alvenaria, casa de branco velho. Em sendo o rancho de pau-a-pique, eu simplificaria anunciando-me apenas benzedor. O problema é o meu nome, que não é nome de benzedor, mas tanta gente muda de nome para fins de publicidade, eu não teria problema comigo, com meus familiares nem com a lei em me chamar Dito ou Bastião benzedor. Nesse caso eu não precisaria me preocupar com os grandes profetas do ocidente ou do oriente, mas teria de escolher entre a linha seca ou a linha molhada, ou seja, se trabalharia apenas com orações e barbantes e nós ou se usaria  garrafadas, ungüentos, poções, animais e incensos. Quanto ao meu aspecto visual, acredito que não teria problemas, eu poderia facilmente me apresentar como um sujeito jovial e bem sucedido em minha tenda mística instalada numa sobreloja com secretária, ar condicionado, banheiros e sala-de-espera,  ou me apresentar como um velho branco encardido com verdadeira cara de feiticeiro, nas brenhas do Rio Grande. Essa última opção só me desanima quando penso na impossibilidade da internet/telefone, mas acho que pode ser contornada, com tanto satélite no espaço.  Restaria escolher entre águas paradas ou águas correntes. Eu poderia me estabelecer próximo à Represa de Água Vermelha, em municípios como Mira Estrela, Cardoso ou Riolândia.  Mas acho que esse mar de água doce não combinaria com minha condição de branco velho tradicionalista. Um rio de verdade, de água corrente e barranco combina melhor com um caipira praticante de rezas bravas;  nesse caso, eu poderia me assentar no município de Orindiúva. Mas eu poderia também escolher outras represas ou outros trechos de água corrente, mais a leste, no mesmo rio. Ainda...,não sei se dum lado ou do outro, em terras paulistas ou em terras mineiras...

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Panela Velha

PANELA VELHA

Ia eu e meu parceiro pela crista da Mantiqueira, em lugar ermo e retirado em tempo e distância e altitude, desses que exigem autonomia total de fogo, comida e abrigo.

É, arrumei um parceiro bão para essas travessias maneiras, desses que somam, multiplicam e acrescentam.

Era o segundo dia da escalaminhada e levávamos cerca de 17Kg de sobrepeso cada um. Deveríamos chegar às margens do Rio Claro na hora do almoço. O rio nasce uns 500 metros acima, na encosta da Pedra da Mina, montanha mais alta num raio de 500 Km, e escorre em direção ao vale do Paraíba.

Botijão, fogareiro, panela e macarrão e sopa de cozimento rápido, ali seria nosso almoço, na espaçosa clareira em meio ao capinzal, às margens do riacho de águas límpidas e geladas.

Só que nossa panela era pequena, cozinhávamos em duas rodadas. Mas ali, sobre uma pedra, havia uma panela grande de pouco mais de dois litros, com uma pedra dentro para não voar durante os fortes ventos que acometem o pedaço de vez em sempre. Uma panela velha de alumínio, sem cabo.

Cozinhar de uma só vez os nossos dois pacotes, por que não?

E foi o que fizemos.

Você cozinharia sua comida numa panela velha encontrada à beira do caminho?

Sim ou não?

Fui pensando na nossa opção, enquanto restituía a panela comum devidamente limpa ao local onde a encontramos e retomava a escalaminhada em direção ao topo da montanha, aonde chegamos uma hora depois.


Acho que é preciso alguma fé na humanidade para escolher o sim. Porque quem desconfia de uma pública e mineral e velha panela abandonada à beira do caminho é um incréu.

terça-feira, 21 de julho de 2015

OS EMBECIS


emBeCIS !”        “Morfemos !”


     É o que está escrito no muro de uma travessa entre a Vergueiro e a 23 de maio. O “Morfemos !” é por minha conta, a propósito de uma crônica do Cony nos jornais desta semana. Acrescentei também os sinais gráficos denotadores de ênfase indignada. Lá no muro está apenas “emBeCIS”, o “e”, o “m” e o “e” em letras de fôrma minúsculas e o “b”, o “c”, o “i” e o “s” em letras de fôrma maiúsculas, mas todas do mesmo tamanho, muito bem desenhadas, para não deixarem dúvida quanto ao conceito do escritor-pichador em relação a algo ou alguém no plural. Uma pichação atípica, de alguém sem prática, dirigida, certamente, a um conjunto de pessoas próximas do autor, semelhantes a ele, pois todos somos parecidos com as pessoas que nos são próximas. Próximas, porque ninguém xinga distantes. Entretanto, não consegui atinar quem seriam os destinatários, a julgar pela localização da pública palavra: um muro de uma subestação da Eletropaulo – onde não trabalha ninguém, portanto – numa ruazinha inexpressiva, de frente para um prédio com aparência de abandonado.

     Na hora senti uma simpática pena do indignado e quis ajudá-lo, melhorando a mensagem, daí que acrescentei o “Morfemos”  e as exclamações – não lá, mas aqui e, cá entre nós, não sei qual dos sítios é mais insignificante. Contudo, ambos são públicos, e isto é o que basta para nós – eu e o pixador -, que, agora, constituímos uma dupla. Deixo para explicar a minha parte no final; agora quero falar da palavra do meu parceiro. Indignado, porque “emBeCIS” é coisa de gente que está puta da vida. E como se não bastasse o tamanho e a legibilidade da palavra, ele ainda deu maior solenidade a ela, utilizando o poético recurso da hiper-correção. Não, não se trata de meros e dicionarizados imbecis, mas de específicos e inconfundíveis “emBeCIS”, sem esquecer os detalhes nada desprezíveis da letra de fôrma e da ausência do sinal enfático, que não era preciso, redundante atrás de tão solene palavra.

     Quanto ao “morfemos”...  é um xingamento da mais alta contundência, aqui grafado no plural. Eu não sei exatamente qual sua área específica de atuação – se ele atua no campo físico ou intelectual, do indigitado ou de seus parentes, se ele envolve a mãe do referido, se ele tem como matéria-prima aspectos sexuais ou político-partidários do desqualificado em tela, mas desconfio que sua atuação é completamente subjetiva, requerendo a capacidade abstrativa do usuário e constituindo, assim, um desqualificativo pós-moderno de alto poder desmoralizador, adequado a todos os tipos de público. Enfim,  é um xingo de grosso calibre, derivado da palavra morfema. De mais a mais, com esse som e essa ascendência, só pode ser um palavrão. Imagine a crônica se a palavra fosse “pusilânime”?

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Rapidinha.

RAPIDINHA

 Acordei com uma dorzinha esquisita no pescoço. Espiei a rua e caía uma chuvinha mole. Tempinho feio!  Apesar do dezembro, estava bem friozinho. Pra esquentar, pensei num copo de leite com café bem quentinho. Ao ver a manchete, não contive a exclamação: eta jornalzinho de merda! No hall, meu vizinho reclamava: “elevadorzinho demorado!”. Na rua, já ensaiava um solzinho. A chuva parara e estava gostosinho. Soprava um ventinho morno, a temperatura subia. Um rapazinho empurrava a bicicleta carregada de potes d’água. A subidinha da Martiniano me matava. Eu estava em jejum, sentindo o fundinho do estômago. Um escapamento estourado acorda o povinho: eta carrinho barulhento! Um passarinho avoa.

 Na portaria do hospital, a mocinha me cadastra: “vira o rostinho e olha aqui”, me apontando uma esfera com um pontinho preto no meio. “Prontinho”, me informou ela, devolvendo minha carteira de identidade. É um procedimento simplesinho. Um segurança baixinho e troncudo me indicou o fundo do corredor: “no finalzinho, à esquerda. Pode ser pelo elevador ou pela escadinha ao lado”. No trajeto, quase fui atropelado por um jovem em sua cadeira de motorzinho. Ao desviar, quase esbarro no guarda-chuva -  molhadinho - de uma senhora que acabava de entrar. A chuva fininha retornara. Vendo a molhaceira, a faxineira fez biquinho. Pela porta principal entra um carrinho empurrado por dois enfermeiros.

No segundo subsolo, um aparelhinho distribuía as senhas. Só o descobri após a indicação de uma atendente lourinha. Telinhas nas paredes distraíam o público. Parecia pequenininha a sala de espera, diante da quantidade de gente. Um bebezinho berrava. Enfermeiras flutuavam sobre sapatinhos baixos, em passinhos nervosos. Um luminoso sozinho chamava para o atendimento. Quatro mocinhas atendiam em seus escaninhos. Passei bem uma horinha ali esperando. Não agüentava mais aqueles programinhas matutinos da TV.

“Por favor, siga aquela mocinha”, ordenou uma fulaninha empertigada que coordenava o serviço. Um velhote de chinelinhas se arrastava em minha frente. Me deixaram esperando numa salinha lá no fundo, onde outra telinha distraía outro público, esse ralinho. Loguinho veio uma enfermeira: “e então, vamos tirar um sanguinho?” e me indicou uma porta: “naquela salinha ali”. Era uma salinha, mesmo. “Me dá seu bracinho”. A enfermeira fez um torniquete no meu braço: “isso, agora fecha a mãozinha”. A veia não aparecia. “Cadê a veinha do senhor?” E eu: “Está aízinho. Pode procurar que está bem aízinho”. Ela espetou a agulha: “Bem fininha a veia do senhor”. O sangue fluía devagarinho, eu aumentei a respiração para elevar o fluxo. “O senhor está passando mal?”, ela me inquiriu com seus olhinhos preocupados. “Tudo certinho”, respondi. Daí a pouco, outra vez: “Está bonzinho?”. E eu: “fica sossegadinha: não estou nem vou estar passando mal. Meu auto-controle funciona direitinho”. Na saída, me deram um lanchinho.

 Na volta, passei na padaria para levar uns pãezinhos. Quentinhos. Um velhinho embromava na fila. A caixa contava moedinhas. O lanche do hospital era fraquinho, meu estômago ainda reclamava. Uma gorda assobiava baixinho. Na minha frente, impaciente, sassaricava uma magrinha.

Cheguei em casa, minha mulher me fez um carinho. Piquinininho. Rapidinho.

Pancreatite aguda.

O PÂNCREAS.
Aposto que entre meus amigos há quem nunca imaginou carregar na barriga um órgão chamado pâncreas. É que o pâncreas trabalha em silêncio, não se autopromove. O contrário do fígado. Inimaginável alguém encarar um desafeto e pronunciar algo como “vou comer teu pâncreas!”. Algo amargo é logo considerado figadal. Mas nunca vi alguém qualificar qualquer coisa de pancreática. Pessoas carinhosas “têm bom coração”, pessoas inteligentes ou racionais “têm cérebro”, mas como é que uma pessoa precisa ser para “ter pâncreas”? Assim não há como aparecer, ser conhecido, famoso. É pacata a vida do pâncreas. Nenhum boxeador golpeia o pâncreas do adversário. É sempre o rim. Até o baço, às vezes, é visado pelos pugilistas, fazendo com que milhares de adeptos do nobre esporte saibam bem da existência de rins e baços e mais, suas localizações exatas, por causa dos golpes exaustivamente descritos pelos cronistas especializados. Mas “fulano está golpeando o pâncreas de sicrano” nunca se ouviu ou viu na imprensa especializada. Mas o pâncreas é esquisito até na semiótica. Indica um plural que não existe, porque é um só, diferente do rim e do pulmão, que, apesar de trabalharem em dupla, denominam-se sempre no singular. Ninguém morre “dos rins”, “dos pulmões”. Morre de doença “no rim”, doença “no pulmão”. Do pâncreas ninguém morre nem sofre nem sabe. O pâncreas todo mundo ignora. Todos os demais órgãos ou partes do corpo são usados para ajudar a descrever algo que nada tem a ver com o órgão ou a parte propriamente dita. É um que está “com a orelha em pé”, é outro que “em tudo mete o nariz”, mas nunca se viu alguém com o pâncreas em pé ou meter o pâncreas em tudo. O resultado é que todo mundo conhece orelha e nariz e o pâncreas vive no ostracismo. Não consigo entender porque tanta resistência em meter o pâncreas em nossas metáforas. A bunda e as coxas, não é preciso nem falar; até a canela, essa parte ordinária das nossas pernas, serve para qualificar gol feio: fulano “marcou de canela” e muitos corredores animam-se passando “sebo nas canelas”, mas jamais se soube de algum que tenha feito gol de pâncreas ou passado sebo nele. Então a minha tese é a de que o pâncreas é ignorado porque insistimos em não incluí-lo em nossa linguagem figurada. Vou sugerir ao governo a criação de um PPP. Programa de Popularização do Pâncreas. Mas não pense por isso que o pâncreas é desimportante. Experimente uma pancreatite aguda para ver o quê que é bom pra tosse. Mais altruísta e desinteressado que o pâncreas, acho que só o duodeno.

Sete anos de pastor Jacó servia Labão, pai de Raquel...

Jacó & Raquel e Lia

Labão era o pai de duas moças muito bonitas, Raquel e Lia; ou melhor, Lia e Raquel, pois Lia era mais velha que Raquel e a ordem pela idade é muito importante, como veremos. As duas eram muito bonitas sim, porém Raquel tinha algo mais... pelo menos para Jacó. Raquel tinha a beleza do corpo, a saúde da pele, o feitiço do cheiro e um olhar morteiro de derreter terra. Enfim, Raquel tinha um arsenal capaz de derrubar macaco do galho, quero dizer, Jacó. Tanto que o Jacó trabalhava de graça para o pai de Raquel, o Labão, só pra ficar perto dela. Quero dizer, de graça é força de expressão: trabalhava por uma ninharia. No entanto, trabalhava contente, sempre alegre, cantando, e pesado, de sol a sol. Pronto, já vai você, preconceituoso, pensar que Jacó era mais um dos milhões de alienados voluntários escravos felizes. Ou que era mais um dos milhões de engambelados por bons argumentos femininos. Vai pensando... quando eu e você íamos indo, Jacó já vinha voltando. Na verdade, o seu trabalho era condição de um acordo, acho que secreto, com Labão, em troca da filha. Após sete anos de trabalho servil, Labão daria Raquel em casamento a Jacó. Naturalmente, o acordo era verbal, por dois motivos, basicamente: porque ambos não conheciam o alfabeto e porque, mesmo que conhecessem, esse tipo de acordo não se escreve. Na hora da conversa, chovia forte e ventava, e também trovoava, e “filha” se confundia com “Lia” ou “Raquel” com “tropel”. Enfim, Jacó servia feliz; não a Labão, aquele velho escroto, mas a Raquel, aquela coisinha pálida e luminosa ao mesmo tempo, entidade ambulante com poderes indizíveis de mobilizar suas energias. De mais a mais, Jacó estava com a mente concentrada sete anos à frente e as dores de então nem contavam; além do mais, trabalhava ao lado da musa, servia a ela, e ao lado da irmã também, por que não? Enfim, passados os sete anos, Jacó recebeu a mulher prometida: Lia, a mais velha. Me parece que a coisa se deu de forma meio sacana da parte do Labão, essa passagem não tenho muita certeza, porque nessas questões de alcova nenhum humano merece inabalável crédito, mas o fato é que o Jacó só foi perceber a troca no outro dia, após consumar o casamento; consumo este cujo produto, registre-se, foi digno de Raquel. O fato é que, no dia seguinte, na hora de preparar o café, de arrumar a cama, de lavar os pratos, o Jacó ficou uma fera: com Raquel ele faria isto e muito mais, ele consertaria o telhado, lavaria o chão, cavocaria a horta, alimentaria os porcos, descartaria o lixo do banheiro..., tudo com o maior prazer; mas com Lia... era dose aguentar aquela mulher andando pela casa e dando ordens e apontando defeitos e informando tarefas. Questionado, Labão garantiu ter cumprido a promessa. Jacó ameaçou protestar, mas Labão lembrou-lhe aquela noite barulhenta de sete anos atrás, quando prometeu sua filha, a Lia, durante aquele tropel de trovões lá fora... o homem afoito antecipa por sua própria conta certas palavras do interlocutor que, às vezes, nunca são pronunciadas por este, Jacó não era lá muito detalhista, via antes a floresta para depois ver a árvore – só na Raquel é que via mínimos detalhes. E, para encerrar a contenda, Labão lembrou a Jacó o costume milenar de casar primeiro a filha mais velha... Jacó se rendeu, mas não totalmente, até porque estava pouco se lixando para aquele costume milenar;  não se conformava em ter de lavar pratos para a rabugenta da Lia a vida inteira. Compreendendo o impasse, Labão, um sujeito muito prático – pragmático -, conformou o Jacó a outro acordo de sete anos, mediante Raquel. Mas, dessa vez o trato foi muito bem alinhavado, tanto que, ao final, o Jacó saiu com essa:  “E mais servira, se não fora, para tão longo amor, tão curta a vida!”. É claro que isso era retórica pura do Jacó, na verdade ele negociou com o Labão as duas filhas; continuava com a Lia, enquanto esperava a Raquel; isso formalmente e para consumo externo, porque, na prática, a dupla putaria começou bem antes...

A bênção, Luís Vaz de Camões.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

A estátua viva.

A ESTÁTUA VIVA

     Sabe aquelas brincadeiras de bom gosto que ofendem tanto a algumas pessoas?

     Então pensei em brincar com uma estátua viva. Esses verdadeiros artistas que se imobilizam na via pública para angariar uns trocados. Me lembro da primeira vez que vi uma: foi no Parque Ibirapuera. Era uma mulher, fiquei boquiaberto de admiração. O negócio deles é esse: despertar aquele entusiasmo infantil contido em todos nós. Por isso se vestem com roupas de outras épocas, se pintam inteiros da cor do bronze ou da cor do gesso, inclusive os cabelos, os pés...

     Esse um em quem planejei pregar uma peça fazia ponto na esquina da Paulista com a Carlos Sampaio, na mureta do prédio do Chig Lig. Essa mureta se eleva cerca de um metro acima da calçada. Ele a utilizava como se fora o pedestal. O seu “chapéu” era um vazo cerâmico cor de vinho, de cerca de meio metro de altura, colocado sobre o piso da calçada, no meio do fluxo de pedestres. Há muito que eu vinha planejando atacar um desses “chapeús” – me fingindo de bobo e pegando ostensivamente todas as notas -, só para obrigar a estátua a sair correndo atrás de mim. Eu me divertia só em imaginar a cena: uma estátua correndo atrás de um vivo.

     O artista se vestia com um roupão que só deixava transparecer suas sandálias, à moda dos profetas bíblicos e tinha a cor única – dos cabelos às sandálias – do alumínio. Para ser uma estátua viva é preciso vários talentos. É preciso ser ator, pintor, historiador, modista e dançarino, no mínimo. É preciso ser artesão e artista. É preciso ser ousado e corajoso. E acrobata, porque haja equilíbrio para ficar imóvel tanto tempo. Mas o meu maior sonho era fazer um deles sair correndo – ou saltar, ou ao menos andar, como um reles mortal. Seu roupão fazia aquelas dobras que, devidamente aluminizadas, permaneciam imóveis tanto quanto as feições do artista, com se fora um Cristo Redentor impassível ali na mureta. E os pedestres pra lá e pra cá a desviarem-se do enorme vaso cerâmico de boca aberta esperando notas e moedas.

     Ora, todos olham onde pisam, daí porque o vaso permanecia ali intacto. Daí porque a confiança e o atrevimento do artista. Esqueci de dizer: uma estátua viva precisa ter noções de psicologia coletiva – quase um antropólogo. Aquele conhecia o público daquela calçada, por isso postou seu vaso ali a disputar o chão dos passantes, com a certeza de recolhê-lo inteiro e recheado ao final do expediente. Aquele sabia que os paulistas são cuidadosos e bem-comportados e têm consciência pesada.

     A calçada ali é larga. Uns dez metros. O vaso ficava cerca de um metro distante da extremidade que se limitava com o muro do prédio. No lado oposto, a sarjeta, a rua. De repente um senhor magrelo e desconjuntado passa no meio da calçada visivelmente abilolado, olhando pro céu e tropeçando em tudo que encontra. Tão espalhafatoso que as pessoas se desviam dele de longe. Esse senhor vai até a esquina e – oh, destino – volta rente aos prédios, bem no rumo do vaso! E vem feito um touro bravo, com o pescoço torto de tal maneira que o rosto fica sempre virado para o céu, enquanto do canto da boca escorre um fino filete de baba espumosa. Ele se movimenta mais dos lados do que para a frente, de tal maneira que avança devagar, parecendo um caranguejo, com mil patas a abalroar tudo que encontra pela frente. É um avanço completamente titubeante, mas incrivelmente certo na fatal direção do vaso, parecendo aquelas máquinas de varrer rua usadas pela prefeitura. A distância de trinta metros se encurta a cada instante. Após percorrer dois terços desse espaço, a trajetória não deixa dúvidas quanto ao iminente destino do vaso, obrigando a estátua a voar da mureta para interceptar a tragédia. E eu, isento e realizado, ria da estatua voadora, como um moleque.