segunda-feira, 13 de julho de 2015

Pancreatite aguda.

O PÂNCREAS.
Aposto que entre meus amigos há quem nunca imaginou carregar na barriga um órgão chamado pâncreas. É que o pâncreas trabalha em silêncio, não se autopromove. O contrário do fígado. Inimaginável alguém encarar um desafeto e pronunciar algo como “vou comer teu pâncreas!”. Algo amargo é logo considerado figadal. Mas nunca vi alguém qualificar qualquer coisa de pancreática. Pessoas carinhosas “têm bom coração”, pessoas inteligentes ou racionais “têm cérebro”, mas como é que uma pessoa precisa ser para “ter pâncreas”? Assim não há como aparecer, ser conhecido, famoso. É pacata a vida do pâncreas. Nenhum boxeador golpeia o pâncreas do adversário. É sempre o rim. Até o baço, às vezes, é visado pelos pugilistas, fazendo com que milhares de adeptos do nobre esporte saibam bem da existência de rins e baços e mais, suas localizações exatas, por causa dos golpes exaustivamente descritos pelos cronistas especializados. Mas “fulano está golpeando o pâncreas de sicrano” nunca se ouviu ou viu na imprensa especializada. Mas o pâncreas é esquisito até na semiótica. Indica um plural que não existe, porque é um só, diferente do rim e do pulmão, que, apesar de trabalharem em dupla, denominam-se sempre no singular. Ninguém morre “dos rins”, “dos pulmões”. Morre de doença “no rim”, doença “no pulmão”. Do pâncreas ninguém morre nem sofre nem sabe. O pâncreas todo mundo ignora. Todos os demais órgãos ou partes do corpo são usados para ajudar a descrever algo que nada tem a ver com o órgão ou a parte propriamente dita. É um que está “com a orelha em pé”, é outro que “em tudo mete o nariz”, mas nunca se viu alguém com o pâncreas em pé ou meter o pâncreas em tudo. O resultado é que todo mundo conhece orelha e nariz e o pâncreas vive no ostracismo. Não consigo entender porque tanta resistência em meter o pâncreas em nossas metáforas. A bunda e as coxas, não é preciso nem falar; até a canela, essa parte ordinária das nossas pernas, serve para qualificar gol feio: fulano “marcou de canela” e muitos corredores animam-se passando “sebo nas canelas”, mas jamais se soube de algum que tenha feito gol de pâncreas ou passado sebo nele. Então a minha tese é a de que o pâncreas é ignorado porque insistimos em não incluí-lo em nossa linguagem figurada. Vou sugerir ao governo a criação de um PPP. Programa de Popularização do Pâncreas. Mas não pense por isso que o pâncreas é desimportante. Experimente uma pancreatite aguda para ver o quê que é bom pra tosse. Mais altruísta e desinteressado que o pâncreas, acho que só o duodeno.

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