terça-feira, 31 de dezembro de 2019

SÃO SILVESTRE

  Moro a 3 quadras da subida da brigadeiro, o penúltimo quilômetro da corrida (Km 14). Podia ver os acontecimentos esterilizados pela TV, ouvindo a zoada dos helicópteros ao vivo entrando pela janela. Na sombra, do sofá, sem esbarrar em nenhum estranho desajeitado, sem ouvir berros e gritarias, sem precisar fugir de bêbados e pedintes, sem me preocupar com punguistas. Podia ver a sensacional chegada, o queniano dando um bote sacana no ugandense. Podia ver a chegada dos dez primeiros colocados, saber a colocação do primeiro brasileiro.
Mas optei pelos acontecimentos sujos e barulhentos e parciais ao vivo, vistos nas pontas dos pés por sobre as cabeças dos meus iguais, esbarrando em gente suada, sob os gritos jocosos da torcida. No isolamento da minha sala, não teria visto a legião de trapaceiros passando alegres e descansados para um tempo de 60 minutos de prova. Não teria visto 3 corredores fantasiados de capeta, mas com o semblante de um crente, por causa do cansaço da subida. Não teria visto o palhaço com os glúteos postiços escapando pela cintura larga da calça. Não teria visto a noiva, o cangaceiro, o chifrudo, o flamenguista, o Tiririca, o Enéas…
Lembram do Enéas, aquele cara que foi candidato a presidente? Pois fiquem sabendo que se ele estivesse vivo, teria sido ele o eleito em 2018.
Essas corridas de massa, populares, são um simulacro da vida. Ali a gente vê alguns fortes, poucos determinados, vários disciplinados e uma legião de inconsequentes(dos 35 mil corredores, só dez levam vantagem). Um número grande de competidores medíocres e outro tanto de alegres trapaceiros, cortadores de caminho, simuladores; gente rasa iludindo familiares, vizinhos, amigos; ali a gente vê quase todos esticando o pescoço ao passarem em frente a câmera de TV, inconformados com a discrição e o anonimato da vida.
Mas, nesses ajuntamentos, vemos também o trabalho de formiguinha, sorrateiro, de gente quieta, a disputar os corações e as mentes do gado inglório. Refiro-me às Testemunhas de Jeová. Nos 500 metros de calçada que percorri, até o cruzamento com a Paulista, contei 15 bancas.
Cada banca é constituída de uma estrutura móvel de madeira na vertical, com escaninhos porta-revistas, todos devidamente fornidos com revistas da marca Sentinela. Na parte superior, frases em letras grandes perguntam aos passantes se já conhecem as verdades da Bíblia, se são felizes, se um dia poderão ter paz, lembrando algo sob o tema “família”.
De pé, ao lado, 3 ou 4 pessoas, em vigilante silêncio, escrupulosamente postadas… a maioria mulheres, desatualizadas no rigoroso vestuário, muitas jovens — bonitas, diria —, mas irritantemente contidas, em meio à muvuca das raparigas em flor, nos exíguos shorts-tops a explodirem de vida e alegria, a passarem sob seus narizes impassíveis, entupidos de sonsa fé.
O contraponto entre os pingados e contidos crentes e os suados e vigorosos corredores; o contraste entre a rapaziada saltitante e barulhenta e sensual e as crias crentes murchas e compostas, ainda que bonitas. Se eu tivesse ficado em casa, vendo a corrida pela TV, teria visto somente o que outros querem que me convém; não teria sentido na pele, por todos os poros, o embate do século entre os que o atrasam e os que o sustentam, dentro da multidão de incompetentes tristes e figurantes atônitos.





segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

BRÁS, PARI E MERCADÃO.

Estou no meio da Praça Padre Bento, no Pari. Creio haver uma praça bonita, debaixo da sujeira. Numa lateral, a Igreja Santo Antônio do Pari recebe os fiéis para a missa dominical das 10 horas. Quase ninguém, praça vazia, está muito fresco para fins de dezembro, não bastasse o tempo fechado ameaçando chover.
Nada indica que ali, após a lateral da igreja, começa o Mercadão. Faço que vou à missa, mas escapo pela Rua Hannemann, onde deverei entrar em um dos inúmeros templos: por exemplo, no Shopping da Galeria Pagé, que é uma galeria que se duplicou em shopping, como seria uma mercearia que se duplicasse em armazém, caso típico de pleonasmo comercial.
Posso entrar também num feirão ou num outlet; ou num mall. Posso entrar à direita, à esquerda, posso quebrar na Rua Tiers ou seguir até a Av. Vautier. Posso escolher o barracão ou o lojão ou o saldão que me aprouver, há vários; posso escolher galerias de todos os tipos e tamanhos, shoppings diversos ou centros de compra. Posso fuçar em diversas feirinhas da madrugada, que essa é uma história à parte, a ser contada em outra oportunidade.
Seja centro, shopping, mall, galeria, outlet, feira, feirão ou feirinha, lá dentro é sempre dividido em box de 2x3 metros: é o mundo dos empreendedores individuais, gente que não morre com nenhum imposto nem conta com nenhum direito. Em geral, funcionam das 6 às 14 horas, mas há portas abertas desde as 2 horas da manhã até as 6 da tarde.
Creio que vem gente de todo o planeta comprar aqui, a julgar pelo tanto a pulular fora e dentro dos prédios. Não sei se o centro dos sacoleiros do mundo é aqui ou em Ciudad del Leste ou em outra biboca pós moderna que desconheço nesta Sulamérica.
É muito provável que aquela blusinha bacana que você comprou por 50 na Butique Central em Aripuanã, Amazônia matogrossense, saiu de dentro de um destes MALLs aqui, pelo preço de 15.
Enfim, chega de ver sonsos vendendo e comprando e carregando sacolas e carrinhos e carros atravancados nas ruas e tudo muito calmo dentro da correria geral. Volto pela Monsenhor Andrade, leve e livre de todos os pecados. Eis que me deparo com um templo islâmico.
As imponentes torres da mesquita me acalmam, pela beleza, mas não o suficiente. Ainda quero fugir: Rua Oriente, Rua Maria Marcolina… aqui tem turco, tem judeu, tem árabe, tem nordestino, tem português, só não tem chinês, nos nomes das ruas. Chinês, por enquanto, só dentro de cada célula em cada galpão.
Saio na Rangel Pestana, corro para a esquerda. Logo vejo o Santuário Reino dos Céus; a avenida é a mesma, com outro nome: Celso Garcia. Vou andando: Igreja Jesus Fonte de Vida (direita); Igreja Reviver Tenda dos Milagres (direita); Comunidade Cristã Amor e Graça (esquerda); Igreja Apostólica Plenitude do Trono(direita); Igreja Universal do Reino de Deus (esquerda); Templo Central da Assembleia de Deus (direita). Em menos de 200 metros, só isso.
Mas, ufa!, uma pracinha com bancos e banca, a Senador Moraes Barros; no centro dela a igrejinha de São João Batista…
Sento sob a sombra de uma sibipiruna. Ergo os olhos e vejo, do outro lado da avenida, uma construção de proporções salomônicas, não sei se é um megatemplo ou um mega-shopping. De repente, constato a sinergia do ajuntamento de tantos e diversos templos, como se fora várias barracas de pastel ao lado de outras tantas de caldo de cana. Umas vendendo camisas, outras, salvações. Dou um salto, assustado, e chamo o helicóptero, pra me tirar dali rapidamente.




segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

HOMEM DE BEM

No trem da EFA, eu só andava na 2ª classe. Ninguém se interessava pelo vagão da Primeira. O desinteresse era tanto, que nem sei se havia esse vagão. Nunca procurei constatar visualmente a existência do tal vagão. E menos ainda ver quem ia nele. Não que a gente não gostasse daquelas pessoas; é que eram inexpressivas, de outro mundo; não contavam, não nos interessavam. Portanto, não havia a ambição de passar para o vagão de 1ª classe.

Éramos todos homens de bem. Homens e meninos. As mulheres eram honestas. Não cabia nem precisava que as mulheres fossem de bem. As mulheres não eram proprietárias nem faziam negócios.

Nada se sabia de racismo, ecologia e patriarcado.
Na igreja, havia muitos homens de boa vontade. Às mulheres, bastava que fossem honestas. Porque Deus conversava e negociava com os homens (prova disso é que Deus só passava procuração para homens, jamais para mulheres).

Havia roupa de missa. Era pecado ir de chinelo à cidade (não havia código penal, havia catecismo). Homem de bem não andava de bermudas. Mulher honesta não andava de calças. Éramos todos gente boa, de boas famílias. Ninguém era da classe A, classe C, classe média. Éramos pobres, mas limpinhos.

Éramos de 2ª classe, mas — que bom! — ignorávamos a existência da 1ª classe. Sabíamos, vagamente, da existência de alguns tubarões. Nenhuma mercadoria ou pessoa era classificada por faixa de poder aquisitivo (somente por supostos morais).

Para ser exato, não admitíamos — nem passava pela nossa cabeça — que houvesse diversas classes. Parecia-nos esdrúxula a ideia de que não fôssemos todos iguais (e hoje, cá distante no espaço e no tempo, devo reconhecer que éramos coerentes).

Não, não havia nada de 1º mundo; nenhum objeto, nenhum serviço. Nada top de linha; etiqueta era palavra desconhecida, tanto a das marcas quanto a das boas maneiras. Todas as maneiras eram boas. Ninguém fazia turismo. Metade da população era bilingue.

Tudo era autêntico, direto do norteamérica ou do artesão da esquina. Não havia produto pirata, falso, imitado. Não havia produto paraguaio, chinês, nem chig-lig, nem feirinha no Brás. Não havia nada de 1ª linha, pela simploriedade de haver apenas uma e única linha. No máximo, a coisa prestava ou não prestava.

Nossos cachorros e gatos não tinham raça nem pedigree; tampouco as vacas e cavalos e mulas e galinhas. Não se levava animal ao médico; nem homem. Ninguém precisava de remédio caro ou tratamento especial nem morria de doença grave, só de repente.

Não havia hospital ou restaurante de luxo. Não havia escola particular. O trabalho não era dividido entre braçal e intelectual. Não havia pobre de direita (nem de esquerda).

Não havia vinho fino nem cachaça certificada. Não havia controle de origem ou produção; nem produto especial, selecionado ou exclusivo. Não havia modelo de entrada ou avançado, de amador, de profissional. Havia coisas e produtos sem classes.

Mas, sim, havia gente granfina. Para as quais torcíamos o nariz mas, sorrateiramente, queríamos imitar. Ainda, havia pessoas chiques, que gostavam de coisa boa. Já havia nuances a considerar.

Pensando bem, o mal já estava inoculado em nós...




sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

(O PEDREIRO E O POLÍTICO)

SEMÁFORO.
No tempo das cavernas, não havia casa nem governo;
não havia pedreiro nem político;
não havia estrada nem cidade,
nem construtora nem prefeitura.

No tempo das cavernas, matava-se com pedra,
não havia ferro nem fábrica,
não havia ferreiro nem patrão.

No tempo das cavernas, não havia roça, só colheita;
não havia produto, só consumo,
mas sem dinheiro e sem mercadoria.

No tempo das cavernas, não havia luz, nem represa, nem carvão,
nem eletricista, nem metalúrgica;
não havia sociedade, nem sindicato;
não havia médico, só Deus,
não havia tratamento, só cura.

No tempo das cavernas, talvez já houvesse carinho e amor e solidariedade,
mas certamente havia conjunção
e não havia atraso, porque havia tempo,
e não havia caso pois havia muito campo.

No tempo das cavernas, não havia cimento, nem mutirão,
nem rebanho, mas gado;
não havia laços, só mãos,
mas havia apertos, apesar dos espaços.

No tempo das cavernas havia pouco verbo e nenhum plural,
mas muito trovão;
não havia semáforos;
no tempo dos simplórios, não havia perdão.



quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

ORA, BATATAS!

Batatas fritas. Batatas do Méqui 1000. Se alguém souber, que me informe, que estória é essa de Méqui? 1000 eu sei, é a milésima loja no Brasil. E Méqui? Tudo bem, Méqui de Mc. Quero saber a estória desse aportuguesamento. Houve algum protesto? Alguma conveniência? Algum regulamento? Alguma isenção? Alguma trapaça? Algum publicitário?
Porque não é normal uma multinacional tão cabal se entregar assim, de graça. Se apossaram da casa do Banco Itaú. Aquela dos enfeites natalinos. A casa branca. Um dos poucos casarões restantes na Paulista.
(sou velho, presenciei a noite das demolições, anos 1970. Ali na esquina da Teixeira da Silva, onde hoje funciona a Coopersucar, num prédião modernoso, amanheceu pichado no muro que guardava os escombros mal arrumados “da força da grana que ergue e destrói coisas belas”. Li, com meus próprios olhos).
O Méqui Donaldes ocupou a casa da Al. Min. Rocha Azevedo, adeus bolas e festões e lampadinhas e virgem Maria e São José e menino Jesus e jumentinhos… adeus Gaspar, Baltasar, Belchior, agora temos batatas. Nunca mais a estrela-guia. Os burrinhos do presépio viraram bastões quadrados de batata. Jesus, Maria e José viraram bastões quadrados de batata. As bolas da árvore viraram bastões quadrados de batata. Todos fritos. Estamos fritos.
Batatas fritas gigantes transbordam pelas janelas. O Méqui 1000 anuncia a boa-nova oleaginosa, o novo reino do lipídeo saturado. Junto à calçada, as sobremesas, o principado do sorvete instantâneo, do carbohidrato barato.
Os jumentinhos abestados fazem selfie e lambem os beiços. Pequenos empresários levam o lanche até sua casa, se você pedir. Os jumentinhos quadradinhos e amarelinhos amam muito tudo aquilo.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

VAI DEUS AÍ?

Começo da linha, entro no metrô vazio. Sentada no banco ao lado do meu, está uma revista. Bato o olho, já sei do que se trata. Alguém a “esqueceu”, para que o próximo viajante a recolha e leia. Já fiz isso com livros.

Trata-se do proselitismo mais tímido que existe: alguém, desejando propagar uma ideia, a deixa — por escrito — no banco do cinema, na mesinha da sala de espera, no balcão da repartição. Tímido, limpo e isento. O militante não se expõe, não se suja, não se compromete. Mas o destino da sua ideia é o cesto do lixo.

De bater o olho, não dava para saber se a revista era de um grupo político ou religioso, de uma organização ambiental ou assistencial. Comecei a temer que fosse um simples anúncio comercial.

Ela estava em envelope transparente lacrado. Entre a capa e o plástico, havia um panfleto anexo escondendo três quartos dela, de modo que não dava para ler nem seu título. Mas o panfleto trazia, como primeira frase, “Toda Oração Sincera é Atendida”.

Peguei a revista e coloquei na mochila. E o resultado é essa crônica.

Trata-se do nº 1351 da Revista Adventista, de novembro/19, o proselitismo é da protestante Igreja Adventista do Sétimo Dia — Adventist World —, uma multinacional, como a Igreja Católica, a Universal do Reino de Deus, etc.

A diferença é que os católicos e os adeptos do Edir Macedo propagam sua fé através da televisão, não dessa forma tacanha deixando revista em banco de metrô. Desconfio, entretanto, que lá nos United States a Adventist também mostre suas garras na TV.
E para coroar o anacronismo da coisa, esse texto anexo, tapando a capa da revista, vinha todo dirigido à segunda pessoa: “...pedi, portanto; pedi, e recebereis. Pedi humildade, sabedoria, ânimo, ...”.

Deduzi que é um militante mais realista do que o rei, querendo ajudar, mas metendo os pés pelas mãos. Quem, atualmente, suporta ser abordado na via escrita por um verbo na segunda pessoa? Mais realista porque, certamente, a revista deve ter uma linguagem mais moderna (não me aprofundei…).

Eu estava acostumado com o proselitismo dos partidos políticos de esquerda (em linguagem tão anacrônica quanto…). Agora a coisa mudou de figura. A Direitona primeiro arrebanha o grosso para dentro da Igreja e só lá dentro faz o trabalho político-partidário.

Resta-nos orar. “As orações que em solidão dirigis, em cansaço, em provação, Deus responde...”. Orar e vigiar.
Quer dizer, orar e vigiar e se misturar e se mesclar e estudar e entender a religiosidade do povo, aos que pretendem disputar o espaço público e mudar o mundo. Eu não tenho a pretensão de mudar o mundo(o que não exclui o fato de que eu ache que o mundo é um moinho de moer merda). Que se danem os imbecis!

Que o mundo me leve e que os imbecis se danem, o que não me isenta de deixar de fazer a minha parte.


segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

A VACA E O BREJO.

A VACA E O BREJO.
Domingo, 4 e meia da tarde, ligo a TV. Ela está no canal 44.1 do modo TV aberta, de um programa que vi na 5ª feira. Quero ir ao canal 5.1, pra ver Palmeiras e Flamengo, mas tenho preguiça de teclar cinco ponto um. Opto por pressionar a extremidade “—“, da tecla CH. Assim, após mais de vinte pressões na “menos”, chego ao canal desejado. Na primeira alternativa, eu chegaria lá com apenas três pressões, mas teria de direcionar o dígito três vezes para três diferentes teclas, uma operação muito complexa…

Entre pensar e suar, escolho suar. Poupar fosfato.

Mas tudo tem seu lado bom. Zapeando entre os canais 44.1 e o 5.1, vou vendo o que passa nos canais intermediários. O pastor RR Soares simpaticíssimo; o pastor Valdomiro Santiago de chapéu; o padre Reginaldo; o Silas Malafaia; opa! Um canal vendendo semijóias; o bispo Edir Macedo empresário; o pastor Jorge; opa! Uma mulher, uma bispa, a Sônia! Depois o padre Marcelo praticando base jump.

De repente, uma mocinha bonita e séria entrevista um senhor feio, mas médico, está até de jaleco. Falam sobre o sono, a qualidade do sono, que a boa qualidade do sono é fundamental na vida das pessoas, que o sono não serve apenas para descansar o corpo, mas também e principalmente, para recuperar e manter as funções da memória e do raciocínio…

Paro. Acho interessante, educativo, edificante… Fico vendo e concordando. Uma pergunta da mocinha entrevistadora me cutuca, mas continuo inerte: “Qual a importância do colchão, na qualidade do sono?”.

O médico feio e velho (Todo feio e velho é sábio...) responde no seu tom monocórdio que o colchão precisa ser confortável, não forçar a coluna, etc, etc. Então a suposta jornalista pergunta mais uma vez: “Quer dizer que podemos considerar o colchão como o item mais importante para a qualidade do sono?”, à que responde o médico, em seu tom imparcial, severo, acadêmico, amarelo, prolixo: “Sim”.

Em seguida, aparece na tela a propaganda da marca do colchão. Não, não é um comercial. Só o trecho que assisto dá mais de 5 minutos. É um programa de entrevistas.

Teclo mais algumas vezes, vejo padres cantando, pastores curando, não vejo o Sílvio porque o canal dele fica fora do intervalo em que navego, não vejo o Faustão porque antes tem futebol, nem o Huck nem o Ratinho nem o Datena nem o Fantástico porque não está no horário deles,

não vejo o Gugu porque já morreu, não vejo o padre Donizetti porque virou beato, não vejo o Chico Xavier porque já desencarnou, não vejo um rabino porque não tenho sangue nem cacife para entrar na sinagoga, não vejo nenhum monge budista, nenhum aiatolá, nenhum babalaô porque ainda não escolheram a gente pra pastorear.

Finalmente, chego ao meu destino: o futebol. Agora sim! Tem pra todo mundo. Tem sub-20, sub-15, sub-17. Tem série A, série C, série B. Tem Libertadores e Sulamericana. Tem Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro. Tem campeonato Inglês, Francês, Espanhol, Italiano. Tem até futebol chinês.

Tem futebol alemão!

Tem copa do mundo de futebol de praia. Tem copa do mundo de futevolei. Tem campeão brasileiro de futebol de salão e de futebol-7. E das Américas e da Europa e já tá tendo da Ásia e os petrodólares estão chegando com tudo, é Emirades e Qatar pra todo lado(já chegaram à Argentina), e logo começa o Campeonato Paulista!

Antes tem a copinha. Nas férias, tem futebol com os amigos do Neymar.

Que bom que é ter diversidade, opções, né não?


sexta-feira, 29 de novembro de 2019

FUI À BLÉQUI FRÓIDE.

Só Fraude explica. Fui à Bléqui Fróide, acredita? Tava o maió legal, tudo pela metade. O vagão do trem, a calçada da Boa Vista, as faixas de travessia de pedestres, tudo pela metade. Havia muita gente. Gente enchendo e transbordando a metade de tudo.
Tava o maió carnaval, bandinha na calçada — quer dizer, metade de uma bandinha mixuruca —, avião jogando confete, um despropósito dobrado de papel picado no chão, uma gritaria da porra, devidamente alltofalantada, gente em cima, embaixo, gente saindo pelo ladrão e pela calçada, gente até a tampa de uma loja com a metade do espaço necessário.
Os cafumangos que atendiam sorriam forçado e amarelo, abrindo apenas a metade da boca, sabe esses sorrisos com apenas um canto da boca, chochos, incompletos? É que o salário deles é só metade. Uma mocinha mostrava as pernas (inteiras) porque sua saia estava pela metade. Os ambulantes clandestinos portavam só metade da muamba, para levarem só metade do prejuízo, caso fossem vítimas do rapa.
Como já disse, tudo tava pela metade, aproveitei e comprei um monte de bugiganga, quase tudo coisa que não tô precisando não, no momento, mas certamente vou precisar, amanhã ou depois. Eu já tava mémo ali na muvuca, as mercadorias tavam lá falano mi leva, o povo metia a mão e levava, a mão do povo é a mão de deus, então tamém levei.
Pra completá a quizumba, tava teno o enterro do Gugu, era TV pra todo lado transmitindo a cerimônia, tava muito bão, muitos artistas, cada um mió que o outro, tudo de óculos escuros pra ninguém vê chorá, num guentei e pensei, coitado do Gugu, ganhava 1500 vezes mais que meu falecido sobrinho, que tamém teve a cabeça quebrada mês passado.
Fui e voltei sem pagá nada, sô véio, num pago nem metade. Essa mamata vai acabá, isso é coisa de cumunista. Eu compro mémo, pra ajudá o governo. Num sô um miserávi, como meu finado pai, que ganhava só 80 dólares de aposento, que era o salário mínimo da época. Sô classe média, ganho 250 dólares por mês, quase quatro vezes mais que meu pai, isso porque o dólar num tá ajudano na conta...
Quer dizer, ganho em reais, mas um dia ainda ganharei em dólares de verdade, que ainda hei de morar em Miami, nesta vida. Mas, cá entre nós, eu acho que esse negócio de pagá 250 dólares pra vagabundo é coisa de cumunista. Reconheço que não produzo nada, não mereço. Por isso aproveito, compro mémo, enquanto posso — que essa mamata vai acabá.
Vinha vortano, pareceno uma mula arriada de tanta sacola, na ponta da rua tinha um zé povinho de nariz empinado fazeno arruaça, falano muito alto que tava tudo pela metade do dobro. Eu sei lá que diabeísso!


quinta-feira, 21 de novembro de 2019

IRONIA É COISA DO DIABO.


Dei uma resposta irônica a um amigo e me arrependi na hora. Mas as palavras já estavam viajando no vento e não havia mais jeito. O humano é prioritariamente puro. Submetido ao sarcasmo, corrompe-se. O Sarcasmo é coisa de Satanás. Por definição, um amigo é bom. Aí você tasca sua ambiguidade nele e a amizade desanda. A Ambiguidade é manha do Falso. A leitora entra desarmada no palavrório alheio. Então recebe uma cacofonia de antíteses e catacreses, coitada, e sai embananada. A Cacofonia, a Antítese e a Catacrese são artimanhas do Demo. 

Um pastor prega por metáforas. Não devia, pois Metáfora não é coisa de Deus. A mocinha bem-composta me entrega o jornal da Universal junto com uma enxurrada ensaiada e decorada de circunlóquios e alegorias. Azar o dela em ter jorrado sua ladainha em direção a um senhor anacoluto, eis que ficou sabendo, no contrafluxo, que Circunlóquio e Alegoria não deviam andar na boca de uma serva de Deus.

Já a dupla que testemunhou Jeová é uma cacofonia ambulante na via pública, pela vestimenta e a compostura visigóticas destoantes. Mas estou esperto que aquele anacronismo candente é coisa do Demônio, puro disfarce para entregar a multinacional JW . ORG. Enfim, as duas senhoras escrupulosamente trajadas, falando todos os erres e esses e pronomes na segunda pessoa, ficaram sabendo que a Cacofonia e a Internet são atalhos seguros para o Inferno. 

Tanta gente virtuosa na via pública lembra as Virtudes. Como é que um sujeito prudente se mete a escrever? Porque escrever é coisa do Maldito e a Prudência é virtude teologal. Como é que este homem pode exercer sua fortaleza, neste mundo cheio de cascas de banana metafóricas e dialéticas? Porque Fortaleza é coisa de quem não tem dúvidas, de quem vive num mundo concreto e plano, que não gira e não volta.

Agora sim: a igualdade é coisa do Belzebu. Porque a igualdade elimina a inveja, antítese da bondade. Donde concluo que só é possível ser bom num mundo desigual, ops, mau. Como poderia salvar minha alma, sem a possibilidade de ser bom? A minha ingenuidade é coisa do Capeta, perdi tempo procurando Igualdade em todos os róis de coisas desejáveis.

Outra coisa: como ser casto, nesta cidade cheia de Shoppings Centers? A Literatura não é coisa de Deus. Nunca a caridade foi tão possível, com tanto mendigo na rua. Como ter paciência, diante de tanta gula?

Taí o nosso problema: a Retórica e a Linguística. Acho que era por isso que a Igreja proibia o acesso dos ignorantes às Escrituras. Acho que era por isso que a TV dourava a pílula. Saudade do tempo em que as conversas banais ficavam circunscritas aos botecos e quintais.

Enfim, os boçais boiaram e estão à vista de todos, primeiro passo para acabar com eles. Que sejam bombardeados com cultura e esclarecimento. Deus é coisa do Diabo. E a ironia é o último recurso da irada temperança.




terça-feira, 12 de novembro de 2019

REI DO CAFÉ.

     
Vocês já devem ter ouvido falar num personagem do mundo caipira do interior paulista, que é o rei do café. Pois não somente ele existiu, como se chamava Henrique Dumont e era pai do nosso Alberto Santos Dumont, o do avião. E, claro, morava em Ribeirão Preto, na zona rural, em sua fazenda, que depois virou o município de Dumont e sua casa virou a sede da prefeitura.

Naquelas últimas décadas do século XIX e primeiras décadas do século XX, as terras argilosas — por isso, avermelhadas — de Ribeirão Preto eram o centro do apogeu da cafeicultura paulista — e brasileira. E até as famílias ricas moravam na fazenda. Mais de 80% da população brasileira morava na zona rural.

A vida social acontecia nos salões das enormes casas-sede das fazendas. E no entorno da nascente Ribeirão Preto havia muitas dessas fazendas. Uma delas era a de Henrique Dumont, brasileiro, mineiro, de pais franceses, que era engenheiro e iniciou sua fortuna construindo ferrovias para o Império do Brasil.
 
     Naquele tempo não havia Forbes ou Fortune ou Exame e seus rankings de homens mais ricos. Os capitalistas, ao menos no Brasil, ainda não se haviam juntado em sociedades anônimas e conglomerados financeiro-econômicos. As fortunas ainda eram pessoais. Os homens mais ricos ainda não se preocupavam em se esconder atrás de intrincados organogramas jurídico-contábil-fiscal. Os muros de suas casas ainda não eram tão altos. Seus carros ainda não eram blindados.
Aliás, não havia automóveis(o primeiro automóvel brasileiro foi importado pelo filho do Henrique — o Alberto , anos depois de sua morte). O território estava em expansão e havia o entendimento geral de que todos podiam ficar ricos, era só querer, se esforçar… Os que sabiam de lógica e economia e política e história e estatística minimamente para deduzir que a existência de um rico implica necessariamente a existência de milhares de pobres eram tão poucos que formavam uma seita, malvista pela população em geral.

Em Ribeirão Preto, e em todo o interior paulista, homens se punham a desmatar terras(mulher nenhuma tinha posses, o machismo era tamanho que mulher nem votava), plantar café, juntar o lucro — que era alto — e reinvesti-lo em mais terras e mais café, num processo de acumulação cuja prática caberia na tabela internacional de doenças mentais. O homem que ganhava essa corrida era aclamado como herói e coroado como rei do café (em outras regiões havia o rei do gado, o rei da cana, o rei da soja…). Depois esse rei morria, sua família dissipava parte da fortuna, emergia outro rei…

     Interessante é que esses bilionários e suas famílias iam de um salão a outro de charrete. Os pobres andavam a pé. Os ricos andavam a cavalo ou de charrete — uma espécie de carruagem aberta cortada ao meio na transversal. Enquanto a carruagem (ou trole) tinha 4 rodas e dois bancos e era tracionada por vários cavalos, a charrete(ou semitrole) tinha apenas duas rodas e um banco e permanecia na horizontal graças ao apoio de dois varais fixos em um único cavalo de tração.

O motivo dessa simplificação era mais prático do que econômico. É que as estradas eram muito precárias, quanto mais rodas e maior o veículo, mais difícil a passagem. Era difícil até para as charretes. Trânsito bom mesmo era o das tropas montadas.

Era tanto tranco nos veículos de rodas que o rei do café caiu de uma charrete e quebrou a coluna, ficou com parte do corpo paralisada, vendeu tudo, tentou se curar na terra dos pais — a França —, não conseguiu, voltou, morreu logo depois, com 60 anos de idade, deixando a grana para os filhos, todos emancipados.
(trecho de UM MILHÃO DE PASSOS PENSOS, no Picadão de Cuyabá, eBook lançado em 2018 e à venda na Amazon).



quarta-feira, 6 de novembro de 2019

A TERRA NÃO É PLANA.

Dia desses, vi um adesivo num carro assim: “A TERRA NÃO É PLANA”. Opa!, alarme! Se há uma campanha publicitária na rua para refutar os terraplanistas, o caso é sério. Se a coisa está na base do “É” e “NÃO É”, o caso é raso.
Fui ao Youtube e descobri uma entrevista do Gentili com 4 terraplanistas. Tudo bem, o programa é de piadas, mas a conversa e a contraconversa de mais de 30 minutos não me pareceram nada engraçadas.
E fiquei sabendo que agora em novembro haverá um congresso sobre a Terra Plana aqui no Brasil. Que o Datafolha perguntou e descobriu que 11 milhões de brasileiros acreditam que o planeta Terra é plano.
E vou descobrindo que estão tentando — acho que no Congresso (ou seria na ALESP?) — revogar a Lei da Gravidade; e declarar clandestinas todas as balanças eletrônicas(eis que sem essa lei essas balanças não funcionam), ouvi boatos e beatas de que a Janaína vai propor.
Na Comunidade Científica, não se leva a sério quem fala em Criacionismo (talvez na Ciência Política…). Após a invenção do microscópio, o sequenciamento genético, os estudos de Darwin, a fertilização in vitro, a ressonância magnética; após os conhecimentos da Química Orgânica, da Física Quântica, das nanopartículas, a descoberta do antibiótico, o Criacionismo deixou de ser levado em conta.
Mas junto ao povão, o Criacionismo vige. E para nosotros, não é fácil mostrar as evidências contrárias, porque elas não são familiares nem a nós. Nós, comuns mortais que também não levamos a sério o Criacionismo, o fazemos pelo conjunto de cultura e experiência adquiridas em sistemas educacionais sérios e confiáveis e em múltiplas fontes de informação.
Entretanto — ô meu Deus do céu! — eu pensava que não era o caso da Terra Redonda. Eu pensava que ao menos isso já havia ficado evidente óbvio ululante, pacificado em nossa espécie.
Ledo e Ivo engano.
E agora?
Por que a Terra não é plana? Qual a prova de que a Terra é redonda?
É como se o mundo tivesse retrocedido ao tempo em que não havia telescópio, nem satélite, nem GPS, nem circunavegação, nem viagem para a Austrália via Chile ou viagem para a Austrália via Emirades; não havia pais morando no Brasil e filhos trabalhando no Japão, jatos comerciais a 40 mil pés de altitude, ninguém tivesse chegado ao cume do Everest…
Por que a Terra é redonda? Por que tomar vacina? Por que os partidos políticos são necessários? Por que não votar nesse ogro?
Porque sim, Zequinha*! Não tem conversa**.

(* bordão do Castelo Rá-Tim-Bum, programa infantil da TV Cultura, anos 1990)
(** ou integramos o povão ao nosso mundo — pelo ataque drástico a todas as desigualdades — ou cairemos todos no Além-beiradas do Planeta Chato).




domingo, 3 de novembro de 2019

SPAGHETTI.

MACARRÃO AO AR PURO E SECO.
O que custa um pacote de macarrão? Um custo suportável, se o pedinte, ao vê-lo com a panturrilha estirada, inativo à beira do gramado, exclama pesaroso:
Mas não era o senhor que estava ontem ali, correndo pra caramba?
Era — respondo —, estava bom, tanto que vim aqui pra jogar. Mas agora, no aquecimento, ao primeiro esforço, senti a fisgada…
Eu estava atrás do gol, dando uma de gandula capenga, ele encostou em mim, para me ajudar. No outro lado do campo não havia gandula, fui pra lá, ele foi atrás, estava me marcando. Precisava dum pacote de macarrão.
Cozinhamos todo nosso macarrão ontem, estávamos esperando nossos amigos, eles não vieram, tivemos de jogar tudo fora e ficamos sem nada.
Então você era um dos que estavam ontem ali, embaixo da árvore?
Sim, descemos lá da Paulista, viemos pra passar uns dias por aqui, a gente sempre faz isso.
Ele, mais um casal e um filhote de gato. Sendo que, dos quatro, só o gato não é sem-teto, tem casa própria, dessas portáteis. Só não sei se o gato come macarrão. Mas é certo que não falta ração de gato nesta cidade.
O senhor vem sempre aqui?
Toda semana.
O senhor poderia trazer pra gente um pacote de macarrão?
O jovem não estava desempregado, nem bêbado, nem louco, nem doente, nem sujo, nem tinha filhos; precisava dum pacote de macarrão para cozinhar com os amigos. Não pra semana que vem, pr'agora, no almoço.
Estava sem dinheiro, aos sábados saio de casa só com água, já com o meião levantado para a peleja. Aquilo ia me dar trabalho, ainda mais com a perna direita troncha.
Não, ele não precisaria trocar o pacote no bar próximo por um quarto de 51, porque, junto, iria uma garrafa de conhaque para a sustança introdutória e um sachê de café, para a boa digestão.
Mas, ao cogitar tal stravaganza, me deparei com uma terrível suspeita/constatação: o povão come macarrão puro! O povão come arroz puro. Mandioca pura. Rapadura pura. Pão puro. Quase sempre frio, seco, sem sal, sem óleo. O povão come o que pinga, quando pinga, do jeito que pinga.
O povão chuta com todas as pernas. O povão esperneia com todas as pernas.
O povão nem supõe rigatoni, penne; tampouco fusilli, conchiglie ou farfalle; muito menos talharim ou bucatini ou fettuccini. O povão conhece e sonha com macarrão. Puro.
Desaforo! Neste almoço, esses três vão comer spaghetti à bolognesa. O gato que descole sua ração, isso é fácil.
Xiii, esqueceu-se o queijo ralado!!!

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

DEZ MICROCRÔNICAS.


I) Sujeito difícil. Varou a noite, saiu sem comer, desceu na Butantã, alugou uma bicicleta e chegou a tempo de entregar o trabalho. Almoçou no bandejão, tomou o remédio, escovou os dentes, devolveu a bicicleta e se jogou na lagoa Rodrigo de Freitas.

II)Teve certeza de que estava tudo acabado quando ela devolveu-lhe todas as cartas, pedindo que devolvesse as que lhe enviara nos longos 3 meses. O adjetivo “longos” doeu.

III)Chegou ao ponto esbaforido, teve sorte, o Ipiranga passou logo; mas perdeu quase tudo no congestionamento.

IV)Assustava os freqüentadores do parque. Mas era um homem, me convenci ao vê-lo entrando no banheiro.

V) Domingo. 8h. 8 graus. Ninguém na rua. O homem em mangas de camisa assobiava na calçada, sem casa e sem contas. A cachaça fora suficiente apenas para esquentar e alimentar.

VI) Ciclista vestindo roupas escuras passa incólume pela Rebouças. Ainda bem, pois não portava documentos.

VII) Antissocial política e pessoalmente, não gostava de vizinhos, mudou-se para um latifúndio.

VIII) Pedestres apressados, a multidão clareava ao seu redor. Caminhava só, desajeitado, a mão direita segurando a muleta e o envelope grande da clínica ortopédica.

IX) Caiu de velho, morrendo de maduro, apodrecido de anos.

X)Centrada, altiva, bonita, desolada. Teria ensejado ou visto algo hediondo?

sábado, 26 de outubro de 2019

CORINGA.

O cenário do filme é a cidade de Nova Iorque dos anos 1980, mas poderia ser qualquer cidade brasileira com mais de 1 milhão de habitantes. Qualquer cidade com muita exploração comercial e muita desigualdade social se prestaria ao enredo.
Nas grandes cidades dos países de capitalismo dependente (3º mundo ou mundo subdesenvolvido, ao qual o Brasil pertence) há desigualdade, corrupção e precarização dos serviços públicos (saúde, educação, transporte, etc.), quesitos necessários à estória que se passa no filme.
As economias dessas cidades, teleguiadas desde os países centrais do capitalismo, concentram a renda em cerca de 20% da população, criando assim um mercado consumidor de alto poder aquisitivo de 200 mil pessoas numa cidade de um milhão de habitantes. Isso permite que em todas essas cidades seja viável a instalação de shoppings de luxo, boutiques, restaurantes, cinemas, teatros, hotéis, estádios, agências de viagem, bancos, escolas e hospitais de alto padrão, revenda de automóveis, aeroporto, etc., porque sempre haverá público consumidor, 200 mil pessoas é muita gente com grana para comprar.
Porém, enquanto 200 mil pessoas se regozijam no consumismo de alto padrão, 800 mil pessoas chupam o dedo. Tudo bem, quase todo mundo consegue comprar um tênis, uma calça, camiseta, um smartphone, um tablete de chocolate. O problema se agrava com a hierarquia visual que se estabelece através da desigualdade de preço e qualidade desses produtos de consumo. Chamam a isso, produtos de 1ª linha, 2ª linha, modelos de entrada, falseta...
Mas o que conta e interessa é inapelavelmente inacessível: educação e saúde com conforto e qualidade, só pagando; habitação razoável só em periferias distantes. Prestígio social, nem pensar. Há apenas 20% de bons empregos, para formar e alimentar aqueles 200 mil consumidores. As restantes 80% de ocupações são precárias, não adianta correr atrás, 800 mil vão sobrar.
O Coringa é um desses 80% precários, desvantagem que herdou da mãe.
Ele vai sendo provocado pelas circunstâncias próprias desse ambiente. Colegas mesquinhos ou trapaceiros, família disfuncional, desativação do serviço público de saúde que lhe assistia, demissão, manipulação televisiva tão familiar a nós brasileiros desde sempre e até dificuldade para arranjar parceiros sexuais. Vida de pobre é um acúmulo de frustração e insucesso.
Quase todos se aquietam na religião, nas drogas, no niilismo, guiados por charlatões de todo tipo, numa sucessão de engodos e desilusões, processo semelhante ao de se amarrar a espiga de milho na frente do burro que puxa a carroça. Pouquíssimos se rebelam através da delinquência isolada, facilmente controlada pela polícia especializada. Toda cidade grande têm uma polícia específica para controlar essa população. Em nosso caso, temos a polícia militar, a Rota, o Choque.
Enfim, a rebelião pessoal do palhaço Coringa provoca a rebelião do populacho contra os ricos. É antiga e constante a preocupação dos Estados Unidos com essa possibilidade, eis que o país vivencia quase semanalmente essas rebeliões pessoais através dos conhecidos tiroteios. No filme — e isso é sintomático — nenhum pio sobre a canalização dessa rebelião em processos civilizados de Política partidária e associativa. Ao contrário, a desmoralização do candidato a prefeito parece se dirigir a TODOS os candidatos.
A ficção de Gothan City parece ser uma profecia, uma possibilidade futurista. Acontece que, em 2019, vendo a profecia se realizar num cenário retrô de 40 anos atrás, sentimos um certo estranhamento. Sabendo que nesses 40 anos passados aquelas condições objetivas de desequilíbrio social só se acentuaram e, para facilitar a organização da rebelião, surgiram as redes sociais e a comunicação instantânea e massiva, sentimos decepção (e/ou alívio) quando, ao sairmos do cinema, não deparamos com o povaréu na rua quebrando tudo.
Pelo sim, pelo não, tomamos mais cuidado. A ostentação nunca foi tão perigosa; a pretensão nunca foi tão provocativa. Começamos a desconfiar daquele nosso sonho de ficar rico, a acumulação pessoal de bens começa a deixar de ser bom negócio.
A miséria da desigualdade nunca esteve tão na ordem do dia. Esse ainda não é o problema, ela sempre foi uma preocupação. A diferença, agora, é que a desigualdade, a iniquidade, a perversidade social foram postas em destaque pelas vítimas.



segunda-feira, 21 de outubro de 2019

SOBRE O CADÁVER DO FERNÃO DIAS.

O CAUSO DO QUE FIZERAM COM O CADÁVER DO FERNÃO DIAS.
Especificação do produto: Fernão Dias era um homão valente da porra, grande, forte… era um brabo da terra, que impunha respeito pela figura imponente, grande, forte… (línguas más dizem que homens grandes são mansos; valentes são os pequenos). O cadáver do grandão Fernão Dias pesava cerca de 65 Kg.
Não, ele não morreu de aids ou câncer — essas doenças que deixam o sujeito muito magro, antes de morrer. Morreu de uma febre braba que atacava naquelas bêras de rio do sertão do que viria a ser as Minas Gerais uns 20 anos depois. Adoeceu e morreu em poucos dias, perdeu só uns 3 Kg de quando estava com saúde.
Naquele tempo, homem com 1,70 metros e 60Kg já era fortão. A comida não brotava na gôndola do supermercado. Os frangos, pra matar, tinha de correr atrás pra pegar, um só não conseguia, tinha de ser a família inteira. Açúcar e leite eram artigos de luxo, não havia entregador de pizza, a coca-cola ainda não havia sido inventada, tampouco a kibon ou a elma-chips ou a maisena ou o leite condensado ou a farinha refinada ou o chocolate.
Não havia geladeira, micro-ondas, fogão a gás, embalagens, toda comida tinha de ser preparada na hora. Até os ricos comiam com parcimônia, e acho que vem dessa escassez o hábito de rezar antes das refeições. Tudo tinha de ser plantado, colhido, coletado, caçado, limpado, cozinhado por gente da casa.
Nas expedições, não havia essa história de café da manhã, almoço e janta não; comia-se o que tinha e quando tinha; carne, só quando se matava um bicho na mata; mas matar o bicho, depois carregá-lo até o acampamento, depois limpá-lo, depois improvisar fogo para assá-lo…; ao final da comilança o balanço energético era quase nulo.
Havia pouca gente acima do peso, alguns padres e frades e aqueles desregulados das glândulas. Não existia elevador, escada rolante, ônibus, táxi. Cavalo e canoa transportavam, mas davam trabalho de manutenção e exigiam força nos remos e destreza de peão ao usuário.
Creio que o Fernão Dias deve ter ganhado esses 8 Kg de sobrepeso no último dos seus longuíssimos 73 anos de vida, que foi com essa idade que morreu, em 1681. O mameluco encarregado do corpo deve ter ficado puto com aquela tonelada. Naquele tempo, somente poucos anciãos chegavam a essa idade. Não havia antibiótico, remédio pra pressão, diabetes, colesterol. Não havia vacina, fisioterapia. Pra saúde, só havia reza. Devia estar fraco, só andava de liteira, escravo para carregar não faltava. Nos últimos tempos, só mandava e comia; e engordava.
O Fernão Dias estava na estrada há 7 anos, quando morreu, em plena expedição. Havia saído de S.Paulo fazia 7 anos. Se ele fosse “índio” ou mameluco ou algum branco pobre, teria sido enterrado ali mesmo, ao pé de um jatobá, em cujo tronco alguém esculpiria uma cruz em baixo-relevo, só pra constar. Mas era branco, rico, chefe da bandeira e tinha história e muitos bens e familiares e cupinchas em São Paulo. Seus restos mortais deveriam ser trazidos de volta, e sepultados como um cristão. Ser sepultado como um cristão era ter seus restos depositados 7 palmos abaixo do piso de uma igreja.
No caso do Fernão Dias, ele tinha esse lugar garantido e em destaque, pois havia financiado a construção da igreja de São Bento, no Largo São Bento, onde séculos depois apoiaram uma das pontas do Viaduto Santa Ifigênia. Com o financiamento dessa construção, em favor dos beneditinos, o Fernão Dias matou dois preás com uma só paulada: garantia seu futuro túmulo em lugar nobre e desfeiteava os jesuítas.
O Fernão Dias não gostava dos jesuítas, porque estes queriam monopolizar a mão de obra indígena… Fernão Dias — homem de visão, como outros paulistas do futuro — percebeu que ou ele construía a igreja para os beneditinos ou seu cadáver jazeria para sempre no quintal de uma reles capela de periferia, que naquele tempo os discípulos de Anchieta/Ignácio de Loyola eram hegemônicos na Igreja por estas bandas.
Acontece que transportar 65 Kg de defunto por mais de mil quilômetros até São Paulo, por picadas e emboscadas, era cansativo e durava meses. O coiso — o cadáver — pesaria e federia demais. Então enterraram o Fernão Dias numa cova rasa num recanto do acampamento e tacaram fogo por cima, numa fogueira de muita lenha que durou 7 dias e 7 noites ininterruptas. Apagado o fogo, reabriram a cova e só encontraram osso, pêlo e unha. Até a língua e o cérebro, junto com todas as carnes e banhas e nervos e tendões e ordens haviam desaparecido, derretidos e integrados ao solo da América.
Limparam o que sobrou com pó de terra, lavaram com água e areia numa correnteza do Rio das Velhas, deixaram secar ao sol numa peneira como se fosse polvilho, deu uns 9 Kg de material inodoro e imperecível. Amarraram as partes umas nas outras com cipós, que naquele tempo não havia saco nem barbante e os embornais eram poucos e custosos. Aquilo veio chacoalhando a viagem inteira, fazendo um barulhão danado e espantando as assombrações. Mas em S.Paulo, no Largo de São Bento, aquela carga de ossos suscitou placa, discursos e missa cantada.


sexta-feira, 18 de outubro de 2019

O MEDO E O BERRO.

O MEDO E O BERRO.
Fernão Dias Paes Leme, em 1661, tinha pouco mais de 50 anos de idade e era um dos homens mais ricos e poderosos de São Paulo. Possuía um feudo com mais de 5 mil arcos, ali onde hoje fica Santana do Parnaíba.
O arco era o berro do tempo. Havia também o arcabuz, mas o arco era muito mais eficaz, como berro. Nas guerras daquele tempo, o berro-arco disparava 10 flechas enquanto o berro-arcabuz disparava apenas 1 bola de chumbo. Sendo que a flecha penetrava melhor no cipoal da mata densa e não fazia barulho.
O berro-arco era leve e fabricado ali mesmo no local da batalha com matéria-prima colhida na mata; idem para sua munição, que custava apenas a escrava mão de obra do próprio guerreiro; pesava pouco e não acabava nunca.
O berro-arcabuz pesava o equivalente a uns 5 arcos, e tanto ele quanto sua munição — pólvora e chumbo — vinham de Portugal e eram custosos para comprar e transportar e de impossível reposição no sertão. Então, lá para o final da expedição, só se dava tiro raramente, para lembrar aos ignorantes locais (no bom sentido) o poder do deus do fogo europeu.
A artilharia real e frequente era pela silenciosa e mortal troca de flechas. Porque os 5 mil arcos do Fernão eram devidamente empunhados por 5 mil “índios” escravos.
Os europeus morriam de medo dos “índios”, em suas expedições pelo território desconhecido. Em segundo lugar, na escala de medo dos portugueses, vinham as onças e em terceiro, as cobras(sendo que as cobras eram mais mortais do que as onças). Os “índios” morriam de medo dos portugueses, apenas.
Por isso, os portugueses-bandeirantes entravam no território armados para a guerra. Cada bandeira levava mais de 200 “índios” como soldados-escravos para matar (ou caçar/aprisionar) quem lhes amedrontava. Mas os comandantes eram brancos(alguns mamelucos), que a hierarquia existe e é muito eficaz para a minoria controlar a maioria. Esses comandantes portavam arcabuz, uma arma inútil perante as flechas, mas que aterrorizava os “índios”, porque reproduzia o raio/trovão(ignorância tecnológica e misticismo religioso dos locais).
O medo é amigo do berro. E da repressão. Nossa reação imediata (impensada) é matar ou prender quem (pensamos que) ameaça nossa vida. Medo, berro, ignorância e antipatia é um quarteto inseparável. As pessoas mais medrosas e ignorantes são as que mais desejam matar/prender “bandidos”. E por não entenderem as motivações da violência, ouso afirmar que são as maiores vítimas dos bandidos de verdade.
De fato, um bobão-inocente que saísse pela mata no tempo do Fernão Dias, morrendo de medo dos “índios”, das onças e das cobras e, ao mesmo tempo, ignorando a natureza e o modo e condições de vida desses três “inimigos”, corria muito mais risco de ser morto do que outro, em iguais condições, mas com mais empatia para com aquelas “feras”.
Substitua “índio”, onça e cobra por pretos e pobres periféricos e relacione-os com os babões ignorantes defensores do porte de armas, da pena de morte e da prisão em massa. É a mesma equação de 4 séculos atrás; na variável “mameluco/índio guerreiro”, encontre seu correspondente atual. Temos a quem puxar. (dia desses, conto o que fizeram com o cadáver do Fernão Dias).