O
cenário do filme é a cidade de Nova Iorque dos anos 1980, mas
poderia ser qualquer cidade brasileira com mais de 1 milhão de
habitantes. Qualquer cidade com muita exploração comercial e muita
desigualdade social se prestaria ao enredo.
Nas
grandes cidades dos países de capitalismo dependente (3º mundo ou
mundo subdesenvolvido, ao qual o Brasil pertence) há desigualdade,
corrupção e precarização dos serviços públicos (saúde,
educação, transporte, etc.), quesitos necessários à estória que
se passa no filme.
As
economias dessas cidades, teleguiadas desde os países centrais do
capitalismo, concentram a renda em cerca de 20% da população,
criando assim um mercado consumidor de alto poder aquisitivo de 200
mil pessoas numa cidade de um milhão de habitantes. Isso permite que
em todas essas cidades seja viável a instalação de shoppings de
luxo, boutiques, restaurantes, cinemas, teatros, hotéis, estádios,
agências de viagem, bancos, escolas e hospitais de alto padrão,
revenda de automóveis, aeroporto, etc., porque sempre haverá
público consumidor, 200 mil pessoas é muita gente com grana para
comprar.
Porém,
enquanto 200 mil pessoas se regozijam no consumismo de alto padrão,
800 mil pessoas chupam o dedo. Tudo bem, quase todo mundo consegue
comprar um tênis, uma calça, camiseta, um smartphone, um tablete de
chocolate. O problema se agrava com a hierarquia visual que se
estabelece através da desigualdade de preço e qualidade desses
produtos de consumo. Chamam a isso, produtos de 1ª linha, 2ª linha,
modelos de entrada, falseta...
Mas
o que conta e interessa é inapelavelmente inacessível: educação e
saúde com conforto e qualidade, só pagando; habitação razoável
só em periferias distantes. Prestígio social, nem pensar. Há
apenas 20% de bons empregos, para formar e alimentar aqueles 200 mil
consumidores. As restantes 80% de ocupações são precárias, não
adianta correr atrás, 800 mil vão sobrar.
O
Coringa é um desses 80% precários, desvantagem que herdou da mãe.
Ele
vai sendo provocado pelas circunstâncias próprias desse ambiente.
Colegas mesquinhos ou trapaceiros, família disfuncional, desativação
do serviço público de saúde que lhe assistia, demissão,
manipulação televisiva tão familiar a nós brasileiros desde
sempre e até dificuldade para arranjar parceiros sexuais. Vida de
pobre é um acúmulo de frustração e insucesso.
Quase
todos se aquietam na religião, nas drogas, no niilismo, guiados por
charlatões de todo tipo, numa sucessão de engodos e desilusões,
processo semelhante ao de se amarrar a espiga de milho na frente do
burro que puxa a carroça. Pouquíssimos se rebelam através da
delinquência isolada, facilmente controlada pela polícia
especializada. Toda cidade grande têm uma polícia específica para
controlar essa população. Em nosso caso, temos a polícia militar,
a Rota, o Choque.
Enfim,
a rebelião pessoal do palhaço Coringa provoca a rebelião do
populacho contra os ricos. É antiga e constante a preocupação dos
Estados Unidos com essa possibilidade, eis que o país vivencia quase
semanalmente essas rebeliões pessoais através dos conhecidos
tiroteios. No filme — e isso é sintomático — nenhum pio sobre a
canalização dessa rebelião em processos civilizados de Política
partidária e associativa. Ao contrário, a desmoralização do
candidato a prefeito parece se dirigir a TODOS os candidatos.
A
ficção de Gothan City parece ser uma profecia, uma possibilidade
futurista. Acontece que, em 2019, vendo a profecia se realizar num
cenário retrô de 40 anos atrás, sentimos um certo estranhamento.
Sabendo que nesses 40 anos passados aquelas condições objetivas de
desequilíbrio social só se acentuaram e, para facilitar a
organização da rebelião, surgiram as redes sociais e a comunicação
instantânea e massiva, sentimos decepção (e/ou alívio) quando, ao
sairmos do cinema, não deparamos com o povaréu na rua quebrando
tudo.
Pelo
sim, pelo não, tomamos mais cuidado. A ostentação nunca foi tão
perigosa; a pretensão nunca foi tão provocativa. Começamos a
desconfiar daquele nosso sonho de ficar rico, a acumulação pessoal
de bens começa a deixar de ser bom negócio.
A
miséria da desigualdade nunca esteve tão na ordem do dia. Esse
ainda não é o problema, ela sempre foi uma preocupação. A
diferença, agora, é que a desigualdade, a iniquidade, a
perversidade social foram postas em destaque pelas vítimas.
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