sexta-feira, 11 de outubro de 2019

No metrô tudo é muito civilizado.

Que Deus Nosso Senhor se apiede de mim, mas levantei a mão, quando seus emissários entraram no vagão do metrô para pregar. É que eles, antes de começarem a pregação, informaram-nos que se alguém não gostasse ou se sentisse incomodado, era só levantar a mão que eles paravam. Então, eu levantei a mão, e eles pararam.
No metrô, tudo é muito civilizado. Não sei o que pensa quem anda todo dia, nos mesmos trecho e horário, pra ir e pra voltar. Eu, que não ando todo dia, e normalmente vario os horários e trechos e linhas, acho, sim, que no metrô tudo é muito civilizado. Por exemplo, os vendedores estão sempre bem-transados e não falam palavrão e, a exemplo dos serviços de atendimento ao consumidor das melhores empresas, nunca confrontam seus clientes — nós — e, antes, nos concedem essa ferramenta que ninguém usa, que é a de levantar a mão, se se sentir incomodado.
Por exemplo, os rapentistas têm o capricho de trazerem pendurada no pescoço uma caixinha de som com a tradicional batida, para acompanhar suas pobres ladainhas. Eu prefiro os repentistas, aqueles sim, verdadeiros artesãos. Porque o som de fundo é ao vivo, de pandeiro em punho, as métricas são menos imperfeitas e os temas não são daqui, são de outro mundo, sempre mais interessante do que o nosso. Os rapentistas assassinam a métrica, forçam as rimas e cantam nossa realidade mais imediata — o que estão vendo dentro do vagão — não tem tatu que aguenta.
Por isso tenho pena de quem mora no interior, onde não tem metrô. Leem minhas crônicas e não entendem nada. Vêm morar aqui na capital, em Itaquera, e trabalhar na Liberdade e usar o trecho Itaquera-Sé às 9 e às 18horas, todo dia, pra verem o que é bom pra tosse. Em contrapartida, poderão rezar e curtir um som, sempre ao vivo. E comprarem as mais inúteis e irresistíveis bugigangas.
No metrô, vocês vão do Corinthians ao Palmeiras, do São Paulo à Portuguesa, do Santos ao Jabaquara. No entremeio, passam pelo Japão, pela Armênia, no metrô tem até Airton Senna. A coisa agrada a gregos e troianos. Tudo é muito civilizado, os vendedores avisam aos clientes que a lojinha vai fechar momentaneamente, enquanto a porta do vagão estiver aberta, para não dar bandeira aos fiscais.
Mas o que mais me impressiona nos vendedores e artesãos do metrô é a mansa, quase passiva, prática da contravenção. Estão remando contra a maré, agindo contra as regras, subvertendo o sistema, sem nenhum grito, nenhum confronto, nenhuma fala raivosa, nenhuma contestação formal audível. Ao contrário, quem se incomodar, é só levantar a mão. Não tem Sistema que aguenta.
Enfim, eu vinha me abstendo de usar o mecanismo que me era sistematicamente dado por cada vendedor ou artesão porque, em realidade, eu admiro os vendedores e viradores. Quem eu abomino são os compradores. Mas então achei muito incorpórea demais aquela mercadoria vendida pelos emissários de Deus e botei a boca no trombone, ops, levantei a mão, assim, sem nem esticar muito o braço. No metrô, tudo é muito contido.


Nenhum comentário:

Postar um comentário