Que
Deus Nosso Senhor se apiede de mim, mas levantei a mão, quando seus
emissários entraram no vagão do metrô para pregar. É que eles,
antes de começarem a pregação, informaram-nos que se alguém não
gostasse ou se sentisse incomodado, era só levantar a mão que eles
paravam. Então, eu levantei a mão, e eles pararam.
No
metrô, tudo é muito civilizado. Não sei o que pensa quem anda todo
dia, nos mesmos trecho e horário, pra ir e pra voltar. Eu, que não
ando todo dia, e normalmente vario os horários e trechos e linhas,
acho, sim, que no metrô tudo é muito civilizado. Por exemplo, os
vendedores estão sempre bem-transados e não falam palavrão e, a
exemplo dos serviços de atendimento ao consumidor das melhores
empresas, nunca confrontam seus clientes — nós — e, antes, nos
concedem essa ferramenta que ninguém usa, que é a de levantar a
mão, se se sentir incomodado.
Por
exemplo, os rapentistas têm o capricho de trazerem pendurada no
pescoço uma caixinha de som com a tradicional batida, para
acompanhar suas pobres ladainhas. Eu prefiro os repentistas, aqueles
sim, verdadeiros artesãos. Porque o som de fundo é ao vivo, de
pandeiro em punho, as métricas são menos imperfeitas e os temas não
são daqui, são de outro mundo, sempre mais interessante do que o
nosso. Os rapentistas assassinam a métrica, forçam as rimas e
cantam nossa realidade mais imediata — o que estão vendo dentro do
vagão — não tem tatu que aguenta.
Por
isso tenho pena de quem mora no interior, onde não tem metrô. Leem
minhas crônicas e não entendem nada. Vêm morar aqui na capital, em
Itaquera, e trabalhar na Liberdade e usar o trecho Itaquera-Sé às 9
e às 18horas, todo dia, pra verem o que é bom pra tosse. Em
contrapartida, poderão rezar e curtir um som, sempre ao vivo. E
comprarem as mais inúteis e irresistíveis bugigangas.
No
metrô, vocês vão do Corinthians ao Palmeiras, do São Paulo à
Portuguesa, do Santos ao Jabaquara. No entremeio, passam pelo Japão,
pela Armênia, no metrô tem até Airton Senna. A coisa agrada a
gregos e troianos. Tudo é muito civilizado, os vendedores avisam aos
clientes que a lojinha vai fechar momentaneamente, enquanto a porta
do vagão estiver aberta, para não dar bandeira aos fiscais.
Mas
o que mais me impressiona nos vendedores e artesãos do metrô é a
mansa, quase passiva, prática da contravenção. Estão remando
contra a maré, agindo contra as regras, subvertendo o sistema, sem
nenhum grito, nenhum confronto, nenhuma fala raivosa, nenhuma
contestação formal audível. Ao contrário, quem se incomodar, é
só levantar a mão. Não tem Sistema que aguenta.
Enfim,
eu vinha me abstendo de usar o mecanismo que me era sistematicamente
dado por cada vendedor ou artesão porque, em realidade, eu admiro os
vendedores e viradores. Quem eu abomino são os compradores. Mas
então achei muito incorpórea demais aquela mercadoria vendida pelos
emissários de Deus e botei a boca no trombone, ops, levantei a mão,
assim, sem nem esticar muito o braço. No metrô, tudo é muito
contido.
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