O
CAUSO DO QUE FIZERAM COM O CADÁVER DO FERNÃO DIAS.
Especificação
do produto: Fernão Dias era um homão valente da porra, grande,
forte… era um brabo da terra, que impunha respeito pela figura
imponente, grande, forte… (línguas más dizem que homens grandes
são mansos; valentes são os pequenos). O cadáver do grandão
Fernão Dias pesava cerca de 65 Kg.
Não,
ele não morreu de aids ou câncer — essas doenças que deixam o
sujeito muito magro, antes de morrer. Morreu de uma febre braba que
atacava naquelas bêras de rio do sertão do que viria a ser as Minas
Gerais uns 20 anos depois. Adoeceu e morreu em poucos dias, perdeu só
uns 3 Kg de quando estava com saúde.
Naquele
tempo, homem com 1,70 metros e 60Kg já era fortão. A comida não
brotava na gôndola do supermercado. Os frangos, pra matar, tinha de
correr atrás pra pegar, um só não conseguia, tinha de ser a
família inteira. Açúcar e leite eram artigos de luxo, não havia
entregador de pizza, a coca-cola ainda não havia sido inventada,
tampouco a kibon ou a elma-chips ou a maisena ou o leite condensado
ou a farinha refinada ou o chocolate.
Não
havia geladeira, micro-ondas, fogão a gás, embalagens, toda comida
tinha de ser preparada na hora. Até os ricos comiam com parcimônia,
e acho que vem dessa escassez o hábito de rezar antes das refeições.
Tudo tinha de ser plantado, colhido, coletado, caçado, limpado,
cozinhado por gente da casa.
Nas
expedições, não havia essa história de café da manhã, almoço e
janta não; comia-se o que tinha e quando tinha; carne, só quando se
matava um bicho na mata; mas matar o bicho, depois carregá-lo até o
acampamento, depois limpá-lo, depois improvisar fogo para assá-lo…;
ao final da comilança o balanço energético era quase nulo.
Havia
pouca gente acima do peso, alguns padres e frades e aqueles
desregulados das glândulas. Não existia elevador, escada rolante,
ônibus, táxi. Cavalo e canoa transportavam, mas davam trabalho de
manutenção e exigiam força nos remos e destreza de peão ao
usuário.
Creio
que o Fernão Dias deve ter ganhado esses 8 Kg de sobrepeso no último
dos seus longuíssimos 73 anos de vida, que foi com essa idade que
morreu, em 1681. O mameluco encarregado do corpo deve ter ficado puto
com aquela tonelada. Naquele tempo, somente poucos anciãos chegavam
a essa idade. Não havia antibiótico, remédio pra pressão,
diabetes, colesterol. Não havia vacina, fisioterapia. Pra saúde, só
havia reza. Devia estar fraco, só andava de liteira, escravo para
carregar não faltava. Nos últimos tempos, só mandava e comia; e
engordava.
O
Fernão Dias estava na estrada há 7 anos, quando morreu, em plena
expedição. Havia saído de S.Paulo fazia 7 anos. Se ele fosse
“índio” ou mameluco ou algum branco pobre, teria sido enterrado
ali mesmo, ao pé de um jatobá, em cujo tronco alguém esculpiria
uma cruz em baixo-relevo, só pra constar. Mas era branco, rico,
chefe da bandeira e tinha história e muitos bens e familiares e
cupinchas em São Paulo. Seus restos mortais deveriam ser trazidos de
volta, e sepultados como um cristão. Ser sepultado como um cristão
era ter seus restos depositados 7 palmos abaixo do piso de uma
igreja.
No
caso do Fernão Dias, ele tinha esse lugar garantido e em destaque,
pois havia financiado a construção da igreja de São Bento, no
Largo São Bento, onde séculos depois apoiaram uma das pontas do
Viaduto Santa Ifigênia. Com o financiamento dessa construção, em
favor dos beneditinos, o Fernão Dias matou dois preás com uma só
paulada: garantia seu futuro túmulo em lugar nobre e desfeiteava os
jesuítas.
O
Fernão Dias não gostava dos jesuítas, porque estes queriam
monopolizar a mão de obra indígena… Fernão Dias — homem de
visão, como outros paulistas do futuro — percebeu que ou ele
construía a igreja para os beneditinos ou seu cadáver jazeria para
sempre no quintal de uma reles capela de periferia, que naquele tempo
os discípulos de Anchieta/Ignácio de Loyola eram hegemônicos na
Igreja por estas bandas.
Acontece
que transportar 65 Kg de defunto por mais de mil quilômetros até
São Paulo, por picadas e emboscadas, era cansativo e durava meses. O
coiso — o cadáver — pesaria e federia demais. Então enterraram
o Fernão Dias numa cova rasa num recanto do acampamento e tacaram
fogo por cima, numa fogueira de muita lenha que durou 7 dias e 7
noites ininterruptas. Apagado o fogo, reabriram a cova e só
encontraram osso, pêlo e unha. Até a língua e o cérebro, junto
com todas as carnes e banhas e nervos e tendões e ordens haviam
desaparecido, derretidos e integrados ao solo da América.
Limparam
o que sobrou com pó de terra, lavaram com água e areia numa
correnteza do Rio das Velhas, deixaram secar ao sol numa peneira como
se fosse polvilho, deu uns 9 Kg de material inodoro e imperecível.
Amarraram as partes umas nas outras com cipós, que naquele tempo não
havia saco nem barbante e os embornais eram poucos e custosos. Aquilo
veio chacoalhando a viagem inteira, fazendo um barulhão danado e
espantando as assombrações. Mas em S.Paulo, no Largo de São Bento,
aquela carga de ossos suscitou placa, discursos e missa cantada.
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