segunda-feira, 21 de outubro de 2019

SOBRE O CADÁVER DO FERNÃO DIAS.

O CAUSO DO QUE FIZERAM COM O CADÁVER DO FERNÃO DIAS.
Especificação do produto: Fernão Dias era um homão valente da porra, grande, forte… era um brabo da terra, que impunha respeito pela figura imponente, grande, forte… (línguas más dizem que homens grandes são mansos; valentes são os pequenos). O cadáver do grandão Fernão Dias pesava cerca de 65 Kg.
Não, ele não morreu de aids ou câncer — essas doenças que deixam o sujeito muito magro, antes de morrer. Morreu de uma febre braba que atacava naquelas bêras de rio do sertão do que viria a ser as Minas Gerais uns 20 anos depois. Adoeceu e morreu em poucos dias, perdeu só uns 3 Kg de quando estava com saúde.
Naquele tempo, homem com 1,70 metros e 60Kg já era fortão. A comida não brotava na gôndola do supermercado. Os frangos, pra matar, tinha de correr atrás pra pegar, um só não conseguia, tinha de ser a família inteira. Açúcar e leite eram artigos de luxo, não havia entregador de pizza, a coca-cola ainda não havia sido inventada, tampouco a kibon ou a elma-chips ou a maisena ou o leite condensado ou a farinha refinada ou o chocolate.
Não havia geladeira, micro-ondas, fogão a gás, embalagens, toda comida tinha de ser preparada na hora. Até os ricos comiam com parcimônia, e acho que vem dessa escassez o hábito de rezar antes das refeições. Tudo tinha de ser plantado, colhido, coletado, caçado, limpado, cozinhado por gente da casa.
Nas expedições, não havia essa história de café da manhã, almoço e janta não; comia-se o que tinha e quando tinha; carne, só quando se matava um bicho na mata; mas matar o bicho, depois carregá-lo até o acampamento, depois limpá-lo, depois improvisar fogo para assá-lo…; ao final da comilança o balanço energético era quase nulo.
Havia pouca gente acima do peso, alguns padres e frades e aqueles desregulados das glândulas. Não existia elevador, escada rolante, ônibus, táxi. Cavalo e canoa transportavam, mas davam trabalho de manutenção e exigiam força nos remos e destreza de peão ao usuário.
Creio que o Fernão Dias deve ter ganhado esses 8 Kg de sobrepeso no último dos seus longuíssimos 73 anos de vida, que foi com essa idade que morreu, em 1681. O mameluco encarregado do corpo deve ter ficado puto com aquela tonelada. Naquele tempo, somente poucos anciãos chegavam a essa idade. Não havia antibiótico, remédio pra pressão, diabetes, colesterol. Não havia vacina, fisioterapia. Pra saúde, só havia reza. Devia estar fraco, só andava de liteira, escravo para carregar não faltava. Nos últimos tempos, só mandava e comia; e engordava.
O Fernão Dias estava na estrada há 7 anos, quando morreu, em plena expedição. Havia saído de S.Paulo fazia 7 anos. Se ele fosse “índio” ou mameluco ou algum branco pobre, teria sido enterrado ali mesmo, ao pé de um jatobá, em cujo tronco alguém esculpiria uma cruz em baixo-relevo, só pra constar. Mas era branco, rico, chefe da bandeira e tinha história e muitos bens e familiares e cupinchas em São Paulo. Seus restos mortais deveriam ser trazidos de volta, e sepultados como um cristão. Ser sepultado como um cristão era ter seus restos depositados 7 palmos abaixo do piso de uma igreja.
No caso do Fernão Dias, ele tinha esse lugar garantido e em destaque, pois havia financiado a construção da igreja de São Bento, no Largo São Bento, onde séculos depois apoiaram uma das pontas do Viaduto Santa Ifigênia. Com o financiamento dessa construção, em favor dos beneditinos, o Fernão Dias matou dois preás com uma só paulada: garantia seu futuro túmulo em lugar nobre e desfeiteava os jesuítas.
O Fernão Dias não gostava dos jesuítas, porque estes queriam monopolizar a mão de obra indígena… Fernão Dias — homem de visão, como outros paulistas do futuro — percebeu que ou ele construía a igreja para os beneditinos ou seu cadáver jazeria para sempre no quintal de uma reles capela de periferia, que naquele tempo os discípulos de Anchieta/Ignácio de Loyola eram hegemônicos na Igreja por estas bandas.
Acontece que transportar 65 Kg de defunto por mais de mil quilômetros até São Paulo, por picadas e emboscadas, era cansativo e durava meses. O coiso — o cadáver — pesaria e federia demais. Então enterraram o Fernão Dias numa cova rasa num recanto do acampamento e tacaram fogo por cima, numa fogueira de muita lenha que durou 7 dias e 7 noites ininterruptas. Apagado o fogo, reabriram a cova e só encontraram osso, pêlo e unha. Até a língua e o cérebro, junto com todas as carnes e banhas e nervos e tendões e ordens haviam desaparecido, derretidos e integrados ao solo da América.
Limparam o que sobrou com pó de terra, lavaram com água e areia numa correnteza do Rio das Velhas, deixaram secar ao sol numa peneira como se fosse polvilho, deu uns 9 Kg de material inodoro e imperecível. Amarraram as partes umas nas outras com cipós, que naquele tempo não havia saco nem barbante e os embornais eram poucos e custosos. Aquilo veio chacoalhando a viagem inteira, fazendo um barulhão danado e espantando as assombrações. Mas em S.Paulo, no Largo de São Bento, aquela carga de ossos suscitou placa, discursos e missa cantada.


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