sábado, 26 de outubro de 2019

CORINGA.

O cenário do filme é a cidade de Nova Iorque dos anos 1980, mas poderia ser qualquer cidade brasileira com mais de 1 milhão de habitantes. Qualquer cidade com muita exploração comercial e muita desigualdade social se prestaria ao enredo.
Nas grandes cidades dos países de capitalismo dependente (3º mundo ou mundo subdesenvolvido, ao qual o Brasil pertence) há desigualdade, corrupção e precarização dos serviços públicos (saúde, educação, transporte, etc.), quesitos necessários à estória que se passa no filme.
As economias dessas cidades, teleguiadas desde os países centrais do capitalismo, concentram a renda em cerca de 20% da população, criando assim um mercado consumidor de alto poder aquisitivo de 200 mil pessoas numa cidade de um milhão de habitantes. Isso permite que em todas essas cidades seja viável a instalação de shoppings de luxo, boutiques, restaurantes, cinemas, teatros, hotéis, estádios, agências de viagem, bancos, escolas e hospitais de alto padrão, revenda de automóveis, aeroporto, etc., porque sempre haverá público consumidor, 200 mil pessoas é muita gente com grana para comprar.
Porém, enquanto 200 mil pessoas se regozijam no consumismo de alto padrão, 800 mil pessoas chupam o dedo. Tudo bem, quase todo mundo consegue comprar um tênis, uma calça, camiseta, um smartphone, um tablete de chocolate. O problema se agrava com a hierarquia visual que se estabelece através da desigualdade de preço e qualidade desses produtos de consumo. Chamam a isso, produtos de 1ª linha, 2ª linha, modelos de entrada, falseta...
Mas o que conta e interessa é inapelavelmente inacessível: educação e saúde com conforto e qualidade, só pagando; habitação razoável só em periferias distantes. Prestígio social, nem pensar. Há apenas 20% de bons empregos, para formar e alimentar aqueles 200 mil consumidores. As restantes 80% de ocupações são precárias, não adianta correr atrás, 800 mil vão sobrar.
O Coringa é um desses 80% precários, desvantagem que herdou da mãe.
Ele vai sendo provocado pelas circunstâncias próprias desse ambiente. Colegas mesquinhos ou trapaceiros, família disfuncional, desativação do serviço público de saúde que lhe assistia, demissão, manipulação televisiva tão familiar a nós brasileiros desde sempre e até dificuldade para arranjar parceiros sexuais. Vida de pobre é um acúmulo de frustração e insucesso.
Quase todos se aquietam na religião, nas drogas, no niilismo, guiados por charlatões de todo tipo, numa sucessão de engodos e desilusões, processo semelhante ao de se amarrar a espiga de milho na frente do burro que puxa a carroça. Pouquíssimos se rebelam através da delinquência isolada, facilmente controlada pela polícia especializada. Toda cidade grande têm uma polícia específica para controlar essa população. Em nosso caso, temos a polícia militar, a Rota, o Choque.
Enfim, a rebelião pessoal do palhaço Coringa provoca a rebelião do populacho contra os ricos. É antiga e constante a preocupação dos Estados Unidos com essa possibilidade, eis que o país vivencia quase semanalmente essas rebeliões pessoais através dos conhecidos tiroteios. No filme — e isso é sintomático — nenhum pio sobre a canalização dessa rebelião em processos civilizados de Política partidária e associativa. Ao contrário, a desmoralização do candidato a prefeito parece se dirigir a TODOS os candidatos.
A ficção de Gothan City parece ser uma profecia, uma possibilidade futurista. Acontece que, em 2019, vendo a profecia se realizar num cenário retrô de 40 anos atrás, sentimos um certo estranhamento. Sabendo que nesses 40 anos passados aquelas condições objetivas de desequilíbrio social só se acentuaram e, para facilitar a organização da rebelião, surgiram as redes sociais e a comunicação instantânea e massiva, sentimos decepção (e/ou alívio) quando, ao sairmos do cinema, não deparamos com o povaréu na rua quebrando tudo.
Pelo sim, pelo não, tomamos mais cuidado. A ostentação nunca foi tão perigosa; a pretensão nunca foi tão provocativa. Começamos a desconfiar daquele nosso sonho de ficar rico, a acumulação pessoal de bens começa a deixar de ser bom negócio.
A miséria da desigualdade nunca esteve tão na ordem do dia. Esse ainda não é o problema, ela sempre foi uma preocupação. A diferença, agora, é que a desigualdade, a iniquidade, a perversidade social foram postas em destaque pelas vítimas.



segunda-feira, 21 de outubro de 2019

SOBRE O CADÁVER DO FERNÃO DIAS.

O CAUSO DO QUE FIZERAM COM O CADÁVER DO FERNÃO DIAS.
Especificação do produto: Fernão Dias era um homão valente da porra, grande, forte… era um brabo da terra, que impunha respeito pela figura imponente, grande, forte… (línguas más dizem que homens grandes são mansos; valentes são os pequenos). O cadáver do grandão Fernão Dias pesava cerca de 65 Kg.
Não, ele não morreu de aids ou câncer — essas doenças que deixam o sujeito muito magro, antes de morrer. Morreu de uma febre braba que atacava naquelas bêras de rio do sertão do que viria a ser as Minas Gerais uns 20 anos depois. Adoeceu e morreu em poucos dias, perdeu só uns 3 Kg de quando estava com saúde.
Naquele tempo, homem com 1,70 metros e 60Kg já era fortão. A comida não brotava na gôndola do supermercado. Os frangos, pra matar, tinha de correr atrás pra pegar, um só não conseguia, tinha de ser a família inteira. Açúcar e leite eram artigos de luxo, não havia entregador de pizza, a coca-cola ainda não havia sido inventada, tampouco a kibon ou a elma-chips ou a maisena ou o leite condensado ou a farinha refinada ou o chocolate.
Não havia geladeira, micro-ondas, fogão a gás, embalagens, toda comida tinha de ser preparada na hora. Até os ricos comiam com parcimônia, e acho que vem dessa escassez o hábito de rezar antes das refeições. Tudo tinha de ser plantado, colhido, coletado, caçado, limpado, cozinhado por gente da casa.
Nas expedições, não havia essa história de café da manhã, almoço e janta não; comia-se o que tinha e quando tinha; carne, só quando se matava um bicho na mata; mas matar o bicho, depois carregá-lo até o acampamento, depois limpá-lo, depois improvisar fogo para assá-lo…; ao final da comilança o balanço energético era quase nulo.
Havia pouca gente acima do peso, alguns padres e frades e aqueles desregulados das glândulas. Não existia elevador, escada rolante, ônibus, táxi. Cavalo e canoa transportavam, mas davam trabalho de manutenção e exigiam força nos remos e destreza de peão ao usuário.
Creio que o Fernão Dias deve ter ganhado esses 8 Kg de sobrepeso no último dos seus longuíssimos 73 anos de vida, que foi com essa idade que morreu, em 1681. O mameluco encarregado do corpo deve ter ficado puto com aquela tonelada. Naquele tempo, somente poucos anciãos chegavam a essa idade. Não havia antibiótico, remédio pra pressão, diabetes, colesterol. Não havia vacina, fisioterapia. Pra saúde, só havia reza. Devia estar fraco, só andava de liteira, escravo para carregar não faltava. Nos últimos tempos, só mandava e comia; e engordava.
O Fernão Dias estava na estrada há 7 anos, quando morreu, em plena expedição. Havia saído de S.Paulo fazia 7 anos. Se ele fosse “índio” ou mameluco ou algum branco pobre, teria sido enterrado ali mesmo, ao pé de um jatobá, em cujo tronco alguém esculpiria uma cruz em baixo-relevo, só pra constar. Mas era branco, rico, chefe da bandeira e tinha história e muitos bens e familiares e cupinchas em São Paulo. Seus restos mortais deveriam ser trazidos de volta, e sepultados como um cristão. Ser sepultado como um cristão era ter seus restos depositados 7 palmos abaixo do piso de uma igreja.
No caso do Fernão Dias, ele tinha esse lugar garantido e em destaque, pois havia financiado a construção da igreja de São Bento, no Largo São Bento, onde séculos depois apoiaram uma das pontas do Viaduto Santa Ifigênia. Com o financiamento dessa construção, em favor dos beneditinos, o Fernão Dias matou dois preás com uma só paulada: garantia seu futuro túmulo em lugar nobre e desfeiteava os jesuítas.
O Fernão Dias não gostava dos jesuítas, porque estes queriam monopolizar a mão de obra indígena… Fernão Dias — homem de visão, como outros paulistas do futuro — percebeu que ou ele construía a igreja para os beneditinos ou seu cadáver jazeria para sempre no quintal de uma reles capela de periferia, que naquele tempo os discípulos de Anchieta/Ignácio de Loyola eram hegemônicos na Igreja por estas bandas.
Acontece que transportar 65 Kg de defunto por mais de mil quilômetros até São Paulo, por picadas e emboscadas, era cansativo e durava meses. O coiso — o cadáver — pesaria e federia demais. Então enterraram o Fernão Dias numa cova rasa num recanto do acampamento e tacaram fogo por cima, numa fogueira de muita lenha que durou 7 dias e 7 noites ininterruptas. Apagado o fogo, reabriram a cova e só encontraram osso, pêlo e unha. Até a língua e o cérebro, junto com todas as carnes e banhas e nervos e tendões e ordens haviam desaparecido, derretidos e integrados ao solo da América.
Limparam o que sobrou com pó de terra, lavaram com água e areia numa correnteza do Rio das Velhas, deixaram secar ao sol numa peneira como se fosse polvilho, deu uns 9 Kg de material inodoro e imperecível. Amarraram as partes umas nas outras com cipós, que naquele tempo não havia saco nem barbante e os embornais eram poucos e custosos. Aquilo veio chacoalhando a viagem inteira, fazendo um barulhão danado e espantando as assombrações. Mas em S.Paulo, no Largo de São Bento, aquela carga de ossos suscitou placa, discursos e missa cantada.


sexta-feira, 18 de outubro de 2019

O MEDO E O BERRO.

O MEDO E O BERRO.
Fernão Dias Paes Leme, em 1661, tinha pouco mais de 50 anos de idade e era um dos homens mais ricos e poderosos de São Paulo. Possuía um feudo com mais de 5 mil arcos, ali onde hoje fica Santana do Parnaíba.
O arco era o berro do tempo. Havia também o arcabuz, mas o arco era muito mais eficaz, como berro. Nas guerras daquele tempo, o berro-arco disparava 10 flechas enquanto o berro-arcabuz disparava apenas 1 bola de chumbo. Sendo que a flecha penetrava melhor no cipoal da mata densa e não fazia barulho.
O berro-arco era leve e fabricado ali mesmo no local da batalha com matéria-prima colhida na mata; idem para sua munição, que custava apenas a escrava mão de obra do próprio guerreiro; pesava pouco e não acabava nunca.
O berro-arcabuz pesava o equivalente a uns 5 arcos, e tanto ele quanto sua munição — pólvora e chumbo — vinham de Portugal e eram custosos para comprar e transportar e de impossível reposição no sertão. Então, lá para o final da expedição, só se dava tiro raramente, para lembrar aos ignorantes locais (no bom sentido) o poder do deus do fogo europeu.
A artilharia real e frequente era pela silenciosa e mortal troca de flechas. Porque os 5 mil arcos do Fernão eram devidamente empunhados por 5 mil “índios” escravos.
Os europeus morriam de medo dos “índios”, em suas expedições pelo território desconhecido. Em segundo lugar, na escala de medo dos portugueses, vinham as onças e em terceiro, as cobras(sendo que as cobras eram mais mortais do que as onças). Os “índios” morriam de medo dos portugueses, apenas.
Por isso, os portugueses-bandeirantes entravam no território armados para a guerra. Cada bandeira levava mais de 200 “índios” como soldados-escravos para matar (ou caçar/aprisionar) quem lhes amedrontava. Mas os comandantes eram brancos(alguns mamelucos), que a hierarquia existe e é muito eficaz para a minoria controlar a maioria. Esses comandantes portavam arcabuz, uma arma inútil perante as flechas, mas que aterrorizava os “índios”, porque reproduzia o raio/trovão(ignorância tecnológica e misticismo religioso dos locais).
O medo é amigo do berro. E da repressão. Nossa reação imediata (impensada) é matar ou prender quem (pensamos que) ameaça nossa vida. Medo, berro, ignorância e antipatia é um quarteto inseparável. As pessoas mais medrosas e ignorantes são as que mais desejam matar/prender “bandidos”. E por não entenderem as motivações da violência, ouso afirmar que são as maiores vítimas dos bandidos de verdade.
De fato, um bobão-inocente que saísse pela mata no tempo do Fernão Dias, morrendo de medo dos “índios”, das onças e das cobras e, ao mesmo tempo, ignorando a natureza e o modo e condições de vida desses três “inimigos”, corria muito mais risco de ser morto do que outro, em iguais condições, mas com mais empatia para com aquelas “feras”.
Substitua “índio”, onça e cobra por pretos e pobres periféricos e relacione-os com os babões ignorantes defensores do porte de armas, da pena de morte e da prisão em massa. É a mesma equação de 4 séculos atrás; na variável “mameluco/índio guerreiro”, encontre seu correspondente atual. Temos a quem puxar. (dia desses, conto o que fizeram com o cadáver do Fernão Dias).


segunda-feira, 14 de outubro de 2019

DEUS NOSSO SENHOR

DEUS NOSSO SENHOR.
Aliás, falando em Deus Nosso Senhor, tava aqui pensando com meus zíperes, o deus cristão da nossa hegemônica cultura ocidental greco-romana é o único que não tem nome. Por favor, relevem esta minha rasa cultura religiosa, corrijam, se não suportarem certa ignorância, só não adianta me mandar ler a Bíblia, que isso eu já fiz, do Gênese ao Apocalipse, sem esquecer os Evangelhos, embora sem muito proveito, tá se vendo…
O deus nosso senhor é como os cristãos — ao menos os católicos — chamam seu deus. Ele tudo sabe e tudo pode e é único. Ora, um cara assim realmente não precisa ter nome. Eu, por exemplo, tenho nome porque existe bilhões de seres muito parecidos comigo; se eu não tivesse nome, como me identificariam? Aliás, eu — e você — somos tão insignificantes e tem tanta gente igual a mim e a você, que além de nome, precisamos ter RG, CPF e o escambau.
Tudo bem, entende-se porque um deus único todo-poderoso criador do Universo não precisa ter nome. Então por que todas as outras religiões dão nome ao seu deus-único-todo-poderoso? No Islamismo, deus se chama Allah; no Judaísmo, Javé; no Candomblé, Olorum. E olha que todos esses deuses são únicos, onipotentes e oniscientes. Mas acho que o deus cristão é o que tem mais senso lógico ou uma assessoria de marketing.
Ou será que é porque esse deus cristão é o único que esteve, nesses últimos mil anos, a serviço do colonialismo depois imperialismo?
Nessa questão, é melhor a gente ficar de olho nos chineses. Eles têm também um deus supremo, chamado Shang Ti. É o todo-poderoso lá deles, mas esteve meio esquecido nos últimos mil anos. Durante todo esse tempo, os chineses ficaram dormindo na maionese, praticando Budismo ou Confucionismo, religiões sem nenhum ou com vários deuses. Era bom para a vida religiosa pessoal deles, mas não era bom para impô-la (a religião) a outros povos.
Sobre isso, os árabes logo arranjaram um deus único também, quando perceberam que os exércitos ocidentais que tinham de enfrentar traziam em seus estandartes o emblema do deus nosso senhor cristão. Então, é ficar de olho naqueles países com mais de um bilhão de habitantes e muitos deuses, como China e Índia. Se eles começarem a promover um deus nosso senhor que tudo sabe e tudo pode, cuidado! Mais cuidado ainda se esse Tal não tiver nome, porque esse é o sinal da Suprema-Arrogância.




sexta-feira, 11 de outubro de 2019

No metrô tudo é muito civilizado.

Que Deus Nosso Senhor se apiede de mim, mas levantei a mão, quando seus emissários entraram no vagão do metrô para pregar. É que eles, antes de começarem a pregação, informaram-nos que se alguém não gostasse ou se sentisse incomodado, era só levantar a mão que eles paravam. Então, eu levantei a mão, e eles pararam.
No metrô, tudo é muito civilizado. Não sei o que pensa quem anda todo dia, nos mesmos trecho e horário, pra ir e pra voltar. Eu, que não ando todo dia, e normalmente vario os horários e trechos e linhas, acho, sim, que no metrô tudo é muito civilizado. Por exemplo, os vendedores estão sempre bem-transados e não falam palavrão e, a exemplo dos serviços de atendimento ao consumidor das melhores empresas, nunca confrontam seus clientes — nós — e, antes, nos concedem essa ferramenta que ninguém usa, que é a de levantar a mão, se se sentir incomodado.
Por exemplo, os rapentistas têm o capricho de trazerem pendurada no pescoço uma caixinha de som com a tradicional batida, para acompanhar suas pobres ladainhas. Eu prefiro os repentistas, aqueles sim, verdadeiros artesãos. Porque o som de fundo é ao vivo, de pandeiro em punho, as métricas são menos imperfeitas e os temas não são daqui, são de outro mundo, sempre mais interessante do que o nosso. Os rapentistas assassinam a métrica, forçam as rimas e cantam nossa realidade mais imediata — o que estão vendo dentro do vagão — não tem tatu que aguenta.
Por isso tenho pena de quem mora no interior, onde não tem metrô. Leem minhas crônicas e não entendem nada. Vêm morar aqui na capital, em Itaquera, e trabalhar na Liberdade e usar o trecho Itaquera-Sé às 9 e às 18horas, todo dia, pra verem o que é bom pra tosse. Em contrapartida, poderão rezar e curtir um som, sempre ao vivo. E comprarem as mais inúteis e irresistíveis bugigangas.
No metrô, vocês vão do Corinthians ao Palmeiras, do São Paulo à Portuguesa, do Santos ao Jabaquara. No entremeio, passam pelo Japão, pela Armênia, no metrô tem até Airton Senna. A coisa agrada a gregos e troianos. Tudo é muito civilizado, os vendedores avisam aos clientes que a lojinha vai fechar momentaneamente, enquanto a porta do vagão estiver aberta, para não dar bandeira aos fiscais.
Mas o que mais me impressiona nos vendedores e artesãos do metrô é a mansa, quase passiva, prática da contravenção. Estão remando contra a maré, agindo contra as regras, subvertendo o sistema, sem nenhum grito, nenhum confronto, nenhuma fala raivosa, nenhuma contestação formal audível. Ao contrário, quem se incomodar, é só levantar a mão. Não tem Sistema que aguenta.
Enfim, eu vinha me abstendo de usar o mecanismo que me era sistematicamente dado por cada vendedor ou artesão porque, em realidade, eu admiro os vendedores e viradores. Quem eu abomino são os compradores. Mas então achei muito incorpórea demais aquela mercadoria vendida pelos emissários de Deus e botei a boca no trombone, ops, levantei a mão, assim, sem nem esticar muito o braço. No metrô, tudo é muito contido.


quinta-feira, 3 de outubro de 2019

PEGUEI A PROMOTORA.

(HISTÓRIA COMPLETA SOBRE NOTÍCIA DE JORNAL).
Estou pegando a promotora”, o sistema de som estava ligado, eles não sabiam, a conversa do locutor do supermercado com seu auxiliar vazou para os céus da imensa loja, clientes e funcionários, todo mundo ouvindo a conversa dos dois, o locutor dizendo que estava pegando a promotora. Talvez a promotora já estivesse em outra loja naquela manhã, essas demonstradoras de virtudes de algum produto aparecem e desaparecem sem muita explicação.

Antigamente os machões pegavam a professora. Ou melhor, casavam. Naquele tempo ninguém pegava ninguém, tinha de casar. Na nova era, pós anos 60, o chefe pegava a secretária, o comandante pegava a aeromoça, o paciente pegava a enfermeira; fico sabendo agora, após ler a notícia e dar um google em “pegando a promotora”, que essa é a atual profissional-mulher-pegável. São encontradas nos corredores dos supermercados, bem-maquiadas, bem-vestidas, a oferecer um novo tipo de queijo a nós-ratos…

Veja que esse verbo pegar é bem adequado a um objeto...

O jornal publicou a notícia incompleta. Estou aqui para contá-la toda. Esse tal locutor vivia pegando todas as promotoras que apareciam na loja. Era um esquema bom para ele e ruim para seus amigos que quando ficavam sabendo da façanha a caça já estava longe, sabe-se lá com qual produto, promoção. Longe, inocente, incapaz de desmentir o falastrão.

Esse caso aí se deu às 7h da manhã, praticamente só os funcionários ouviram, sendo que a maioria ainda estava meio sonolenta, abrindo os caixas, quase ninguém percebeu, teve nenhuma repercussão, o gerente relevou. Mas calhou da promotora-vítima ainda trabalhar naquela loja, naquele dia, embora tenha chegado mais tarde. Suas colegas lhe contaram. Normalmente isso fica entre os homens e circula como boato, é uma das mais comuns sacanagens dos homens contra as mulheres.

Porque pegável é uma boneca inflável.

Não, a promotora não se pôs a chorar nem foi tirar satisfações com o locutor, que continuava lá, todo pimpão, com sua voz de melão açucarado. Foi à mais conversadeira das colegas e ao mais conversador dos colegas, separadamente, pedindo segredo, e contou-lhes que o locutor tinha o pinto pequeno e flácido e ejaculação precoce e também mau hálito.

Enfim, se era calúnia ou verdade da promotora, ninguém soube, não apareceu ninguém para depor em favor do locutor ao final do expediente — quer dizer, ninguém para iniciar um contraboato —, quando a loja inteira, incluindo a clientela mais assídua, já sabia da fama do rapaz, incluindo o próprio. É claro que o moço nunca mais apareceu, tiveram que improvisar um locutor no outro dia.

Mas, sim, era uma promotora de outro mundo. Tanto que por pouco ela não arruinou a contraofensiva, ao utilizar os desconhecidos e bem-comportados termos flácido, precoce e hálito. Porque a gente sabe que isso conta. Se você mandar alguém ir à profissional do sexo que o gerou, vai receber de volta no máximo um muxoxo. Essas pessoas se embananam demasiado com as palavras. O que derrubou o locutor foi o pinto pequeno.


terça-feira, 1 de outubro de 2019

CRISTO VEM AÍ, CUIDADO!

JESUS CRISTO ESTÁ VOLTANDO. PREPARA-TE!
Domingão na Paulista, em plena luz do dia (11h), deparo com uma fanfarra de 20 componentes, vestidos com camisetas amarelas, onde se lê: “Jesus Cristo está voltando. Prepara-te”. Homens feitos, mulheres, garotas, garotos, gente normal.

Meu deus do céu, 300 anos de Iluminismo e uma chamada dessa ainda cabe, ainda faz sentido, não lá no cafundó do Judas, mas em plena Avenida Paulista, o maior, mais diverso e mais visível palco das Américas, creio. Talvez na Europa, na China, haja algo dessa magnitude, mas… não duvidem, mais uma administração como a atual e tudo volta a ser como antes, “o trânsito de carros na Paulista não pode ser interrompido nunca por causa dos hospitais da região...”.

A ciclofaixa de turismo, aquela que funcionava aos domingos, já acabou. Eu, particularmente, achava aquilo um saco, mas o fato é que aquilo levava ciclistas para a rua, ciclistas que, sem aquele tratamento infantil, não têm coragem de pedalar por aí. Era educativa, portanto. As ciclovias pararam onde a administração passada deixou, não, acho que regrediram; hoje na Paulista havia manifestação de ciclistas perguntando CADÊ AS CICLOVIAS?

O Tim Maia estava lá cantando, em pleno asfalto da avenida. O Tim Maia abriu espaço, lá na avenida, sendo Renato Russo. Mas acontece que, fisicamente, ele é o oposto do Renato Russo. É o Tim Maia escrito, inclusive no talento.

Vinha voltando, encontrei os membros da fanfarra alarmista, mas já desorganizados, sem batuque, que também voltavam. As camisetas amarelas insistiam: Jesus Cristo está voltando. Prepara-te! Um Cristo elitista, com cara séria de mau, que só vai escolher (e salvar, levando com Ele) uns poucos e bons...pagadores. Já sei!! Esse Jesus Cristo que está voltando vai ter cara, jeito e ideologia de banqueiro!

Nem sei porque o povão se preocupa tanto com a volta de Cristo, se quase todos são inocentes. Já sei!! Banqueiro não gosta de pobre.