quinta-feira, 18 de julho de 2019

CIDADES & FLORESTAS


MULHERES, HOMENS, ARBUSTOS & CIPÓS. 
 Sigo pelo viaduto da São Carlos do Pinhal. Ele passa sobre a 9 de julho. Devo dizer que passa também, antes — no sentido vertical — , pelo Mirante Suplicy. Deve ser caso único no mundo em que um mirante fica debaixo de um viaduto. Cai um chuvisco de julho e o friozinho é digno do mês e da estação. E, sob essa fria e grossa neblina, um paulistano passeia com seus 4 filhos, quero dizer, cães. Eu não teria nada com aquele passeio, não fora a calçada tão estreita e cerceada, à direita, por um murinho de concreto e, à esquerda, pelo abismo que a grade muito baixa não atenua. Os 4 cães, ligados ao homem por cordas — esvoaçantes no passeio público como uma menina no parque com seus balões de gás —, não conseguem barrar minha passagem apressada, mateiro hábil que sou nesse cipoal urbano da megalópole.
Na esquina próxima, em que antes funcionava a matriz do Banco Real — banco que já não mais existe e nem teve a ver com o nome da nossa novel moeda —, os carros em movimento não me deixam atravessar. Aguardo mais de 1 minuto plantado na calçada. Quando me rebelo e avanço, dou um primeiro e temerário passo e, em seguida, um espetacular salto à esquerda, para me livrar de um ciclista da Rappi. Enfim, progrido uns 400 metros entre arbustos, cipós, degraus, buracos e travessias. Pouco depois do Maksoud, uma mulher, um homem e uma criança ocupam meia calçada, sentados transversalmente com as pernas estendidas, como quem faz alongamento na academia. Ergo os olhos mareados e dou com uma placa onde leio um FH bem grande e, no rodapé, bem pequeno, “funeralhome”. Estão em frente a um casarão onde, há meio século, viveu uma próspera família burguesa e hoje hospeda cadáveres.
Um citadino conseguiria, talvez, atravessar uma floresta, mas saindo do outro lado todo arranhado, certamente.
Um matuto conseguiria, talvez, atravessar a cidade, embora saísse do outro lado todo esfolado, com certeza.
Este e aquele com o corpo e a alma em pedaços.


quinta-feira, 11 de julho de 2019

DOIS REAL E DOIS PASTEL.


Se eu fosse o presidente, determinava ao ministro que determinasse ao cara do Banco Central, que determinasse ao moço da Casa da Moeda, que restaurasse o nome da moeda: REAL! 
Sim, porque, consultando a fonte — as notas de dinheiro — constato que a moeda se chama REAIS. E algo tão importante não pode ou não deve estar no plural. Por exemplo, ninguém fala “os futebóis”, “os capitalismos”. Ninguém fala “deuses”, apesar de sabermos todos que existem vários deuses. Outro bom exemplo é o papa; outro, a OAB, o rei disso, rei daquilo, sempre no singular.
Deus e a moeda foram as mais geniais reduções do homem. Deus vingou, a moeda não. Ninguém se atreve a colocar Deus no plural, enquanto a moeda, tão sagrada quanto, está no plural até nas notas representativas (tudo bem, estamos falando de notação e não da realidade concreta…).
Antes, trocávamos duas vacas por cinco quilos de sal; um carro de milho por uma camisa. Reduziram tudo a notas e moedas, compreende-se o poder real do REAL. Compreende-se o endeusamento e a multiplicação da Moeda.
Falar em Moeda, eu ainda determinaria ao moço da Casa da Moeda (passando pela cadeia produtiva da hierarquia, é claro), que acabasse com as moedas. Sério! Deixasse só as notas: 2, 10, 20, 50, 100. REAL. Num canto da nota, a palavra sagrada: REAL; no outro, o algarismo representativo do seu poder.
É lógico, porque a nota de dinheiro não é uma frase impecável do português culto.
Tudo bem, sei que essa medida desagradaria os comerciantes sacanas, aqueles que nos chamam de idiotas na cara dura (e por escrito), cobrando de suas mercadorias 1,99 ou 10,90 ou 999,00. Mas agradaria, com certeza, essas pessoas que nos pedem moedas no espaço público.
Porque, se não sabiam, saibam: essas pessoas também odeiam moedas. Aquilo de pedir uma moedinha — que esteja sobrando, que não custa nada… — é apenas uma humildade requerida para não melindrar a miséria alheia(porque há cidadãos tão metódicos que possuem até bolsinhas porta-moedas).
No duro, no duro, querem, no mínimo uma nota. De papel. De dois REAL, portanto. Algumas crianças não instruídas (por isso, não hipócritas), vão direto ao ponto, sem rodeios: “me dá dois real, moço!”.
Claro que não levo em conta certos pedintes pós-modernos, já contaminados pelo marketing, que nos pedem um ticket ou um almoço ou um quilo de feijão (dentro do supermercado).
E muito menos aqueles caras ousados que nos pedem dinheiro para comprar uma garrafa de champagne, pegando a gente no contrapé da expectativa. Porque, do pobre, espera-se a humildade da moeda. Com letra minúscula e no singular.


sábado, 6 de julho de 2019

SUBJUNTIVO


SUBJUNTIVO.
A língua é um lamaçal de sabão. Toda língua. Falada em público ou por escrito, escorrega que nem quiabo, ninguém para em pé. Dizem que a Língua Portuguesa é mais lisa ainda. Acho que não. Toda língua tem suas armadilhas. Por que será que inventaram COLHEITA e COLETA para se referir, grosso modo, ao mesmo ato de coletar ou colher algo. O marido e a marida formam o casal conjugal. E um é do outro uma terceira coisa: CÔNJUGUE. Mas não, não é cônjugue, é CÔNJUGE. E a confusão entre CÂMARA e CÂMERA? Não tem quem não confunde caçar rolinha com caçarolinha. Com a língua, estamos SOB ataque pisando SOBRE ovos o tempo todo. As RUSGAS suscitadas pela língua são as principais responsáveis por nossas RUGAS. Já perceberam que quanto mais fala e escreve o cidadão, mais enrugado e enroscado ele fica? Quem é que consegue escrever SUSCITAR corretamente, sem olhar no google? E por que ENRUGADO e ENROSCADO se escreve com um R só, mas se pronuncia com dois RR? Lula agora gostou do INCOMENSURÁREL. Vira e mexe e ele tasca o adjetivo. Eu, se fosse ele, e em prol do estilo, variava com DESMEDIDO, IMENSO, INFINITO, sei lá, coisas assim, de acordo com o contexto. Porque, na língua, o contexto é quase tudo e o sem-texto sempre mete os pés pelas mãos e escorrega no sabão. Outra coisa que derruba dois em cada três viventes da língua é o A relacionado ao tempo passado ou vindouro: “sou amigo do juiz HÁ dois anos”. HÁ dois dias atrás, quebrei o pé. Mas que diabos esse ATRÁS está fazendo aí, se o HÁ já quer dizer dois dias atrás, a partir de hoje, quebrei o pé? Porém, daqui A dois dias, vai esquentar. Mas eu poderia fugir dessa casca de banana do verbo haver e dizer que FAZEM dois dias que quebrei o pé. Nãnãninãnão! TÊM dias que a gente não dá uma dentro! Ihhh!!! Não é TÊM(plural), mas TEM(singular). Pelamordedeus, vou ser farmacêutico! Vou ser engenheiro! Físico! Matemático! (conheço ao menos um matemático e uma matemática muito bons nesse ensaboado, que não escorregam nunca). Porém, se eu vim a ser juiz… adevogado… Porém, se eu querer botar banca, querer me estabelecer, terei de aguentar o rojão, ter competência. Em termos de área escorregadia no território da língua, nada se compara ao SUBJUNTIVO. Pouca gente para em pé. Sendo que p’ra mim, PARA do verbo parar tinha que continuar com acento. P’ra EU fazer um omelete, preciso d’uma frigideira. Que tal dar uma frigideira p’ra MIM? Enfim, preciso me MANTER informado, porque, se eu me MANTIVER alienado, ficarei vendido. OPA!, agora parei de pé no subjuntivo!

terça-feira, 2 de julho de 2019

PADRÃO MILITAR.


Meu parceiro estava armado com um canivete de 7 por 1,5 cm de lâmina. Eu, com uma faca de lâmina igual.
Faca com cabo de madeira e canivete, de alumínio, pesando, cada um, 25 gramas.
Ao nosso confronto, 30 homens em uniformes e armas de combate.
Combatentes de lado a lado. Nós, contra nós mesmos, pelo país da montanha.
Em nossos pés, botas impermeáveis e transpiráveis, pesando pouco mais que um tênis. Nos deles, coturnos selados pesando muito mais que um tênis.
Ante nossos 25 gramas de poder destrutivo, 400 gramas de faca, 1000 gramas de pistola e 5000 gramas de fuzil de assalto. Sendo que um deles portava uma bazuca de 15000 gramas e um outro, uma metralhadora de 10000 gramas. Fora granadas e munições.
Mas, enquanto nossas mochilas eram ergonomicamente adequadas a atravessar a trilha estreita na vegetação, e pesavam 17000 gramas cada, as deles eram largas e pesavam 40000 gramas.
E toda aquela muamba de aço era boa para enfrentar rajadas de outros aços, mas de nada valia contra as rajadas de ar a 80 Km/h, que os nossos lépidos corta-ventos tiravam de letra.
Nossas vestes de cores berrantes, de propósito, se viam ao longe, para o caso da necessidade de sermos encontrados… As vestes dos nossos confrontantes mimetizavam as cores da vegetação. Nós queríamos ser vistos e encontrados; eles, ignorados.
Nós, berrantes; eles, calados.
Nós, leves, pobres, parcos e autônomos, cada um segurando as pontas, avançando na dureza das pedras e do aclive por conta própria, baseados em propósitos particulares, dançando conforme nossa música;
eles, guiados e comandados por comandante, 2º comandante e 3º comandante, em busca de enriquecer o currículo, de olho na hierarquia. A vantagem é que a mente descansa…(Mas quando a mente descansa, o corpo cansa. Cansa e amansa).
Não tenho notícias do que comiam, de como cozinhavam, das barracas, de como lutavam contra o frio da noite, a solidão da vida, as dúvidas da existência.
Sei que falavam e nos informavam numa entonação de gente normal, quase espontânea, diferente do policial militar do corpo de bombeiros que abordei em frente ao obelisco, no Ibirapuera, para perguntar o propósito de atravancar a Pedro Álvares Cabral em plena 2ª feira:
O coturno brilhava e os vincos na farda eram visíveis. O rosto escanhoado e o cabelo aparado na véspera. (não vi as unhas, não sei se seguiam o padrão dos viris operários do ABC dos anos 1970, de tirar as cutículas e passar base). Ante minha civilizada(de civil) e titubeante pergunta ele, primeiro, me desejou bom dia em máscula e escorreita voz.
Até agora não sei se a voz impostada do pobre era afronta, respeito ou adestramento.


segunda-feira, 1 de julho de 2019

BREGUEÇOS.


O jovem aproveita o penúltimo segundo da porta aberta para entrar no vagão, num salto. No meio de nós, só para de saltitar quando a corda acaba. O sincronismo perfeito entre os pés e a garganta faz com que o jovem comece a pregar no exato instante em que para de saltitar.
Pregar de pregão, anúncio, venda em vagão.
Proclama um bregueço para smartphone, diferente de um carregador de bateria. É uma haste flexível para segurar o aparelho em frente aos olhos do usuário, envolvida em seu pescoço.
Déis real!
Essa parte do pescoço pode virar gancho e o aparelho ser pendurado. Barbada. Um pedido aqui, outro ali, dois acolá, sucesso de vendas.
Bregueços para celular, que não sejam carregadores de baterias, são sucessos garantidos.
Em outra viagem, o bregueço consistia em um porta-smartphone ligado por uma haste flexível a um imã. O aparelho podia ser fixado em qualquer superfície metálica. Unzinho comprou, parecia não entusiasmar a patuleia, para contrariar minha teoria. Mas quando o pregador fixou seu demonstrativo na tela de um dos monitores de TV do vagão, a indiaiada se rendeu. E eu gostei, por causa da confirmação da minha teoria e por causa da felicidade do vendedor.
Sempre torço para o vendedor, mas, contraditoriamente, menosprezo o comprador.
Numa terceira viagem, o bregueço consistia em um suporte de mesa para smartphone, como se fosse um porta-retrato. Teve um que levou dois. Mais uma vez, eu e o empreendedor ficamos satisfeitos.
Sendo que o carregador de bateria não é bregueço: tem nome. Alguns inexperientes ainda o oferecem, de vez em quando. Raramente alguém compra. Mais que útil, é necessário, todos têm.
O que vende é a novidade aparentemente genial, essencialmente inútil. Uma síndrome que acomete a plebe e a nobreza. Vide o sucesso das capinhas e películas para celulares.
Escolhemos no grito, pelo entusiasmo, na inocência da ignorância, vítimas da má-formação escolar e da manipulação televisiva.
Basicamente, mantemos o padrão de troca estabelecido por Cabral no litoral da Bahia há cinco séculos: meia dúzia de espelhos por um navio de pau-brasil.