Meu
parceiro estava armado com um canivete de 7 por 1,5 cm de lâmina.
Eu, com uma faca de lâmina igual.
Faca
com cabo de madeira e canivete, de alumínio, pesando, cada um, 25
gramas.
Ao
nosso confronto, 30 homens em uniformes e armas de combate.
Combatentes
de lado a lado. Nós, contra nós mesmos, pelo país da montanha.
Em
nossos pés, botas impermeáveis e transpiráveis, pesando pouco mais
que um tênis. Nos deles, coturnos selados pesando muito mais que um
tênis.
Ante
nossos 25 gramas de poder destrutivo, 400 gramas de faca, 1000 gramas
de pistola e 5000 gramas de fuzil de assalto. Sendo que um deles
portava uma bazuca de 15000 gramas e um outro, uma metralhadora de
10000 gramas. Fora granadas e munições.
Mas,
enquanto nossas mochilas eram ergonomicamente adequadas a atravessar
a trilha estreita na vegetação, e pesavam 17000 gramas cada, as
deles eram largas e pesavam 40000 gramas.
E
toda aquela muamba de aço era boa para enfrentar rajadas de outros
aços, mas de nada valia contra as rajadas de ar a 80 Km/h, que os
nossos lépidos corta-ventos tiravam de letra.
Nossas
vestes de cores berrantes, de propósito, se viam ao longe, para o
caso da necessidade de sermos encontrados… As vestes dos nossos
confrontantes mimetizavam as cores da vegetação. Nós queríamos
ser vistos e encontrados; eles, ignorados.
Nós,
berrantes; eles, calados.
Nós,
leves, pobres, parcos e autônomos, cada um segurando as pontas,
avançando na dureza das pedras e do aclive por conta própria,
baseados em propósitos particulares, dançando conforme nossa
música;
eles,
guiados e comandados por comandante, 2º comandante e 3º comandante,
em busca de enriquecer o currículo, de olho na hierarquia. A
vantagem é que a mente descansa…(Mas quando a mente descansa, o
corpo cansa. Cansa e amansa).
Não
tenho notícias do que comiam, de como cozinhavam, das barracas, de
como lutavam contra o frio da noite, a solidão da vida, as dúvidas
da existência.
Sei
que falavam e nos informavam numa entonação de gente normal, quase
espontânea, diferente do policial militar do corpo de bombeiros que
abordei em frente ao obelisco, no Ibirapuera, para perguntar o
propósito de atravancar a Pedro Álvares Cabral em plena 2ª feira:
O
coturno brilhava e os vincos na farda eram visíveis. O rosto
escanhoado e o cabelo aparado na véspera. (não vi as unhas, não
sei se seguiam o padrão dos viris operários do ABC dos anos 1970,
de tirar as cutículas e passar base). Ante minha civilizada(de
civil) e titubeante pergunta ele, primeiro, me desejou bom dia em
máscula e escorreita voz.
Até
agora não sei se a voz impostada do pobre era afronta, respeito ou
adestramento.
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