quinta-feira, 11 de julho de 2019

DOIS REAL E DOIS PASTEL.


Se eu fosse o presidente, determinava ao ministro que determinasse ao cara do Banco Central, que determinasse ao moço da Casa da Moeda, que restaurasse o nome da moeda: REAL! 
Sim, porque, consultando a fonte — as notas de dinheiro — constato que a moeda se chama REAIS. E algo tão importante não pode ou não deve estar no plural. Por exemplo, ninguém fala “os futebóis”, “os capitalismos”. Ninguém fala “deuses”, apesar de sabermos todos que existem vários deuses. Outro bom exemplo é o papa; outro, a OAB, o rei disso, rei daquilo, sempre no singular.
Deus e a moeda foram as mais geniais reduções do homem. Deus vingou, a moeda não. Ninguém se atreve a colocar Deus no plural, enquanto a moeda, tão sagrada quanto, está no plural até nas notas representativas (tudo bem, estamos falando de notação e não da realidade concreta…).
Antes, trocávamos duas vacas por cinco quilos de sal; um carro de milho por uma camisa. Reduziram tudo a notas e moedas, compreende-se o poder real do REAL. Compreende-se o endeusamento e a multiplicação da Moeda.
Falar em Moeda, eu ainda determinaria ao moço da Casa da Moeda (passando pela cadeia produtiva da hierarquia, é claro), que acabasse com as moedas. Sério! Deixasse só as notas: 2, 10, 20, 50, 100. REAL. Num canto da nota, a palavra sagrada: REAL; no outro, o algarismo representativo do seu poder.
É lógico, porque a nota de dinheiro não é uma frase impecável do português culto.
Tudo bem, sei que essa medida desagradaria os comerciantes sacanas, aqueles que nos chamam de idiotas na cara dura (e por escrito), cobrando de suas mercadorias 1,99 ou 10,90 ou 999,00. Mas agradaria, com certeza, essas pessoas que nos pedem moedas no espaço público.
Porque, se não sabiam, saibam: essas pessoas também odeiam moedas. Aquilo de pedir uma moedinha — que esteja sobrando, que não custa nada… — é apenas uma humildade requerida para não melindrar a miséria alheia(porque há cidadãos tão metódicos que possuem até bolsinhas porta-moedas).
No duro, no duro, querem, no mínimo uma nota. De papel. De dois REAL, portanto. Algumas crianças não instruídas (por isso, não hipócritas), vão direto ao ponto, sem rodeios: “me dá dois real, moço!”.
Claro que não levo em conta certos pedintes pós-modernos, já contaminados pelo marketing, que nos pedem um ticket ou um almoço ou um quilo de feijão (dentro do supermercado).
E muito menos aqueles caras ousados que nos pedem dinheiro para comprar uma garrafa de champagne, pegando a gente no contrapé da expectativa. Porque, do pobre, espera-se a humildade da moeda. Com letra minúscula e no singular.


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