sábado, 7 de maio de 2016

A FLANELINHA.

     Ela estava na profissão errada, porque não tinha cabedal técnico suficiente. Mais adiante explico. Era uma flanelinha. Sim, desses prestadores de serviço na via pública... é um serviço público exercido por particulares, como tantos outros, e bom exemplo são as concessionárias de rodovias – aquelas que instalam barreiras em plena via de alta velocidade para cobrar pedágio (abstraindo qualquer juízo de valor ou ideológico, é ou não é isto um contrassenso?). A diferença entre o flanelinha e este exemplo – sem contar a ordem de grandeza do valor subtraído – é a maneira de se conquistar o direito à exploração do espaço. O flanelinha conquista seu espaço no grito e no braço...

     Enfim, a mulher tomava conta dos carros numa determinada rua desta infinda capital e, para o bem da nossa paciência, não nos alonguemos em como ela conquistou esse direito. O fato é que o direito era inquestionável, tanto que uma porrada de gente boa pagava a ela, mensalmente, em palpáveis cédulas de dinheiro corrente nacional, vinte reais por mês. Dentistas, economistas, funcionários públicos(!), bancários... enfim,  gente exercitada em regatear e pechinchar e fazer valer regulamentos e centavos deixava seus carros aos cuidados da mulher-flanelinha e pagava a ela 20 reais todo dia 5 de todo mês. Religiosamente. E ficavam satisfeitos, à vista da contraprestação recebida.

     De fato, deixavam o carro e iam trabalhar sossegados, confiantes de que, ao voltarem, no final do expediente, encontrariam o móvel intacto. A relação comercial durava já mais de ano. A mulher era caprichosa, estabeleceu cones, recibos, limpava os vidros, punha papelão nos para-brisas... A mulher dava personalidade aos carros na via pública, os donos percebiam, ficavam tranquilos. Os carros cheios de provocativos badulaques, os donos nem escondiam, ao final do dia estava tudo lá, com certeza. A mulher dava bom dia aos fregueses, os fregueses davam bom dia à mulher. A mulher era chamada pelo nome, os fregueses eram chamados pelo nome. Havia troca de pequenas amabilidades, como a oferta de um pedaço de bolo, o comentário do resultado do jogo, o empréstimo de um livro...


     Pois bem, um dia a mulher-flanelinha resolveu mudar de 20 para 100. Sim, reajustar o valor do serviço de 20 reais para 100 reais. Sem nenhum amaciamento publicitário, nenhum preparo psicológico. Sem nenhum aviso prévio. Exatamente no dia 5 – dia do pagamento. A freguesia vinha com as duas cédulas de 10 separadas e ficava sabendo que deveria acrescentar mais oito cédulas daquelas. Então,  é por isso que eu disse que a mulher-flanelinha não tinha cabedal técnico para exercer a profissão. Quero dizer... sim, quero muito dizer. Mas desanimo diante da quantidade de argumentos que tenho e da pouca disponibilidade de vossa senhoria com tanta coisa mais interessante para ler. Enfim, choveram denúncias na delegacia, a polícia baixou no pedaço e levou a prestadora de serviços para a penitenciária, onde ela aguarda julgamento por extorsão.