Ela estava na
profissão errada, porque não tinha cabedal técnico suficiente. Mais adiante
explico. Era uma flanelinha. Sim, desses prestadores de serviço na via
pública... é um serviço público exercido por particulares, como tantos outros,
e bom exemplo são as concessionárias de rodovias – aquelas que instalam
barreiras em plena via de alta velocidade para cobrar pedágio (abstraindo
qualquer juízo de valor ou ideológico, é ou não é isto um contrassenso?). A
diferença entre o flanelinha e este exemplo – sem contar a ordem de grandeza do
valor subtraído – é a maneira de se conquistar o direito à exploração do
espaço. O flanelinha conquista seu espaço no grito e no braço...
Enfim, a mulher
tomava conta dos carros numa determinada rua desta infinda capital e, para o
bem da nossa paciência, não nos alonguemos em como ela conquistou esse direito.
O fato é que o direito era inquestionável, tanto que uma porrada de gente boa
pagava a ela, mensalmente, em palpáveis cédulas de dinheiro corrente nacional,
vinte reais por mês. Dentistas, economistas, funcionários públicos(!),
bancários... enfim, gente exercitada em
regatear e pechinchar e fazer valer regulamentos e centavos deixava seus carros
aos cuidados da mulher-flanelinha e pagava a ela 20 reais todo dia 5 de todo
mês. Religiosamente. E ficavam satisfeitos, à vista da contraprestação
recebida.
De fato, deixavam
o carro e iam trabalhar sossegados, confiantes de que, ao voltarem, no final do
expediente, encontrariam o móvel intacto. A relação comercial durava já mais de
ano. A mulher era caprichosa, estabeleceu cones, recibos, limpava os vidros, punha
papelão nos para-brisas... A mulher dava personalidade aos carros na via
pública, os donos percebiam, ficavam tranquilos. Os carros cheios de
provocativos badulaques, os donos nem escondiam, ao final do dia estava tudo
lá, com certeza. A mulher dava bom dia aos fregueses, os fregueses davam bom
dia à mulher. A mulher era chamada pelo nome, os fregueses eram chamados pelo
nome. Havia troca de pequenas amabilidades, como a oferta de um pedaço de bolo,
o comentário do resultado do jogo, o empréstimo de um livro...
Pois bem, um dia
a mulher-flanelinha resolveu mudar de 20 para 100. Sim, reajustar o valor do
serviço de 20 reais para 100 reais. Sem nenhum amaciamento publicitário, nenhum
preparo psicológico. Sem nenhum aviso prévio. Exatamente no dia 5 – dia do
pagamento. A freguesia vinha com as duas cédulas de 10 separadas e ficava
sabendo que deveria acrescentar mais oito cédulas daquelas. Então, é por isso que eu disse que a
mulher-flanelinha não tinha cabedal técnico para exercer a profissão. Quero
dizer... sim, quero muito dizer. Mas desanimo diante da quantidade de
argumentos que tenho e da pouca disponibilidade de vossa senhoria com tanta
coisa mais interessante para ler. Enfim, choveram denúncias na delegacia, a
polícia baixou no pedaço e levou a prestadora de serviços para a penitenciária,
onde ela aguarda julgamento por extorsão.
Nenhum comentário:
Postar um comentário