sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

O QUEIJO

Aproveito o ensejo para falar de reminiscências e rituais.

Estava eu numa pousada de beira de estrada, durante o café da manhã. Sabe esses estabelecimentos pretensiosos, como se fora uma aguardente 51 dentro de uma garrafa de autêntica salinas?

Era um casarão do tempo do imperador, de batentes de madeira lavrada a machado, paredes de adobe e pé-direito tão alto que dificultava a limpeza das teias de aranhas no teto de tábuas largas e grossas e resistentes aos cupins.

O telhado, de telhas de barro feitas nas coxas; o piso, também de madeira, com tábuas parecidas com as do forro, soava chocho sobre o vazio do porão onde, quem sabe, tivesse havido uma senzala.

Tudo reformado com tinta mui moderna e nenhum saber histórico. O dono da pensão, um autêntico empreendedor, alugara o imóvel junto aos herdeiros, por uma pechincha...

Começou com o café. O cozinheiro, que também servia e cobrava, chamou nossa atenção para a feitura do café, aquele simples pretinho. Os quatro hóspedes, de diferentes procedências, reunidos, se interessaram. Que ali tudo era feito na hora e imediatamente servido, dentro da peculiaridade do alimento, claro, como o queijo, que era de véspera.

Que apreciássemos o aroma do café enquanto era passado. Que atentássemos para o toque da canela envolvida numa flor de cravo.

Em seguida, exultante, trouxe-nos, num bule de ágata, o café batizado e o serviu em minúsculas xícaras de barro cosido, feitas ali mesmo no quintal.

Ao lado de cada xicrinha cheia derramando de café impuro e não tão preto, um copinho tão pequeno quanto de vidro ordinário com água de mina.

Que o sorvêssemos devagar, para sentir o sabor do grão de altitude...

Quando o café já estava acabando, começamos a “ouvir” o cheiro do pão de queijo atingindo o ponto, no forno elétrico. Enfim, veio o pão de queijo, um pãozinho minúsculo em cada prato, o prato era grande, mas o pãozinho parecia esses vendidos no metrô em saquinhos como se fora pipoca.

Mais uma vez o cozinheiro-dono ao nosso redor, pedindo-nos atenção para o traço particular do autêntico polvilho do amido da mandioca mineira.

Enfim, chegou a hora do queijo. De véspera, fresquíssimo, da fôrma para a mesa, sem passar pela geladeira. Melhor que da Canastra, que ali era Mantiqueira...

O queijo inteiro vinha dentro de uma queijeira de plástico transparente, mas seu tamanho e cor apenas se adivinhava, eis que estava coberto com um pano branco de algodão.

O cozinheiro depositou a queijeira no centro da mesa, destampou-a, descobriu o queijo, que tinha aspecto comum, extraiu meticulosamente uma fina fatia para cada prato que repousava na frente de cada hóspede, e retirou-se, levando consigo os 90% restantes da especiaria.

Num balcão ao longe, mas à nossa vista, enxugou cuidadosamente o queijo com o sedento pano de algodão, enquanto vigiava nossa degustação.

Em seguida, voltou com o queijo e repetiu o ritual, distribuindo-nos mais 10% da peça de meio quilo e retirando-se para a cerimônia de enxugamento.

Daí a pouco retorna ele com o queijo, para a terceira rodada. Eu, já atônito com tanto ritual e tão pouca substância, fui atropelado pelo hóspede do lado oposto da mesa, que, gentilmente, ritualisticamente, pediu ao homem para participar daquela celebração.

Em seguida, apossou-se graciosamente da faquinha e do garfinho de aço inoxidável e caiu sobre a integralidade do queijo, dividindo-o em quatro e definitivas partes iguais e derramando-as uma em cada prato, antes de qualquer reação e qualquer marmelada.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

A GORJA

A GORJA

Lá na minha terra a gente dá gorja, aqui na cidade grande damos uma gorja menor, uma gorjeta.

É que aqui em São Paulo as leis do capitalismo funcionam, enquanto lá no interior funcionam também, mas de forma capenga.

E quanto mais enfronhados nas regras da grana líquida, mais miseráveis somos. Por isso, nós, aqui de São Paulo, que, em geral, temos mais grana líquida do que o povo do interior, damos gorja pequena.

Entenderam?

Grosso modo, podemos dizer que quanto mais ricos, mais miseráveis. Miseráveis nos dois sentidos: no de pobreza e no de sovinice.

Sim, porque pingar os caraminguás na hora da gorja é para pobre. Pobre e ridico. Ridico!? Sim, ridico, sujeito muquirana-miserávi-avarento. Muxiba.

Muxiba!? Sim, lá em minha terra, muxiba também significa mão-de-vaca, sujeito com espinho no borso.

Quer dizer que quanto mais rico, mais pobre?

Sim, pobre de espírito, pobre de sossego.

Claro que em igualdade de condições subjetivas, digamos, porque também tem muito pobre-miserável-proletário de verdade por aí com um desassossego e uma pobreza de espírito de constranger. Vide esse povo que segue certos “bispos” e certos fascistas e paga pau pra polícia e se arma de reles armas para se sentirem seguros.

Mas o que eu queria escrever sobre a gorja vai ficar para outra oportunidade, ia deixar esta crônica muito grande. É que tava pensando: é a gorja que move o mundo, ops, as pessoas.

(porque o mundo-natureza não depende dos humanos para se mover, que fique bem claro)

Sem gorja ninguém se move.

(sabe esse povo voluntário-não-remunerado? Tudo gente com segundas intenções, com as exceções de praxe).

Sendo que a gorja assume diversas denominações e nuances. Vai desde a caixinha e o molha-mão e o suborno até o lucro, passando pelos salários, em meio a comissões e gratificações e participações de toda espécie e monta, umas legais, outras não. É pano pra manga!

E outra coisa, pra finalizar. O capitalismo tende a racionalizar a gorja, com seu desenvolvimento.

No caso dos restaurantes e hotéis, legalizaram as gorjetas.

Intermediários de ativos em geral legalizaram as corretagens.

E nos USA, intermediários de influências políticas, sociais, econômicas, culturais, acadêmicas... já são legalizados, no que chamam lobby.

Sabe essas comissões que se cobram aqui, nos negócios e transações e vendas e licitações, privados e estatais, em geral por baixo da mesa? Também lá nos USA ou no Japão ainda tem muito disso. Mas os lobbies (institutos legais que regulamentam essas boquinhas) avançam.

O fato é que, sem essas gordas gorjas, nenhum negócio prospera. Aqui ou na China.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Timeline

 

Eu já sabia como era, mas nunca tinha entrado em minha timeline do google, cujo aviso recebo pelo e-mail. Até que hoje entrei. Que susto!

Os caras sabem da minha vida em detalhes. Sabem dos meus deslocamentos todos, início, meio e fim. Se fui a pé ou de carro.

Eles só se embananam com minha bicicleta, coitados, tão sabidos eles e ainda não descobriram que ando de bicicleta, que a maioria dos meus deslocamentos dentro da megalópole são com bicicleta.

Nessas viagens de bicicleta, eles pensam que fui, ora a pé, ora de carro. Se bem que minha vida descrita pelo google tá muito pobre.

Lá não diz que vou à feira, que vou ao parque, que vou ao supermercado, que vou à zona cerealista, à livraria... Lá não diz que vou ao futebol e, claro que eles ainda não conseguem ver as chuteiras em meus pés!

O google, coitado, pensa que nesses dias estou sentado no sofá vendo TV. Ops, vendo smartphone. O google pensa que em São Paulo só vou à casa da minha mãe e à casa do meu filho. Coitado, sabe de nada...

Mas fiquei puto assim mesmo e fui lá no meu smartphone pra desligar o sistema de localização. Só que aí não recebo a previsão do tempo. E eu não acredito mais no céu que vejo, na umidade que sinto no ar, nos cheiros, nas nuvens que passam entre os prédios. No histórico das estações que tenho dentro de mim acumulado.

Pra mim, só chove se o google me informar. Se o google disser que daqui a uma semana tem 51% de probabilidade de chuva, desmarco tudo. E sei que nisso o google nunca erra.

Tem dias que o google diz que há 90% de probabilidade de que vai chover. Aí chega o dia e não chove: ora, e os 10% restantes!?

Querida amiga, o google nunca erra, mas esse jogo das probabilidades eu ainda não assimilei não. Então liguei a localização de novo. Dane-se! A vaca já foi para o brejo mesmo!

Minha vida já é um livro aberto lá pra eles, o quê que adianta esconder de agora em diante?

Aí pensei: melhor deixar escancarada minha localização, assim eles desconfiam menos. Assim eles acreditam em todos esses dias que passo dentro de casa feito um inútil. Ops, que meu smartphone passa dentro de casa.

E eu continuo recebendo a previsão do tempo, que sem ela não consigo mais viver. E vou marcando e desmarcando meus compromissos ao sabor das probabilidades do google.

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Moral doméstica.

 

É impossível falar de moral doméstica, à luz de São Paulo (o apóstolo), sem usar o verbo fornicar ou o substantivo fornicação. Aliás, até pouco tempo, eu achava que fornicação era palavrão, mais escabroso do que fudeção ou foda, por exemplo. Mas não, é palavra bíblica!

Tem duas coisas que São Paulo não gosta nem recomenda: fornicar e casar. Todavia, se você não pode viver sem tocar em mulher, então case. Dos males o menor: antes casar do que fornicar. Porque, se você não está sabendo bem, fornicar é fazer sexo ilícito.

Sim, o sexo pode ser lícito ou ilícito, como outro negócio qualquer. Naturalmente, isso não se aplica às mulheres, que passam muito bem sem tocar em homem…  Não!? Não reclame comigo, reclame com São Paulo.

Paulo disse, ressalvando que isso era por conta própria, e não conversa de Jesus, que casar era arranjar sarna para se coçar, recomendação válida para o homem e para a mulher.

Se o cidadão ou cidadã já for casado, tudo bem, permaneça casado, não se separe de jeito nenhum, aguente o tranco. Mas se você não tiver mulher/marido, não arranje um, porque é fatal que terá tribulações na carne; é algo que eu vo-las (as pessoas) desejaria poupar (1Cor 7, 27).

Se a sua mulher ou seu marido forem ateus, não tem problema (não, nem o conceito “ateu” existia na época, que dirá a palavra). Em lugar de “ateu”, usar “não cristão”. Se for o caso, permaneça com ele/ela, não se separe. 

Não se preocupe com os eventuais filhos desse casamento, que não serão batizados, mas serão puros (1Cor 7, 13-14). Se ele morrer, fique viúva. Mas se quiser casar de novo, não cometa a besteira de se casar com outro ateu.

O certo mesmo seria ficar virgem (homens e mulheres), não entrar nessa seara tão delicada, tão dialética… Eu creio que se Paulo dissesse uma coisa dessa na frente de Jesus, levaria uma bronca: cara, você tá querendo melar aquele meu mais genial bordão, aquele do crescei-vos e multiplicai-vos?!

Agora vejam só a motivação de Paulo: quem não tem esposa, cuida das coisas do Senhor e do modo de agradar ao Senhor. Quem tem esposa, cuida das coisas do mundo e do modo de agradar à esposa. Da mesma forma, a mulher não casada agrada ao Senhor e a mulher casada agrada ao marido (1Cor 7, 32-34). Paulo deve ser o padroeiro dos padres.

Ah, mulher, você estava achando Paulo um amor de equidade de gênero, é? Segura então os versículos 21 a 24 do capítulo 5 da Carta aos Efésios:

“Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo. As mulheres o sejam a seus maridos, como ao Senhor, porque o homem é cabeça da mulher, como Cristo é cabeça da igreja e o salvador do Corpo. Como a Igreja está sujeita a Cristo, estejam as mulheres em tudo sujeitas aos maridos”.

 

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

CAMINHO DA FÉ

 Sim, acabo de fazer o Caminho da Fé (CF), eu e meu irmão. Saímos de Tambaú SP e fomos até Aparecida SP, cruzando a Serra da Mantiqueira pelo sul de Minas Gerais.

Deu 400 Km em 12 dias de caminhada, no estilo raiz de peregrinação, levando a mochila de 7 Kg nas costas.

 

O CF é uma rota demarcada com setas amarelas, no estilo do Caminho de Santiago (Espanha). Existe uma associação que o administra, tem um site com todas as informações, é um projeto turístico com apelo religioso.

Em Aparecida SP está a imagem de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira dos católicos brasileiros.

 

Quem não tem dinheiro para ir até a Europa peregrinar, pode fazer o CF aqui pertinho, mas as pousadas (muitas na zona rural, em casa de moradores) são mais caras do que os albergues do Caminho de Santiago (com Euro caro e tudo).

Com alimentação e pousadas, o peregrino gasta cerca de 120 reais por dia.

 

Há vários ramais que se unificam em A. da Prata e, daí até Aparecida são 300 Km, que os caminhantes costumam fazer em 15 dias, caminhando 20 Km por dia. Quase todo o caminho é feito em estradas secundárias de terra, cruzando vales e cumeeiras.

Os vales, onde se localizam as cidades e povoados, têm altitude média de 900 metros e as cumeeiras, 1300 metros. É, portanto, um sobe e desce constante e muito exigente fisicamente, mas que proporciona paisagens deslumbrantes a todo momento.

 

Antes de Campos do Jordão, a altitude chega a 1800 metros e, após, no auge da Serra do Quebra Pernas, dentro do Parque Estadual de C. Jordão, a altitude vai a quase 2000 metros.

 

Atualmente, cerca de 80% dos frequentadores do caminho são ciclistas. É um público de poder aquisitivo mais alto do que o peregrino tradicional e as pousadas e restaurantes vão-se adaptando a ele, com preços mais elevados e abandono da simplicidade original.

A elevação dos preços afugenta os peregrinos mais pobres; o abandono da simplicidade atrai muitos turistas convencionais.

 

A exploração comercial se intensifica: já há verdadeiras agências de viagem, que organizam grupos de peregrinos ou bicigrinos (bikers; bicicleta agora é bike).

Mediante pagamento, há pessoas ou empresas que transportam mochila, acompanham com carro onde levam água, alimentos e peregrinos cansados.

  

Entusiastas particulares têm construído capelas ao longo da estrada. Há uma febre de construção dessas igrejinhas.  Além do apelo religioso, há sanitários e água potável em algumas. Tratam-se de apoios práticos ao caminhante.

Lá no CF, só fé e reza não bastam. É preciso ter bom preparo físico e, nos 20 Km entre uma cidade e outra, comer e beber muita água.

 

Ao final, em Aparecida, o peregrino raiz leva uma ducha de água quente, mediante o pagamento de 10 reais (nas instalações anexas à basílica) e uma ducha de água fria, diante da indiferença da multidão formada pelo turismo religioso de massa e da profusão de badulaques religiosos à venda.

terça-feira, 19 de outubro de 2021

O GRANDE IRMÃO ESTÁ DE OLHO EM VOCÊ

 

O GRANDE IRMÃO ESTÁ DE OLHO EM VOCÊ”, era o que estava escrito no imborná do cidadão que desceu no mesmo ponto que eu no meio da Corifeu, coração do Butantã.

 Imborná era uma simples bolsa de pano, para se levar a tiracolo, feita em casa, muito usada pelas crianças na escola, para levar os cadernos.

O imborná do moço da Corifeu era preto e as letras brancas, coisa feita em série. São vendidos em algum bazar alternativo da Vila Madalena ou Pinheiros ou Butantã, redutos de certa classe média supostamente ilustrada.  

Imbornás com aquela inscrição, quero dizer, que isso é coisa de gente que lê.

 Eu desci na frente, o moço veio atrás, para o mesmo lado que eu. Deixei-o passar e fui acompanhando.

 Eu ia caminhando e pensando: o imborná tem razão.  

Cogitei de entabular conversa com seu portador, conversar sobre o autor do livro, trocar impressões.  Afinal, o livro me impressionou quando li e continuou me impressionando quando o reli.

Me lembro que fiquei mal – triste, desesperançado — nas duas vezes.

De fato, eu ia dizer ao rapaz que o Orwell pegou pesado contra o Stalin, que o colocou no mesmo saco do Hitler, que seu socialismo democrático — o que dizia professar — era para, literalmente, inglês ver.

Que o livro, escrito em 1948, era uma peça de propaganda contra a União Soviética, quase como um chute inicial de um jogo que viria a se chamar Guerra Fria.

Porque aquela de que comunista comia criancinha só funcionava com a massa ignorante e atrasada. O livro do Orwell já era uma peça mais sofisticada...

 Havia um governante único, um partido único, partido e governante infalíveis, feito Deus. Tudo bem que os acertos eram fabricados a posteriori, os erros eram apagados, e aí o Orwell se referia à famosa foto em que o Trotsky foi apagado, etc.

Enfim, seria um bom papo, porque o cara do imborná certamente havia lido o 1984 umas duas vezes, como eu, e saberia, inclusive, trazer o tema para os dias atuais.

 Porém tive um estalo. Pensei: se ele estiver olhando o smartphone, nada feito, nada de conversa.

Porque, levar o smartphone no bolso, como eu fazia, tudo bem, não tem nada de mais o tio Sam saber de onde você veio, onde você está e para onde você vai.

Mas caminhar e entregar ao tio Sam o quê e com quem você conversa, quais produtos você namora, quais artigos lê, que tipo de vídeo assiste, as bobagens que escreve, as postagens que propaga, as amenidades que curte, aí não dá.

Dito e confirmado: o homem caminhava e brincava com o tijolinho, e falava sozinho na via pública, com uns discretos fios enfiados nas orelhas. Passei por ele e não resisti. Andando mais rápido e já me afastando, saudei-o:  lembra quão limitada e chata era a  Teletela!?  

terça-feira, 28 de setembro de 2021

REZAR E... CORRER!

Ia saindo do Parque Ibirapuera quando vi, lá longe, na Av. Pedro Alvares Cabral, alguém que vinha correndo na direção contrária. Era um homem de meia idade, vestido normalmente com indumentária de corredor e vi que ele, ao cruzar comigo, segurava um rosário. Mais que isso, manipulava o rosário.

Rosário, para quem não sabe, é uma espécie de colar de contas vendido aos turistas da Aparecida do Norte, ops, aos turistas do Vaticano, ops... é um colar com 150 continhas entremeadas com cerca de 15 contonas e o Terço é um terço dessas 150 continhas, ou seja, 50 continhas. Após rezar o terço, serve-se café, bolinho e chá de chocolate (isso era nos terços da minha infância, que a gente rezava terço adoidado, sempre em comunidade).

A gente rezava não, a gente acompanhava, respondia. Quem rezava era a rezadeira, aquela que puxava as ave-marias (50) e os pai-nossos (1 para cada dezena de ave-marias). Em nossa comunidade havia algumas rezadeiras e um rezador. Sim, um homem-macho-casado-rezador, de voz grave.

Aliás, agora não é mais terço, é Quarto. Fico sabendo pelo google. O São João Paulo II, quando ainda era muito vivo, acrescentou mais 50 ave-marias ao rosário, perfazendo um total de 200. Portanto, agora, quem reza as tradicionais 50 ave-marias está rezando o Quarto. Ele acrescentou por conta dos Mistérios Luminosos. Antes, havia apenas três mistérios: os dolorosos, os gloriosos e os gozosos (nada a ver com a peça do Zé Celso, hem gente!). O São João Paulo II, quando ainda era muito vivo, acrescentou os Mistérios Luminosos e, consequentemente, o Terço virou Quarto.

O fato concreto e importante é que os turistas podem comprar o rosário completo ou o Terço, que agora é Quarto (mas, óh turistas distraídos, essa nomenclatura ainda não foi atualizada lá não, na ponta do mercado. Daqui a uns 900 anos eles mudam a plaquinha). Claro que só os santos de verdade compram (e rezam) o rosário. Nosotros, apressados e não tão santos, compramos e rezamos o terço, que temos mais o que fazer na vida.

Aliás, pra falar a verdade, acho que nunca vi um rosário. O que sempre vi foi terço, que agora é quarto. Um rosário, entre outras inconveniências, não cabe na mão, a menos que o sujeito tenha uma mãozorra, coisa que nenhuma rezadeira tem, nem o Desidério, nosso rezador de mão máscula. Ao contrário, as rezadeiras costumam ter as menores mãozinhas da turma, o povão nunca gostou de rezadeira de mão grande.

Mas, enfim, o sujeito passou por mim correndo e rezando. Ou melhor: rezando e correndo. Já disse, estava manipulando as contas, vi quando ele mudou os dedos, sou escolado, ficava eu menino vidrado nos dedinhos da rezadeira torcendo para aquilo acabar logo, torcendo para ela pular duas continhas numa ave-maria só, ele estava rezando. Já li ou ouvi que tem gente que reza e ama, reza e come, reza e trás, reza e torce, reza e chora, reza e ri, reza e cobra, reza e planeja, reza e pragueja, reza e conta, reza e adora, reza e viaja, reza e vigia... Mas rezar e correr, é a primeira vez.

E enquanto o cidadão se alongava pra dentro do parque, fiquei olhando, parado e pensando: eis um cabra eclético, precavido e pragmático, acendendo uma vela pra Deus outra pro Diabo: cuida do corpo e da alma numa só tacada, da maneira mais simples e direta. Pragmático e simplório, se é que isso não é pleonasmo.   

 

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

O PROSÉLITO QUE FALAVA TODAVIA.

E o cronista que escreve prosélito. Ah, se juntar esses dois numa canga(1)!

Mas foi. Na Praça da Sé, na Primavera de 2021. Ia passando de bicicleta, passo bem no meio dela toda semana, de bicicleta, assim como quem sobrevoa um antigo território seu conquistado pelo inimigo.

 Há lá na praça, debaixo de uma tipuana que faz sombra na hora mais quente do dia, um espaço que, desconfio, deve ser vendido ou alugado para proselitismo religioso. É que esse espaço, além de sombreado, fica na rota entre a saída do metrô e os inícios das ruas Direita e 15 de novembro. Não exatamente na rota, mas do lado dela. O prosélito proselitiza para as pessoas que passam. E sempre algum gato pingado daquele rio de gente se enrosca naquela arenga.

Pena que sou meio surdo, senão teria escutado a frase inteira. Mas escutei porventura  e todavia. E já foram suficientes para me deixarem escandalizado. Até cogitei retornar e ouvir mais, parar lá um pouco, obter a ficha completa. Mas não retornei não, confiei em meu poder de dedução; é fácil deduzir, convenhamos, o tipo de personalidade de um prosélito que fala todavia e porventura aos mendigos da Praça da Sé na Primavera de 2021.

Contudo, assim, abro brecha para a perspicaz leitora discordar das minhas deduções. É que achei a todavia do moço tão inusitada — e ainda temperada com uma porventura —, que nem quis saber do resto. De mais a mais, eu sabia que o resto era recheio e que, novisfora, nada se aproveitava daquela ladainha.

O prosélito vestia terno e tinha o cabelo cortado ao modo escovinha, raspado dos lados e uma escovinha de cabelos na parte superior. Era um sujeito de estatura mediana, meio atarracado, de uns 40 anos de idade. O terno era bege... Mais lá na frente, ainda distingui outro porventura. Para quem nada tem a dizer, há uma técnica de redação em que algumas palavras-chave sustentam todo um texto sonoro e sem sentido. Aquelas todavias e porventuras certamente impressionavam boa parte da plateia, não pelo conteúdo, mas pelo som, como uma música bonita de letra pobre. Não tem uma expressão popular que diz que “fulano fala bonito”?

Mas, eis porque minha admiração: nenhum prosélito avisado usa todavia ou porventura. Se usar, é safado ou desavisado. No mundo das certezas e das predeterminações, que é o mundo religioso, não cabe as adversativas e os acasos e sortes. Porque Deus é certeza e predeterminação. Uma todavia é adversa à certeza de Deus. Uma porventura desmoraliza a atemporal e imutável predeterminação de Deus. Ora, Deus não admite explicações nem sorte, azar ou acaso.

Eu, se fosse adepto de uma seita qualquer, e ouvisse meu guia rechear sua cantilena com uma todavia, me retirava na hora. Deus não admite senões, porque Deus é tudo. E todavia abre um vasto campo de possibilidades. Todavia abre o diabólico palácio da dúvida...

Como certos bobos da corte, acho que aquele prosélito era um papagaio confuso disfarçado de homem.

(1)  Canga: peça de madeira que junta dois bois para puxar o mesmo carro ou arado.

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

PUTZ! CEM REAL!!

 Estava eu motorista parado no farol... bom, essa é uma reflexão sobre dinheiro, moeda, caridade e consciência. Tudo muito prático, baseado na vida real e recente. Mas, antes, um preâmbulo. Ora, tudo na vida tem um preâmbulo, um porquê, nada existe ou acontece por acaso nem está isolado no mundo.

 

Já escrevi aqui que todos os mendigos ou pedintes odeiam receber moedas. Aquele pedido “moço, me dá uma moeda” é apenas retórico, para não melindrar o orgulhoso cidadão capaz de prover seu próprio sustento e não parecer ousado e arrogante, ainda que miserável. No fundo, todos — todos! — odeiam moedas, até as pesadas de 1 real.

 

[Mas houve um tempo em que as bonitas moedas de 1 real eram amadas, no primeiro governo do FHC, quando 1 real era igual a 1 dólar. As crianças, sempre mais sinceras e objetivas, já pediam “moço, me dá um real” ao invés de pedir uma moeda. FHC segurou até ser reeleito, depois a coisa degringolou, com a desvalorização cambial (1 real era igual a 1 dólar, mas o salário valia 60 dólares, isso é o que chamo de fazer milagre com o santo alheio...). Com Lula, a moeda voltou a ser aceita; aceita, não amada; afinal, enchia o saco mas não era difícil juntar três para dar um dólar.]

 

Agora a novidade, o que eu já desconfiava e tive a certeza ontem, quando estava motorista parado do farol. Os pedintes já não gostam de receber o papel-moeda de 2 reais. Enquanto você, óh cidadão desatualizado, pensa que tá abafando quando dá aquela nota verde novinha para o pedinte e você, óh metódica e caridosa cidadã, que nunca esquece seu elegante porta-moedas, nunca deixa de atender literalmente ao retórico pedido, o pobre recolhe a miséria e parte para outra, revoltado.

 

Paradoxalmente, os que ganham de manhã para comer no almoço são os primeiros a sentirem a desvalorização monetária. Nestes tempos de gasolina e dólar a seis, coxão mole a sessenta e gás a cem, dois reais não alivia nem o pecado de matar passarinhos.

 

Antes de relatar o acontecido, informo-lhes:  já fui caixa de banco e, portanto, já manipulei moeda e papel-moeda de frente e de trás pra frente.

 

Estava eu motorista parado no farol quando se aproximou um pedinte disfarçado de limpador de para-brisa. Educado, colocou a máscara e pediu permissão. Eu disse que não precisava, que eu, bonzinho, não exigia trabalho em troca de dois reais. E saquei a carteira para encontrar a nota verdinha. O farol quase abrindo, o motorista de trás impaciente, eu saquei uma verdinha e dei pra ele. Ele pegou e exultou. Putz! Cem real!

 

Era! Eu, vacilão, falei que havia me enganado, para ele me devolver a nota. E ele devolveu!!

 

 Nisso minha cônjuge preencheu meu ato falho com a devida verdinha, a de dois reais. Mas, enquanto eu restituía a fortuna de cem reais à carteira, o prestador de serviços, segurando a nota de dois reais, quase chorou, implorando: “moço, me dá mais uma nota, vai, eu te devolvi a de cem”.

 

E se tudo nesse mundo tem um propósito, qual o propósito disso que aconteceu comigo? Sei lá, mas tem. Talvez para sugerir que eu ande mais por aí, no mundo real. Que eu me atualize sobre produtos financeiros. Que eu não desdenhe minha antiga profissão. Quer saber!? Acho que foi só para eu ter assunto para esta crônica.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

O FUTURO DAS MULHERES.

 

O FUTURO DAS MULHERES BRASILEIRAS.

Agora que a extrema-direita galgou o poder, o que será do futuro das mulheres do Brasil, meu deus? Ia indo tão bem, conseguimos até eleger uma mulher para a presidência, nenhuma mulher precisava mais vender seu corpo para comprar arroz e feijão, nenhuma mulher precisava mais criar o filho sozinha por causa do sumiço do pai, de repente, inesperadamente, antes do previsto, o exército de Brancaleone e machos brancos entra pelo portão do país com a maior facilidade, acho até que as portas foram abertas pelos nossos antigos comandantes, o que será agora das nossas mulheres, que estavam ganhando a mesma coisa que os homens em funções similares, que ocupavam os altos escalões das empresas em pé de igualdade com os homens, que fundavam igrejas neopentecostais e já já iam começar a rezar missa? Agora nossas mulheres vão ter de retornar ao antigo esquema de tripla jornada, trabalhar fora, lavar, passar, cozinhar, não passar não, que ninguém mais passa roupa, quem diz que a gente não evolui?, criar filho. Logo mais será criada uma lei em que será obrigatório aquilo que muitas mulheres já fazem, que é tirar a bota do marido quando ele chega em casa e aquela lei que permitia ao marido anular o casamento caso a mulher não fosse virgem, que afinal acabou faz pouco tempo, certamente vai voltar, isso não é difícil, burocraticamente falando. Foram 20 anos de avanços extraordinários para a mulher brasileira, de repente foi tudo por água abaixo, agora elas vão ter de cobrir os ombros para entrar na igreja e logo, logo, serão proibidas de usar calça comprida, o que vou achar muito bom, porque gosto de mulher de vestido. Meu deus, o que será das feministas brasileiras? Claro, já fugiram todas pra Miami, não Miami não, que não são bestas, fugiram todas pra Paris e as mais pobres pra Montevidéu. Bem-feito para elas, que atrapalharam o processo de emancipação da mulher brasileira, não fosse elas as mulheres brasileiras estariam muito mais à frente, graças à compreensão e apoio dos homens... que tristeza saber que a metade dos parlamentares brasileiros terá de voltar para casa, numa casa em que já é obrigatório o uso do terno e gravata. Estávamos tão bem, as mulheres já ocupavam quase metade da Câmara e progrediam no Senado, agora elas, logo, logo, nem poderão votar, meu deus! Mas tudo tem seu lado bom. Pense nas empresas, que não terão de pagar auxílio-maternidade nem se preocupar com mulher grávida na hora da admissão; nas crianças, que serão mais bem educadas; nas comidas, que serão mais bem temperadas; nos lares, que serão mais bem arrumados; nos casamentos, que serão mais bem definidos; na autoridade, que será muito bem definida. Pense na indigência cultural da subserviência colonial que nos leva ao automático alinhamento de narrativa com a diretriz estadunidense, que é deprimente.  

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

QUE SORTE!

 QUE SORTE!

Eu tinha um compromisso inadiável agora de manhã. Levantei tarde, com tempo apenas de tomar o café e sair. Estiquei o olho na janela e vi que, além de frio, estava chuviscando lá fora. Ô tristeza! Porque frio com garoa ninguém merece. E o tempo estava daqueles em que, não precisando, o cidadão fica em casa.

Tomei café, vesti uma camiseta, um fleece e uma capa de chuva que, em verdade, é um casaco perfeito, com manga e gorro. Quando saí, a garoa tinha parado, só ficaram o frio e a umidade. Subi o morro da Paulista andando depressa e, lá em cima, 1,5 quilômetros depois,  eu estava molhado da cintura para cima. É que a capa-casaco, perfeitamente assentada no corpo, é totalmente impermeável e... totalmente NÃO transpirável. O suor bate e volta. Ou melhor: bate e fica.

Quando cheguei ao destino e parei, daí a pouco comecei a passar frio. Não tem agasalho que aquece um corpo molhado no frio. Pensei: daqui a pouco apanho uma pneumonia e morro. No trajeto de 1500 metros fui abordado por 4 pedintes e vi 3 crianças de rua nos colos dos respectivos pais. Pensei: frio, garoa, pobreza e desamparo, ô miséria! Hoje o dia tá desinfeliz.

Na Brigadeiro com a Cincinato, um ônibus articulado passou ventando na sarjeta, assustando a moça que caminhava distraída na calçada. Do outro lado, eu via a cena de esguelha e em fuga, eis que o tal ônibus vinha para meu lado feito doido e eu tinha toda razão, porque o monstro teve de subir no meio-fio para completar a curva.

Peguei a bicicleta na oficina e só não passei por cima da tachinha que estava de tocaia no primeiro quarteirão da ciclovia porque o ciclista que ia em minha frente passou primeiro. Pensei: êta vida perigosa, meu deus! Porque é de lascar trocar câmera de ar debaixo de frio e garoa.

Entretanto, nada me abalava e meu bom-humor permanecia em alta. Voltei para casa e saí de novo, de carro, para fazer uma pequena corrida de uber familiar. Não peguei um farol aberto e uma rua desatravancada e gastei 40 minutos para rodar 3 quilômetros. Prejuízo na certa.

Enfim, voltei para casa e só então, ao acender o smartphone, descobri o grande risco que havia passado nessas duas aventuras extradomiciliares: hoje é sexta-feira, dia 13. E, como se não bastasse, de agosto!

Agora estou em vias de fechar todas as janelas e cortinas e me encobertar na cama, para emergir somente amanhã, quando o azar já estiver longe e a cidade equilibrada e feliz. Ora, se todo mundo defende na cara dura a meritocracia e a desigualdade, por que eu não posso defender a sorte e o azar? Alienado é seu tio!

terça-feira, 10 de agosto de 2021

BERMUDA, CAMPEÃ!

 BERMUDAS, A GRANDE CAMPEÃ DE TÓQUIO 2021.

Sim, Bermuda, em inglês, um pequeno arquipélago meio escanteado no Mar das Caraíbas (Caribe), território inglês, de cerca de 70 mil habitantes.

A Índia ficou em último lugar, dos países que ganharam ao menos uma medalha de ouro. E Bermudas ficou em primeiro.

A única medalha de ouro conquistada pela Índia precisou de 1,388 bilhão de pessoas para forjar esse campeão solitário e custou 2,09 trilhões de dólares.

Já Bermudas conseguiu um campeão entre apenas 100 mil pessoas e sua medalha custou apenas 0,004 trilhão de dólares.

Os 05 primeiros colocados, pelo critério população por medalha foram Bermudas, Bahamas, Eslovênia, Nova Zelândia e Jamaica (por esse critério, o Brasil ficou em 53º).

E pelo critério Produto Interno Bruto por medalha foram Bermudas, Jamaica, Bahamas, Kosovo e Fiji (por esse critério, o Brasil ficou em 43º).

E sabe quais foram os 5 últimos colocados, pelo critério PIB/medalha? Ei-los: Índia, Indonésia, Filipinas, USA e Áustria.

Entre os latino-americanos, Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Peru, Colômbia, as Guianas, México e todos da América Central não ganharam nenhuma medalha de ouro.

Eis a classificação por medalhas, na América Latina: Brasil, Cuba, Jamaica, Equador, Bahamas, Venezuela, Bermudas e Porto Rico (não sei se Bahamas, Jamaica e Bermudas são considerados latino-americanos).

Se o Brasil produzisse atletas campeões  como a República Tcheca, em termos proporcionais à população, teria conquistado 80 medalhas (a Rep.Tcheca, com seus 10,6 milhões de habitantes, conquistou 4 medalhas; com uma população 20 vezes maior – 212 milhões – teria conquistado 4x20).

Essas comparações do desempenho olímpico com a população e o PIB são deveras imprecisas e sujeitas a muitos questionamentos. Mas uma coisa é certa: os indianos não gostam de esportes olímpicos

terça-feira, 27 de julho de 2021

TEMPLOS MODERNOS.

 

TEMPLOS. Caminho pelo parque, são cinco horas da tarde e faz 18ºC. Está frio, para nossos padrões tropicais. Lá na frente, próximo a um equipamento de ginástica da prefeitura (aqueles instalados pela gestão Haddad), um homem sem camisa, só de bermuda, anda lentamente, com os braços pendentes, à moda dos macacos. Seus ritmo e vestimenta destoam dos demais caminhantes. O homem para, faz um giro de 180ºC, e continua no mesmo ritmo, agora em sentido contrário, em minha direção. Chego mais perto, o homem abre e fecha as mãos, estica e encolhe os braços, apalpa o peito e, não demora, retoma os exercícios no equipamento da prefeitura. É um halterofilista amador. Acho que as pessoas nem sabem mais o que seja um halterofilista, de tão antigo e fora de moda que é o termo. O termo, não a prática. Acho que nem “puxador de ferro” se usa mais. Mas, por que digo que era um halterofilista amador? Existe halterofilista profissional? Sim, existe gente que ganha dinheiro levantando peso para fins esportivos… Mas, sabiam que existe gente que ganha dinheiro cultivando o próprio corpo? Não, não estou falando das mulheres que se candidatam nos concursos de miss. Estou falando dos homens que passam o dia inteiro (exceto lá aquelas 6 horas em que tem de trabalhar para ganhar algum) exercitando essa ou aquela parte do corpo e comendo a comida correspondente necessária para seus respectivos desenvolvimentos, com o intuito de modelar o próprio corpo e participar de um concurso equivalente ao de miss. O corpo imediato e físico é seu templo e tudo gira em torno dele. O puxador de ferro amador acaba invariavelmente com o corpo deformado, quando não adquire uma intoxicação permanente ou algo pior, e se exercita de graça, no equipamento da prefeitura, no parque e não, não participa do tal concurso não.

Aí, saio do parque e, na rua do Paraíso, perto da Oswaldo Cruz, começo a ouvir uma música, que sai de um estabelecimento comercial logo à frente, enquanto caminho naquela direção. É uma igreja, penso. Como se sabe, em São Paulo, as igrejas neopentecostais pipocam nas ruas em meio às lojas comerciais. Se a loja de utilidades domésticas põe uma caixa de som e um locutor para atrair a freguesia, por que a lojinha da fé não pode fazer o mesmo? Mas essa igreja, penso, é mais sofisticada: põe uma música grandiloquente, encorpada, quase solene, penso, a julgar pela antecedência com que este meio surdo nota o som. Fico curioso, estico o pescoço para antecipar a informação que terei com mais alguns passos. Chego, por fim, em frente ao estabelecimento. É uma academia de crossfit.


sexta-feira, 11 de junho de 2021

TRISTEZA NA BARRIGA.

 TRISTEZA NA BARRIGA. O acontecido me deixou triste e com medo. Estava eu na loja da VIVO no interior do Xópi Paulista. Em geral, tristeza e medo não caminham juntos. Uma mocinha me atendia na entrada da loja, a 150 centímetros do limite entre o privado do Xópi e o privado da Vivo. E nunca, ou quase, medo e tristeza acontecem na barriga. Smartphones em exposição para todos os lados e todos os bolsos. A tristeza acontece no coração. Quase no mesmo nível dos 150 cm do meu adentramento, na parede lateral, vi uma gavetona vertical destinada ao descarte de lixo eletrônico. O medo acontece na cabeça. A freguesia era pouca, na rua interna. Eu voltava à loja, seis anos depois, para a mocinha me ajudar a configurar o novo aparelho, que o destino do velho era aquela gavetona. Mas daqui a pouco você vai ver que senti tristeza e medo na barriga, provocado pelo fato que vou contar. É fácil fazer a migração do aparelho velho para o novo, é só trocar o xip e seguir as instruções do manual, que está lá na página da fabricante. Quando a tristeza e/ou o medo começam na barriga, damos a eles o adjetivo de visceral. Ou figadal. Mas eu sou um sexagenário empedernido e não tenho paciência para certos detalhes tecnológicos e entrei 150 cm adentro a mesma loja da Vivo que entrara seis anos atrás, levando ambos os aparelhos para a mocinha, como um cachorro abandonado e faminto e ignorante em busca de salvação. Às vezes, medo e tristeza ocorrem após a dor de um soco no estômago. Mas só a dor acontece no estômago, o medo e a tristeza acontecem diretamente no cérebro. Não neste caso. Se eu mesmo tivesse feito a migração, gastaria a tarde toda, mas aprenderia certos recursos manêros e bisonhos oferecidos pelo aparelho, que ignoro como um asno. Se não pratico, não aprendo. O medo ou a tristeza cerebral são quase fingidos, de tão limpos. Eu olhava para a gavetona do lixo e pensava se devia deixar meu aparelho velho ali ou levá-lo para o fundo do meu armário, como peça de museu, enquanto a mocinha não o dispensava para sempre. Já aquilo que a gente sente na barriga provoca, no mínimo, suor. Afinal, meu aparelho novo entrou em operação, meu aparelho velho em decomposição, mas ambos ainda em minhas mãos; e claro que decidi levar o velho para casa... Foi a minha salvação. Vai vendo. De repente, senti um vento e um movimento estranho em minha volta. Olhei e vi, já lá fora, no espaço privado, mas público, do Xópi, um adolescente esculhambado saindo ligeiro, enquanto a mocinha falava para a outra mocinha: “Ele pegou um!”. Olhei para a prateleira acima da gavetona e vi que os dois foscos mas cobiçados smartphones continuavam lá. Falei então pra mocinha que não, que os aparelhos continuavam lá. Ela me respondeu: “Do lixo”.

quarta-feira, 28 de abril de 2021

LIVRO LENTO.

 Hoje acordei com uma vontade doida de ler um livro lento. Claro, todos os livros são lentos, diante do atual frenesi instantâneo e virtual, mas um desses mixurucos livros de 90 páginas muito em voga não basta. Tem de ser um de 900 páginas bem fornidas. O tamanho da letra não precisa ser igual ao da bíblia, mas se passar do ponto, eu posso refugar. Não estou com pressa, não sou analfabeto e enxergo bem de perto. Umas 33 linhas de 60 caracteres seriam suficientes para uma página. Poderia ter ilustrações e até fotografias, mas, mais uma vez, o editor não pode exagerar na dose, porque no livro o que conta são as palavras. E frases e ideias e linhas e mais linhas e… entrelinhas. O autor tem de tomar cuidado comigo, porque sou perigoso. Não que eu vá abandoná-lo no meio do caminho, basta que ele tome cuidado para me engambelar até a página quatro. Um dos meus princípios é ler até o fim um livro que li até a página quatro. Leio praguejando, quando não gosto, mais leio até o fim. Depois, desço o cacete, mas leio até o final. Em muitos casos, esse maldito livro fica martelando em minha cabeça e enquanto eu não o releio de cabo a rabo, não fico sossegado. Já aquele um que desceu redondo… em geral, nunca mais me lembro dele. Regra geral, o livro segue a mesma lei dos salgadinhos e refrigerantes: quando é gostoso, não presta.

Esse livro pesado cuja necessidade chegou hoje pela manhã deve ser daqueles bem divididos, em que você sente a vontade do autor não só no texto, mas na disposição dos parágrafos e das ideias. Não digo que deve ter muitos ou poucos capítulos, títulos e subtítulos, deve ter o suficiente. Por exemplo, em Grande Sertão, Veredas, é um pau reto, sem divisão nenhuma (se não me falha a memória) e está de acordo, porque a narrativa é tão densa e envolvente que seria um sofrimento virar uma página em branco em busca do próximo capítulo. Já Em busca do tempo perdido, com seus sete romances, também está de acordo, porque o leitor precisar se desintoxicar a cada 300 páginas.

Sim, o livro, além de lento, deve ser pesado. Não tem coisa mais broxante do que um livro leve. Não digo no assunto, mas na substância concreta da celulose. Um livro precisa pesar e cheirar. Um livro precisa parar de pé, metafórica e literalmente; ter grossura suficiente para ser notada na estante. Ele não precisa, necessariamente, resistir ao vento lateral quando de pé, mas esse livro desejado esta manhã precisa sim. Precisa ser parrudo, em todos os sentidos. Quanto à sua idade, não estou bem lembrado, poderia até ser novo, mas, sendo novo, enfrentaria mais resistências da minha parte. Constar no cânone não é importante, mas não pode ser um joão ninguém. O livro precisa ser, no mínimo, registrado, batizado e crismado.

E precisa ser um livro com algumas notas de rodapé, além de prefácio. Posfácio não é necessário, mas desejável. Mas, sendo de ficção, somente o editor teria direito às tais notas. Eu prezo muito as notas do editor. Falar em editor, esse livrão deve ser bem editado. Se gosto de arroz e feijão no ponto e bem temperado, gosto também de um livro bem editado, desses que você sente o tesão do artesão. A capa não precisa ser dura, aliás, prefiro as moles, mas precisa fazer parte do conteúdo do livro. Não vou encapá-lo, como se fazia antigamente, vou deixar a capa à mostra, especialmente quando estiver lendo no metrô…; se você, editor, fizer uma capa imbecil, azar o seu.

Finalmente, um último e múltiplo recado ao autor. Não mastigue muito nem seja direto demais, senão enjoo. E não se esqueça de se referir a todos seus(do livro) parentes, mas cuidado: sempre em citações sutis. Nessas 900 páginas, se você citar literalmente mais do que meia dúzia de outros livros, eu te desanco. Bom, acho que todo mundo entendeu que quero um livro de ficção, gênero em que não é possível enrolar nem ser breve. Outra coisa: não escreva algo manifestamente útil ou edificante, posso romper a amizade. Mas cuidado, sou violento, já te avisei. Se você me escrever um panfleto, te mato.

sexta-feira, 23 de abril de 2021

UM CÍNICO VATICÍNICO VACÍNICO.

 

Nesta ensolarada sexta feira de abril do ano do vírus de 2021, lá fui eu tomar vacina contra a COVID 19. Só fui porque me levaram. Eu ia na frente e a vigilante ia atrás. Era a EMEF Celso Leite, no coração do Bixiga. 3 horas da tarde, temperatura agradável, 30 pessoas na fila, 1 hora e meia de espera. O povo que saía vinha até torto de dor, eu via claramente. Eu mostrava, minha acompanhante desmentia. De vez em quando, um véio saía mancando, eu dizia Olha lá! ela dizia Não tem nada a ver. Perguntei se eu, que era sexagenário, não tinha direito a tomar vacina na frente dos outros, aí me contaram que todo mundo ali era sexagenário. Vira e mexe uma véia mais véia do que os outros véios chegava pra moça que controlava a fila com cara de estar passando mal e cortava a fila. Eu falei pra minha vigilante que ia lá falar com a moça pra passar na frente, ela não deixou. Você com essa aparência saudável… Aí eu: as aparências enganam… digo pra ela que acabei de ter um AVC, é fácil entortar a boca. Aí lembrei que estava com a boca escondida e desisti. Mas a máscara também tem vantaji. Ela esconde seu sorriso irônico, suas dobrinhas na bochecha. Enfim entramos na área reservada. Falei Agora vai. Que esperança! Tinha mais cinco no corredorzinho. Na minha frente havia um negão, levado por sua filha. Lá dentro da sala de aula, que agora não serve mais para aula, mas para vacinação, havia um vacinador e uma vacinadora. Manjei a fila, fiz os cálculos e deu o hómi. O vacinador era um jovem sarado duns 120 quilos. Pensei, Tô lascadu. Lamentei, Ô azar! Os cinco na minha frente foram andando e cada vez mais meus cálculos eram confirmados. Ô vida! Quando chegou a vez do negão, era pra Luana que ele ia, esse o nome da vacinadora. Então ele virou pra mim e mandou eu ir, que sua filha estava tirando retrato da véia da frente, ele precisava esperar, porque não tomava vacina sem foto. Aí eu comecei a ver vantaji e até esqueci a futura dor. A véia que me antecedia, logo após ser vacinada, correu pra lousa e escreveu bem grande: VIVA O SUS!!. Nós todos batemos palma. Pensei, Acho que minha sorte mudou mesmo. A Luana era um doce de vacinadora, me perguntou se eu havia tido febre, se fazia algum tratamento, se tinha alergia e eu nada, nada, me perguntou se eu tava sentindo alguma coisa e eu Medo e ela riu e quando alguém ri na nossa frente o mundo melhora, mas eu não caí na armadilha e mantive e foco, que era a iminente agulhada. Luana me mostrou o vidrinho, contendo 5 doses, que ela ia inaugurar, o que gostei. Ela mostrava pra mim, mas quem conferia era minha acompanhante. Era a vacina inglesa, que aportuguesaram para fiocruz. Municiou a seringa com o meio centímetro cúbico de lei e me mostrou, perguntando-me se eu estava vendo. Eu disse que estava vendo a agulha. Não sei se precisava duma agulha tão grande para aquele pingo de líquido, devia ser coisa de cinco pra meio a desproporção. Luana puxou uma cadeira e perguntou se eu queria sentado ou em pé. Eu dei uma de macho e falei que do jeito que fosse melhor para ela. Falei e me arrependi na hora, que sei que esse povo sacaneia os corajosos. Quando ela veio pro meu lado com aquele maçarico, falei que ia sentar, porque podia ter um troço. Ela recuou e me olhou como se fosse minha mãe, enquanto eu ciciava pra dentro um ufa! sem vento por ter consertado a tempo aquela impostada coragem de há pouco. Ela veio e enfiou tudo e eu não senti nada, graças ao meu relaxado e musculoso braço esquerdo. Ela disse então Tá vendo, não há motivo pra medo, eu disse Enganei vocês duas!, porque a cara das duas era e foi de prazer o tempo todo diante do meu suplício. Aí saí de lá segurando o local da picada com o indicador direito, com cara de dor, mancando e torto dum lado, que era pra enganar também o povo que aguardava na fila enquanto eu e minha inconsolável acompanhante íamos saindo. A desvantaji é que não poderei voltar lá daqui a 60 dias, para a segunda dose, senão recebo o troco.

sábado, 10 de abril de 2021

SORRISO SOCIAL

 Atravessava o centrão para ir resgatar minha bicicleta na oficina. Quebrou um raio, tive de levar. Não posso ficar sem condução.

Bixiga, 9 de julho, Praça Dom José Gaspar, Barão de Itapetininga. A pé, claro. Todo mundo de máscara, alguns mostrando escandalosamente o nariz.

Mas, na 7 de abril, divisei ao longe, vindo ao meu encontro, um casal sem máscara. Às vezes o cidadão está sem máscara, mas leva-a na mão ou no bolso da camisa ou bermuda. Não era o caso desse casal, que parecia nunca ter chegado perto de uma máscara. Mais! Que parecia ter pavor de máscara, uma ojeriza assim como o diabo tem da cruz. E andavam com os peitos estufados e os olhares altos, para não dizer altivos. Sérios, muito sérios.

Tive um arrepio.

Pensei que vivemos tempos de sorriso impossível. De fato, na via pública as pessoas parecem autômatos. Ninguém fala, ninguém grita, ninguém ri.

Outro arrepio.

É que me dei conta desse comportamento das pessoas em plena Rua Dom José de Barros, entre a 7 de abril e a Barão, área central e degradada da cidade.

Quando vi os três punks ao redor de um dos conjuntos de bancos que há no meio da rua, quase saí correndo. As ruas da região metem medo pela arquitetura, os prédios são desproporcionalmente muito altos em relação à largura delas, não há recuos. Quando vazias, como agora na fase vermelha da pandemia, a gente observa melhor a fauna humana que sempre frequentou aqueles espaços.

Os três eram esquisitos, digo punks por preconceito e desconhecimento. Enfim, usavam excesso de preto e de metais e de tatuagens.

Então me arrepiei mais uma vez. Mas meu terceiro arrepio em dois quarteirões foi por causa do sorriso inexistente e impossível na boca daqueles meus três contemporâneos, apesar de não usarem máscara.

Aí está, nosotros, normais, integrados, tementes ao estado democrático de direito, homens e mulheres de boa vontade, não sorrimos porque estamos tristes ou com medo. E se sorríssemos, ninguém veria, porque nossa boca está escondida, a parte mais expressiva do nosso corpo está escondida. Mas o casal de postura desafiadora da 7 de abril, esses três marginais culturais da Dom José de Barros e cerca de 5% das pessoas que encontramos nesse pedaço esquecido da cidade, todos sem máscara, não sorriem desde que nasceram. Quando o fazem, é de nervoso ou de desespero. É um traço desumano que provoca arrepios.


quinta-feira, 25 de março de 2021

PUTA DE MÁSCARA.

 

SENSUALIDADE.

Lá estão, na calçada, encostadas na parede, as putas sem máscaras. Vou pela ciclovia, segundo quarteirão da avenida liberdade. É meio dia de uma quarta feira vermelha na cidade. Apenas quitandas, supermercados, lojas de materiais de construção, postos de combustíveis, oficinas de carros e farmácias funcionam normalmente. O comércio em geral funciona a meia porta.

Mas as putas trabalham e sem máscaras. Ora, as putas constituem o segmento informal mais antigo da humanidade. E todo informal precisa trabalhar. O informal trabalha hoje para comer hoje. É menos pior morrer do que ficar dentro de uma casa sem comida. Quanto às máscaras, ora, as máscaras escondem o que temos de mais sensual em nosso corpo, que é a boca. Uma puta com a boca escondida é como um jogador de futebol com um pé engessado: não faz gol…; nem joga.

Antes, eu havia passado no camelódromo da Sé, onde vi dois camelôs da fé falando para as moscas. Nem os mendigos se interessam mais pelos bíblias. E eles falavam com microfones e caixas de som e vestiam paletó e gravata e estavam com o cabelo bem aparado e os bigodes bem-comportados. E eles lembravam que Cristo vem aí e o Fim está próximo, enquanto os mendigos — alguns sem máscaras e outros com elas no queixo — se confraternizavam embaixo de outras árvores, alheios ao Fim do mundo e respectivos profetas.

Antes havia passado ao lado do terminal de ônibus de Santana e terminal de ônibus do Parque D.Pedro e vira a muvuca de ônibus atravancando os espaços, numa greve por vacinas.

Sigo próximo ao canteiro central da avenida, as mulheres estão longe, na calçada, do outro lado dos carros que passam. Posso examiná-las bem sem correr o risco de receber uma cantada. Se bem que ciclistas não são bem-vistos pelas profissionais do sexo, discriminação cuja lógica me escapa. Se bem que uma cantada ali me deixaria lisonjeado, eis que a máscara esconde o que tenho de mais sensual. Imediatamente me dou conta de que gostaria de ser cantado pelas putas e percebo o quão feia está a conjuntura.

domingo, 31 de janeiro de 2021

O ESTÔMAGO E O CÉREBRO.

Vou sempre ao supermercado, conheço aquele mundo. A moça levava em seu carrinho oito latas de leite moça.

(Sou do tempo do leite ninho, da maizena, do bombril, do bom ar, quando pedíamos no boteco, sérios, uma brahma da antárctica. Do tempo em que os monopólios nos impunham a marca como nome do produto).

Me surpreendi com a descoberta, a de que a moça levava tantas latas de leite condensado. No carrinho de um casal de meia idade, vi quatro garrafas de 2 litros cada, de cocacola. Nesse mesmo carrinho, havia 4 pacotes de salgadinhos, acho que desses que imitam batata frita.

Ia pelos corredores, cada vez mais surpreso comigo mesmo. Quando é que eu ia imaginar que, um dia, teria a preocupação de ficar olhando os carrinhos alheios, eu que faço uma compra grande em uma hora, fácil, fácil. Fazia! Agora, com essa minha nova mania, qualquer comprinha demora 3 horas. Fico bisbilhotando os carrinhos dos outros. Tudo culpa do carrinho de supermercado do governo, daquele escarcéu de leite condensado, chiclete, batata frita, refri…


Num dos carrinhos, pilotado por dois jovens, quase todo o conteúdo era composto por refrigerantes, pacotes de salgadinhos, bolachas, caixas de bombom, miojo, e uma variedade de latas. Latas de molhos diversos, de sardinha, de feijoada, de frutas em calda, de salsicha, de leite condensado… Não, nada de frutas, verduras e legumes, nem as populares latas de ervilha e milho cozidos.


Aí fiquei pensando: é o que colocamos dentro do nosso estômago que determina o que vai dentro do nosso crânio ou é o contrário?


Esclareceram que das 2,5 milhões de latinhas de leite condensado compradas pelo governo federal, quase 2,4 milhões foram para alimentar nossos soldados do Exército. Fiz uns cálculos e concluí que, diferente do normal de nossas casas, em que as tais latinhas acontecem muito de vez em quando, no exército elas compõem a alimentação rotineira, começando pelo café da manhã.


O que será que passa pela cabeça de alguém cuja alimentação básica é constituída de leite condensado?


De repente tive um estalo. O povão tá consumindo adoidado leite condensado, e não é de agora. Só eu e uma meia dúzia de alienados é que ainda não descobrimos as excelentes propriedades nutricionais do leite condensado. Pronto! Isso explica quase tudo…


quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

ESCATOLOGIA.

 ESCAPANDO PELA TANGENTE DA ESCATOLOGIA.

Parei um instante em frente a prefeitura, para admirar o aparato de segurança da guarda municipal. Logo vi, uns 50 metros Viaduto do Chá adentro, uma roda compacta de pessoas, com um sujeito grandão no meio — lá de longe eu via sua enorme cabeça se destacando dos circunstantes. Caminhei, então, naquela direção, deixando a prefeitura e sua segurança de lado.


Fui chegando, o gigante falava. À medida que me aproximava — e começava a entender suas palavras —, concluí que ele atraía mais pela palavra do que pelo tamanho. De fato, o gigante ameaçava seus ouvintes com a segunda e próxima vinda de Cristo. Convenhamos que ouvir, na via pública, um cidadão enorme tonitroar o retorno de Cristo, agora soberbo, amedronta qualquer cristão.


Cheguei, parei a uns 10 metros para avaliar o cenário, que sou desconfiado de nascença. E o grandão, lá: Homens, convertei-vos! Como, de onde estava, eu via o conjunto da plateia do pregador, nem deu tempo de eu me indignar com o suposto machismo “homens” da invocação do homem, porque vi que entre os quinze que lá estavam só havia homens; nenhuma mulher. Então, compreensivo, considerei sensato aquele “Homens”, porque tenho o costume de me ater aos fatos.


Mas, para minha desorientação, vi, ao mesmo tempo, que era um falso gigante. O homem estava sobre uma base elevada, que não era um caixote nem um banquinho, mas uma escadinha, dessas que temos na cozinha, para pegar coisas na prateleira de cima do armário. Sobre o segundo degrau, ele se equilibrava com uma das mãos na estrutura da escada e, com a outra, gesticulava com o indicador em riste, ora na direção do céu, ora na direção do cidadão médio em sua frente.


Confesso que havia acreditado na desproporcional altura do sujeito, a julgar pelo tamanho da sua cabeça. De fato, era um sujeito cabeçudo. E pescoçudo, no sentido de grosso, não de longo. E linguarudo, mas aí já é maledicência minha, por causa da sua escatológica e flatulenta fluência.


Cristo vem aí, e dessa vez é pra fudê!


Não pensem que o verbo foder é invenção minha, não. Apenas transcrevo as palavras do cara: … dessa vez é pra fudê! Foi aí que entendi que eram as palavras que prendiam a plateia, e não o porte do sujeito, até porque era um porte claramente artificial. A gente tende a desprezar o poder da palavra, em detrimento do poder da imagem. Mas uma palavra bem-posta, dessas que o povo entende, tem tanto poder quanto a melhor imagem.


Nisso, dois ouvintes abandonaram a pregação e olharam para mim, sem se moverem, entretanto. Foi o bastante para eu entender que devia dar o fora. Vocês acham normal um crente desviar o olhar para um arredio cidadão enquanto ouve a boa nova do emissário de Cristo? Se Cristo vai botá pra fudê, imagina seus precursores!




terça-feira, 26 de janeiro de 2021

MEU PACATO VIZINHO

 Em meu prédio mora um cidadão, meu xará, uns 10 anos mais velho do que eu. Também tem um biotipo magrelo, como eu, só que é sedentário; isso faz com que pareça doente. Anda lentamente, sempre com cuidado; tem-se a impressão de que vai cair a qualquer momento. Mas, que eu saiba, não tem nenhuma doença grave ou degenerativa. Creio que sua lentidão e aparência doentia se devem mais ao seu estilo de vida, sua visão de mundo.

Mora só, há mais de 20 anos no prédio, nem sei em qual apartamento. Vejo-o com frequência lá embaixo, no saguão, e também nas ruas imediatas. Almoça nos botecos próximos. Nunca o vi com um amigo ou parente visitante. Não sei o que fazia na vida antes de se aposentar.

A única vez que troquei algumas palavras com ele além das protocolares bom dia boa tarde quê calor! vai chover foi há uns 3 anos, quando minha vida ciclística ficou notória no prédio. Me disse que iria comprar uma bicicleta. “Elétrica”, me disse, “já fui ver, tá quase tudo acertado”. Não, ele não comprou bicicleta nenhuma não, claro.

Ontem, ele estava sentado no sofá do térreo, parei para conversar. Os assuntos, vacina, COVID 19, a recessão, a situação social, ele estava particularmente preocupado com o desemprego, que “está muito alto e vai aumentar”. Após uns 15 minutos de conversa, ele emendou uma fala longa, lamentando que o atual presidente pegou uma “bomba”, que tinha tudo para dar certo, mas veio a pandemia… que ele fala umas besteiras, mas é honesto, não é como o Lula, que roubou tanto dinheiro que pode ficar sem trabalhar vivendo luxuosamente pelo resto da vida.

Sorte que eu estava com máscara, porque devo ter ficado pálido. Até então, nossa conversa era neutra. Eu não sabia das suas preferências partidárias nem ele sabia das minhas, porque, em termos de discrição, estamos empatados. Enquanto ele falava, eu pensava: respondo ou não respondo?

Eu poderia ironizar com a notícia fresca das 208 mil latinhas de leite moça consumidas num mês pelo presidente honesto, mas ele retrucaria que era notícia falsa ou intriga da oposição e ficaria minha palavra contra a dele, eis que faz tempo que a letra de forma dos jornais ou a palavra do locutor da TV valem tanto quanto uma nota de 3 reais.

Além do mais, os fatos são secundários e servem apenas para corroborar as opiniões: usa-se se convenientes; desconsidera-se, se inconvenientes. Claro que isso não é normal. Claro que isso é sintoma de doença coletiva. E eu, sinceramente, não sei aonde vamos parar, ou melhor, eu acho que essa tranqueira ainda vira em guerra*.

Mas eu poderia responder como meu conterrâneo, o médico virologista Maurício Lacerda Nogueira, da Faculdade de Medicina de S.J.do Rio Preto: Teu Cu!

(Tô preocupado que a palavra Cu apareceu em duas crônicas quase seguidas, não sei o que tá acontecendo comigo… )

*“eu vou m'imbora pra minha terra/ essa porquêra inda vira em guerra/ esse povo inda sobe a serra/ pra mór de a Light que os dentes ferra/ nus passagêro que grita e berra” (Bonde Camarão, de Cornélio Pires/ Mariano da Silva, interpretado por Caçula e Mariano, 1930).




domingo, 24 de janeiro de 2021

ENCOSTO.

 Quem não gosta de ouvir falar no Capeta pode baixar em outra paróquia, porque agora vou falar d'Ele. Estava sozinho no carro, liguei o rádio, de cada dez estações, oito são dos crentes. Aproveitei que não havia ninguém da família para me avisar que tirasse dali logo, que era de crente, e deixei numa, para atualizar a ladainha. O tema da cantilena era o Encosto.

Logo entendi que o Encosto era o Capeta. Eu não sabia que Encosto também era um dos inúmeros nomes do Cujo. Pensei: pronto, já valeu a pena, aprendi algo muito importante. Um dos meus parâmetros para avaliar o nível cultural de uma pessoa é pela quantidade de nomes do Sem-Nome que ela conhece. Porque alguém que guarda nomes do Inominado entende de contradição. E entender de contradição é condição anterior a qualquer outro entendimento.

O locutor — ele se dizia pastor, mas era locutor, saquei pelos truques que usava, coisas de locução e oratória que não cabem aqui — dizia que o Encosto é aquele que dá com uma mão e tira com as duas. Em uma linha ele dizia o que nossos psicanalistas demoram dez sessões para dizerem. De que me lembre, síntese mais eficaz do que a dele, só a da polícia: a droga é um barato que sai caro.

Inoculada no crente a ideia central, o cujo danou-se a expulsar demônios e afugentar satanazes e, não, eles não usam mais drogas não, eles usam a vida financeira e a prosperidade. E também o amor. Não o amor católico, que a gente sabe que no amor católico cabe tudo, menos aquilo que realmente interessa. Pois o Cramulhão foi lá buscar aquilo que interessa! Interessa uma parceira ou um parceiro, para sacanear junto, na cama, no sofá, no chão…

Dinheiro, sexo e… saúde! É óbvio! Sem saúde, não dá para fazer sexo nem gastar dinheiro. Por isso, expulsam também o Encosto da dor-de-cabeça e da espinhela caída e, se a gente bestar, daqui a pouco estão expulsando também o Encosto da COVID 19.

O melô da expulsão do Encosto parece a lavagem ou o sequestro do cérebro, mas não é. É pura e eficaz linguagem popular. Deus, Diabo, Pecado, Castigo e… Prêmio, no Fim do Mundo, no Juízo Final.

Estava chegando em casa e, ao abafar a arenga no rádio, tive um estalo: toda aquela melopeia para falar duma promessa que não é deste mundo! Aí me deu uma vontade doida de acrescentar um nome à lista do Satanás: Cu!!



terça-feira, 19 de janeiro de 2021

VACINA.

 Eis que todo mundo só fala em vacina. A moça toma vacina, mas está 20 Kg acima do peso normal. Chama Uber para ir ao banco, que fica a 5 quarteirões de sua casa. Mora no terceiro andar, mas nunca subiu ou desceu pelas escadas, só pelo elevador. Comprou uma bicicleta, sim, há dois anos, que está novinha lá na garagem, ainda com os fiapos nos pneus. Nunca estragou ou gastou um tênis, joga-os fora sem nenhum rasguinho, quando saem de moda. É exímia jogadora de vídeo-futebol. Raramente se aventura no xadrez. Pensa em aprender a tricotar.


O moço toma vacina, mas está 20 Kg acima do peso normal. Vai dormir todo dia às 2h da manhã, para levantar às 9h30, atrasado, porque apesar de morar perto, entra às 10. Sem café-da-manhã, para aguentar tanto corpo até o almoço toma o cafézinho da firma, acompanhado de bolacha recheada, estocada em sua gaveta do escritório. Finalmente, na hora do almoço, pede dois mequidonaldes + 1 coca de meio litro + uma fritas, pelo aifudi. Come enquanto coloca em dia as mensagens do uatizape. Entre o almoço e o jantar, mais cafezinho da firma e bolacha recheada. À noite, em casa, não come nada não. Seu jantar foi na lanchonete, duas cervejas e um tira-gosto. A última vez que comeu uma banana, ainda se lembra, foi na semana da pátria. Arroz e feijão não come há meses. Nunca come alface, nem cenoura, porque não é coelho.


Ambos, a moça e o moço, têm ar-condicionado no apartamento, no carro e no escritório. Que nunca deixam desligados. Mas a vacina é sagrada, nenhum dos dois abre mão. Os dois são brancos, branquelos, mais exato. Pele de louça, transparente. Pele que não vê o sol direto há meses. O uber pega-os na garagem dos seus respectivos prédios e os deixam nas garagens dos respectivos prédios onde trabalham. Ao final do expediente, quando andam 100 metros até a lanchonete, já é noite. Aos sábados e domingos estão muito cansados, ficam a noite inteira acordados, dormem o dia inteiro e preparam um miojo, em horário incerto, quando a fome bate.


Não tomam água não, só quando acaba a cocacola. Leite também não, faz mal. Banho tomam, sim, regularmente: No chuveiro a gás, de casa, com a água a 42ºC. Quando vão à praia, duas vezes por ano, conseguem frequentar a areia durante 1 hora um único dia, num feriado prolongado de 4. Mas nem molham os pés na água. E nem tiram os chinelos. Em compensação, tanto ele, quanto ela — que não se conhecem, ele mora em Sampa, ela em Beagá — leem ao menos dois livros de autoajuda por ano, cultivam o otimismo e os pensamentos positivos e, principalmente, oram. Claro, de vez em quando assistem ao Datena e, para se informarem, além das redes sociais, veem com regularidade a globonews. Ah, e tomam vacina. Ia me esquecendo: não usam máscara, não. Besteira! Quando obrigatória, deixam o nariz de fora.