sábado, 10 de abril de 2021

SORRISO SOCIAL

 Atravessava o centrão para ir resgatar minha bicicleta na oficina. Quebrou um raio, tive de levar. Não posso ficar sem condução.

Bixiga, 9 de julho, Praça Dom José Gaspar, Barão de Itapetininga. A pé, claro. Todo mundo de máscara, alguns mostrando escandalosamente o nariz.

Mas, na 7 de abril, divisei ao longe, vindo ao meu encontro, um casal sem máscara. Às vezes o cidadão está sem máscara, mas leva-a na mão ou no bolso da camisa ou bermuda. Não era o caso desse casal, que parecia nunca ter chegado perto de uma máscara. Mais! Que parecia ter pavor de máscara, uma ojeriza assim como o diabo tem da cruz. E andavam com os peitos estufados e os olhares altos, para não dizer altivos. Sérios, muito sérios.

Tive um arrepio.

Pensei que vivemos tempos de sorriso impossível. De fato, na via pública as pessoas parecem autômatos. Ninguém fala, ninguém grita, ninguém ri.

Outro arrepio.

É que me dei conta desse comportamento das pessoas em plena Rua Dom José de Barros, entre a 7 de abril e a Barão, área central e degradada da cidade.

Quando vi os três punks ao redor de um dos conjuntos de bancos que há no meio da rua, quase saí correndo. As ruas da região metem medo pela arquitetura, os prédios são desproporcionalmente muito altos em relação à largura delas, não há recuos. Quando vazias, como agora na fase vermelha da pandemia, a gente observa melhor a fauna humana que sempre frequentou aqueles espaços.

Os três eram esquisitos, digo punks por preconceito e desconhecimento. Enfim, usavam excesso de preto e de metais e de tatuagens.

Então me arrepiei mais uma vez. Mas meu terceiro arrepio em dois quarteirões foi por causa do sorriso inexistente e impossível na boca daqueles meus três contemporâneos, apesar de não usarem máscara.

Aí está, nosotros, normais, integrados, tementes ao estado democrático de direito, homens e mulheres de boa vontade, não sorrimos porque estamos tristes ou com medo. E se sorríssemos, ninguém veria, porque nossa boca está escondida, a parte mais expressiva do nosso corpo está escondida. Mas o casal de postura desafiadora da 7 de abril, esses três marginais culturais da Dom José de Barros e cerca de 5% das pessoas que encontramos nesse pedaço esquecido da cidade, todos sem máscara, não sorriem desde que nasceram. Quando o fazem, é de nervoso ou de desespero. É um traço desumano que provoca arrepios.


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