SENSUALIDADE.
Lá estão, na calçada, encostadas na parede, as putas sem máscaras. Vou pela ciclovia, segundo quarteirão da avenida liberdade. É meio dia de uma quarta feira vermelha na cidade. Apenas quitandas, supermercados, lojas de materiais de construção, postos de combustíveis, oficinas de carros e farmácias funcionam normalmente. O comércio em geral funciona a meia porta.
Mas as putas trabalham e sem máscaras. Ora, as putas constituem o segmento informal mais antigo da humanidade. E todo informal precisa trabalhar. O informal trabalha hoje para comer hoje. É menos pior morrer do que ficar dentro de uma casa sem comida. Quanto às máscaras, ora, as máscaras escondem o que temos de mais sensual em nosso corpo, que é a boca. Uma puta com a boca escondida é como um jogador de futebol com um pé engessado: não faz gol…; nem joga.
Antes, eu havia passado no camelódromo da Sé, onde vi dois camelôs da fé falando para as moscas. Nem os mendigos se interessam mais pelos bíblias. E eles falavam com microfones e caixas de som e vestiam paletó e gravata e estavam com o cabelo bem aparado e os bigodes bem-comportados. E eles lembravam que Cristo vem aí e o Fim está próximo, enquanto os mendigos — alguns sem máscaras e outros com elas no queixo — se confraternizavam embaixo de outras árvores, alheios ao Fim do mundo e respectivos profetas.
Antes havia passado ao lado do terminal de ônibus de Santana e terminal de ônibus do Parque D.Pedro e vira a muvuca de ônibus atravancando os espaços, numa greve por vacinas.
Sigo próximo ao canteiro central da avenida, as mulheres estão longe, na calçada, do outro lado dos carros que passam. Posso examiná-las bem sem correr o risco de receber uma cantada. Se bem que ciclistas não são bem-vistos pelas profissionais do sexo, discriminação cuja lógica me escapa. Se bem que uma cantada ali me deixaria lisonjeado, eis que a máscara esconde o que tenho de mais sensual. Imediatamente me dou conta de que gostaria de ser cantado pelas putas e percebo o quão feia está a conjuntura.
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