Despejo-as todas sobre vocês, de uma e única vez.
Os navios estão a salvo nos portos, mas não foi para ficar ancorados que eles foram criados. Ninguém consegue viver por muito tempo num estado de racionalidade pura e plena consciência, sem adoecer. A esperança desperta o apetite porém nem sempre o satisfaz. O tempo não pára! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo... Legal é não precisar ser legal toda hora. Se algo der errado, aprenda a improvisar.
Diz que eu fui um erro, mas se eu der uma chance quer errar toda hora! A ingenuidade e a ignorância ajudam no funcionamento do mundo. Não haverá borboletas, se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses. Se Deus não dá o que você quer, é porque não é disso que você precisa! Vou arrumar meu próprio jardim, ao invés de esperar que me tragam flores. Por dentro uma personalidade minha; por fora um conceito seu!
Que haja transformação, e que comece comigo. América é o único país que foi da barbárie à decadência sem a civilização no meio. Para viajar basta existir. Nenhuma grande descoberta foi feita jamais sem um palpite ousado. O conforto possui formas; o amor cores. Uma saia é feita para se cruzar as pernas e uma manga para se cruzar os braços. A vida é feita de poucas certezas e muitos dar-se um jeito.
Eu bebo pouco, mas o pouco que bebo me transforma em outra pessoa, e essa outra pessoa sim, bebe pra cacete. A melhor maneira de lembrar o aniversário da sua mulher, para sempre, é esquecer uma vez. As coisas que realizamos, nunca são tão belas quanto as que sonhamos. Mas às vezes, nos acontecem coisas tão belas, que nunca pensamos em sonhá-las. Nenhum homem merece uma confiança ilimitada – na melhor das hipóteses, a sua traição espera uma tentação suficiente.
Um pedaço de pão comido em paz é melhor do que um banquete comido com ansiedade. Nem pense em olhar pra trás, o passado não é seu lugar, você não perdeu nada lá. É pra frente que se anda. Frase feita é como horóscopo: sempre serve. Frase feita sintetiza o que vai no centro do miolo do cérebro da média de homens médios. Pronto! Esgotei minha cota e enchi meu saco.
quinta-feira, 29 de dezembro de 2016
segunda-feira, 26 de dezembro de 2016
CONVERSA SOBRE A LOUCURA
Conversa de bar, com pouca discordância e algumas tequilas.
- Não, o cara usa drogas porque não suporta a ideia da certeza de que nunca vai poder contratar um mordomo, nunca vai poder viajar pra Orlando, nunca vai conseguir comprar um toiota...
- É; ainda assim, muita gente não usa drogas porque vai chutando a utopia para a semana seguinte, graças às loterias da Caixa.
- O que leva ao surto é o desespero. Ninguém consegue viver por muito tempo sem adoecer, em estado de desesperança.
- Quando todas as portas se fecham, que ficamos sem saída, que a coisa fica feia, a solução mais popular é Deus. Quê que cê acha?
- Concordo. A literatura costuma resolver nossos mais insolúveis perrengues.E a narrativa religiosa é a obra prima da humanidade. Deus é um genial personagem.
- Sim; a grande maioria vivia desesperada, que é a lógica. Então criaram Deus: literatura da salvação.
- Não há melhor remédio para a crise psicológica que uma possibilidade concreta, uma nova pespectiva, um vislumbre.
- Ora, se fosse assim, ninguém ficava doido. O mundo é infindo e sempre se nos depararíamos com um remédio.
- Em tese. O mundo é realmente infindo, com variáveis infindas, mas o diabo é que os indivíduos criam e se prendem em seus próprios mundos limitadíssimos.
- A psicanálise não é também uma criação literária genial, na medida em que ajuda a alargar tais limites pessoais?
- Talvez. O diabo é o consultório, o valor da consulta e a transferência de todas as fichas para a banca do psicanalista.
-Volto às drogas. No início do mundo a cerveja era amarga. Mas a tomávamos porque queríamos parecer adultos.
- É a velha história das muletas. As pessoas lançam mão de artifícios para realizarem aquilo que não conseguem pelas próprias pernas.
- Isso me lembra a parábola da grama do quintal do vizinho.
- Isso tá na Bíblia?
- Sei lá. Não que não tenha lido do Gênesis ao Apocalipse, mas acho que essa história da grama do quintal do vizinho é coisa nossa mesmo, da sabedoria popular.
- A solidão leva à loucura?
- Nunca pensei nisso, mas eu, quando me sinto só, fico doida.
- Em quais situações você se se sente só?
- Me sinto só quando me tranco em minha casa, mantenho as janelas fechadas, desligo o telefone, não ligo a TV e não sou importunada nem por um parente, nem por um amigo, nem por um vizinho.
-Olhaí a importância da grama, do quintal, e do vizinho...
- Isso quer dizer que quem mora em favela ou cortiço tem menores chances de ficar maluco?
- Sim, porque então você está a toda hora interagindo com as circunstâncias, querendo ou não querendo. As casas são coladas, as paredes são frágeis, as vielas são estreitas, as urgências pipocam a todo instante.
-Faz sentido. Isso explica o alto índice de suicídios no Japão e nos países nórdicos - países sem favelas. No entanto, fico confusa, porque na favela não tem quintal nem grama.
- Acho que na favela, a grama e o quintal são substituídos pelo desespero. O desespero faz parte da natureza das coisas, da paisagem. O cara parte do princípio de que tudo que vier é lucro. E enrola um baseado com naturalidade, por prazer. E, sem culpa, morre, ou fica louco, ou mantém a lucidez.
- Não, o cara usa drogas porque não suporta a ideia da certeza de que nunca vai poder contratar um mordomo, nunca vai poder viajar pra Orlando, nunca vai conseguir comprar um toiota...
- É; ainda assim, muita gente não usa drogas porque vai chutando a utopia para a semana seguinte, graças às loterias da Caixa.
- O que leva ao surto é o desespero. Ninguém consegue viver por muito tempo sem adoecer, em estado de desesperança.
- Quando todas as portas se fecham, que ficamos sem saída, que a coisa fica feia, a solução mais popular é Deus. Quê que cê acha?
- Concordo. A literatura costuma resolver nossos mais insolúveis perrengues.E a narrativa religiosa é a obra prima da humanidade. Deus é um genial personagem.
- Sim; a grande maioria vivia desesperada, que é a lógica. Então criaram Deus: literatura da salvação.
- Não há melhor remédio para a crise psicológica que uma possibilidade concreta, uma nova pespectiva, um vislumbre.
- Ora, se fosse assim, ninguém ficava doido. O mundo é infindo e sempre se nos depararíamos com um remédio.
- Em tese. O mundo é realmente infindo, com variáveis infindas, mas o diabo é que os indivíduos criam e se prendem em seus próprios mundos limitadíssimos.
- A psicanálise não é também uma criação literária genial, na medida em que ajuda a alargar tais limites pessoais?
- Talvez. O diabo é o consultório, o valor da consulta e a transferência de todas as fichas para a banca do psicanalista.
-Volto às drogas. No início do mundo a cerveja era amarga. Mas a tomávamos porque queríamos parecer adultos.
- É a velha história das muletas. As pessoas lançam mão de artifícios para realizarem aquilo que não conseguem pelas próprias pernas.
- Isso me lembra a parábola da grama do quintal do vizinho.
- Isso tá na Bíblia?
- Sei lá. Não que não tenha lido do Gênesis ao Apocalipse, mas acho que essa história da grama do quintal do vizinho é coisa nossa mesmo, da sabedoria popular.
- A solidão leva à loucura?
- Nunca pensei nisso, mas eu, quando me sinto só, fico doida.
- Em quais situações você se se sente só?
- Me sinto só quando me tranco em minha casa, mantenho as janelas fechadas, desligo o telefone, não ligo a TV e não sou importunada nem por um parente, nem por um amigo, nem por um vizinho.
-Olhaí a importância da grama, do quintal, e do vizinho...
- Isso quer dizer que quem mora em favela ou cortiço tem menores chances de ficar maluco?
- Sim, porque então você está a toda hora interagindo com as circunstâncias, querendo ou não querendo. As casas são coladas, as paredes são frágeis, as vielas são estreitas, as urgências pipocam a todo instante.
-Faz sentido. Isso explica o alto índice de suicídios no Japão e nos países nórdicos - países sem favelas. No entanto, fico confusa, porque na favela não tem quintal nem grama.
- Acho que na favela, a grama e o quintal são substituídos pelo desespero. O desespero faz parte da natureza das coisas, da paisagem. O cara parte do princípio de que tudo que vier é lucro. E enrola um baseado com naturalidade, por prazer. E, sem culpa, morre, ou fica louco, ou mantém a lucidez.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2016
EU NO CONFESSIONÁRIO
- E aí, quer confessar?
- Confessar o quê? Não fiz nada de errado.
- Seus pecados.
- Ah, não! Esses não! São imperdoáveis.
Não tem padre que dê jeito, sou caso perdido, o padre que talvez pudesse fazer algo - também duvido - morreu essa semana, o Dom Paulo. Não que eu o tenha conhecido, mas é que, se ele liberou a carne na sexta feira da paixão, talvez, quem sabe? É!, ali pelos anos setenta, o Dom Paulo foi à TV e liberou geral; sabe aqueles veganos, que não comiam carne na quaresma inteira, sob pena de excomunhão eterna no fogo do inferno? Pois então, ficaram sem chão, de repente o cardeal, candidato a papa, declarou em rede nacional que aquilo não era pecado não.
Mas o diálogo introdutório ocorreu de verdade, essa semana, na praça da Sé. A igreja católica apostólica romana instalou umas tendas lá, tenda de cantores, tenda de oferendas, tenda de confissões... Uma dessas coberturas de praia, cercada por panos claros, uma mesinha de plástico e duas cadeiras de plástico, um padre, um pecador, um sacramento. E uma animadora do lado de fora, ao estilo dos camelôs que infestam as imediações, conclamando os passantes a confessarem seus pecados.
- O Sr. é católico?
- Eu? Bem... sou batizado, crismado, casado...
- O Sr. fez a primeira comunhão?
- Ah, sim! Estudei o catecismo, teve até festa; tenho diploma!
No meu bairro havia missa todo terceiro domingo do mês. Padre Ramon, um espanhol que falava enrolado. Ele sucedeu o rigoroso padre Joaquim - que depois casou -, e aboliu o consultório, ops, o confessionário. Ele sentava numa cadeira e a gente ficava entre as pernas dele. Não sei como era com os adultos, com as adultas, nunca ninguém falou nada a respeito, mas agora, cá distante no espaço e no tempo, começo a entender a indignação dos mais velhos contra o padre, só porque jogava uma inocente partidinha de bocha com meu avô e sua turma, na cancha ao lado da venda, do outro lado da capela. Sempre julguei desproporcional toda aquela indignação ...
É que ali naquele mundo era Deus no céu e o padre na Terra. Literalmente. Estava fora de cogitação qualquer deslize do padre. Ou melhor: qualquer questionamento direto do deslize do padre. Então questionava-se o excesso de informalidade dele, misturando-se aos civis em práticas recreativas mais que o conveniente. O padre era a autoridade máxima e inquestionável da comunidade inteira, exceto dos crentes do Afíbio e da família pobrezinha do Frozino, cuja extrema miséria os excluía de toda cidadania. Ali eram todos católicos apostólicos vênetos... Só meu pai, que, em família, xingava os padres, mas acho que era de brincadeira. Até o careca Pedro Curtolo entrava na igreja (e olha que isso era um grande sacrifício pra ele, porque era obrigatório tirar o chapéu e ele tinha vergonha da careca).
Bom, meu pai nunca confessava seus pecados ao padre. Isso dava um grande desgosto em mim e em minha mãe. A gente gostava do meu pai, era uma pena que, na vida eterna, a gente tivesse que se separar. Enquanto eu e ela iríamos habitar as verdejantes colinas do céu, no bem-bom, por conta do Pai, meu pai teria de amainar o brejo e cultivar sua horta do outro lado do Aqueronte, debaixo de sol escaldante, sem nenhum feriado, sob o chicote do capeta, para todo o sempre. Isto é, ao menos até os 65 anos...
- Confessar o quê? Não fiz nada de errado.
- Seus pecados.
- Ah, não! Esses não! São imperdoáveis.
Não tem padre que dê jeito, sou caso perdido, o padre que talvez pudesse fazer algo - também duvido - morreu essa semana, o Dom Paulo. Não que eu o tenha conhecido, mas é que, se ele liberou a carne na sexta feira da paixão, talvez, quem sabe? É!, ali pelos anos setenta, o Dom Paulo foi à TV e liberou geral; sabe aqueles veganos, que não comiam carne na quaresma inteira, sob pena de excomunhão eterna no fogo do inferno? Pois então, ficaram sem chão, de repente o cardeal, candidato a papa, declarou em rede nacional que aquilo não era pecado não.
Mas o diálogo introdutório ocorreu de verdade, essa semana, na praça da Sé. A igreja católica apostólica romana instalou umas tendas lá, tenda de cantores, tenda de oferendas, tenda de confissões... Uma dessas coberturas de praia, cercada por panos claros, uma mesinha de plástico e duas cadeiras de plástico, um padre, um pecador, um sacramento. E uma animadora do lado de fora, ao estilo dos camelôs que infestam as imediações, conclamando os passantes a confessarem seus pecados.
- O Sr. é católico?
- Eu? Bem... sou batizado, crismado, casado...
- O Sr. fez a primeira comunhão?
- Ah, sim! Estudei o catecismo, teve até festa; tenho diploma!
No meu bairro havia missa todo terceiro domingo do mês. Padre Ramon, um espanhol que falava enrolado. Ele sucedeu o rigoroso padre Joaquim - que depois casou -, e aboliu o consultório, ops, o confessionário. Ele sentava numa cadeira e a gente ficava entre as pernas dele. Não sei como era com os adultos, com as adultas, nunca ninguém falou nada a respeito, mas agora, cá distante no espaço e no tempo, começo a entender a indignação dos mais velhos contra o padre, só porque jogava uma inocente partidinha de bocha com meu avô e sua turma, na cancha ao lado da venda, do outro lado da capela. Sempre julguei desproporcional toda aquela indignação ...
É que ali naquele mundo era Deus no céu e o padre na Terra. Literalmente. Estava fora de cogitação qualquer deslize do padre. Ou melhor: qualquer questionamento direto do deslize do padre. Então questionava-se o excesso de informalidade dele, misturando-se aos civis em práticas recreativas mais que o conveniente. O padre era a autoridade máxima e inquestionável da comunidade inteira, exceto dos crentes do Afíbio e da família pobrezinha do Frozino, cuja extrema miséria os excluía de toda cidadania. Ali eram todos católicos apostólicos vênetos... Só meu pai, que, em família, xingava os padres, mas acho que era de brincadeira. Até o careca Pedro Curtolo entrava na igreja (e olha que isso era um grande sacrifício pra ele, porque era obrigatório tirar o chapéu e ele tinha vergonha da careca).
Bom, meu pai nunca confessava seus pecados ao padre. Isso dava um grande desgosto em mim e em minha mãe. A gente gostava do meu pai, era uma pena que, na vida eterna, a gente tivesse que se separar. Enquanto eu e ela iríamos habitar as verdejantes colinas do céu, no bem-bom, por conta do Pai, meu pai teria de amainar o brejo e cultivar sua horta do outro lado do Aqueronte, debaixo de sol escaldante, sem nenhum feriado, sob o chicote do capeta, para todo o sempre. Isto é, ao menos até os 65 anos...
segunda-feira, 19 de dezembro de 2016
PINTA DE BANDIDO
Não sei porque inventei de levar a Bicy para passear no centrão, no último sábado à tarde. Se tivesse ficado em casa vendo tela teria evitado o desgosto. Desci a Liberdade, cruzei a Praça da Sé, a Rua Boa Vista e o Vale do Anhangabaú por cima do Viaduto Santa Ifigênia. Aí já é centro novo. No final do viaduto, onde começa a Cásper Líbero, vi de relance uns jovens encostados na parede sendo revistados por policiais, cena corriqueira no pedaço. Os mais velhos sabem que o centro novo vai do Anhangabaú até o Largo do Arouche, mais ou menos. Isso há 40 anos; agora aquilo é área degradada.
Continuei o passeio e cruzei o Largo do Paissandu e a Avenida São João, para entrar na área de calçadões entre o Teatro Municipal e a Praça da República. Ia pela Dom José de Barros quando, próximo ao cruzamento com a 24 de maio, a cena se repetiu: soldados revistando garotos pobres com pinta de bandido. Mas essa cena eu não vi de relance nem dei de ombros para ela, como já fiz com as milhares de outras semelhantes.
Eu estava parado na esquina, contemplando o prédio onde funcionava a Mesbla, suntuosa loja de departamentos. Nos anos 1970 os mais pobres frequentavam o Mappin, ali no começo da Barão de Itapetininga, em frente ao Teatro (hoje funciona ali uma Casas Bahia); os mais endinheirados ou mais frescos frequentavam a Mesbla - são duas quadras de distância. Então vi a cena desde os camarins, ou seja, vi as partes se aproximando, dois jovens de um lado, dois policiais do outro, todos pobres e pardos. E decidi acompanhar do mais perto possível, sem perder nenhum lance.
É comum num sábado à tarde os garotos saírem para dar um rolê, que entra noite adentro. Têm o domingo para descansar. Vestem suas melhores roupas, todas moderninhas, tênis, brincos, tatuagens, cabelos incrementados, bonés. Andam disfarçando o deslumbramento com o centro, que estão conhecendo agora. Não carece de muita vivência na cidade para ver que são pobres e analfabetos (funcionais). Além de pardos: já quase não há pretos no Brasil, assim como não há brancos: estes ficaram pardos pelo mormaço tropical e aqueles ficaram pardos pela miscigenação. Os brancos de verdade não estão dando sopa no metrô nem nas ruas, qualquer que sejam elas; estão entre muros ou entre parabrisas blindados...
Os policiais chegam chegando. Ordenam "mãos e olhos na parede, pernas abertas", vão metendo as mãos e as botas como se estivessem lidando com cavalos, quer dizer, um deles; o outro fica de arma em punho a uma certa distância... Os garotos não são tão ingênuos como eu pensara, a julgar pelo comportamento. Abaixam o olhar, não falam nada, obedecem a todas as ordens e, ao final, após a revista, quando solicitados, tiram do bolso traseiro a carteira profissional molambenta, onde está registrado o emprego de salário molambento, mas limpinho.
Enfim libertos, mas ressabiados, olhando de lado, sorrindo amarelo sem-graça, cabisbaixos, continuam o passeio. (agora que escrevo, frio e longe, cogito a possibilidade de que só eu vi e senti tanta humilhação, limitado que estava pelo sufoco do nó na garganta e os olhos mareados. Com desalento, creio mesmo que os jovens continuaram o passeio noite adentro, até felizes com a distinção policial).
Continuei o passeio e cruzei o Largo do Paissandu e a Avenida São João, para entrar na área de calçadões entre o Teatro Municipal e a Praça da República. Ia pela Dom José de Barros quando, próximo ao cruzamento com a 24 de maio, a cena se repetiu: soldados revistando garotos pobres com pinta de bandido. Mas essa cena eu não vi de relance nem dei de ombros para ela, como já fiz com as milhares de outras semelhantes.
Eu estava parado na esquina, contemplando o prédio onde funcionava a Mesbla, suntuosa loja de departamentos. Nos anos 1970 os mais pobres frequentavam o Mappin, ali no começo da Barão de Itapetininga, em frente ao Teatro (hoje funciona ali uma Casas Bahia); os mais endinheirados ou mais frescos frequentavam a Mesbla - são duas quadras de distância. Então vi a cena desde os camarins, ou seja, vi as partes se aproximando, dois jovens de um lado, dois policiais do outro, todos pobres e pardos. E decidi acompanhar do mais perto possível, sem perder nenhum lance.
É comum num sábado à tarde os garotos saírem para dar um rolê, que entra noite adentro. Têm o domingo para descansar. Vestem suas melhores roupas, todas moderninhas, tênis, brincos, tatuagens, cabelos incrementados, bonés. Andam disfarçando o deslumbramento com o centro, que estão conhecendo agora. Não carece de muita vivência na cidade para ver que são pobres e analfabetos (funcionais). Além de pardos: já quase não há pretos no Brasil, assim como não há brancos: estes ficaram pardos pelo mormaço tropical e aqueles ficaram pardos pela miscigenação. Os brancos de verdade não estão dando sopa no metrô nem nas ruas, qualquer que sejam elas; estão entre muros ou entre parabrisas blindados...
Os policiais chegam chegando. Ordenam "mãos e olhos na parede, pernas abertas", vão metendo as mãos e as botas como se estivessem lidando com cavalos, quer dizer, um deles; o outro fica de arma em punho a uma certa distância... Os garotos não são tão ingênuos como eu pensara, a julgar pelo comportamento. Abaixam o olhar, não falam nada, obedecem a todas as ordens e, ao final, após a revista, quando solicitados, tiram do bolso traseiro a carteira profissional molambenta, onde está registrado o emprego de salário molambento, mas limpinho.
Enfim libertos, mas ressabiados, olhando de lado, sorrindo amarelo sem-graça, cabisbaixos, continuam o passeio. (agora que escrevo, frio e longe, cogito a possibilidade de que só eu vi e senti tanta humilhação, limitado que estava pelo sufoco do nó na garganta e os olhos mareados. Com desalento, creio mesmo que os jovens continuaram o passeio noite adentro, até felizes com a distinção policial).
sexta-feira, 16 de dezembro de 2016
O ALFAIATE
Ia eu pela Rua 13 de maio, aqui na Bela Vista, quando me deparei com um sobrado isolado, antigo e quase imponente. Era a Associação dos Alfaiates e Camiseiros do Estado de São Paulo. Era não; é. É! Tem até sítio na Web, conta uma história, diz que foi fundada em 1934 por empregados e empregadores...
Já havia passado centenas de vezes naquela calçada, e ao menos nos últimos 15 anos fico pasmo diante do sobrado e da placa de identificação: ainda há alfaiates! Então lembrei, nesta última passada, que eu mesmo já fiz roupa em alfaiate e camiseira (v. é véio hem cara!). Um tempo em que eu era pobre, mas limpinho (e cheiroso). E usava gravata.
Alfaiate fazia terno. Camiseira fazia camisa e, eventualmente, calça avulsa. Aquele era homem; esta era mulher. Era um tempo em que havia primeiro e segundo sexo (estou lendo Simone de Beauvoir). Alfaiate era muito mais importante que camiseira. Sendo que uma camiseira mixuruca era apenas costureira. Só que, homem costureiro, jamais!
Alfaiate era coisa fina e moderna: você visitava o ateliê apenas com a carteira de dinheiro e saía com a calça e o paletó prontos. Ele próprio comprava o tecido, você escolhia num mostruário. Na camiseira/costureira você levava o tecido, que comprava nas casas paraibanas. Ops, saía com a roupa pronta sim, mas só uns 30 dias ou mais depois, após voltar lá para provar a roupa alinhavada, confirmar medidas, provar outra vez...
O profissional da tesoura desentocava uns tecidos diferentes, só coisa boa. A casimira inglesa era o máximo, sonho de consumo de qualquer senhor de mais de 40 anos, junto com a botina de pelica(esta do sapateiro, outro que merece crônica). O mundo do giz,da régua, do molde e da tesoura ruiu completamente com a invenção do tergal (tecido sintético, tergal é marca). Era tão bom quanto a casimira mas custava uma ninharia, qualquer pobre podia usar(gugando encontrei o ótimo conto sobre a casemira inglesa, do Moacyr Scliar).
Outra coisa: o alfaiate e a camiseira eram especialistas em fazer vinco. E engomar a peça. Vinco é aquela dobra perfeita na peça, na manga da camisa, na perna da calça. Engomar roupa é mergulhar a peça numa água enriquecida com alguma maizena (amido de milho, maizena é marca), deixar secar e depois passar o ferro quente. Uma peça de linho branco engomada era um inquestionável atestado de bom comportamento e nenhuma preguiça( isso para os pobres, porque nas casas ricas havia uma profissional específica para tal tarefa: a engomadeira).
Você quer coisa mais desinteligente do que uma peça de linho/algodão branco engomada? Tem coisa mais anacrônica, mais fora de moda, do que passar roupa? Tudo bem, tudo bem, eu mesmo ainda tenho camisas de algodão, ainda passo alguma roupa. Mas aquela roupa impecável, lisa, perfeitamente vincada, é coisa passada. Aquilo vestia as ideias passadas, conformava os gestos comedidos do passado, disfarçava o corpo pálido e contido do passado.
Já havia passado centenas de vezes naquela calçada, e ao menos nos últimos 15 anos fico pasmo diante do sobrado e da placa de identificação: ainda há alfaiates! Então lembrei, nesta última passada, que eu mesmo já fiz roupa em alfaiate e camiseira (v. é véio hem cara!). Um tempo em que eu era pobre, mas limpinho (e cheiroso). E usava gravata.
Alfaiate fazia terno. Camiseira fazia camisa e, eventualmente, calça avulsa. Aquele era homem; esta era mulher. Era um tempo em que havia primeiro e segundo sexo (estou lendo Simone de Beauvoir). Alfaiate era muito mais importante que camiseira. Sendo que uma camiseira mixuruca era apenas costureira. Só que, homem costureiro, jamais!
Alfaiate era coisa fina e moderna: você visitava o ateliê apenas com a carteira de dinheiro e saía com a calça e o paletó prontos. Ele próprio comprava o tecido, você escolhia num mostruário. Na camiseira/costureira você levava o tecido, que comprava nas casas paraibanas. Ops, saía com a roupa pronta sim, mas só uns 30 dias ou mais depois, após voltar lá para provar a roupa alinhavada, confirmar medidas, provar outra vez...
O profissional da tesoura desentocava uns tecidos diferentes, só coisa boa. A casimira inglesa era o máximo, sonho de consumo de qualquer senhor de mais de 40 anos, junto com a botina de pelica(esta do sapateiro, outro que merece crônica). O mundo do giz,da régua, do molde e da tesoura ruiu completamente com a invenção do tergal (tecido sintético, tergal é marca). Era tão bom quanto a casimira mas custava uma ninharia, qualquer pobre podia usar(gugando encontrei o ótimo conto sobre a casemira inglesa, do Moacyr Scliar).
Outra coisa: o alfaiate e a camiseira eram especialistas em fazer vinco. E engomar a peça. Vinco é aquela dobra perfeita na peça, na manga da camisa, na perna da calça. Engomar roupa é mergulhar a peça numa água enriquecida com alguma maizena (amido de milho, maizena é marca), deixar secar e depois passar o ferro quente. Uma peça de linho branco engomada era um inquestionável atestado de bom comportamento e nenhuma preguiça( isso para os pobres, porque nas casas ricas havia uma profissional específica para tal tarefa: a engomadeira).
Você quer coisa mais desinteligente do que uma peça de linho/algodão branco engomada? Tem coisa mais anacrônica, mais fora de moda, do que passar roupa? Tudo bem, tudo bem, eu mesmo ainda tenho camisas de algodão, ainda passo alguma roupa. Mas aquela roupa impecável, lisa, perfeitamente vincada, é coisa passada. Aquilo vestia as ideias passadas, conformava os gestos comedidos do passado, disfarçava o corpo pálido e contido do passado.
segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
O RABECÃO
Na Praça 14 bis, aqui no Bixiga, a moça empurrava um rabecão. Um rabecão é uma rabeca grande. Grande não, enorme. Todo tocador de rabecão deveria ser grande e forte. Porque o instrumento é imenso. Assim como não se imagina um sujeito magrelo de peito pequeno a tocar bombardão, não se entende alguém pequeno, de braços pequenos, a envolver aquele instrumento. Sou totalmente ignorante sobre bombardões e rabecões, mas tenho noções razoáveis de peso, distância e força. Fazer um bombardão ronronar deve exigir muito vento, além do peso de se segurar aquela quantidade de metais, assim como atingir as cordas do rabecão por trás deve exigir braços muito compridos, imagino.
Só que a moça da 14 bis era normal, quase pequena, quase magrela. E ela ensaiava atravessar o cruzamento na diagonal, mirando direto a escada que leva ao ponto de ônibus elevado ali da praça. Ela vinha lá de cima, da região da Paulista, ciceroneando aquele estojão enorme com uma única rodinha. Como se fosse uma dessas malas mala que a gente vê os viajantes puxando sobre rodinhas; só que, com apenas uma rodinha, aquilo não para em pé...
Estava parada do lado oposto ao meu, aguardando o farol abrir pra nós. Ao lado da coisa ela parecia menor ainda e eu, curioso, querendo lembrar o nome do instrumento e preocupado com a evolução da moça. É que a 14 bis é muito popular. Ali não é lugar de instrumento erudito. E o rabecão é instrumento erudito, só dá em orquestras... O rabecão que tem vez ali naquela praça é o outro, aquele carro que recolhe cadáveres. Há muita gente em situação de rua ali, crianças abandonadas, jovens usuários de drogas, velhos...todos maldormidos, mal alimentados; dormem ao relento ou em barracas, vivem ali, morrem ali... como moscas, o outro rabecão sim, deve ser familiar, passa, recolhe, tá limpo.
Ela vinha no sentido contrário ao meu. Quando cruzamos, não resisti e puxei conversa:
- Como é o nome desse instrumento?
- Contrabaixo.
- É você que toca?
- Sim.
Nisso o estojão quase caiu, quando a rodinha tropeçou num calombo do asfalto, e quase levou a moça junto, mas ela, após visível esforço, evitou o vexame. Então eu, meio zombeteiro, mas já correndo pra ajudar, não resisti:
- Bem feito! Quem mandou você não aprender cavaquinho?!
Ela estava preocupada demais com sua carga e com o farol prestes a abrir para os carros e seguiu seu caminho, sem me dar confiança. Quase agradeci a urgência, já meio arrependido da grosseira provocação. Não ousei acompanhá-la com o olhar para ver se ficou ofendida; e me apertava o coração saber que ela ia subir as escadarias para pegar o ônibus; como será que se entra num ônibus com aquele trambolho? Não queria assistir àquela ginástica. Além de que a moça era fina, erudita. Evitou me destemperar na via pública. Não, quem faz aquele sacrifício com seu instrumento é mais que erudito: é devoto. Erudito é o tocador de violino. Erudito e esperto.
Só que a moça da 14 bis era normal, quase pequena, quase magrela. E ela ensaiava atravessar o cruzamento na diagonal, mirando direto a escada que leva ao ponto de ônibus elevado ali da praça. Ela vinha lá de cima, da região da Paulista, ciceroneando aquele estojão enorme com uma única rodinha. Como se fosse uma dessas malas mala que a gente vê os viajantes puxando sobre rodinhas; só que, com apenas uma rodinha, aquilo não para em pé...
Estava parada do lado oposto ao meu, aguardando o farol abrir pra nós. Ao lado da coisa ela parecia menor ainda e eu, curioso, querendo lembrar o nome do instrumento e preocupado com a evolução da moça. É que a 14 bis é muito popular. Ali não é lugar de instrumento erudito. E o rabecão é instrumento erudito, só dá em orquestras... O rabecão que tem vez ali naquela praça é o outro, aquele carro que recolhe cadáveres. Há muita gente em situação de rua ali, crianças abandonadas, jovens usuários de drogas, velhos...todos maldormidos, mal alimentados; dormem ao relento ou em barracas, vivem ali, morrem ali... como moscas, o outro rabecão sim, deve ser familiar, passa, recolhe, tá limpo.
Ela vinha no sentido contrário ao meu. Quando cruzamos, não resisti e puxei conversa:
- Como é o nome desse instrumento?
- Contrabaixo.
- É você que toca?
- Sim.
Nisso o estojão quase caiu, quando a rodinha tropeçou num calombo do asfalto, e quase levou a moça junto, mas ela, após visível esforço, evitou o vexame. Então eu, meio zombeteiro, mas já correndo pra ajudar, não resisti:
- Bem feito! Quem mandou você não aprender cavaquinho?!
Ela estava preocupada demais com sua carga e com o farol prestes a abrir para os carros e seguiu seu caminho, sem me dar confiança. Quase agradeci a urgência, já meio arrependido da grosseira provocação. Não ousei acompanhá-la com o olhar para ver se ficou ofendida; e me apertava o coração saber que ela ia subir as escadarias para pegar o ônibus; como será que se entra num ônibus com aquele trambolho? Não queria assistir àquela ginástica. Além de que a moça era fina, erudita. Evitou me destemperar na via pública. Não, quem faz aquele sacrifício com seu instrumento é mais que erudito: é devoto. Erudito é o tocador de violino. Erudito e esperto.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2016
GADO DA FLORÊNCIO?
Eu e Bicy e vários passantes disputávamos a travessia da Senador Queiroz para entrar na Florêncio de Abreu quando já vi, lá na frente, uma quantidade maior que o normal de pedestres. E estavam parados e tranquilos, vários encostados nos carros estacionados. Do alto do selim, após pedalar muito e já suado, e familiarizado com o povão nas ruas, sem nenhum parabrisa a atrapalhar o entendimento, saquei tudo: uma Receita qualquer, acompanhada de duas viaturas da polícia civil, baixou na galeria, para regozijo dos trabalhadores, que ganhavam um pretexto para ir respirar lá fora sem culpa. E ainda havia uma ambulância completando a segunda fila, que acho que não tinha nada a ver com o fuzuê.
(Já pensaram se todas as Receitas e todos os tribunais e todas as autarquias e corregedorias e controladorias e oligarquias aplicassem de modo intenso e imparcial seu arsenal legal e normativo?)
Ali no começo da Florêncio agora tem várias galerias de xig-lig. A Florêncio era a rua das casas de ferragens e ferramentas - eu era freguês assíduo -, mas os xig-ligs estão invadindo tudo. A contaminação provem da 25 de março, lá embaixo. Como os formigueiros, da noite para o dia acrescentam-se corredores de células-loja e respectivos operadores e a coisa vai-se alastrando; é impossível definir o que vendem: vendem bugigangas. Relembre seu estado de espírito quando você entra (e todos entramos!) numa ratoeira dessas: venal. Banal. Carnal. Entramos ali insensíveis - quase desumanos - sempre querendo levar vantagem. Invariavelmente saímos lesados: não pelos comerciantes, mas por nossa ganância e pela natureza essencial de todos os produtos ali vendidos.
O "ratoeira" ali em cima não tem nada a ver com safadeza de quem quer que seja. É no sentido do aranzel de corredores e escadas e vielas - tudo muito estreito e cheio de curvas - onde periga o neovisitante ficar pra sempre, sem conseguir sair, como os ratos nas ratoeiras. Os comerciantes são honestos. Certa feita fui devolver uma lanterna, cuja sordidez só descobri em minha casa, preparado pra brigar com o vietnamita. Ele pegou a lanterna e me devolveu o dinheiro quase sem cara feia. Quando comprei, não olhei direito... Ouso afirmar que todos os comerciantes de verdade são honestos. É pré-requisito profissional. E não basta serem honestos, precisam parecer honestos. Só que os orientais dos xig-ligs não atendem à última parte da máxima, daí que, periodicamente, são visitados pelas Receitas.
Mas não tem jeito (Isto me cheira a revolução). Olho aquela soruba de lojas e produtos e vendedores e compradores com o mesmo desprezo com que os senhores feudais olhavam seus súditos desgarrados a comerciar picado sal e farinha( o resultado da disputa entre aqueles comerciantes e os todopoderosos senhores feudais nós sabemos qual foi). As Receitas saem no lucro: são aplaudidas pelos comerciantes tradicionais remanescentes, assim como fazemos quando vemos a polícia prender um pé-rapado no meio da rua: pensamos que estão combatendo a sonegação e o crime... Enquanto isso, vamos levando de goleada na guerra cívico-comercial não tão surda que se desenrola. A prova da nossa derrota era a tranquilidade da torcida adversária ali nas calçadas da Florêncio: fumavam e batiam papo só ou em rodinhas - felizes como gado com o imprevisto descanso -, enquanto os fiscais se esfalfavam lá dentro.
(Já pensaram se todas as Receitas e todos os tribunais e todas as autarquias e corregedorias e controladorias e oligarquias aplicassem de modo intenso e imparcial seu arsenal legal e normativo?)
Ali no começo da Florêncio agora tem várias galerias de xig-lig. A Florêncio era a rua das casas de ferragens e ferramentas - eu era freguês assíduo -, mas os xig-ligs estão invadindo tudo. A contaminação provem da 25 de março, lá embaixo. Como os formigueiros, da noite para o dia acrescentam-se corredores de células-loja e respectivos operadores e a coisa vai-se alastrando; é impossível definir o que vendem: vendem bugigangas. Relembre seu estado de espírito quando você entra (e todos entramos!) numa ratoeira dessas: venal. Banal. Carnal. Entramos ali insensíveis - quase desumanos - sempre querendo levar vantagem. Invariavelmente saímos lesados: não pelos comerciantes, mas por nossa ganância e pela natureza essencial de todos os produtos ali vendidos.
O "ratoeira" ali em cima não tem nada a ver com safadeza de quem quer que seja. É no sentido do aranzel de corredores e escadas e vielas - tudo muito estreito e cheio de curvas - onde periga o neovisitante ficar pra sempre, sem conseguir sair, como os ratos nas ratoeiras. Os comerciantes são honestos. Certa feita fui devolver uma lanterna, cuja sordidez só descobri em minha casa, preparado pra brigar com o vietnamita. Ele pegou a lanterna e me devolveu o dinheiro quase sem cara feia. Quando comprei, não olhei direito... Ouso afirmar que todos os comerciantes de verdade são honestos. É pré-requisito profissional. E não basta serem honestos, precisam parecer honestos. Só que os orientais dos xig-ligs não atendem à última parte da máxima, daí que, periodicamente, são visitados pelas Receitas.
Mas não tem jeito (Isto me cheira a revolução). Olho aquela soruba de lojas e produtos e vendedores e compradores com o mesmo desprezo com que os senhores feudais olhavam seus súditos desgarrados a comerciar picado sal e farinha( o resultado da disputa entre aqueles comerciantes e os todopoderosos senhores feudais nós sabemos qual foi). As Receitas saem no lucro: são aplaudidas pelos comerciantes tradicionais remanescentes, assim como fazemos quando vemos a polícia prender um pé-rapado no meio da rua: pensamos que estão combatendo a sonegação e o crime... Enquanto isso, vamos levando de goleada na guerra cívico-comercial não tão surda que se desenrola. A prova da nossa derrota era a tranquilidade da torcida adversária ali nas calçadas da Florêncio: fumavam e batiam papo só ou em rodinhas - felizes como gado com o imprevisto descanso -, enquanto os fiscais se esfalfavam lá dentro.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2016
MÚMIA, CINZA, CAVEIRA...
Assola-me uma dúvida: quando eu morrer, quero ser mumificado ou cremado? Ou enterrado? Por que o "enterrado" veio só em terceiro lugar? Ou doado para a faculdade de medicina?
Sim, doado para a faculdade de medicina. Conservado em formol. Manipulado e admirado por gerações e gerações de futuros médicos. O problema é que aquilo fede. Eu seria o terror da estudantada. O perigo é que descobrissem a identidade do cadáver. Então minha alma não teria mais sossego, com a avalanche de pragas rogadas, ainda que sob a superproteção do paraíso. Sem contar a desmoralização póstuma perante as estudantes ingênuas, por causa do tamanho do pintinho enrustido.
E por que não esquartejado? Sim, para doação das partes. No longínquo futuro da minha morte, a expressão será "doação das partes" e não "doação dos órgãos". Todas as partes serão reaproveitadas, até as canelas. Aliás, minhas canelas finas custarão caro. Pensando bem, vai que elas sejam implantadas num perna-de-pau? Minhas invictas canelas não podem correr o risco de serem desmoralizadas nem depois de mortas. Pronto, já admiti que minhas canelas serão vendidas, então meu corpo será objeto de comércio e renda? Será que meus netinhos serão mercenários?
Bom, enterrado não quero ser não. Eu conheço o nosso chão, tem muito micro-organismo faminto por lá. Além do mais, nasci e quero morrer - e ficar - num país tropical e úmido. O solo e o clima brasileiros triturariam até o corpo do papa ou de qualquer outro santo. Esta nossa terra em que se plantando tudo dá é muito faminta de carne e até o esqueleto sofre com ela, de tão louca pela matéria. Sem contar que haveria muita discórdia entre meus descendentes na escolha do epitáfio sobre o túmulo (o epitáfio deveria ser de minha autoria e eles não admiram nada meu estilo literário).
Então meu corpo pode ser embalsamado e virar múmia mas, para tanto, preciso antes me tornar imperador; ou desalojar os Marinho da Globo e o pato da Fiesp - tudo junto. Tudo bem que não temos uma Sibéria para esconder a múmia, em caso de invasão inimiga (como os russos fizeram com a múmia do Lenin durante a invasão alemã na 2ª Guerra), mas Brasília quebra o galho com sua aridez e seus meandros. Enfim, se meus descendentes quiserem me mumificar, problema deles. Além do mais, se até o Fidel - que desalojou mais de quatro famílias oligarcas pra Miami -, foi cremado, por que não fazer o mesmo comigo, ops, com meu corpo, ainda que imperador? Taquem fogo nele!
Porém, se for mais fácil, me enterrem no terreno provisório da prefeitura. Azar o deles - meus parentes -, que, após se esquecerem de mim, serão lembrados pelos coveiros, três anos depois, quando outro cadáver de pobre reclamar os públicos sete palmos. Então serei um saco de ossos e uma caveira ressentida. Quer saber? Se virem, e façam bom proveito! Juro que não virei puxar o pé de ninguém (até porque não terei dedos). Toda esta minha pretensão é só em vida, enquanto me iludo com meu corpo e meu destino.
Sim, doado para a faculdade de medicina. Conservado em formol. Manipulado e admirado por gerações e gerações de futuros médicos. O problema é que aquilo fede. Eu seria o terror da estudantada. O perigo é que descobrissem a identidade do cadáver. Então minha alma não teria mais sossego, com a avalanche de pragas rogadas, ainda que sob a superproteção do paraíso. Sem contar a desmoralização póstuma perante as estudantes ingênuas, por causa do tamanho do pintinho enrustido.
E por que não esquartejado? Sim, para doação das partes. No longínquo futuro da minha morte, a expressão será "doação das partes" e não "doação dos órgãos". Todas as partes serão reaproveitadas, até as canelas. Aliás, minhas canelas finas custarão caro. Pensando bem, vai que elas sejam implantadas num perna-de-pau? Minhas invictas canelas não podem correr o risco de serem desmoralizadas nem depois de mortas. Pronto, já admiti que minhas canelas serão vendidas, então meu corpo será objeto de comércio e renda? Será que meus netinhos serão mercenários?
Bom, enterrado não quero ser não. Eu conheço o nosso chão, tem muito micro-organismo faminto por lá. Além do mais, nasci e quero morrer - e ficar - num país tropical e úmido. O solo e o clima brasileiros triturariam até o corpo do papa ou de qualquer outro santo. Esta nossa terra em que se plantando tudo dá é muito faminta de carne e até o esqueleto sofre com ela, de tão louca pela matéria. Sem contar que haveria muita discórdia entre meus descendentes na escolha do epitáfio sobre o túmulo (o epitáfio deveria ser de minha autoria e eles não admiram nada meu estilo literário).
Então meu corpo pode ser embalsamado e virar múmia mas, para tanto, preciso antes me tornar imperador; ou desalojar os Marinho da Globo e o pato da Fiesp - tudo junto. Tudo bem que não temos uma Sibéria para esconder a múmia, em caso de invasão inimiga (como os russos fizeram com a múmia do Lenin durante a invasão alemã na 2ª Guerra), mas Brasília quebra o galho com sua aridez e seus meandros. Enfim, se meus descendentes quiserem me mumificar, problema deles. Além do mais, se até o Fidel - que desalojou mais de quatro famílias oligarcas pra Miami -, foi cremado, por que não fazer o mesmo comigo, ops, com meu corpo, ainda que imperador? Taquem fogo nele!
Porém, se for mais fácil, me enterrem no terreno provisório da prefeitura. Azar o deles - meus parentes -, que, após se esquecerem de mim, serão lembrados pelos coveiros, três anos depois, quando outro cadáver de pobre reclamar os públicos sete palmos. Então serei um saco de ossos e uma caveira ressentida. Quer saber? Se virem, e façam bom proveito! Juro que não virei puxar o pé de ninguém (até porque não terei dedos). Toda esta minha pretensão é só em vida, enquanto me iludo com meu corpo e meu destino.
sexta-feira, 25 de novembro de 2016
LIVROS POR METRO
Venham comprar, nesta sexta feira de terror e escuridão, pela metade do dobro, livros por metro, livros às mancheias.
Comprar. Verbo intransitivo.
Tem coisa mais triste do que entrar numa casa e não ver nenhum livro? Aí é que as aparências enganam. Já perceberam que muita gente tira fotografias tendo suas abarrotadas estantes como plano de fundo?
Minha gente, desconfiem dessas quilométricas estantes. Acho que já contei aqui. Certa feita, encontrei um arquiteto num sebo. Comprava livros, claro, não estava lá por causa do cheiro. Comprava livros por metro.
É. Na decoração da casa, o cliente pede, entre armários e mesas e sofás, dois metros lineares de livros. Do chão ao teto! Até que orna... fica assim como que um quadro vivo, parecido com aquelas instalações que infestam a Bienal...Me dizem - deve ser intriga - que nas Casas Bahia já se compram só as lombadas - as capas -, por metro quadrado.
O fato é que, se eu entrar numa casa e vir uma estante de dois metros de largura abarrotada de livros, do chão ao teto, ficarei impressionado favoravelmente com seu dono. Sou um preconceituoso. Mas essa abundância de milhões de livros em livrarias que parecem supermercados ou feiras que ocupam pavilhões tem uma serventia: quebrar o fetiche; desmoralizar o feitiço da cultura por metro.
Esta não é uma crônica sobre o livro. É uma crônica sobre muitos livros todos juntos. São coisas completamente diferentes. Algo semelhante à oposição entre indivíduo e multidão. Aquele tem nome, personalidade; esta, tem tamanho, cheiro.
Um monte de livros num sebo quase fede. Numa biblioteca, é perfume inspirador... Numa livraria ou numa feira, confunde. Em comum, ácaros. Não tem nada mais desesperador do que entrar numa livraria ou numa feira de livros sem saber exatamente que livro procura. É parecido com o ato de entrar numa loja para comprar uma geladeira e ter de escolher entre 50 à mostra.
Meu avô não resistia a um vendedor de livros. Havia mascates especializados, ofereciam coleções vistosas, capas duras...muitas figuras...acho que vem daí o meu preconceito contra as lombadas e as capas duras e não da enciclopédia Barsa. Ele não perdia as generosas ofertas de comprar. No claro ou escuro, em qualquer dia da semana. Livros que nunca lia.
sexta-feira, 18 de novembro de 2016
O ANTONOV
Tão logo soube da vinda do Antonov ao Brasil, sabia que esse nome dava uma crônica. Só não sabia como nem porquê. Nem tentei escrevê-la, ia esquecendo, quando, nesta manhã, ouvi as peripécias da minha irmã para digitar Antonov no smartphone. A minha irmã é apenas um pouco menos analfabeta que eu em esmartefonês. Ela teclava as letras a n t o n o v e o seu aparelho escrevia antonio. Ela logo emendou a me contar sobre os trabalhos de controle do tempo e da janela para ver o Antonio, ops, o Antonov passando sobre sua casa, que fica na rota de Cumbica, que não sei se, afinal, ela conseguiu fazer o seu display exibir "Antonov" ou se ela deixou por "Antonio" mesmo (tiro por mim, tento duas vezes, na terceira desisto do esmartefonês).
Mas, pronto, tinha o tema da crônica. SQN. Tinha dois, tinha três, tinha temas para várias crônicas(mas fiquem tranquilos, vou enfiá-los todos aqui nesta única). Começa que eu também morri de vontade de ir ao aeroporto ver o Antonov com meus próprios olhos. Só não fui de vergonha...; o que é que toda a vizinhança iria pensar? Eu nunca mais poderia dizer e menos escrever algo pretensamente racional. Teria de abdicar do meu pretenso humanismo em favor da máquina. Seria ridicularizado quando tentasse alguma tirada cética e nunca mais seria levado a sério quando desdenhasse do fetichismo tecnológico. Então, não fui. Mas vi os vídeos...
E também consultei o google. Não tem nada mais anticapitalista do que o Antonov. Não, não é porque ele foi fabricado pelos sovietes da Rússia, ainda no tempo da URSS, década de 1980. Os comunistas fabricavam carros de passeio: não tem nada mais capitalista do que carros de passeio. O Antonov contraria todas as práticas capitalistas porque é único. É! Um único exemplar. Pensaram, projetaram, construíram galpões e máquinas especiais, desenvolveram materiais específicos, turbinas, janelas, pneus e então, quando já tinham gastado um monte de tempo e dinheiro e pestana, fizeram um e pararam. O capitalismo inundaria o céu de Antonovs...
Então pensei: se os aeroportos estão todos atravancados com essas merrecas de airbus e boeings, com suas tímidas fuselagens e seus insignificantes pares de turbinas, imagina os céus cheios de Antonovs... O trem de pouso deve ter uns 50 pneus. Apenas um mal parafusado que despencasse sobre a cidade já seria um estrago, e isso seria bem provável, porque quem aguenta apertar 50 pneus numa mesma máquina em uma linha de montagem? E são 3 pares de turbinas, muito mais ronco e fumaça e, então, os aeroportos seriam expulsos para longínquas distâncias. Os carros comunistas não inundaram o planeta, tinham envergadura de menos... Ainda bem que foram os comunistas que conceberam e projetaram e fabricaram o Antonov...
Mas, pronto, tinha o tema da crônica. SQN. Tinha dois, tinha três, tinha temas para várias crônicas(mas fiquem tranquilos, vou enfiá-los todos aqui nesta única). Começa que eu também morri de vontade de ir ao aeroporto ver o Antonov com meus próprios olhos. Só não fui de vergonha...; o que é que toda a vizinhança iria pensar? Eu nunca mais poderia dizer e menos escrever algo pretensamente racional. Teria de abdicar do meu pretenso humanismo em favor da máquina. Seria ridicularizado quando tentasse alguma tirada cética e nunca mais seria levado a sério quando desdenhasse do fetichismo tecnológico. Então, não fui. Mas vi os vídeos...
E também consultei o google. Não tem nada mais anticapitalista do que o Antonov. Não, não é porque ele foi fabricado pelos sovietes da Rússia, ainda no tempo da URSS, década de 1980. Os comunistas fabricavam carros de passeio: não tem nada mais capitalista do que carros de passeio. O Antonov contraria todas as práticas capitalistas porque é único. É! Um único exemplar. Pensaram, projetaram, construíram galpões e máquinas especiais, desenvolveram materiais específicos, turbinas, janelas, pneus e então, quando já tinham gastado um monte de tempo e dinheiro e pestana, fizeram um e pararam. O capitalismo inundaria o céu de Antonovs...
Então pensei: se os aeroportos estão todos atravancados com essas merrecas de airbus e boeings, com suas tímidas fuselagens e seus insignificantes pares de turbinas, imagina os céus cheios de Antonovs... O trem de pouso deve ter uns 50 pneus. Apenas um mal parafusado que despencasse sobre a cidade já seria um estrago, e isso seria bem provável, porque quem aguenta apertar 50 pneus numa mesma máquina em uma linha de montagem? E são 3 pares de turbinas, muito mais ronco e fumaça e, então, os aeroportos seriam expulsos para longínquas distâncias. Os carros comunistas não inundaram o planeta, tinham envergadura de menos... Ainda bem que foram os comunistas que conceberam e projetaram e fabricaram o Antonov...
quarta-feira, 16 de novembro de 2016
CRÔNICA SOBRE CRIME PASSIONAL
Rodolfo, pai, mata Fernando, filho, depois mata a si próprio, porque...
Bem, foi um crime passional.
Tudo culpa da palavra "azimute" e da expressão "statu quo".
O pai assassino era partidário de "azimute", enquanto o filho assassinado era partidário de "statu quo".
Minto, quer dizer, reajo. Não foi tudo culpa de azimute e statu quo. Contribuiu muito para o duplo assassinato a pistola ponto quarenta da delegada aposentada...
É, a esposa-mãe, agora viúva e sem filho, tinha no armário uma ponto quarenta, herdada do tempo de delegada de polícia. Segundo ela, essa arma garantia a segurança da família...
Continuo sendo parcial. Não foi com a ponto quarenta que o pai matou o filho e a si próprio.
O pai era engenheiro civil. Quando se casou, sua mulher já era delegada e trouxe a ponto quarenta para dentro de casa. Então ele, muito macho, comprou uma ponto quarenta e cinco e uma carabina e uma cartucheira de caça.
De modo que o filho, Fernando, já nasceu nesse ambiente seguro.
Mas a vida teria continuado se o filho fosse um mamute, e tivesse na vida um só azimute, como o pai. Só que não. Era um menino normal, saudável, ligado no mundo - no círculo, no globo, no conjunto, no status quo.
Bem, foi um crime passional.
Tudo culpa da palavra "azimute" e da expressão "statu quo".
O pai assassino era partidário de "azimute", enquanto o filho assassinado era partidário de "statu quo".
Minto, quer dizer, reajo. Não foi tudo culpa de azimute e statu quo. Contribuiu muito para o duplo assassinato a pistola ponto quarenta da delegada aposentada...
É, a esposa-mãe, agora viúva e sem filho, tinha no armário uma ponto quarenta, herdada do tempo de delegada de polícia. Segundo ela, essa arma garantia a segurança da família...
Continuo sendo parcial. Não foi com a ponto quarenta que o pai matou o filho e a si próprio.
O pai era engenheiro civil. Quando se casou, sua mulher já era delegada e trouxe a ponto quarenta para dentro de casa. Então ele, muito macho, comprou uma ponto quarenta e cinco e uma carabina e uma cartucheira de caça.
De modo que o filho, Fernando, já nasceu nesse ambiente seguro.
Mas a vida teria continuado se o filho fosse um mamute, e tivesse na vida um só azimute, como o pai. Só que não. Era um menino normal, saudável, ligado no mundo - no círculo, no globo, no conjunto, no status quo.
domingo, 13 de novembro de 2016
MODA DA PEDRA DA MINA
MODA DA PEDRA DA MINA
(Para cantar sob viola de arame, ao ritmo de "Aparecida do Norte", de Anacleto Rosas Jr. e Tonico).
Todo inverno julho agosto assim que a safra termina
vou armar minha barraca no alto da Pedra da Mina.
Falo com força:- no alto da Pedra da Mina
todo inverno julho agosto assim que a safra termina.
Apronto minha mochila para quebrar a rotina
vou me dar uma canseira no alto da Pedra da Mina.
Falo com força:- no alto da Pedra da Mina
Vou levar minha mochila para quebrar a rotina.
Corta-vento e fogareiro longe a vida severina
vou pousar minha carcaça no alto da Pedra da Mina.
Falo com força: - no alto da Pedra da Mina
corta-vento e fogareiro longe a vida severina.
enquanto a força me anima vou cumprir a minha sina
vamos eu mais meu irmão no alto da Pedra da Mina.
Falo com força:- no alto da Pedra da Mina
vou cumprir a minha sina enquanto a força me anima.
Se a planície desanima
se a tristeza me amofina
se a descrença é assassina
se a doença não me mina.
Grito bem forte:- se a doença não me mina
todo inverno julho agosto no alto da Pedra da Mina.
Se o zumbido é de buzina
se o cheiro é de gasolina
se o horizonte é uma cortina
se a moleza não me afina.
Grito bem forte:- se a moleza não me afina
todo meado de ano no alto da Pedra da Mina.
Atravesso a Mantiqueira na trilha da Serra Fina
e passo uma noite inteira no alto da Pedra da Mina.
Grito bem forte no alto da Pedra da Mina
e atravesso a Mantiqueira na trilha da Serra Fina.
Todo meado de ano dou uma volta na rotina
pego toda a minha tralha e atravesso a Serra Fina.
Vou e garanto que atravesso a crista inteira
Alto da Pedra da Mina o cume da Mantiqueira.
(Para cantar sob viola de arame, ao ritmo de "Aparecida do Norte", de Anacleto Rosas Jr. e Tonico).
Todo inverno julho agosto assim que a safra termina
vou armar minha barraca no alto da Pedra da Mina.
Falo com força:- no alto da Pedra da Mina
todo inverno julho agosto assim que a safra termina.
Apronto minha mochila para quebrar a rotina
vou me dar uma canseira no alto da Pedra da Mina.
Falo com força:- no alto da Pedra da Mina
Vou levar minha mochila para quebrar a rotina.
Corta-vento e fogareiro longe a vida severina
vou pousar minha carcaça no alto da Pedra da Mina.
Falo com força: - no alto da Pedra da Mina
corta-vento e fogareiro longe a vida severina.
enquanto a força me anima vou cumprir a minha sina
vamos eu mais meu irmão no alto da Pedra da Mina.
Falo com força:- no alto da Pedra da Mina
vou cumprir a minha sina enquanto a força me anima.
Se a planície desanima
se a tristeza me amofina
se a descrença é assassina
se a doença não me mina.
Grito bem forte:- se a doença não me mina
todo inverno julho agosto no alto da Pedra da Mina.
Se o zumbido é de buzina
se o cheiro é de gasolina
se o horizonte é uma cortina
se a moleza não me afina.
Grito bem forte:- se a moleza não me afina
todo meado de ano no alto da Pedra da Mina.
Atravesso a Mantiqueira na trilha da Serra Fina
e passo uma noite inteira no alto da Pedra da Mina.
Grito bem forte no alto da Pedra da Mina
e atravesso a Mantiqueira na trilha da Serra Fina.
Todo meado de ano dou uma volta na rotina
pego toda a minha tralha e atravesso a Serra Fina.
Vou e garanto que atravesso a crista inteira
Alto da Pedra da Mina o cume da Mantiqueira.
quarta-feira, 9 de novembro de 2016
DÓRIA E A GRAVATA
DÓRIA/JÂNIO & GRAVATA/BIQUINI.
João T. Dória dá uma de J.Quadros e proíbe a gravata. Ops, abole. A partir de janeiro que vem, ninguém na prefeitura de SP vai precisar usar gravata. Ora, mas atualmente há algum setor profissional na PMSP onde se é obrigado a usar gravata?
Jânio Quadros proibiu o uso do biquini. Eleito presidente, em 1960, proibiu no país inteiro, logo após a posse. Ambas as medidas, a de T.Dória e a de Jânio, são da mesma natureza. Só que uma proibiu e a outra vai abolir. Aquela uma se mostrou desastrada, com o verbo e como visão de futuro; esta é no mínimo simpática, já que pouca coisa no mundo é mais formal do que uma gravata bem posta. E o verbo permite que, quem quiser, continue usando, que faça bom-proveito... Duas medidas que não fedem nem cheiram mas que mexem com o imaginário e as emoções populares e rendem manchetes.
Mas, sério, a gravata já não foi abolida no mundo? Ainda tem gente que é obrigada a usar gravata, exceto os juristas e os legistas? (aqui, legista é quem discute e aprova lei). Quando eu comecei a trabalhar em banco, em 1975, era obrigado a usar gravata. As nossas gravatas foram ficando tão cômicas que os banqueiros acharam por bem aboli-las. Somente os puxa-sacos e os estilosos continuaram a usá-las. No Banco Mercantil de SP havia até sugestão de cores mais adequadas para a tal.
A gravata é de Direita. A publicidade adoidada é de Direita. T.Dória é de Direita; Kassab é de Direita. Entretanto, um abole a gravata e outro abole a publicidade adoidada em SP(Lei cidade limpa). Misturando... não tem nada mais parecido com um Democrata (azul) do que um Republicano(vermelho) no poder; e vice-versa. Só que aqui no Brasil, o sistema político-institucional é de Direita: que todo político de Esquerda, quando eleito, faz questão de fazer funcionar bem.
João T. Dória dá uma de J.Quadros e proíbe a gravata. Ops, abole. A partir de janeiro que vem, ninguém na prefeitura de SP vai precisar usar gravata. Ora, mas atualmente há algum setor profissional na PMSP onde se é obrigado a usar gravata?
Jânio Quadros proibiu o uso do biquini. Eleito presidente, em 1960, proibiu no país inteiro, logo após a posse. Ambas as medidas, a de T.Dória e a de Jânio, são da mesma natureza. Só que uma proibiu e a outra vai abolir. Aquela uma se mostrou desastrada, com o verbo e como visão de futuro; esta é no mínimo simpática, já que pouca coisa no mundo é mais formal do que uma gravata bem posta. E o verbo permite que, quem quiser, continue usando, que faça bom-proveito... Duas medidas que não fedem nem cheiram mas que mexem com o imaginário e as emoções populares e rendem manchetes.
Mas, sério, a gravata já não foi abolida no mundo? Ainda tem gente que é obrigada a usar gravata, exceto os juristas e os legistas? (aqui, legista é quem discute e aprova lei). Quando eu comecei a trabalhar em banco, em 1975, era obrigado a usar gravata. As nossas gravatas foram ficando tão cômicas que os banqueiros acharam por bem aboli-las. Somente os puxa-sacos e os estilosos continuaram a usá-las. No Banco Mercantil de SP havia até sugestão de cores mais adequadas para a tal.
A gravata é de Direita. A publicidade adoidada é de Direita. T.Dória é de Direita; Kassab é de Direita. Entretanto, um abole a gravata e outro abole a publicidade adoidada em SP(Lei cidade limpa). Misturando... não tem nada mais parecido com um Democrata (azul) do que um Republicano(vermelho) no poder; e vice-versa. Só que aqui no Brasil, o sistema político-institucional é de Direita: que todo político de Esquerda, quando eleito, faz questão de fazer funcionar bem.
sábado, 22 de outubro de 2016
MULHERES E HOMENS DE BOA VONTADE
Ia eu em minha bici pela calçada da Tiradentes, quando uma família de 6 caminhava em linha, lado a lado, impedindo a ultrapassagem. Encostei atrás do mais volumoso da turma, que caminhava próximo ao meio fio e adotei a velocidade deles, sem acionar qualquer gadget sonoro, que não tenho, muito menos gritar ou assobiar ou falar. O que caminhava no outro extremo da linha me viu e avisou o grandão, que, solícito e sorridente, me deu passagem, recebendo em troca meu silencioso e agradecido sorriso.
Vivo por essa megalópole pra lá e pra cá, de trem, ônibus, metrô, bicicleta, carro, táxi. Ando muito a pé. Não me lembro de ter sido deliberadamente atrapalhado em minha vida de ir e vir. Nem hostilizado. Ao contrário, recebo das mulheres e homens com quem cruzo, sinais de compreensão e de ajuda. É certo que muitos estão tensos, alguns atônitos, mas na hora da ação prática, como segurar algo que cai, todos se apresentam para ajudar.
É que a arraia miúda torce para dar certo. Essas pessoas que não ficam encasteladas em suas fortificações ou seus bólidos pessoais desejam que as coisas funcionem: as coisas práticas. E quase tudo que se apresenta na vida de um frequentador da cidade é prático: encontrar um endereço, um ônibus, onde almoçar, uma farmácia, uma banca de jornal.
O povão, o zé-povinho, faz o possível e o impossível para que nada quebre, que não acabe a energia, que o tráfego flua. E deseja, sem dúvida, que haja casa e comida e creche e escola e transporte e saúde para todos. O populacho, os que se mostram em público sem seguranças, não faz a guerra para obter a paz. Esse povo quer a paz pela paz. Esse povo conspira para o sucesso. Para esse povo, quanto melhor, melhor.
Vivo por essa megalópole pra lá e pra cá, de trem, ônibus, metrô, bicicleta, carro, táxi. Ando muito a pé. Não me lembro de ter sido deliberadamente atrapalhado em minha vida de ir e vir. Nem hostilizado. Ao contrário, recebo das mulheres e homens com quem cruzo, sinais de compreensão e de ajuda. É certo que muitos estão tensos, alguns atônitos, mas na hora da ação prática, como segurar algo que cai, todos se apresentam para ajudar.
É que a arraia miúda torce para dar certo. Essas pessoas que não ficam encasteladas em suas fortificações ou seus bólidos pessoais desejam que as coisas funcionem: as coisas práticas. E quase tudo que se apresenta na vida de um frequentador da cidade é prático: encontrar um endereço, um ônibus, onde almoçar, uma farmácia, uma banca de jornal.
O povão, o zé-povinho, faz o possível e o impossível para que nada quebre, que não acabe a energia, que o tráfego flua. E deseja, sem dúvida, que haja casa e comida e creche e escola e transporte e saúde para todos. O populacho, os que se mostram em público sem seguranças, não faz a guerra para obter a paz. Esse povo quer a paz pela paz. Esse povo conspira para o sucesso. Para esse povo, quanto melhor, melhor.
quinta-feira, 20 de outubro de 2016
TESTEMUNHO DE UM DATILÓGRAFO
Na realidade não encontrei nenhum datilógrafo ou ex-datilógrafo vivo para qualquer testemunho. O que informarei em seguida é fruto de pesquisa minuciosa em livros, jornais, lendo relatos de escritores antigos, revirando arquivos históricos, visitando museus, garimpando os raros documentos em papel e até algumas escavações. É que o datilógrafo era um ser pré-histórico, quero dizer, viveu em tempos remotos, embora já houvesse escrita.
Essa escrita que digitalizamos em nossos smartphones, atualmente, veio daquela usada pelos datilógrafos, em verdade é a mesma, com pequenas mudanças. Por ex., aki era aqui, naum era não e vc era você. Além de vc, eles e a gente, havia também eu, tu, nós e vós. Havia seis pessoas e uma flexão verbal para cada uma, ao contrário de agora, que há apenas uma flexão verbal: a gente/ você(s)/ele(s) escreve, lê, faz, dorme...Pq era porque, s/ era sem, miga era amiga e niver era aniversário.
Se vc, meu jovem, desconhece a palavra, saiba que o datilógrafo era um humano que praticava a datilografia. Tem no google. Para tanto, havia a máquina de escrever. Se eu lhe contar vc não acredita, mas esse trambolho já escrevia imprimindo. O texto já nascia impresso. Para tanto havia um rolo, uma fita suja de tinta, uma centena de hastes com letras metálicas na ponta e... uma folha de papel. Mas o mais impressionante da máquina de escrever é que o teclado era praticamente igual ao usado nos microcomputadores, que talvez você tenha visto...
O datilógrafo pressionava forte e rápido com as pontas dos dedos as teclas. Cada tecla acionava uma haste, que se movimentava e imprimia uma letra no papel devidamente posicionado. Então se dizia, para quem só tratava do mesmo assunto, que o tal batia sempre na mesma tecla. Acionada a tecla, não havia retorno. Até que inventaram o branquinho, que tinha em líquido e em papel, mas a gambiarra não ficava boa e era proibida nos textos oficiais.
Datilografia era profissão e se aprendia na escola. Havia exames de conclusão de curso e outorga de diplomas, algo semelhante às escolas de língua atuais. No futuro, as escolas de datilografia e de línguas existirão apenas na memória de alguns pesquisadores e ninguém acreditará, se alguém contar, que havia mais de duzentas palavras diferentes para expressar o objeto sobre o qual se dorme ou o gracioso arranjo de dois finos pneus sobre o qual se pedala. E o substantivo máquina e o verbo escrever constarão apenas em dicionários antigos.
Mas o mais inusitado que encontrei, em minha pesquisa, foi sobre a mudança de prestígio do dedão. O polegar. Na datilografia ele desempenhava o terciário papel de acionar a tecla de espaço.E como ele era grosso, inábil e mal posicionado, tal tecla era enorme, muito maior que as outras, para que ele não fizesse besteira. A condescendência que todos destinavam a ele era parecida com essa com que tratamos o filho do dono da firma, que vive no meio de nós. Nos atuais smartphones, o dedão saiu da subalterna e única tecla para o protagonismo de todos os ícones e dígitos, relegando aos demais dedos o acessório papel de segurar o tijolinho.
A meteórica ascensão do polegar é uma boa metáfora. Assim como o quase absoluto ostracismo da datilografia. Ah, sim: antes havia o calígrafo...
Essa escrita que digitalizamos em nossos smartphones, atualmente, veio daquela usada pelos datilógrafos, em verdade é a mesma, com pequenas mudanças. Por ex., aki era aqui, naum era não e vc era você. Além de vc, eles e a gente, havia também eu, tu, nós e vós. Havia seis pessoas e uma flexão verbal para cada uma, ao contrário de agora, que há apenas uma flexão verbal: a gente/ você(s)/ele(s) escreve, lê, faz, dorme...Pq era porque, s/ era sem, miga era amiga e niver era aniversário.
Se vc, meu jovem, desconhece a palavra, saiba que o datilógrafo era um humano que praticava a datilografia. Tem no google. Para tanto, havia a máquina de escrever. Se eu lhe contar vc não acredita, mas esse trambolho já escrevia imprimindo. O texto já nascia impresso. Para tanto havia um rolo, uma fita suja de tinta, uma centena de hastes com letras metálicas na ponta e... uma folha de papel. Mas o mais impressionante da máquina de escrever é que o teclado era praticamente igual ao usado nos microcomputadores, que talvez você tenha visto...
O datilógrafo pressionava forte e rápido com as pontas dos dedos as teclas. Cada tecla acionava uma haste, que se movimentava e imprimia uma letra no papel devidamente posicionado. Então se dizia, para quem só tratava do mesmo assunto, que o tal batia sempre na mesma tecla. Acionada a tecla, não havia retorno. Até que inventaram o branquinho, que tinha em líquido e em papel, mas a gambiarra não ficava boa e era proibida nos textos oficiais.
Datilografia era profissão e se aprendia na escola. Havia exames de conclusão de curso e outorga de diplomas, algo semelhante às escolas de língua atuais. No futuro, as escolas de datilografia e de línguas existirão apenas na memória de alguns pesquisadores e ninguém acreditará, se alguém contar, que havia mais de duzentas palavras diferentes para expressar o objeto sobre o qual se dorme ou o gracioso arranjo de dois finos pneus sobre o qual se pedala. E o substantivo máquina e o verbo escrever constarão apenas em dicionários antigos.
Mas o mais inusitado que encontrei, em minha pesquisa, foi sobre a mudança de prestígio do dedão. O polegar. Na datilografia ele desempenhava o terciário papel de acionar a tecla de espaço.E como ele era grosso, inábil e mal posicionado, tal tecla era enorme, muito maior que as outras, para que ele não fizesse besteira. A condescendência que todos destinavam a ele era parecida com essa com que tratamos o filho do dono da firma, que vive no meio de nós. Nos atuais smartphones, o dedão saiu da subalterna e única tecla para o protagonismo de todos os ícones e dígitos, relegando aos demais dedos o acessório papel de segurar o tijolinho.
A meteórica ascensão do polegar é uma boa metáfora. Assim como o quase absoluto ostracismo da datilografia. Ah, sim: antes havia o calígrafo...
quarta-feira, 19 de outubro de 2016
DARWIN E NÓIS.
No futuro teremos 6 dedos em cada mão... é, tive o vislumbre dentro do ônibus, subindo a Consolação. A mocinha digitava em seu smartphone, vi o futuro, tenho quase certeza de que evoluiremos para 6 dedos em cada mão: dois polegares ou dois indicadores, será um desses dois que teremos a mais em cada mão num futuro próximo, em termos históricos. Em termos práticos, é coisa de longo prazo, mas tudo nos leva a tal evolução da espécie.
Costumo ter essas visões subindo a Rebouças, mas hoje ia no sentido contrário, centro-bairro. Sendo que os seis dedos serão mais finos, e, ao contrário de hoje, o dedo mais fino será o polegar, vindo em seguida o indicador. O dedo mais grosso será o mínimo, que continuará inútil e nem para limpar o nariz servirá mais. Isto porque não haverá mais unhas, eis que elas atrapalham a digitação dos tais aparelhos. Porém, confirmando Darwin, a permanência do mínimo será a exceção que confirma a regra.
Estamos acostumados a perder órgãos e partes para evoluir. Nada vi em minha bola de cristal sobre possíveis perdas que compensem os ganhos ora relatados. É possível que haja, pois ganharemos muito. Além dos dedos, teremos um 3º braço. Nascerá no começo do pescoço, na região chamada colo, e sua respectiva 3ª mão servirá para segurar o smartphone, enquanto os outros 4 polegares das outras 2 mãos digitam. Se o cidadão estiver de pé, uma mão segura no corrimão para não cair, outra segura o aparelho e a outra digita. Se bem que já tem gente que segura e digita com uma só mão...Vantagem secundária não menos importante é que será muito mais difícil quebrar ou cortar o pescoço de alguém.
Tais evoluções da espécie mostrarão primeiros indícios nas mulheres. É que elas têm necessidade de digitar mais rápido (já hoje digitam mais rápido), porque necessitam se comunicar mais do que os homens. Aliás, por isso mesmo elas tomarão o poder quando tais evoluções se completarem. Imaginem a rapidez de uma digitação a 4 polegares. Creio até que a voz feminina, com seu timbre agudo sonoro e límpido, é decorrência do uso intenso, em tempos passados, do telefone de Graham Bell, ao contrário de nós, homens, mudos, broncos e brutos de dedos e palavras.
Costumo ter essas visões subindo a Rebouças, mas hoje ia no sentido contrário, centro-bairro. Sendo que os seis dedos serão mais finos, e, ao contrário de hoje, o dedo mais fino será o polegar, vindo em seguida o indicador. O dedo mais grosso será o mínimo, que continuará inútil e nem para limpar o nariz servirá mais. Isto porque não haverá mais unhas, eis que elas atrapalham a digitação dos tais aparelhos. Porém, confirmando Darwin, a permanência do mínimo será a exceção que confirma a regra.
Estamos acostumados a perder órgãos e partes para evoluir. Nada vi em minha bola de cristal sobre possíveis perdas que compensem os ganhos ora relatados. É possível que haja, pois ganharemos muito. Além dos dedos, teremos um 3º braço. Nascerá no começo do pescoço, na região chamada colo, e sua respectiva 3ª mão servirá para segurar o smartphone, enquanto os outros 4 polegares das outras 2 mãos digitam. Se o cidadão estiver de pé, uma mão segura no corrimão para não cair, outra segura o aparelho e a outra digita. Se bem que já tem gente que segura e digita com uma só mão...Vantagem secundária não menos importante é que será muito mais difícil quebrar ou cortar o pescoço de alguém.
Tais evoluções da espécie mostrarão primeiros indícios nas mulheres. É que elas têm necessidade de digitar mais rápido (já hoje digitam mais rápido), porque necessitam se comunicar mais do que os homens. Aliás, por isso mesmo elas tomarão o poder quando tais evoluções se completarem. Imaginem a rapidez de uma digitação a 4 polegares. Creio até que a voz feminina, com seu timbre agudo sonoro e límpido, é decorrência do uso intenso, em tempos passados, do telefone de Graham Bell, ao contrário de nós, homens, mudos, broncos e brutos de dedos e palavras.
terça-feira, 18 de outubro de 2016
CASA DE BARRO NA BIENAL
Hoje acordei cedo e senti cheiro de café coado. Que esperança que alguém estivesse coando café em minha casa ou na vizinhança. Era um cheiro imaginado, produzido por minhas atávicas lembranças. Acordei com desejos autoimoladores de esfolar meu coração. Quero dizer, escrever um texto que mexesse com meu emocional.
É que visitei a 32ª Bienal de São Paulo, no Ibirapuera, e lá vi duas casas de barro. Só que uma delas, de um artista finlandês, se não me falha a memória. Uma, para suportar o frio; a outra, do artista brasileiro, para suportar o calor. Você aí, ó caboclo brasileiro, meu amigo, imagine uma casa de barro para suportar o frio.
Numa casa de barro tem café coado toda manhã. Não sei você, conterrâneo paulistano, se já se alimentou de cheiro de café; eu já. Eu já enchi a barriga da etérea sustança do odor simbólico do café coado. Foi numa madrugada fria, no Viaduto Pedroso, quando passava ao lado de uma banca-de-café-da-manhã. Você conhece, dessas que vendem bolo e café na garrafa.
Numa casa de barro. Tenho vontade de rir quando ouço expressões do tipo "consumo de baixo impacto" e palavras grandes e eloquentes como autosustentabilidade. Há lá na Bienal uma casa de barro que, ideia boa, mescla o rancho caipira com a oca indígena. Madeira roliça na estrutura, bambu e barro nas paredes e capim na cobertura. Piso da mãe Terra, ela mesma:chão. Fogão de barro, combustível de lenha, cama de varas, mesa e bancos de madeira chanfrada no machado. Dois poços, um para fornecer a água e outro para acolher o esgoto: era aí que muito caipira se perdia, por desconhecer seus invisíveis parasitas e a mecânica do oculto subsolo...
Mas, enfim, pra contrabalançar tanto verme, no quintal, um canteiro de couve (sendo que todo canteiro de couve compreende canteiros de cebolinha verde, alface, hortelã, erva-doce, arruda, erva-cidreira e giló); uma moita de bananeiras e outra de bambu, um pé de manga e muitos pés de mamão; uma moenda de cana; um forno de lenha pra assar pão e leitão; um moinho de café; um pilão pra descascar arroz e café e milho(canjica); um fogão no chão pra torrar café e fritar porco; um chiqueiro.
Vida vária, em que cheiro de café coado se perde a imaginação de um caipira finlandês? Que tenra folha, que suculento fruto, que útil grão? Quais engenhocas no quintal? Então me prendo nas paredes: taipa. Barro e bambu. Cor de terra. Que possui todos os tons de marron, mas quase chega a branca, quando essa terra é um bom saibro brasileiro, duns que sei bem onde tem... Sei não se na Finlândia tem dessas taipas, desconfio daquele artista... e me dou conta de que quintal só é possível em terras tropicais.
Continuando na Bienal, há lá uns canteiros na cambota, artista portuguesa, melhor estilo hortas urbanas. Ainda me veio a casa improvisada: bom lugar para descansar nossos restos de precárias e imorredouras convicções.
É que visitei a 32ª Bienal de São Paulo, no Ibirapuera, e lá vi duas casas de barro. Só que uma delas, de um artista finlandês, se não me falha a memória. Uma, para suportar o frio; a outra, do artista brasileiro, para suportar o calor. Você aí, ó caboclo brasileiro, meu amigo, imagine uma casa de barro para suportar o frio.
Numa casa de barro tem café coado toda manhã. Não sei você, conterrâneo paulistano, se já se alimentou de cheiro de café; eu já. Eu já enchi a barriga da etérea sustança do odor simbólico do café coado. Foi numa madrugada fria, no Viaduto Pedroso, quando passava ao lado de uma banca-de-café-da-manhã. Você conhece, dessas que vendem bolo e café na garrafa.
Numa casa de barro. Tenho vontade de rir quando ouço expressões do tipo "consumo de baixo impacto" e palavras grandes e eloquentes como autosustentabilidade. Há lá na Bienal uma casa de barro que, ideia boa, mescla o rancho caipira com a oca indígena. Madeira roliça na estrutura, bambu e barro nas paredes e capim na cobertura. Piso da mãe Terra, ela mesma:chão. Fogão de barro, combustível de lenha, cama de varas, mesa e bancos de madeira chanfrada no machado. Dois poços, um para fornecer a água e outro para acolher o esgoto: era aí que muito caipira se perdia, por desconhecer seus invisíveis parasitas e a mecânica do oculto subsolo...
Mas, enfim, pra contrabalançar tanto verme, no quintal, um canteiro de couve (sendo que todo canteiro de couve compreende canteiros de cebolinha verde, alface, hortelã, erva-doce, arruda, erva-cidreira e giló); uma moita de bananeiras e outra de bambu, um pé de manga e muitos pés de mamão; uma moenda de cana; um forno de lenha pra assar pão e leitão; um moinho de café; um pilão pra descascar arroz e café e milho(canjica); um fogão no chão pra torrar café e fritar porco; um chiqueiro.
Vida vária, em que cheiro de café coado se perde a imaginação de um caipira finlandês? Que tenra folha, que suculento fruto, que útil grão? Quais engenhocas no quintal? Então me prendo nas paredes: taipa. Barro e bambu. Cor de terra. Que possui todos os tons de marron, mas quase chega a branca, quando essa terra é um bom saibro brasileiro, duns que sei bem onde tem... Sei não se na Finlândia tem dessas taipas, desconfio daquele artista... e me dou conta de que quintal só é possível em terras tropicais.
Continuando na Bienal, há lá uns canteiros na cambota, artista portuguesa, melhor estilo hortas urbanas. Ainda me veio a casa improvisada: bom lugar para descansar nossos restos de precárias e imorredouras convicções.
quinta-feira, 6 de outubro de 2016
DA FORÇA DA GRANA QUE ERGUE E ENGANA
Vi a frase num muro e agora ela não me sai da cabeça. Pensei logo no Duda Mendonça, no Nizan Guanaes, no João Santana. Pensei que tinha algo a acrescentar. Até porque já sou rodado o suficiente para ter visto com meus próprios olhos o famoso verso do Caetano pichado no muro da mansão que havia na esquina da Teixeira da Silva com a Paulista. Acho que ainda era anos 1970, o Patrimônio Histórico discutia o tombamento das mansões remanescentes da Paulista e, numa bela manhã, quase todas amanheceram semidestruídas por seus próprios proprietários. Então um gaiato pichou lá o da força da grana que ergue e destrói coisas belas e eu não sei se tive a felicidade ou a infelicidade de ver e registrar a poesia viva e acusatória diante da destruição histórica.
Agora, outro gaiato é mais sucinto e mordaz, mas hermético.Assim tão curto, pouca gente vai entender, ao contrário do verso de SAMPA. É que eu me lembro que o Maluf amava São Paulo. Duda Mendonça criou o famoso "Amo São Paulo" e um coração vermelho bem redondinho, com os quais Maluf ganhou a eleição. Antes o Jânio já havia ganhado a eleição com a vassoura, que não sei quem criou. FHC ganhou a eleição com a palavra REAL, mas aí não foi criação de publicitários e sim de financistas mui espertos. Posteriormente, o mesmo Duda Mendonça adocicou o Lula perante as madames dos Jardins, criando o Lulinha paz e amor.
João Santana não teve muito trabalho contra Alckmim, Serra e Aécio, bastou associar a chuchu e a pó. Pó de serra, minha gente, olha lá! Poeira de helicóptero, olha lá! A fórmula para eleger esse trio não é publicitária; é midiática...
Quando pensava que a coisa estava esgotada enquanto modelo para se ganhar eleição, olha só o que nos enfiaram goela abaixo: João Trabalhador. E o popular gesto dos dois dedos em riste na horizontal, que dizem que significa "acelera". Só sei que o gesto é muito popular, meio transgressivo, quase subversivo, diria. E o João é trabalhador. Uma combinação perfeita, invencível mesmo, pra pulverizar qualquer brilhantina no cabelo.
Maluf amava o comércio. Qualquer comércio. Lula amava a luta. Essa incontornável labuta popular. João ama o LIDE. João ama o lucro. João ama a livre iniciativa da força da grana.
Agora, outro gaiato é mais sucinto e mordaz, mas hermético.Assim tão curto, pouca gente vai entender, ao contrário do verso de SAMPA. É que eu me lembro que o Maluf amava São Paulo. Duda Mendonça criou o famoso "Amo São Paulo" e um coração vermelho bem redondinho, com os quais Maluf ganhou a eleição. Antes o Jânio já havia ganhado a eleição com a vassoura, que não sei quem criou. FHC ganhou a eleição com a palavra REAL, mas aí não foi criação de publicitários e sim de financistas mui espertos. Posteriormente, o mesmo Duda Mendonça adocicou o Lula perante as madames dos Jardins, criando o Lulinha paz e amor.
João Santana não teve muito trabalho contra Alckmim, Serra e Aécio, bastou associar a chuchu e a pó. Pó de serra, minha gente, olha lá! Poeira de helicóptero, olha lá! A fórmula para eleger esse trio não é publicitária; é midiática...
Quando pensava que a coisa estava esgotada enquanto modelo para se ganhar eleição, olha só o que nos enfiaram goela abaixo: João Trabalhador. E o popular gesto dos dois dedos em riste na horizontal, que dizem que significa "acelera". Só sei que o gesto é muito popular, meio transgressivo, quase subversivo, diria. E o João é trabalhador. Uma combinação perfeita, invencível mesmo, pra pulverizar qualquer brilhantina no cabelo.
Maluf amava o comércio. Qualquer comércio. Lula amava a luta. Essa incontornável labuta popular. João ama o LIDE. João ama o lucro. João ama a livre iniciativa da força da grana.
domingo, 2 de outubro de 2016
JOÃO TRABALHADOR !
Bem, agora o nosso prefeito é o João Trabalhador. E se fosse um vídeo, eu nesse momento faria o V deitado com os dedos indicador e médio, que não sei o que significa, mas sei que é coisa de jovem de periferia.
Nem dá pra dizer que esse povo não sabe votar, porque, 4 anos atrás, esse mesmo povo elegeu Haddad.
É que, em 2012, o MARIA VAI COAS OTRAS foi com o Haddad e, agora, foi com o João Trabalhador. Sendo que esse maria-vai-coas-otras já foi com Jânio, com Maluf, com Pita, com Kassab, com Serra... assim como já foi com Erundina e Marta.
Só que esse maria-vai-coas-otras vai mais resoluto e em manada para os candidatos da direita do que para os da esquerda. FHC foi eleito em primeiro turno nos dois mandatos; Alkmin aqui em SP também. Já Lula teve de fazer muitas concessões e passar raspando no 2º turno.
O problema é que a gente não conhece o maria-vai-coas-otras. Ou não quer conhecer. É que o maria-vai-coas-otras é duro de amar teresa... Esse eleitor que decide a eleição não sabe não a diferença entre cidadão, consumidor e cliente, que eu ficava falando aqui, com ares de muito sabido. Ao contrário, ele às vezes é consumidor e cliente, enquanto cidadão ele nunca foi e provavelmente nunca será.
O maria-vai-coas-otras não anda de bicicleta nem conhece a Av.Paulista. Ouso chutar que 60% dele nunca (eu escrevi "nunca") esteve pessoalmente naquela avenida. E os demais 40% esteve duas ou três vezes na vida. E eu aqui achando que a abertura da Paulista aos pedestres nos domingos e as ciclovias iam influenciar na eleição...
O maria-vai-coas-otras vai e vem de ônibus/trem/metrô. Antes das faixas exclusivas ele pegava 3 conduções pra ir e outras 3 pra voltar, ficando 6 horas no trânsito entre ir e vir. Agora ele é massacrado pelas mesmas 6 baldeações e fica 5 horas: grande merda!
O maria-vai-coas-otras agora morre menos atropelado, por causa da diminuição da velocidade dos carros. Mas continua morrendo por essas doenças da miséria: esquistossomose, amebíase, ancilostomíase, ascaridíase, dengue, disenterias, giardíase, hepatite, meningite, leptospirose, sem contar as diarreias e infecções na pele e nos olhos provocados pela falta de esgoto e água de qualidade.
É que 80% do maria-vai-coas-otras mora em casas e apartamentos precários. Precário é eufemismo de favela. Mais de 60% de São Paulo é favela. As reconhecidas e as não reconhecidas. As casas são insalubres... esse povo passa o ano inteiro tossindo e alguns morrem de pneumonia. A caixa d'água é imunda, a instalação elétrica e hidráulica é na base das gambiarras, as tubulações de esgoto - quando há - estão rompidas, os rios todos são imundos. Sendo que esses imóveis são todos irregulares.
O maria-vai-coas-otras se alimenta mal. Come nescau com banana e maizena e pão-de-forma e margarina e bolachas e miojos e tubaínas e tudo que há de mais barato e mais vagabundo e mais apelativo-saboroso no mercado. A barriga cresce tanto que sufoca o cérebro. E salva a alma na igreja da esquina, deixando o próprio desespero fluir pelas mãos de pastores mercenários e políticos oportunistas. Sendo que a debandada em massa para o neopentecostalismo é uma tentativa própria de saída.
O maria-vai-coas-otras é tratado e conduzido como gado por todos os serviços públicos: saúde, educação, transporte, segurança. Os poucos que conseguem romper a barreira do ensino médio vão estudar nas unissetes da vida e aí eu não sei se não seria melhor ficar no analfabetismo funcional de nível médio, ao invés de ingressar no analfabetismo funcional de nível superior e passar a pagar mico, confundindo conhaque de alcatrão com catraca de avião.
O maria-vai-coas-otras ainda não passou pela revolução francesa. Permanece no escravismo, o feudalismo das Américas. Seu sonho é comprar tv geladeira máquina de lavar, ou seja, ainda precisa se realizar como consumidor, antes da cidadania. E a gente aqui querendo que ele faça complexos raciocínios cívicos.
Se fosse possível dar um conselho ao maria-vai-coas-otras, eu lhe diria para se virar com seus próprios meios... porque todos que vêm de fora, cheirosos, vermelhos ou azuis, são oportunistas.
Nem dá pra dizer que esse povo não sabe votar, porque, 4 anos atrás, esse mesmo povo elegeu Haddad.
É que, em 2012, o MARIA VAI COAS OTRAS foi com o Haddad e, agora, foi com o João Trabalhador. Sendo que esse maria-vai-coas-otras já foi com Jânio, com Maluf, com Pita, com Kassab, com Serra... assim como já foi com Erundina e Marta.
Só que esse maria-vai-coas-otras vai mais resoluto e em manada para os candidatos da direita do que para os da esquerda. FHC foi eleito em primeiro turno nos dois mandatos; Alkmin aqui em SP também. Já Lula teve de fazer muitas concessões e passar raspando no 2º turno.
O problema é que a gente não conhece o maria-vai-coas-otras. Ou não quer conhecer. É que o maria-vai-coas-otras é duro de amar teresa... Esse eleitor que decide a eleição não sabe não a diferença entre cidadão, consumidor e cliente, que eu ficava falando aqui, com ares de muito sabido. Ao contrário, ele às vezes é consumidor e cliente, enquanto cidadão ele nunca foi e provavelmente nunca será.
O maria-vai-coas-otras não anda de bicicleta nem conhece a Av.Paulista. Ouso chutar que 60% dele nunca (eu escrevi "nunca") esteve pessoalmente naquela avenida. E os demais 40% esteve duas ou três vezes na vida. E eu aqui achando que a abertura da Paulista aos pedestres nos domingos e as ciclovias iam influenciar na eleição...
O maria-vai-coas-otras vai e vem de ônibus/trem/metrô. Antes das faixas exclusivas ele pegava 3 conduções pra ir e outras 3 pra voltar, ficando 6 horas no trânsito entre ir e vir. Agora ele é massacrado pelas mesmas 6 baldeações e fica 5 horas: grande merda!
O maria-vai-coas-otras agora morre menos atropelado, por causa da diminuição da velocidade dos carros. Mas continua morrendo por essas doenças da miséria: esquistossomose, amebíase, ancilostomíase, ascaridíase, dengue, disenterias, giardíase, hepatite, meningite, leptospirose, sem contar as diarreias e infecções na pele e nos olhos provocados pela falta de esgoto e água de qualidade.
É que 80% do maria-vai-coas-otras mora em casas e apartamentos precários. Precário é eufemismo de favela. Mais de 60% de São Paulo é favela. As reconhecidas e as não reconhecidas. As casas são insalubres... esse povo passa o ano inteiro tossindo e alguns morrem de pneumonia. A caixa d'água é imunda, a instalação elétrica e hidráulica é na base das gambiarras, as tubulações de esgoto - quando há - estão rompidas, os rios todos são imundos. Sendo que esses imóveis são todos irregulares.
O maria-vai-coas-otras se alimenta mal. Come nescau com banana e maizena e pão-de-forma e margarina e bolachas e miojos e tubaínas e tudo que há de mais barato e mais vagabundo e mais apelativo-saboroso no mercado. A barriga cresce tanto que sufoca o cérebro. E salva a alma na igreja da esquina, deixando o próprio desespero fluir pelas mãos de pastores mercenários e políticos oportunistas. Sendo que a debandada em massa para o neopentecostalismo é uma tentativa própria de saída.
O maria-vai-coas-otras é tratado e conduzido como gado por todos os serviços públicos: saúde, educação, transporte, segurança. Os poucos que conseguem romper a barreira do ensino médio vão estudar nas unissetes da vida e aí eu não sei se não seria melhor ficar no analfabetismo funcional de nível médio, ao invés de ingressar no analfabetismo funcional de nível superior e passar a pagar mico, confundindo conhaque de alcatrão com catraca de avião.
O maria-vai-coas-otras ainda não passou pela revolução francesa. Permanece no escravismo, o feudalismo das Américas. Seu sonho é comprar tv geladeira máquina de lavar, ou seja, ainda precisa se realizar como consumidor, antes da cidadania. E a gente aqui querendo que ele faça complexos raciocínios cívicos.
Se fosse possível dar um conselho ao maria-vai-coas-otras, eu lhe diria para se virar com seus próprios meios... porque todos que vêm de fora, cheirosos, vermelhos ou azuis, são oportunistas.
segunda-feira, 19 de setembro de 2016
GUERRA. Há meia hora um helicóptero...
Há meia hora um helicóptero paira sobre o prédio em que trabalho, na avenida Paulista. Na calçada em frente, o rio de pedestres escorre com dificuldades entre inúmeras viaturas da polícia estacionadas. Há suspeita de bomba na agência bancária ao lado.
Antes-de-ontem, no xig-lig da esquina, seguranças do estabelecimento entraram em confronto com guardas municipais, para impedir duvidosa fiscalização.
Outro dia, um pedestre foi executado por dois motoqueiros, enquanto caminhava na calçada em frente.
O esmoler profissional que faz ponto ali perto da banca de jornal recolhe a moeda ou a nota tão logo é depositada em sua caixa de papelão, para evitar sócios mãozudos.
Quase em frente, as revistas e jornais pendurados desinformam, para confundir o inimigo.
Em cada quadra da avenida, caminhando na hora do almoço, encontro duas ou três duplas de policiais militares.Os policiais portam pistolas ponto quarenta, algemas, cacetetes, sprays venenosos, vários aparelhos de comunicação, e estão vestidos com coletes à prova de bala.
Nas esquinas há sentinelas postados em guaritas elevadas.
A todo momento passam viaturas abrindo caminho no grito, levando feridos ou acudindo ataques.
A avenida está completamente tomada por batalhões de pedestres em marcha em ambas as calçadas e por veículos nas faixas de rodagem. Entre os caminhantes, ninguém se arrisca a usar joias e quase todos portam aparelhos de comunicação móvel.
Dentro dos carros não se vê ninguém, por causa dos vidros escuros. O entrevero propaga-se pelas paralelas e transversais. Os carros, cada vez maiores, se trancam blindados, autosuficientes em seus sistemas de ar condicionado, contra abordagens especializadas nos faróis.
As casas cada vez menores, se amontoam em prédios de apartamentos, para facilitar a defesa, isolados por grades encimadas por fios energizados ou por muros com rolos cortantes em cima.
Vigilantes tristes espreitam o entorno, de dentro de cabines com vidros escuros, nas portarias. Se é noite, fachos de potentes luminárias disparam na frente de cada prédio à medida que o pedestre vai passando, comandados por células de presença.
Câmaras filmadoras estão penduradas nos beirais, nos postes, nos portões, nos satélites, profusamente instaladas pelo poder público e pelos particulares, cobrindo completamente exteriores e interiores domésticos e comerciais.
Monitores remotos complementam a vigilância presencial pública e privada. As motocicletas são consideradas eficientes veículos táticos e por isso é proibido levar alguém na garupa.
Antes-de-ontem, no xig-lig da esquina, seguranças do estabelecimento entraram em confronto com guardas municipais, para impedir duvidosa fiscalização.
Outro dia, um pedestre foi executado por dois motoqueiros, enquanto caminhava na calçada em frente.
O esmoler profissional que faz ponto ali perto da banca de jornal recolhe a moeda ou a nota tão logo é depositada em sua caixa de papelão, para evitar sócios mãozudos.
Quase em frente, as revistas e jornais pendurados desinformam, para confundir o inimigo.
Em cada quadra da avenida, caminhando na hora do almoço, encontro duas ou três duplas de policiais militares.Os policiais portam pistolas ponto quarenta, algemas, cacetetes, sprays venenosos, vários aparelhos de comunicação, e estão vestidos com coletes à prova de bala.
Nas esquinas há sentinelas postados em guaritas elevadas.
A todo momento passam viaturas abrindo caminho no grito, levando feridos ou acudindo ataques.
A avenida está completamente tomada por batalhões de pedestres em marcha em ambas as calçadas e por veículos nas faixas de rodagem. Entre os caminhantes, ninguém se arrisca a usar joias e quase todos portam aparelhos de comunicação móvel.
Dentro dos carros não se vê ninguém, por causa dos vidros escuros. O entrevero propaga-se pelas paralelas e transversais. Os carros, cada vez maiores, se trancam blindados, autosuficientes em seus sistemas de ar condicionado, contra abordagens especializadas nos faróis.
As casas cada vez menores, se amontoam em prédios de apartamentos, para facilitar a defesa, isolados por grades encimadas por fios energizados ou por muros com rolos cortantes em cima.
Vigilantes tristes espreitam o entorno, de dentro de cabines com vidros escuros, nas portarias. Se é noite, fachos de potentes luminárias disparam na frente de cada prédio à medida que o pedestre vai passando, comandados por células de presença.
Câmaras filmadoras estão penduradas nos beirais, nos postes, nos portões, nos satélites, profusamente instaladas pelo poder público e pelos particulares, cobrindo completamente exteriores e interiores domésticos e comerciais.
Monitores remotos complementam a vigilância presencial pública e privada. As motocicletas são consideradas eficientes veículos táticos e por isso é proibido levar alguém na garupa.
sábado, 17 de setembro de 2016
O QUE NOS SUSTENTA.
NA HORA DO VAMUVÊ,
O QUE NOS SUSTENTA...
(nossos relatos ou comentários ou fotos sobre atividades por nós realizadas objetivam divulgar a atividade – propaganda – e despertar a inveja dos amigos. No meu caso, sobre a Travessia da Serra Fina, há um terceiro: alertar os incautos para que não caiam nessa robada).
Mas, na hora do vamuvê, o que nos sustenta é uma dupla chamada NaCl e Lipídeo. Ou seja, sal de cozinha e gordura.
Depois vem o carbohidrato e a proteína, ordinários, que se encontram por toda parte. Açúcar tem em tudo e carne..., sim, pode ser carne de soja, embora não preencha as necessidades do espírito.
É, a carne de soja, ou seja lá o que diabos mais for de soja, não é coisa de Deus. Faz bem para o corpo (no meu caso, me provoca umas coisas na pele), mas maltrata a alma.
O amendoim é coisa do demônio: tem muita gordura e proteína e, se acrescentarmos um salzinho, vira bomba. Só precisa muita água pra moer e digerir.
Agora imagina você no meio do nada, mato, pedra, parede pra subir, parede pra descer. Aí vem um sujeito e frita uma lingüiça bem encharcada. Não tem nada mais motivador para levar um vivente que pensa que pensa ao cimo do pico mais próximo: é muito sal, muita gordura e muita proteína, e quente, pra aquecer o corpo das rajadas de vento gelado lateral.
Na hora do vamuvê, o sujeito precisa de sal, pra intumescer a crista. A crista aqui não é a fina, da serra, que perseguimos, mas a do homem, como se fora uma galinha. Porque todos sabem o destino de uma galinha de crista caída (segundo minha professora-zootecnista Lolay, é a panela!).
É, o sal tem o poder de manter nosso entusiasmo, enquanto a gordura mantém a nossa intrepidez física, necessária para varar bosques de capim-elefante e capinzal de bambu.
Quem frita lingüiça na montanha é o Vinícus, guia de Itanhandu, para desespero dos ortodoxos consumidores de miojo e liofilizados. O fato é que ele anda naquelas brenhas com uma cargueira de 80 litros e 25 Kg como se estivesse no jardim. E acrescento que ele levava ovo, para a omelete do café da manhã.
Já com um outro guia da montanha, o Vandeira, aprendi outra coisa sobre a água. É ela que mantém nossa alegria de viver. Porque não tem nada mais sem graça do que a sede.
O QUE NOS SUSTENTA...
(nossos relatos ou comentários ou fotos sobre atividades por nós realizadas objetivam divulgar a atividade – propaganda – e despertar a inveja dos amigos. No meu caso, sobre a Travessia da Serra Fina, há um terceiro: alertar os incautos para que não caiam nessa robada).
Mas, na hora do vamuvê, o que nos sustenta é uma dupla chamada NaCl e Lipídeo. Ou seja, sal de cozinha e gordura.
Depois vem o carbohidrato e a proteína, ordinários, que se encontram por toda parte. Açúcar tem em tudo e carne..., sim, pode ser carne de soja, embora não preencha as necessidades do espírito.
É, a carne de soja, ou seja lá o que diabos mais for de soja, não é coisa de Deus. Faz bem para o corpo (no meu caso, me provoca umas coisas na pele), mas maltrata a alma.
O amendoim é coisa do demônio: tem muita gordura e proteína e, se acrescentarmos um salzinho, vira bomba. Só precisa muita água pra moer e digerir.
Agora imagina você no meio do nada, mato, pedra, parede pra subir, parede pra descer. Aí vem um sujeito e frita uma lingüiça bem encharcada. Não tem nada mais motivador para levar um vivente que pensa que pensa ao cimo do pico mais próximo: é muito sal, muita gordura e muita proteína, e quente, pra aquecer o corpo das rajadas de vento gelado lateral.
Na hora do vamuvê, o sujeito precisa de sal, pra intumescer a crista. A crista aqui não é a fina, da serra, que perseguimos, mas a do homem, como se fora uma galinha. Porque todos sabem o destino de uma galinha de crista caída (segundo minha professora-zootecnista Lolay, é a panela!).
É, o sal tem o poder de manter nosso entusiasmo, enquanto a gordura mantém a nossa intrepidez física, necessária para varar bosques de capim-elefante e capinzal de bambu.
Quem frita lingüiça na montanha é o Vinícus, guia de Itanhandu, para desespero dos ortodoxos consumidores de miojo e liofilizados. O fato é que ele anda naquelas brenhas com uma cargueira de 80 litros e 25 Kg como se estivesse no jardim. E acrescento que ele levava ovo, para a omelete do café da manhã.
Já com um outro guia da montanha, o Vandeira, aprendi outra coisa sobre a água. É ela que mantém nossa alegria de viver. Porque não tem nada mais sem graça do que a sede.
terça-feira, 30 de agosto de 2016
A ZELITE
A ZELITE DE VERDADE
O
homicida-suicida carioca pensava que era da zelite. Aí, quando
descobriu a verdade, preferiu matar a mulher e os filhos e se
suicidar.
Você pertence
à zelite?
Conheço muito
pé-rapado que pensa que é da zelite. A expressão “pé-rapado”
é típica de quem é ou gostaria de ser da zelite.
Mas que diabos
é zelite? Bom, aí é muita metafísica pra explicar. Sendo que se a
gente botar metafísica no meio, não dá pra explicar. Porque, se a
terra vai comer todo mundo, não existe a zelite: todos são iguais.
Sendo práticos,
há muita zelite por aí sim, num sistema tão desigual como o nosso.
Porém, todas muito relativas, todas muito discutíveis.
Tem assalariado
que, só porque pensa que ganha bem e ganha tapinha nas costas do
chefe (outro assalariado), pensa que é da zelite econômica.
E passeia com
ela, e pensa com ela, e milita com ela, e vota com ela…
Ainda quando é
demitido, continua passeando e pensando e militando e votando com
essa zelite.
Só descobre a
verdade meses depois, sofrendo pra caramba, em plena fila do SUS.
Que, diga-se de passagem, não tem mais fila, só senha, sala de
espera com cadeira e TV e até agendamento de consultas – algo até
digno, se o cidadão não for muito zelitoso demais.
terça-feira, 9 de agosto de 2016
COPA DE 2014: FUTEBOL, DEUS, ACASO E RAZÃO.
Deus existe? Mas claro! Senão, como explicar os 7x1 de Brasil e Alemanha? Aquilo foi puro castigo divino a nossa soberba. E a quantidade de jogador fazendo o sinal da cruz? Acaso também existe. Todos os gols do Fred, por exemplo. E do David Luis. O gol do Van Basten, da Holanda na Espanha. Já o gol do James Rodrigues é pura razão: a bola é acolhida, ajeitada e chutada, sem mais nem menos tempo que o necessário e com intensidade e curva adequadas.
Pelé e Maradona são indícios de que Deus está entre os homens. Já Ademir da Guia, apesar de ser chamado de divino, era razão pura, sinal de que há espaço no mundo para os ateus. Fred e David Luis são oportunistas. Por acaso, a bola bate neles ou eles batem na bola e, sendo o adversário azarado, a bola entra e é gol. Zico e Sócrates eram racionais. Gerson não tinha fé, sorte ou razão: só queria levar vantagem.
Mas há situações ou craques que não têm explicações divina, casuística ou racional. É o caso de Neymar, malabarista mambembe. Que brilha quando encontra um companheiro capaz de lhe enfiar bolas na cara do gol, fruto de uma curva cartesianamente traçada, como é o caso de Ganso, outro racional. Artífice do produto final, Neymar é badalado pelos alto-falantes midiáticos, segundo os rasos interesses de seus operadores. Isso deve explicar a inapetência atual do Ganso.
Outro mágico de circo é Ronaldinho Gaúcho. Já Kaká não se enquadra em nada do que foi dito até agora. É apenas um bom rapaz, que toda sogra gostaria de ter como genro. Ainda não se enquadram nessas três balizas propostas os casos fortuitos de Oscar, que cisca, de Hulk, que tromba, de Júlio Cesar, que franga e dá entrevista, e de Tiago Silva, que chora. Todos rezam. Sendo que o vice-capitão David queria levar alegria a seu povo, mas não foi eleito.
Pelé e Maradona são indícios de que Deus está entre os homens. Já Ademir da Guia, apesar de ser chamado de divino, era razão pura, sinal de que há espaço no mundo para os ateus. Fred e David Luis são oportunistas. Por acaso, a bola bate neles ou eles batem na bola e, sendo o adversário azarado, a bola entra e é gol. Zico e Sócrates eram racionais. Gerson não tinha fé, sorte ou razão: só queria levar vantagem.
Mas há situações ou craques que não têm explicações divina, casuística ou racional. É o caso de Neymar, malabarista mambembe. Que brilha quando encontra um companheiro capaz de lhe enfiar bolas na cara do gol, fruto de uma curva cartesianamente traçada, como é o caso de Ganso, outro racional. Artífice do produto final, Neymar é badalado pelos alto-falantes midiáticos, segundo os rasos interesses de seus operadores. Isso deve explicar a inapetência atual do Ganso.
Outro mágico de circo é Ronaldinho Gaúcho. Já Kaká não se enquadra em nada do que foi dito até agora. É apenas um bom rapaz, que toda sogra gostaria de ter como genro. Ainda não se enquadram nessas três balizas propostas os casos fortuitos de Oscar, que cisca, de Hulk, que tromba, de Júlio Cesar, que franga e dá entrevista, e de Tiago Silva, que chora. Todos rezam. Sendo que o vice-capitão David queria levar alegria a seu povo, mas não foi eleito.
segunda-feira, 8 de agosto de 2016
LINHA AMARELA, ESTAÇÃO PAULISTA
Prezados turistas, São Paulo encanta na saúde e na doença... Vocês querem conhecer o verdadeiro caráter paulistano? Venham comigo. Embarquem na Estação Brigadeiro da linha verde do metrô. Desçam na Estação Consolação e embarquem na linha amarela, em direção ao Terminal Butantã. Vão e voltem.
Vamos. Na transição entre a linha verde e a amarela, vocês conhecerão a verdadeira racionalidade paulistana. Logo encontram uma esteira rolante. Desligada! Não tem problema, caminhem sobre ela. É uma sensação que vocês, oh turistas lá dos cafundós do Judas, nunca sentiram. Mas, se ela estiver rolando, caminhem assim mesmo. Porque se esperarem serem transportados, serão atropelados pelos esforçados paulistanos de verdade. Serão xingados. No mínimo serão mal-olhados.
Vencido o trecho das caras e futuristas esteiras que não rolam, preparem-se para emocionantes zigue-zagues. Não se preocupem com a sinalização, senão se perderão. Soltem o corpo e deixem-se levar. Caprichem nas curvas. Quando derem num retão, estarão sobre as plataformas. Preparem-se! Fiquem atentos ao caudal humano que vem no sentido contrário do lado esquerdo. Porque logo ali na frente vocês baterão de frente com ele, eis que sua plataforma está também à esquerda. E cuidado com os corpos que atravessam esse rio em que estão inseridos. Mas pensem no lado positivo. É uma experiência inusitada essa de atravessar um rio de gente apressada.
Desçam a escada fixa colados à direita e não ousem peitar quem vem subindo. Embora inferiorizados pela ação da gravidade, esses paulistanos que sobem atrasados, pensando na comida de rabo da chefia. (quase todo paulistano leva uma dessas comidas ao menos uma vez por semana e, apesar dessa frequência, não se acostumam), são fortes e podem vos derrubarem. Aguardem o trem no primeiro piso encontrado. O espaço claustrofóbico dado por paredes de ambos os lados e a inexistência de qualquer linha férrea no campo visual não significam que ali não passará um trem. Vocês verão que daí a pouco duas portas se abrirão naquele tapume de acrílico fumê e um modernoso trem estará à espera. Entrem confiantes de que naquela linha amarela o trem vai e vem direitinho, apesar de andar sozinho, sem maquinista. E são muito bons também aqueles tapumes de acrílico em todas as estações. Eles não deixam nenhum paulistano inconformado pular na frente do trem e atrapalhar vossa viagem e vosso turismo. Creiam, existem muitos paulistanos inconformados.
Cuidado na volta, para embarcarem na linha verde novamente. Na ida aquela estação se chama Consolação, mas na volta ela se chama Paulista. Os nomes mudam, mas o lugar é o mesmo. Coisa de paulistano. Aí, de novo, vocês disputarão escadas fixas, atravessarão rios e integrarão rios de rolantes humanos e, enquanto partículas desse rio, sustentarão outros humanos em contrárias travessias e, outra vez, não tentem se orientar pela sinalização, para não se perderem. Soltem o corpo e deixem-se levar. Finalmente voltarão ao alívio da menos burra e estatal linha verde. Desçam na Brigadeiro e, se estiverem com fome, comam dois pastel e tomem um chopps no Pastel da Maria, na esquina da Av. Paulista com a R. Carlos Sampaio. Em pé. E se continuarem com fome, paciência, porque já gastaram tudo que deviam e um pouco mais no almoço.
Vamos. Na transição entre a linha verde e a amarela, vocês conhecerão a verdadeira racionalidade paulistana. Logo encontram uma esteira rolante. Desligada! Não tem problema, caminhem sobre ela. É uma sensação que vocês, oh turistas lá dos cafundós do Judas, nunca sentiram. Mas, se ela estiver rolando, caminhem assim mesmo. Porque se esperarem serem transportados, serão atropelados pelos esforçados paulistanos de verdade. Serão xingados. No mínimo serão mal-olhados.
Vencido o trecho das caras e futuristas esteiras que não rolam, preparem-se para emocionantes zigue-zagues. Não se preocupem com a sinalização, senão se perderão. Soltem o corpo e deixem-se levar. Caprichem nas curvas. Quando derem num retão, estarão sobre as plataformas. Preparem-se! Fiquem atentos ao caudal humano que vem no sentido contrário do lado esquerdo. Porque logo ali na frente vocês baterão de frente com ele, eis que sua plataforma está também à esquerda. E cuidado com os corpos que atravessam esse rio em que estão inseridos. Mas pensem no lado positivo. É uma experiência inusitada essa de atravessar um rio de gente apressada.
Desçam a escada fixa colados à direita e não ousem peitar quem vem subindo. Embora inferiorizados pela ação da gravidade, esses paulistanos que sobem atrasados, pensando na comida de rabo da chefia. (quase todo paulistano leva uma dessas comidas ao menos uma vez por semana e, apesar dessa frequência, não se acostumam), são fortes e podem vos derrubarem. Aguardem o trem no primeiro piso encontrado. O espaço claustrofóbico dado por paredes de ambos os lados e a inexistência de qualquer linha férrea no campo visual não significam que ali não passará um trem. Vocês verão que daí a pouco duas portas se abrirão naquele tapume de acrílico fumê e um modernoso trem estará à espera. Entrem confiantes de que naquela linha amarela o trem vai e vem direitinho, apesar de andar sozinho, sem maquinista. E são muito bons também aqueles tapumes de acrílico em todas as estações. Eles não deixam nenhum paulistano inconformado pular na frente do trem e atrapalhar vossa viagem e vosso turismo. Creiam, existem muitos paulistanos inconformados.
Cuidado na volta, para embarcarem na linha verde novamente. Na ida aquela estação se chama Consolação, mas na volta ela se chama Paulista. Os nomes mudam, mas o lugar é o mesmo. Coisa de paulistano. Aí, de novo, vocês disputarão escadas fixas, atravessarão rios e integrarão rios de rolantes humanos e, enquanto partículas desse rio, sustentarão outros humanos em contrárias travessias e, outra vez, não tentem se orientar pela sinalização, para não se perderem. Soltem o corpo e deixem-se levar. Finalmente voltarão ao alívio da menos burra e estatal linha verde. Desçam na Brigadeiro e, se estiverem com fome, comam dois pastel e tomem um chopps no Pastel da Maria, na esquina da Av. Paulista com a R. Carlos Sampaio. Em pé. E se continuarem com fome, paciência, porque já gastaram tudo que deviam e um pouco mais no almoço.
segunda-feira, 1 de agosto de 2016
A VIOLÊNCIA E OUTRAS MUTRETAS
A VIOLÊNCIA E OUTRAS MUTRETAS.
Quando Deus era jovem, a coisa era assim: olho por olho, dente por dente. Bateu, levou. Toda ação provocava uma reação. O violentado dava o troco, na mesma moeda.
Na medida do possível e quando podia, é claro. Imagina o sujeito na delegacia levando um sopapo do delegado e dando outro de volta? E tem marmanjo burro que faz isso e se arrepende na porrada.
O sujeito vai crescendo e aprende algumas manhas. Fica de butuca, joga uma casca de banana... Bate na conversa, maldando. Goza, tira lasca, desmoraliza na maciota. Encosta o corpo, joga. Pega o fortão no contra-pé, usa a funda, feito David, e mata na pedrada.
Aí vem a maturidade. Os filhos. Mas o pobre continua levando tapa na cara. Só que, sábio, oferece a outra face, dissimulado. E desmoraliza os ingleses, feito Gandhi. E destrói um império, feito Cristo.
Mas os do andar de cima não se tocam. Fazem de conta que não é com eles. E continuam pespegando em suas mucamas esses uniformes ridículos de cores e barrados infantis. E continuam frequentando cheios de pompa os bailes da ilha fiscal.
E vem os filhos. E volta os filhos. Cansados da opressão acumulada. Sábios na imaturidade, a parafrasear Nelson Rodrigues: toda violência será castigada. E danam-se a quebrar Bradescos
Quando Deus era jovem, a coisa era assim: olho por olho, dente por dente. Bateu, levou. Toda ação provocava uma reação. O violentado dava o troco, na mesma moeda.
Na medida do possível e quando podia, é claro. Imagina o sujeito na delegacia levando um sopapo do delegado e dando outro de volta? E tem marmanjo burro que faz isso e se arrepende na porrada.
O sujeito vai crescendo e aprende algumas manhas. Fica de butuca, joga uma casca de banana... Bate na conversa, maldando. Goza, tira lasca, desmoraliza na maciota. Encosta o corpo, joga. Pega o fortão no contra-pé, usa a funda, feito David, e mata na pedrada.
Aí vem a maturidade. Os filhos. Mas o pobre continua levando tapa na cara. Só que, sábio, oferece a outra face, dissimulado. E desmoraliza os ingleses, feito Gandhi. E destrói um império, feito Cristo.
Mas os do andar de cima não se tocam. Fazem de conta que não é com eles. E continuam pespegando em suas mucamas esses uniformes ridículos de cores e barrados infantis. E continuam frequentando cheios de pompa os bailes da ilha fiscal.
E vem os filhos. E volta os filhos. Cansados da opressão acumulada. Sábios na imaturidade, a parafrasear Nelson Rodrigues: toda violência será castigada. E danam-se a quebrar Bradescos
domingo, 17 de julho de 2016
Por que existe pobre?
Vi no jornal e li na TV: o cara é casado, tem 2 filhos pequenos, ganha 1300 reais por mês, mora num quarto-cozinha-banheiro por 450 reais, e está acampado na frente da prefeitura em luta por um quarto-cozinha-banheiro próprio. Sobram 850 reais pra comer, beber, comprar biscoitos...
Mas, e a mulher, não trabalha?
Trabalhar trabalha – e muito, cuida dos filhos pequenos, faz a marmita do marido, percorre os supermercados e feiras em busca de ofertas...
Mas mulher hoje em dia precisa trabalhar!
Isso é verdade — e ganhar igual aos homens para trabalho igual, acrescento eu — só que a mulher teve um filho há 6 meses e, de repente, pode ficar grávida novamente... o dono da loja acha melhor contratar uma mocinha solteira... Além de que, é preciso encontrar creche pra deixar as crianças, ir levar, buscar, mandar roupas, fraldas — nem sempre cabíveis dentro dos 850 reais acima sobrantes...
Mas, afinal, esse cara trabalha ou acampa?
Trabalha e acampa! Há lá um revezamento, parece que a mulher fica no lugar dele, com as crianças, na hora que ele está trabalhando, ou talvez fique lá, durante algumas horas, somente a barraca fechada... O cara não está lá sozinho, trata-se de um movimento, de um conjunto, de um coletivo...
Ah, sim, coletivo! Sei... vagabundos! baderneiros! Ele ganha mal? Por que ele não pede a conta e vai procurar um emprego melhor? Por que ele não abre um negócio próprio? Por que ele não faz um bico. Por que ele não arranja uma promoção, fala com o chefe? Por que ele não se vira?
SE VIRA? Olha ele aí se virando...!
Esse cara não tem pai, não tem família pra ajudar, ao invés de ficar aí feito mendigo, dormindo ao relento, fazendo bagunça?
Família ele até que tem... a mãe viúva e doente, mora com a irmã, que cuida dela... e se alguém ajuda alguém aí nessa relação é o cara dos 850 reais sobrantes, que tem de ajudar a irmã a comprar coisas para a mãe, porque lá na casa da irmã também não sobram mais que 850 reais...
Mas, afinal, por que existe pobre?
Mas, e a mulher, não trabalha?
Trabalhar trabalha – e muito, cuida dos filhos pequenos, faz a marmita do marido, percorre os supermercados e feiras em busca de ofertas...
Mas mulher hoje em dia precisa trabalhar!
Isso é verdade — e ganhar igual aos homens para trabalho igual, acrescento eu — só que a mulher teve um filho há 6 meses e, de repente, pode ficar grávida novamente... o dono da loja acha melhor contratar uma mocinha solteira... Além de que, é preciso encontrar creche pra deixar as crianças, ir levar, buscar, mandar roupas, fraldas — nem sempre cabíveis dentro dos 850 reais acima sobrantes...
Mas, afinal, esse cara trabalha ou acampa?
Trabalha e acampa! Há lá um revezamento, parece que a mulher fica no lugar dele, com as crianças, na hora que ele está trabalhando, ou talvez fique lá, durante algumas horas, somente a barraca fechada... O cara não está lá sozinho, trata-se de um movimento, de um conjunto, de um coletivo...
Ah, sim, coletivo! Sei... vagabundos! baderneiros! Ele ganha mal? Por que ele não pede a conta e vai procurar um emprego melhor? Por que ele não abre um negócio próprio? Por que ele não faz um bico. Por que ele não arranja uma promoção, fala com o chefe? Por que ele não se vira?
SE VIRA? Olha ele aí se virando...!
Esse cara não tem pai, não tem família pra ajudar, ao invés de ficar aí feito mendigo, dormindo ao relento, fazendo bagunça?
Família ele até que tem... a mãe viúva e doente, mora com a irmã, que cuida dela... e se alguém ajuda alguém aí nessa relação é o cara dos 850 reais sobrantes, que tem de ajudar a irmã a comprar coisas para a mãe, porque lá na casa da irmã também não sobram mais que 850 reais...
Mas, afinal, por que existe pobre?
sábado, 16 de julho de 2016
AS BARRACAS E OS PROTESTOS
AS BARRACAS
AUTOPORTANTES E A CIDADANIA PAULISTANA
Nunca pensei que BARRACA pudesse
desempenhar papel tão destacado na cidadania desta megacidade. Na Paulista,
barracas pedem intervenção militar, a volta da ditadura de direita - liderada
por militares de direita. No viaduto do chá, barracas pedem que quem passou no
concurso para ser guarda civil seja admitido pela prefeitura. Isso num giro
rápido que fiz nesta semana. Se andasse mais, se xeretasse mais, barracas
encontraria que pedem mais moradia. E gente dentro de barraca há por todo lado –
gente que antes não tinha teto e agora tem: o teto da barraca.
Mas isso só foi possível com a Revolução
das Barracas. Quer dizer, revolução na fabricação de barracas: com a invenção
das barracas autoportantes. São esses igluzinhos que vemos por aí. Ficam
armadas sem qualquer fixação ao solo. Então, é possível armá-las sobre o
cimentado, a calçada, o asfalto. Quando comecei a acampar, 40 anos atrás, só
havia barraca do tipo canadense e do tipo bangalô: ferragens enormes e pesadas
e as lonas só ficavam esticadas se fixadas ao chão. Agora inventaram varetas
flexíveis e levíssimas, que se embainham na lona – que agora não é mais lona e
sim sintéticos leves e resistentes – e, quando curvadas, “inflam” tal tecido,
ou seja, armam a barraca, sem qualquer fixação.
Pois bem: tô pensando em organizar um
movimento, um protesto qualquer, cuja causa ainda vou pensar. Será um protesto
enorme, terá grande repercussão. Isso porque comprarei 50 (cincoenta ou
cinquenta) barracas – poucos protestos têm essa quantidade de barracas. Não
será preciso muito dinheiro, acho que uns 2 mil reais dá, são baratíssimas.
Contratarei 2 desempregados desqualificados, pagando uma merreca de diária,
para ficarem do lado de fora, montando guarda, disfarçados de colhedores de
assinaturas de um abaixo-assinado condizente com a minha causa. Ainda estou
pensando em como recuperarei o dinheiro investido. Mas o essencial já tenho: a
consciência de que é possível pôr as barracas na rua. Quer dizer, fazer um
protesto popular sem povo.
domingo, 10 de julho de 2016
JIRIMIA
O SORRISO DO JIRIMIA
Bem, está claro que, para o pedinte Jirimia, era ponto de honra não chamar o dono da casa, bater palma, campainha nem pensar. Enfim, não se anunciar de qualquer forma. Ele se considerava tão insignificante que sequer admitia comandar, com seu chamado, a alteração da rotina da casa.
Por isso, quando o dono – a dona, na maioria das vezes, pois o dono quase sempre estava fora – o atendia, encontrava-o com um leve sorriso nos lábios – sim, o Jirimia sorria! Um sorriso incompleto e mal conservado, cheio de dobras nos cantos da boca – tantas dobras e tão incompleto que parecia verde, tirado à força do fundo do fígado -, mas um sorriso. Que devia ser por causa do atendimento, pela vitória de ser notado, de ser contado, de comprovar mais uma vez a própria existência.
Dependendo do que dissesse o atendedor, chegava a rir. Uma risada truncada, aos solavancos, misturada aos resmungos. Uma risada contida, não reconhecida pelos pessimistas. Mas eu digo que ele ria, porque seus olhos brilhavam. Um brilho intenso, que ainda hoje não sei se era de felicidade ou de febre. Olhos perdidos nos infinitos laterais ou nos próprios pés, mas brilhantes, ardentes, todo ouvidos aos reclamos ou sugestões dos atendentes – só pela consideração do humano oposto, porque tinha a certeza de que não modificaria seu procedimento.
Jirimia preferia o atendimento feminino. Os homens lhe eram mais trabalhosos – ridículos -, com suas tiradas inoportunas ou absurdas sugestões. Alguns chegavam ao ponto de esgotar a paciência do Jirimia – sim, o Jirimia tinha impaciência! -, embora a manifestasse muito discretamente, apoiando-se numa única perna, alternadamente, sem, contudo, mover os pés de onde os havia plantado quando chegara.
Às mulheres, o Jirimia apenas sorria, esse sim um sorriso nervoso de pressa. Sentia nos olhos delas o incômodo que seu saco único provocava – aquele saco de algodão onde todos os grãos se misturavam. Sentia nelas a silenciosa reprovação, a mesma das suas quatro irmãs, tão desgastante... Não se identificava com as mulheres, guardava delas a distância da diferença, do perfume, do asseio, do sexo... Com os homens, ria – pequeno, mas ria -, identificando neles a própria rusticidade. Diria que chegava a ser-lhes solidário...
Enfim, o Jirimia ria. E estou convicto de que nem sempre era para não chorar. Admito até a felicidade naquele riso.
Bem, está claro que, para o pedinte Jirimia, era ponto de honra não chamar o dono da casa, bater palma, campainha nem pensar. Enfim, não se anunciar de qualquer forma. Ele se considerava tão insignificante que sequer admitia comandar, com seu chamado, a alteração da rotina da casa.
Por isso, quando o dono – a dona, na maioria das vezes, pois o dono quase sempre estava fora – o atendia, encontrava-o com um leve sorriso nos lábios – sim, o Jirimia sorria! Um sorriso incompleto e mal conservado, cheio de dobras nos cantos da boca – tantas dobras e tão incompleto que parecia verde, tirado à força do fundo do fígado -, mas um sorriso. Que devia ser por causa do atendimento, pela vitória de ser notado, de ser contado, de comprovar mais uma vez a própria existência.
Dependendo do que dissesse o atendedor, chegava a rir. Uma risada truncada, aos solavancos, misturada aos resmungos. Uma risada contida, não reconhecida pelos pessimistas. Mas eu digo que ele ria, porque seus olhos brilhavam. Um brilho intenso, que ainda hoje não sei se era de felicidade ou de febre. Olhos perdidos nos infinitos laterais ou nos próprios pés, mas brilhantes, ardentes, todo ouvidos aos reclamos ou sugestões dos atendentes – só pela consideração do humano oposto, porque tinha a certeza de que não modificaria seu procedimento.
Jirimia preferia o atendimento feminino. Os homens lhe eram mais trabalhosos – ridículos -, com suas tiradas inoportunas ou absurdas sugestões. Alguns chegavam ao ponto de esgotar a paciência do Jirimia – sim, o Jirimia tinha impaciência! -, embora a manifestasse muito discretamente, apoiando-se numa única perna, alternadamente, sem, contudo, mover os pés de onde os havia plantado quando chegara.
Às mulheres, o Jirimia apenas sorria, esse sim um sorriso nervoso de pressa. Sentia nos olhos delas o incômodo que seu saco único provocava – aquele saco de algodão onde todos os grãos se misturavam. Sentia nelas a silenciosa reprovação, a mesma das suas quatro irmãs, tão desgastante... Não se identificava com as mulheres, guardava delas a distância da diferença, do perfume, do asseio, do sexo... Com os homens, ria – pequeno, mas ria -, identificando neles a própria rusticidade. Diria que chegava a ser-lhes solidário...
Enfim, o Jirimia ria. E estou convicto de que nem sempre era para não chorar. Admito até a felicidade naquele riso.
sexta-feira, 17 de junho de 2016
O FOTÓGRAFO LAMBE-LAMBE
MAGIA BRANCA E PRETA.
Antes de falar
dessa tal magia, é preciso falar do mágico, quer dizer, do fotógrafo
lambe-lambe, pois muita gente não faz ideia do que estou propondo. O
lambe-lambe é um fotógrafo profissional que estaciona sua câmera-laboratório
numa praça e oferece seus serviços aos passantes. Quem quer tirar um retrato,
posa na frente da tal câmera-laboratório e daí a alguns minutos tem sua
fotografia em branco e preto sobre papel em mãos. Sim, tem sua imagem
materializada, impressa num papel, palpável, que nunca se deleta (ora, é
necessário escrever assim, neste mundo entupido de imagens virtuais guardadas
num arquivo digital).
E o que é essa
câmera-laboratório? É uma polaroid de fundo de quintal, fabricada
artesanalmente em geral pelo próprio fotógrafo. Com uma diferença fundamental:
é operada por um mágico. Enquanto a câmera polaroid era fabricada em série e
operada por cidadãos comuns, vomitando fotos instantâneas, a caixa do
lambe-lambe pari muito lentamente uma foto, mediante misteriosa manipulação do
mágico-fotógrafo.
A coisa é
realmente misteriosa. Uma caixa de madeira, quadrada, de cerca de 50cm de lado,
fixada sobre um tripé, igualmente de madeira e feito pelo mesmo artesão. Uma das
faces é fixada com dobradiças e funciona como tampa. Numa face é fixada uma
lente, normalmente arrancada de uma câmera antiga imprestável; na face oposta à
da lente e numa das faces laterais são feitos orifícios que caibam a mão do
fotógrafo. Longos capuzes vazados de tecido preto são acoplados nesses grandes
orifícios, de tal maneira que eles “vestem” parte do braço do operador, para
que não entre luz no interior da caixa quando o fotógrafo estiver manipulando
os materiais lá dentro. O fotógrafo pode também enfiar a cabeça dentro do capuz
oposto à lente, para visar o modelo através da lente e posicioná-lo
corretamente, construindo a pose.
Papel fotográfico
posicionado em frente ao orifício interno da lente, pose do modelo construída,
o fotógrafo levanta a tramela de arame que tampa e destampa a lente, expondo o
filme por 1, 2, 3 segundos – conforme a luminosidade-ambiente e a sua
experiência -, para que o negativo não fique branco demais ou escuro demais...
Pronto, foi batida a “chapa”.
Aí começa o
mistério. O mágico introduz as duas mãos através dos dois orifícios e, após
cerca de 2 minutos, retira-as, abre a tampa da caixa e retira de lá de dentro o
negativo da foto impregnado no papel, como se fora um coelho da cartola. Em
seguida, mergulha esse coelho, ops, esse papel num balde com água por alguns minutos. É
negativo porque o que é branco sai preto e o que é preto sai branco. Se o
freguês desejar uma fotografia perfeita (o positivo), o mágico nada mais faz
que fotografar esse negativo e revelá-lo normalmente, como no processo mágico
anterior. É que, negativo sobre negativo dá positivo.
E o que é que
acontece dentro daquela caixa? Ora, lá dentro há um pequeno escaninho,
indevassável à luz, para armazenar o papel fotográfico(o filme) já cortado no
tamanho da foto desejada. Inicialmente, o fotógrafo introduz as mãos com a
caixa fechada para tirar o filme desse escaninho e posicioná-lo na retaguarda
da lente. Após batida a chapa, o fotógrafo introduz novamente as mãos pelos
orifícios, retira o filme batido e mergulha-o numa pequena bandeja com líquido
revelador e, em seguida, em outra bandeja com líquido fixador. Está pronto o
negativo, que precisa apenas ser lavado no balde com água sobre a calçada.
Porém,
manipulações às cegas e caixas vedadas à parte, somente as crianças e os
alienados acreditam no mágico. Nosotros que paramos para tirar um retrato cheio
de pose e observar um pouco, logo notamos que a misteriosa caixa não passa de
uma minicâmara escura para manipular papel sensível à luz, e o homem-da-caixa
não é mais que um artesão da fotografia, da marcenaria e de outras alquimias.
Mágica de verdade o lambe-lambe faz é pra viver.
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