Ia eu pela Rua 13 de maio, aqui na Bela Vista, quando me deparei com um sobrado isolado, antigo e quase imponente. Era a Associação dos Alfaiates e Camiseiros do Estado de São Paulo. Era não; é. É! Tem até sítio na Web, conta uma história, diz que foi fundada em 1934 por empregados e empregadores...
Já havia passado centenas de vezes naquela calçada, e ao menos nos últimos 15 anos fico pasmo diante do sobrado e da placa de identificação: ainda há alfaiates! Então lembrei, nesta última passada, que eu mesmo já fiz roupa em alfaiate e camiseira (v. é véio hem cara!). Um tempo em que eu era pobre, mas limpinho (e cheiroso). E usava gravata.
Alfaiate fazia terno. Camiseira fazia camisa e, eventualmente, calça avulsa. Aquele era homem; esta era mulher. Era um tempo em que havia primeiro e segundo sexo (estou lendo Simone de Beauvoir). Alfaiate era muito mais importante que camiseira. Sendo que uma camiseira mixuruca era apenas costureira. Só que, homem costureiro, jamais!
Alfaiate era coisa fina e moderna: você visitava o ateliê apenas com a carteira de dinheiro e saía com a calça e o paletó prontos. Ele próprio comprava o tecido, você escolhia num mostruário. Na camiseira/costureira você levava o tecido, que comprava nas casas paraibanas. Ops, saía com a roupa pronta sim, mas só uns 30 dias ou mais depois, após voltar lá para provar a roupa alinhavada, confirmar medidas, provar outra vez...
O profissional da tesoura desentocava uns tecidos diferentes, só coisa boa. A casimira inglesa era o máximo, sonho de consumo de qualquer senhor de mais de 40 anos, junto com a botina de pelica(esta do sapateiro, outro que merece crônica). O mundo do giz,da régua, do molde e da tesoura ruiu completamente com a invenção do tergal (tecido sintético, tergal é marca). Era tão bom quanto a casimira mas custava uma ninharia, qualquer pobre podia usar(gugando encontrei o ótimo conto sobre a casemira inglesa, do Moacyr Scliar).
Outra coisa: o alfaiate e a camiseira eram especialistas em fazer vinco. E engomar a peça. Vinco é aquela dobra perfeita na peça, na manga da camisa, na perna da calça. Engomar roupa é mergulhar a peça numa água enriquecida com alguma maizena (amido de milho, maizena é marca), deixar secar e depois passar o ferro quente. Uma peça de linho branco engomada era um inquestionável atestado de bom comportamento e nenhuma preguiça( isso para os pobres, porque nas casas ricas havia uma profissional específica para tal tarefa: a engomadeira).
Você quer coisa mais desinteligente do que uma peça de linho/algodão branco engomada? Tem coisa mais anacrônica, mais fora de moda, do que passar roupa? Tudo bem, tudo bem, eu mesmo ainda tenho camisas de algodão, ainda passo alguma roupa. Mas aquela roupa impecável, lisa, perfeitamente vincada, é coisa passada. Aquilo vestia as ideias passadas, conformava os gestos comedidos do passado, disfarçava o corpo pálido e contido do passado.
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