Não sei porque inventei de levar a Bicy para passear no centrão, no último sábado à tarde. Se tivesse ficado em casa vendo tela teria evitado o desgosto. Desci a Liberdade, cruzei a Praça da Sé, a Rua Boa Vista e o Vale do Anhangabaú por cima do Viaduto Santa Ifigênia. Aí já é centro novo. No final do viaduto, onde começa a Cásper Líbero, vi de relance uns jovens encostados na parede sendo revistados por policiais, cena corriqueira no pedaço. Os mais velhos sabem que o centro novo vai do Anhangabaú até o Largo do Arouche, mais ou menos. Isso há 40 anos; agora aquilo é área degradada.
Continuei o passeio e cruzei o Largo do Paissandu e a Avenida São João, para entrar na área de calçadões entre o Teatro Municipal e a Praça da República. Ia pela Dom José de Barros quando, próximo ao cruzamento com a 24 de maio, a cena se repetiu: soldados revistando garotos pobres com pinta de bandido. Mas essa cena eu não vi de relance nem dei de ombros para ela, como já fiz com as milhares de outras semelhantes.
Eu estava parado na esquina, contemplando o prédio onde funcionava a Mesbla, suntuosa loja de departamentos. Nos anos 1970 os mais pobres frequentavam o Mappin, ali no começo da Barão de Itapetininga, em frente ao Teatro (hoje funciona ali uma Casas Bahia); os mais endinheirados ou mais frescos frequentavam a Mesbla - são duas quadras de distância. Então vi a cena desde os camarins, ou seja, vi as partes se aproximando, dois jovens de um lado, dois policiais do outro, todos pobres e pardos. E decidi acompanhar do mais perto possível, sem perder nenhum lance.
É comum num sábado à tarde os garotos saírem para dar um rolê, que entra noite adentro. Têm o domingo para descansar. Vestem suas melhores roupas, todas moderninhas, tênis, brincos, tatuagens, cabelos incrementados, bonés. Andam disfarçando o deslumbramento com o centro, que estão conhecendo agora. Não carece de muita vivência na cidade para ver que são pobres e analfabetos (funcionais). Além de pardos: já quase não há pretos no Brasil, assim como não há brancos: estes ficaram pardos pelo mormaço tropical e aqueles ficaram pardos pela miscigenação. Os brancos de verdade não estão dando sopa no metrô nem nas ruas, qualquer que sejam elas; estão entre muros ou entre parabrisas blindados...
Os policiais chegam chegando. Ordenam "mãos e olhos na parede, pernas abertas", vão metendo as mãos e as botas como se estivessem lidando com cavalos, quer dizer, um deles; o outro fica de arma em punho a uma certa distância... Os garotos não são tão ingênuos como eu pensara, a julgar pelo comportamento. Abaixam o olhar, não falam nada, obedecem a todas as ordens e, ao final, após a revista, quando solicitados, tiram do bolso traseiro a carteira profissional molambenta, onde está registrado o emprego de salário molambento, mas limpinho.
Enfim libertos, mas ressabiados, olhando de lado, sorrindo amarelo sem-graça, cabisbaixos, continuam o passeio. (agora que escrevo, frio e longe, cogito a possibilidade de que só eu vi e senti tanta humilhação, limitado que estava pelo sufoco do nó na garganta e os olhos mareados. Com desalento, creio mesmo que os jovens continuaram o passeio noite adentro, até felizes com a distinção policial).
Nenhum comentário:
Postar um comentário