Eu e Bicy e vários passantes disputávamos a travessia da Senador Queiroz para entrar na Florêncio de Abreu quando já vi, lá na frente, uma quantidade maior que o normal de pedestres. E estavam parados e tranquilos, vários encostados nos carros estacionados. Do alto do selim, após pedalar muito e já suado, e familiarizado com o povão nas ruas, sem nenhum parabrisa a atrapalhar o entendimento, saquei tudo: uma Receita qualquer, acompanhada de duas viaturas da polícia civil, baixou na galeria, para regozijo dos trabalhadores, que ganhavam um pretexto para ir respirar lá fora sem culpa. E ainda havia uma ambulância completando a segunda fila, que acho que não tinha nada a ver com o fuzuê.
(Já pensaram se todas as Receitas e todos os tribunais e todas as autarquias e corregedorias e controladorias e oligarquias aplicassem de modo intenso e imparcial seu arsenal legal e normativo?)
Ali no começo da Florêncio agora tem várias galerias de xig-lig. A Florêncio era a rua das casas de ferragens e ferramentas - eu era freguês assíduo -, mas os xig-ligs estão invadindo tudo. A contaminação provem da 25 de março, lá embaixo. Como os formigueiros, da noite para o dia acrescentam-se corredores de células-loja e respectivos operadores e a coisa vai-se alastrando; é impossível definir o que vendem: vendem bugigangas. Relembre seu estado de espírito quando você entra (e todos entramos!) numa ratoeira dessas: venal. Banal. Carnal. Entramos ali insensíveis - quase desumanos - sempre querendo levar vantagem. Invariavelmente saímos lesados: não pelos comerciantes, mas por nossa ganância e pela natureza essencial de todos os produtos ali vendidos.
O "ratoeira" ali em cima não tem nada a ver com safadeza de quem quer que seja. É no sentido do aranzel de corredores e escadas e vielas - tudo muito estreito e cheio de curvas - onde periga o neovisitante ficar pra sempre, sem conseguir sair, como os ratos nas ratoeiras. Os comerciantes são honestos. Certa feita fui devolver uma lanterna, cuja sordidez só descobri em minha casa, preparado pra brigar com o vietnamita. Ele pegou a lanterna e me devolveu o dinheiro quase sem cara feia. Quando comprei, não olhei direito... Ouso afirmar que todos os comerciantes de verdade são honestos. É pré-requisito profissional. E não basta serem honestos, precisam parecer honestos. Só que os orientais dos xig-ligs não atendem à última parte da máxima, daí que, periodicamente, são visitados pelas Receitas.
Mas não tem jeito (Isto me cheira a revolução). Olho aquela soruba de lojas e produtos e vendedores e compradores com o mesmo desprezo com que os senhores feudais olhavam seus súditos desgarrados a comerciar picado sal e farinha( o resultado da disputa entre aqueles comerciantes e os todopoderosos senhores feudais nós sabemos qual foi). As Receitas saem no lucro: são aplaudidas pelos comerciantes tradicionais remanescentes, assim como fazemos quando vemos a polícia prender um pé-rapado no meio da rua: pensamos que estão combatendo a sonegação e o crime... Enquanto isso, vamos levando de goleada na guerra cívico-comercial não tão surda que se desenrola. A prova da nossa derrota era a tranquilidade da torcida adversária ali nas calçadas da Florêncio: fumavam e batiam papo só ou em rodinhas - felizes como gado com o imprevisto descanso -, enquanto os fiscais se esfalfavam lá dentro.
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