sexta-feira, 29 de novembro de 2019

FUI À BLÉQUI FRÓIDE.

Só Fraude explica. Fui à Bléqui Fróide, acredita? Tava o maió legal, tudo pela metade. O vagão do trem, a calçada da Boa Vista, as faixas de travessia de pedestres, tudo pela metade. Havia muita gente. Gente enchendo e transbordando a metade de tudo.
Tava o maió carnaval, bandinha na calçada — quer dizer, metade de uma bandinha mixuruca —, avião jogando confete, um despropósito dobrado de papel picado no chão, uma gritaria da porra, devidamente alltofalantada, gente em cima, embaixo, gente saindo pelo ladrão e pela calçada, gente até a tampa de uma loja com a metade do espaço necessário.
Os cafumangos que atendiam sorriam forçado e amarelo, abrindo apenas a metade da boca, sabe esses sorrisos com apenas um canto da boca, chochos, incompletos? É que o salário deles é só metade. Uma mocinha mostrava as pernas (inteiras) porque sua saia estava pela metade. Os ambulantes clandestinos portavam só metade da muamba, para levarem só metade do prejuízo, caso fossem vítimas do rapa.
Como já disse, tudo tava pela metade, aproveitei e comprei um monte de bugiganga, quase tudo coisa que não tô precisando não, no momento, mas certamente vou precisar, amanhã ou depois. Eu já tava mémo ali na muvuca, as mercadorias tavam lá falano mi leva, o povo metia a mão e levava, a mão do povo é a mão de deus, então tamém levei.
Pra completá a quizumba, tava teno o enterro do Gugu, era TV pra todo lado transmitindo a cerimônia, tava muito bão, muitos artistas, cada um mió que o outro, tudo de óculos escuros pra ninguém vê chorá, num guentei e pensei, coitado do Gugu, ganhava 1500 vezes mais que meu falecido sobrinho, que tamém teve a cabeça quebrada mês passado.
Fui e voltei sem pagá nada, sô véio, num pago nem metade. Essa mamata vai acabá, isso é coisa de cumunista. Eu compro mémo, pra ajudá o governo. Num sô um miserávi, como meu finado pai, que ganhava só 80 dólares de aposento, que era o salário mínimo da época. Sô classe média, ganho 250 dólares por mês, quase quatro vezes mais que meu pai, isso porque o dólar num tá ajudano na conta...
Quer dizer, ganho em reais, mas um dia ainda ganharei em dólares de verdade, que ainda hei de morar em Miami, nesta vida. Mas, cá entre nós, eu acho que esse negócio de pagá 250 dólares pra vagabundo é coisa de cumunista. Reconheço que não produzo nada, não mereço. Por isso aproveito, compro mémo, enquanto posso — que essa mamata vai acabá.
Vinha vortano, pareceno uma mula arriada de tanta sacola, na ponta da rua tinha um zé povinho de nariz empinado fazeno arruaça, falano muito alto que tava tudo pela metade do dobro. Eu sei lá que diabeísso!


quinta-feira, 21 de novembro de 2019

IRONIA É COISA DO DIABO.


Dei uma resposta irônica a um amigo e me arrependi na hora. Mas as palavras já estavam viajando no vento e não havia mais jeito. O humano é prioritariamente puro. Submetido ao sarcasmo, corrompe-se. O Sarcasmo é coisa de Satanás. Por definição, um amigo é bom. Aí você tasca sua ambiguidade nele e a amizade desanda. A Ambiguidade é manha do Falso. A leitora entra desarmada no palavrório alheio. Então recebe uma cacofonia de antíteses e catacreses, coitada, e sai embananada. A Cacofonia, a Antítese e a Catacrese são artimanhas do Demo. 

Um pastor prega por metáforas. Não devia, pois Metáfora não é coisa de Deus. A mocinha bem-composta me entrega o jornal da Universal junto com uma enxurrada ensaiada e decorada de circunlóquios e alegorias. Azar o dela em ter jorrado sua ladainha em direção a um senhor anacoluto, eis que ficou sabendo, no contrafluxo, que Circunlóquio e Alegoria não deviam andar na boca de uma serva de Deus.

Já a dupla que testemunhou Jeová é uma cacofonia ambulante na via pública, pela vestimenta e a compostura visigóticas destoantes. Mas estou esperto que aquele anacronismo candente é coisa do Demônio, puro disfarce para entregar a multinacional JW . ORG. Enfim, as duas senhoras escrupulosamente trajadas, falando todos os erres e esses e pronomes na segunda pessoa, ficaram sabendo que a Cacofonia e a Internet são atalhos seguros para o Inferno. 

Tanta gente virtuosa na via pública lembra as Virtudes. Como é que um sujeito prudente se mete a escrever? Porque escrever é coisa do Maldito e a Prudência é virtude teologal. Como é que este homem pode exercer sua fortaleza, neste mundo cheio de cascas de banana metafóricas e dialéticas? Porque Fortaleza é coisa de quem não tem dúvidas, de quem vive num mundo concreto e plano, que não gira e não volta.

Agora sim: a igualdade é coisa do Belzebu. Porque a igualdade elimina a inveja, antítese da bondade. Donde concluo que só é possível ser bom num mundo desigual, ops, mau. Como poderia salvar minha alma, sem a possibilidade de ser bom? A minha ingenuidade é coisa do Capeta, perdi tempo procurando Igualdade em todos os róis de coisas desejáveis.

Outra coisa: como ser casto, nesta cidade cheia de Shoppings Centers? A Literatura não é coisa de Deus. Nunca a caridade foi tão possível, com tanto mendigo na rua. Como ter paciência, diante de tanta gula?

Taí o nosso problema: a Retórica e a Linguística. Acho que era por isso que a Igreja proibia o acesso dos ignorantes às Escrituras. Acho que era por isso que a TV dourava a pílula. Saudade do tempo em que as conversas banais ficavam circunscritas aos botecos e quintais.

Enfim, os boçais boiaram e estão à vista de todos, primeiro passo para acabar com eles. Que sejam bombardeados com cultura e esclarecimento. Deus é coisa do Diabo. E a ironia é o último recurso da irada temperança.




terça-feira, 12 de novembro de 2019

REI DO CAFÉ.

     
Vocês já devem ter ouvido falar num personagem do mundo caipira do interior paulista, que é o rei do café. Pois não somente ele existiu, como se chamava Henrique Dumont e era pai do nosso Alberto Santos Dumont, o do avião. E, claro, morava em Ribeirão Preto, na zona rural, em sua fazenda, que depois virou o município de Dumont e sua casa virou a sede da prefeitura.

Naquelas últimas décadas do século XIX e primeiras décadas do século XX, as terras argilosas — por isso, avermelhadas — de Ribeirão Preto eram o centro do apogeu da cafeicultura paulista — e brasileira. E até as famílias ricas moravam na fazenda. Mais de 80% da população brasileira morava na zona rural.

A vida social acontecia nos salões das enormes casas-sede das fazendas. E no entorno da nascente Ribeirão Preto havia muitas dessas fazendas. Uma delas era a de Henrique Dumont, brasileiro, mineiro, de pais franceses, que era engenheiro e iniciou sua fortuna construindo ferrovias para o Império do Brasil.
 
     Naquele tempo não havia Forbes ou Fortune ou Exame e seus rankings de homens mais ricos. Os capitalistas, ao menos no Brasil, ainda não se haviam juntado em sociedades anônimas e conglomerados financeiro-econômicos. As fortunas ainda eram pessoais. Os homens mais ricos ainda não se preocupavam em se esconder atrás de intrincados organogramas jurídico-contábil-fiscal. Os muros de suas casas ainda não eram tão altos. Seus carros ainda não eram blindados.
Aliás, não havia automóveis(o primeiro automóvel brasileiro foi importado pelo filho do Henrique — o Alberto , anos depois de sua morte). O território estava em expansão e havia o entendimento geral de que todos podiam ficar ricos, era só querer, se esforçar… Os que sabiam de lógica e economia e política e história e estatística minimamente para deduzir que a existência de um rico implica necessariamente a existência de milhares de pobres eram tão poucos que formavam uma seita, malvista pela população em geral.

Em Ribeirão Preto, e em todo o interior paulista, homens se punham a desmatar terras(mulher nenhuma tinha posses, o machismo era tamanho que mulher nem votava), plantar café, juntar o lucro — que era alto — e reinvesti-lo em mais terras e mais café, num processo de acumulação cuja prática caberia na tabela internacional de doenças mentais. O homem que ganhava essa corrida era aclamado como herói e coroado como rei do café (em outras regiões havia o rei do gado, o rei da cana, o rei da soja…). Depois esse rei morria, sua família dissipava parte da fortuna, emergia outro rei…

     Interessante é que esses bilionários e suas famílias iam de um salão a outro de charrete. Os pobres andavam a pé. Os ricos andavam a cavalo ou de charrete — uma espécie de carruagem aberta cortada ao meio na transversal. Enquanto a carruagem (ou trole) tinha 4 rodas e dois bancos e era tracionada por vários cavalos, a charrete(ou semitrole) tinha apenas duas rodas e um banco e permanecia na horizontal graças ao apoio de dois varais fixos em um único cavalo de tração.

O motivo dessa simplificação era mais prático do que econômico. É que as estradas eram muito precárias, quanto mais rodas e maior o veículo, mais difícil a passagem. Era difícil até para as charretes. Trânsito bom mesmo era o das tropas montadas.

Era tanto tranco nos veículos de rodas que o rei do café caiu de uma charrete e quebrou a coluna, ficou com parte do corpo paralisada, vendeu tudo, tentou se curar na terra dos pais — a França —, não conseguiu, voltou, morreu logo depois, com 60 anos de idade, deixando a grana para os filhos, todos emancipados.
(trecho de UM MILHÃO DE PASSOS PENSOS, no Picadão de Cuyabá, eBook lançado em 2018 e à venda na Amazon).



quarta-feira, 6 de novembro de 2019

A TERRA NÃO É PLANA.

Dia desses, vi um adesivo num carro assim: “A TERRA NÃO É PLANA”. Opa!, alarme! Se há uma campanha publicitária na rua para refutar os terraplanistas, o caso é sério. Se a coisa está na base do “É” e “NÃO É”, o caso é raso.
Fui ao Youtube e descobri uma entrevista do Gentili com 4 terraplanistas. Tudo bem, o programa é de piadas, mas a conversa e a contraconversa de mais de 30 minutos não me pareceram nada engraçadas.
E fiquei sabendo que agora em novembro haverá um congresso sobre a Terra Plana aqui no Brasil. Que o Datafolha perguntou e descobriu que 11 milhões de brasileiros acreditam que o planeta Terra é plano.
E vou descobrindo que estão tentando — acho que no Congresso (ou seria na ALESP?) — revogar a Lei da Gravidade; e declarar clandestinas todas as balanças eletrônicas(eis que sem essa lei essas balanças não funcionam), ouvi boatos e beatas de que a Janaína vai propor.
Na Comunidade Científica, não se leva a sério quem fala em Criacionismo (talvez na Ciência Política…). Após a invenção do microscópio, o sequenciamento genético, os estudos de Darwin, a fertilização in vitro, a ressonância magnética; após os conhecimentos da Química Orgânica, da Física Quântica, das nanopartículas, a descoberta do antibiótico, o Criacionismo deixou de ser levado em conta.
Mas junto ao povão, o Criacionismo vige. E para nosotros, não é fácil mostrar as evidências contrárias, porque elas não são familiares nem a nós. Nós, comuns mortais que também não levamos a sério o Criacionismo, o fazemos pelo conjunto de cultura e experiência adquiridas em sistemas educacionais sérios e confiáveis e em múltiplas fontes de informação.
Entretanto — ô meu Deus do céu! — eu pensava que não era o caso da Terra Redonda. Eu pensava que ao menos isso já havia ficado evidente óbvio ululante, pacificado em nossa espécie.
Ledo e Ivo engano.
E agora?
Por que a Terra não é plana? Qual a prova de que a Terra é redonda?
É como se o mundo tivesse retrocedido ao tempo em que não havia telescópio, nem satélite, nem GPS, nem circunavegação, nem viagem para a Austrália via Chile ou viagem para a Austrália via Emirades; não havia pais morando no Brasil e filhos trabalhando no Japão, jatos comerciais a 40 mil pés de altitude, ninguém tivesse chegado ao cume do Everest…
Por que a Terra é redonda? Por que tomar vacina? Por que os partidos políticos são necessários? Por que não votar nesse ogro?
Porque sim, Zequinha*! Não tem conversa**.

(* bordão do Castelo Rá-Tim-Bum, programa infantil da TV Cultura, anos 1990)
(** ou integramos o povão ao nosso mundo — pelo ataque drástico a todas as desigualdades — ou cairemos todos no Além-beiradas do Planeta Chato).




domingo, 3 de novembro de 2019

SPAGHETTI.

MACARRÃO AO AR PURO E SECO.
O que custa um pacote de macarrão? Um custo suportável, se o pedinte, ao vê-lo com a panturrilha estirada, inativo à beira do gramado, exclama pesaroso:
Mas não era o senhor que estava ontem ali, correndo pra caramba?
Era — respondo —, estava bom, tanto que vim aqui pra jogar. Mas agora, no aquecimento, ao primeiro esforço, senti a fisgada…
Eu estava atrás do gol, dando uma de gandula capenga, ele encostou em mim, para me ajudar. No outro lado do campo não havia gandula, fui pra lá, ele foi atrás, estava me marcando. Precisava dum pacote de macarrão.
Cozinhamos todo nosso macarrão ontem, estávamos esperando nossos amigos, eles não vieram, tivemos de jogar tudo fora e ficamos sem nada.
Então você era um dos que estavam ontem ali, embaixo da árvore?
Sim, descemos lá da Paulista, viemos pra passar uns dias por aqui, a gente sempre faz isso.
Ele, mais um casal e um filhote de gato. Sendo que, dos quatro, só o gato não é sem-teto, tem casa própria, dessas portáteis. Só não sei se o gato come macarrão. Mas é certo que não falta ração de gato nesta cidade.
O senhor vem sempre aqui?
Toda semana.
O senhor poderia trazer pra gente um pacote de macarrão?
O jovem não estava desempregado, nem bêbado, nem louco, nem doente, nem sujo, nem tinha filhos; precisava dum pacote de macarrão para cozinhar com os amigos. Não pra semana que vem, pr'agora, no almoço.
Estava sem dinheiro, aos sábados saio de casa só com água, já com o meião levantado para a peleja. Aquilo ia me dar trabalho, ainda mais com a perna direita troncha.
Não, ele não precisaria trocar o pacote no bar próximo por um quarto de 51, porque, junto, iria uma garrafa de conhaque para a sustança introdutória e um sachê de café, para a boa digestão.
Mas, ao cogitar tal stravaganza, me deparei com uma terrível suspeita/constatação: o povão come macarrão puro! O povão come arroz puro. Mandioca pura. Rapadura pura. Pão puro. Quase sempre frio, seco, sem sal, sem óleo. O povão come o que pinga, quando pinga, do jeito que pinga.
O povão chuta com todas as pernas. O povão esperneia com todas as pernas.
O povão nem supõe rigatoni, penne; tampouco fusilli, conchiglie ou farfalle; muito menos talharim ou bucatini ou fettuccini. O povão conhece e sonha com macarrão. Puro.
Desaforo! Neste almoço, esses três vão comer spaghetti à bolognesa. O gato que descole sua ração, isso é fácil.
Xiii, esqueceu-se o queijo ralado!!!

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

DEZ MICROCRÔNICAS.


I) Sujeito difícil. Varou a noite, saiu sem comer, desceu na Butantã, alugou uma bicicleta e chegou a tempo de entregar o trabalho. Almoçou no bandejão, tomou o remédio, escovou os dentes, devolveu a bicicleta e se jogou na lagoa Rodrigo de Freitas.

II)Teve certeza de que estava tudo acabado quando ela devolveu-lhe todas as cartas, pedindo que devolvesse as que lhe enviara nos longos 3 meses. O adjetivo “longos” doeu.

III)Chegou ao ponto esbaforido, teve sorte, o Ipiranga passou logo; mas perdeu quase tudo no congestionamento.

IV)Assustava os freqüentadores do parque. Mas era um homem, me convenci ao vê-lo entrando no banheiro.

V) Domingo. 8h. 8 graus. Ninguém na rua. O homem em mangas de camisa assobiava na calçada, sem casa e sem contas. A cachaça fora suficiente apenas para esquentar e alimentar.

VI) Ciclista vestindo roupas escuras passa incólume pela Rebouças. Ainda bem, pois não portava documentos.

VII) Antissocial política e pessoalmente, não gostava de vizinhos, mudou-se para um latifúndio.

VIII) Pedestres apressados, a multidão clareava ao seu redor. Caminhava só, desajeitado, a mão direita segurando a muleta e o envelope grande da clínica ortopédica.

IX) Caiu de velho, morrendo de maduro, apodrecido de anos.

X)Centrada, altiva, bonita, desolada. Teria ensejado ou visto algo hediondo?