MACARRÃO
AO AR PURO E SECO.
O
que custa um pacote de macarrão? Um custo suportável, se o pedinte,
ao vê-lo com a panturrilha estirada, inativo à beira do gramado,
exclama pesaroso:
— Mas
não era o senhor que estava ontem ali, correndo pra caramba?
— Era
— respondo —, estava bom, tanto que vim aqui pra jogar. Mas
agora, no aquecimento, ao primeiro esforço, senti a fisgada…
Eu
estava atrás do gol, dando uma de gandula capenga, ele encostou em
mim, para me ajudar. No outro lado do campo não havia gandula, fui
pra lá, ele foi atrás, estava me marcando. Precisava dum pacote de
macarrão.
— Cozinhamos
todo nosso macarrão ontem, estávamos esperando nossos amigos, eles
não vieram, tivemos de jogar tudo fora e ficamos sem nada.
— Então
você era um dos que estavam ontem ali, embaixo da árvore?
— Sim,
descemos lá da Paulista, viemos pra passar uns dias por aqui, a
gente sempre faz isso.
Ele,
mais um casal e um filhote de gato. Sendo que, dos quatro, só o gato
não é sem-teto, tem casa própria, dessas portáteis. Só não sei
se o gato come macarrão. Mas é certo que não falta ração de gato
nesta cidade.
— O
senhor vem sempre aqui?
— Toda
semana.
— O
senhor poderia trazer pra gente um pacote de macarrão?
O
jovem não estava desempregado, nem bêbado, nem louco, nem doente,
nem sujo, nem tinha filhos; precisava dum pacote de macarrão para
cozinhar com os amigos. Não pra semana que vem, pr'agora, no almoço.
Estava
sem dinheiro, aos sábados saio de casa só com água, já com o
meião levantado para a peleja. Aquilo ia me dar trabalho, ainda mais
com a perna direita troncha.
Não,
ele não precisaria trocar o pacote no bar próximo por um quarto de
51, porque, junto, iria uma garrafa de conhaque para a sustança
introdutória e um sachê de café, para a boa digestão.
Mas,
ao cogitar tal stravaganza, me deparei com uma terrível
suspeita/constatação: o povão come macarrão puro! O povão come
arroz puro. Mandioca pura. Rapadura pura. Pão puro. Quase sempre
frio, seco, sem sal, sem óleo. O povão come o que pinga, quando
pinga, do jeito que pinga.
O
povão chuta com todas as pernas. O povão esperneia com todas as
pernas.
O
povão nem supõe rigatoni, penne; tampouco fusilli, conchiglie ou
farfalle; muito menos talharim ou bucatini ou fettuccini. O povão
conhece e sonha com macarrão. Puro.
Desaforo!
Neste almoço, esses três vão comer spaghetti à bolognesa. O gato
que descole sua ração, isso é fácil.
Xiii,
esqueceu-se o queijo ralado!!!
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