terça-feira, 12 de novembro de 2019

REI DO CAFÉ.

     
Vocês já devem ter ouvido falar num personagem do mundo caipira do interior paulista, que é o rei do café. Pois não somente ele existiu, como se chamava Henrique Dumont e era pai do nosso Alberto Santos Dumont, o do avião. E, claro, morava em Ribeirão Preto, na zona rural, em sua fazenda, que depois virou o município de Dumont e sua casa virou a sede da prefeitura.

Naquelas últimas décadas do século XIX e primeiras décadas do século XX, as terras argilosas — por isso, avermelhadas — de Ribeirão Preto eram o centro do apogeu da cafeicultura paulista — e brasileira. E até as famílias ricas moravam na fazenda. Mais de 80% da população brasileira morava na zona rural.

A vida social acontecia nos salões das enormes casas-sede das fazendas. E no entorno da nascente Ribeirão Preto havia muitas dessas fazendas. Uma delas era a de Henrique Dumont, brasileiro, mineiro, de pais franceses, que era engenheiro e iniciou sua fortuna construindo ferrovias para o Império do Brasil.
 
     Naquele tempo não havia Forbes ou Fortune ou Exame e seus rankings de homens mais ricos. Os capitalistas, ao menos no Brasil, ainda não se haviam juntado em sociedades anônimas e conglomerados financeiro-econômicos. As fortunas ainda eram pessoais. Os homens mais ricos ainda não se preocupavam em se esconder atrás de intrincados organogramas jurídico-contábil-fiscal. Os muros de suas casas ainda não eram tão altos. Seus carros ainda não eram blindados.
Aliás, não havia automóveis(o primeiro automóvel brasileiro foi importado pelo filho do Henrique — o Alberto , anos depois de sua morte). O território estava em expansão e havia o entendimento geral de que todos podiam ficar ricos, era só querer, se esforçar… Os que sabiam de lógica e economia e política e história e estatística minimamente para deduzir que a existência de um rico implica necessariamente a existência de milhares de pobres eram tão poucos que formavam uma seita, malvista pela população em geral.

Em Ribeirão Preto, e em todo o interior paulista, homens se punham a desmatar terras(mulher nenhuma tinha posses, o machismo era tamanho que mulher nem votava), plantar café, juntar o lucro — que era alto — e reinvesti-lo em mais terras e mais café, num processo de acumulação cuja prática caberia na tabela internacional de doenças mentais. O homem que ganhava essa corrida era aclamado como herói e coroado como rei do café (em outras regiões havia o rei do gado, o rei da cana, o rei da soja…). Depois esse rei morria, sua família dissipava parte da fortuna, emergia outro rei…

     Interessante é que esses bilionários e suas famílias iam de um salão a outro de charrete. Os pobres andavam a pé. Os ricos andavam a cavalo ou de charrete — uma espécie de carruagem aberta cortada ao meio na transversal. Enquanto a carruagem (ou trole) tinha 4 rodas e dois bancos e era tracionada por vários cavalos, a charrete(ou semitrole) tinha apenas duas rodas e um banco e permanecia na horizontal graças ao apoio de dois varais fixos em um único cavalo de tração.

O motivo dessa simplificação era mais prático do que econômico. É que as estradas eram muito precárias, quanto mais rodas e maior o veículo, mais difícil a passagem. Era difícil até para as charretes. Trânsito bom mesmo era o das tropas montadas.

Era tanto tranco nos veículos de rodas que o rei do café caiu de uma charrete e quebrou a coluna, ficou com parte do corpo paralisada, vendeu tudo, tentou se curar na terra dos pais — a França —, não conseguiu, voltou, morreu logo depois, com 60 anos de idade, deixando a grana para os filhos, todos emancipados.
(trecho de UM MILHÃO DE PASSOS PENSOS, no Picadão de Cuyabá, eBook lançado em 2018 e à venda na Amazon).



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