Vocês
já devem ter ouvido falar num personagem do mundo caipira do
interior paulista, que é o rei do café. Pois não somente ele
existiu, como se chamava Henrique Dumont e era pai do nosso Alberto
Santos Dumont, o do avião. E, claro, morava em Ribeirão Preto, na
zona rural, em sua fazenda, que depois virou o município de Dumont e
sua casa virou a sede da prefeitura.
Naquelas
últimas décadas do século XIX e primeiras décadas do século XX,
as terras argilosas — por isso, avermelhadas — de Ribeirão Preto
eram o centro do apogeu da cafeicultura paulista — e brasileira. E
até
as famílias ricas moravam na fazenda. Mais
de 80% da população brasileira morava na zona rural.
A
vida social acontecia nos salões das enormes casas-sede das
fazendas. E no entorno da nascente Ribeirão Preto havia muitas
dessas fazendas. Uma delas era a de Henrique Dumont, brasileiro,
mineiro, de pais franceses, que
era engenheiro e iniciou sua fortuna construindo ferrovias para o
Império do
Brasil.
Naquele
tempo não havia Forbes ou Fortune ou Exame e seus rankings de homens
mais ricos.
Os
capitalistas, ao menos no Brasil, ainda não se haviam juntado em
sociedades anônimas e conglomerados financeiro-econômicos. As
fortunas ainda eram pessoais. Os homens mais ricos ainda não se
preocupavam em se esconder atrás de intrincados organogramas
jurídico-contábil-fiscal. Os muros de suas casas ainda não eram
tão altos. Seus carros ainda não eram blindados.
Aliás,
não havia automóveis(o
primeiro automóvel brasileiro foi importado pelo filho do
Henrique — o
Alberto —,
anos depois de sua morte).
O território estava em expansão e havia o entendimento geral de que
todos podiam ficar ricos, era só querer, se esforçar… Os que
sabiam de lógica e economia e política e história e estatística
minimamente para deduzir que a existência de um rico implica
necessariamente a existência de milhares de pobres eram tão poucos
que formavam uma seita, malvista pela população em geral.
Em
Ribeirão Preto, e em todo o interior paulista, homens se punham a
desmatar terras(mulher nenhuma tinha posses, o machismo era tamanho
que mulher nem votava), plantar café, juntar o lucro — que era
alto — e reinvesti-lo em mais terras e mais café, num processo de
acumulação cuja prática caberia
na tabela internacional
de doenças mentais. O homem que ganhava essa corrida era aclamado
como herói e coroado como rei do café (em outras regiões havia o
rei do gado, o rei da
cana, o
rei
da soja…).
Depois esse rei morria, sua família dissipava parte da fortuna,
emergia outro rei…
Interessante
é que esses bilionários e suas famílias iam de um salão a outro
de charrete. Os pobres andavam a pé. Os
ricos andavam a cavalo ou de charrete — uma espécie de carruagem
aberta cortada ao meio na transversal. Enquanto a
carruagem (ou
trole) tinha
4 rodas e dois bancos e era tracionada por vários
cavalos,
a charrete(ou
semitrole)
tinha apenas duas rodas e um banco e permanecia na horizontal graças
ao apoio de dois varais fixos em um único cavalo de tração.
O
motivo dessa simplificação era mais prático do que econômico. É
que as estradas eram muito precárias, quanto mais rodas e maior o
veículo, mais difícil a passagem. Era difícil até para as
charretes. Trânsito bom mesmo era o das tropas montadas.
Era
tanto tranco nos veículos de rodas que o rei do café caiu de uma
charrete e quebrou a coluna, ficou com parte do corpo paralisada,
vendeu tudo, tentou se curar na terra dos pais — a França —, não
conseguiu, voltou, morreu logo depois, com 60 anos de idade, deixando
a grana para os filhos, todos emancipados.
(trecho
de UM MILHÃO DE PASSOS PENSOS, no Picadão de Cuyabá, eBook lançado
em 2018 e à venda na Amazon).
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