Dei
uma resposta irônica a um amigo e me arrependi na hora. Mas as
palavras já estavam viajando no vento e não havia mais jeito. O
humano é prioritariamente puro. Submetido ao sarcasmo, corrompe-se.
O Sarcasmo é coisa de Satanás. Por definição, um amigo é bom. Aí
você tasca sua ambiguidade nele e a amizade desanda. A Ambiguidade é
manha do Falso. A leitora entra desarmada no palavrório alheio.
Então recebe uma cacofonia de antíteses e catacreses, coitada, e
sai embananada. A Cacofonia, a Antítese e a Catacrese são artimanhas do
Demo.
Um
pastor prega por metáforas. Não devia, pois Metáfora não é coisa
de Deus. A mocinha bem-composta me entrega o jornal da Universal
junto com uma enxurrada ensaiada e decorada de circunlóquios e
alegorias. Azar o dela em ter jorrado sua ladainha em direção a um
senhor anacoluto, eis que ficou sabendo, no contrafluxo, que
Circunlóquio e Alegoria não deviam andar na boca de uma serva de
Deus.
Já
a dupla que testemunhou Jeová é uma cacofonia ambulante na via
pública, pela vestimenta e a compostura visigóticas destoantes. Mas
estou esperto que aquele anacronismo candente é coisa do Demônio,
puro disfarce para entregar a multinacional JW . ORG. Enfim, as duas
senhoras escrupulosamente trajadas, falando todos os erres e esses e
pronomes na segunda pessoa, ficaram sabendo que a Cacofonia e a
Internet são atalhos seguros para o Inferno.
Tanta
gente virtuosa na via pública lembra as Virtudes. Como é que um
sujeito prudente se mete a escrever? Porque escrever é coisa do
Maldito e a Prudência é virtude teologal. Como é que este homem
pode exercer sua fortaleza, neste mundo cheio de cascas de banana
metafóricas e dialéticas? Porque Fortaleza é coisa de quem não
tem dúvidas, de quem vive num mundo concreto e plano, que não gira
e não volta.
Agora
sim: a igualdade é coisa do Belzebu. Porque a igualdade
elimina a inveja, antítese da bondade. Donde concluo que só é
possível ser bom num mundo desigual, ops, mau. Como poderia salvar
minha alma, sem a possibilidade de ser bom? A minha ingenuidade é
coisa do Capeta, perdi tempo procurando Igualdade em todos os róis
de coisas desejáveis.
Outra
coisa: como ser casto, nesta cidade cheia de Shoppings Centers? A
Literatura não é coisa de Deus. Nunca a caridade foi tão possível,
com tanto mendigo na rua. Como ter paciência, diante de tanta gula?
Taí
o nosso problema: a Retórica e a Linguística. Acho que era por isso
que a Igreja proibia o acesso dos ignorantes às Escrituras. Acho que
era por isso que a TV dourava a pílula. Saudade do tempo em que as
conversas banais ficavam circunscritas aos botecos e quintais.
Enfim,
os boçais boiaram e estão à vista de todos, primeiro passo para
acabar com eles. Que sejam bombardeados com cultura e esclarecimento. Deus é coisa do Diabo. E a ironia é o último
recurso da irada temperança.
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