quinta-feira, 21 de novembro de 2019

IRONIA É COISA DO DIABO.


Dei uma resposta irônica a um amigo e me arrependi na hora. Mas as palavras já estavam viajando no vento e não havia mais jeito. O humano é prioritariamente puro. Submetido ao sarcasmo, corrompe-se. O Sarcasmo é coisa de Satanás. Por definição, um amigo é bom. Aí você tasca sua ambiguidade nele e a amizade desanda. A Ambiguidade é manha do Falso. A leitora entra desarmada no palavrório alheio. Então recebe uma cacofonia de antíteses e catacreses, coitada, e sai embananada. A Cacofonia, a Antítese e a Catacrese são artimanhas do Demo. 

Um pastor prega por metáforas. Não devia, pois Metáfora não é coisa de Deus. A mocinha bem-composta me entrega o jornal da Universal junto com uma enxurrada ensaiada e decorada de circunlóquios e alegorias. Azar o dela em ter jorrado sua ladainha em direção a um senhor anacoluto, eis que ficou sabendo, no contrafluxo, que Circunlóquio e Alegoria não deviam andar na boca de uma serva de Deus.

Já a dupla que testemunhou Jeová é uma cacofonia ambulante na via pública, pela vestimenta e a compostura visigóticas destoantes. Mas estou esperto que aquele anacronismo candente é coisa do Demônio, puro disfarce para entregar a multinacional JW . ORG. Enfim, as duas senhoras escrupulosamente trajadas, falando todos os erres e esses e pronomes na segunda pessoa, ficaram sabendo que a Cacofonia e a Internet são atalhos seguros para o Inferno. 

Tanta gente virtuosa na via pública lembra as Virtudes. Como é que um sujeito prudente se mete a escrever? Porque escrever é coisa do Maldito e a Prudência é virtude teologal. Como é que este homem pode exercer sua fortaleza, neste mundo cheio de cascas de banana metafóricas e dialéticas? Porque Fortaleza é coisa de quem não tem dúvidas, de quem vive num mundo concreto e plano, que não gira e não volta.

Agora sim: a igualdade é coisa do Belzebu. Porque a igualdade elimina a inveja, antítese da bondade. Donde concluo que só é possível ser bom num mundo desigual, ops, mau. Como poderia salvar minha alma, sem a possibilidade de ser bom? A minha ingenuidade é coisa do Capeta, perdi tempo procurando Igualdade em todos os róis de coisas desejáveis.

Outra coisa: como ser casto, nesta cidade cheia de Shoppings Centers? A Literatura não é coisa de Deus. Nunca a caridade foi tão possível, com tanto mendigo na rua. Como ter paciência, diante de tanta gula?

Taí o nosso problema: a Retórica e a Linguística. Acho que era por isso que a Igreja proibia o acesso dos ignorantes às Escrituras. Acho que era por isso que a TV dourava a pílula. Saudade do tempo em que as conversas banais ficavam circunscritas aos botecos e quintais.

Enfim, os boçais boiaram e estão à vista de todos, primeiro passo para acabar com eles. Que sejam bombardeados com cultura e esclarecimento. Deus é coisa do Diabo. E a ironia é o último recurso da irada temperança.




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