terça-feira, 29 de setembro de 2015

Cismas de um bacharel.



TORNEIRO-MECÂNICO  x   DOUTORES

Pela manhã, ligo o rádio e ouço a Marta Suplicy falando assim: “... entro no PMDB do doutor Ulisses, que redemocratizou o país, e do doutor Michel, que vai unir o país...”. À noite, ligo na TV Cultura e vejo, no Roda Viva, o doutor Hélio Bicudo e a doutora Janaína Paschoal, ambos no centro da roda. Nem é preciso dizer que esses quatro doutores estavam combatendo o torneiro-mecânico...

Sobre Ulisses Guimarães, diziam que ele nunca havia aberto uma porta da vida. Sabe essas pessoas ricas e poderosas que têm sempre um aspone à frente para abrir as portas? Era o caso dele, diziam as más línguas. No tempo da escravidão, os homens brancos não deviam realizar jamais qualquer tipo de trabalho manual. Foi daí que surgiu esse costume ainda muito em voga no Brasil, dos aspones abrirem as portas e segurarem guarda-chuvas para seus patrões. A ditadura militar de 1964 fechou todos os partidos e determinou que deveria haver apenas dois: a ARENA, da situação, e o MDB, de oposição. E para presidir o MDB, determinou que Ulisses Guimarães era confiável...

Dizem que a mulher do doutor Michel é linda. E bem mais nova que ele. Marta Suplicy se notabilizou no Brasil através da TV Mulher, da Globo, nos anos 1980, como sexóloga. Depois seu marido ficou famoso como eterno candidato aos cargos majoritários pelo PT em São Paulo e, juntos, geraram um filho roqueiro...(no tempo que o PT não elegia ninguém). Meu pai votou em Marta Suplicy, acho que pra governadora de SP ou deputada federal, não tenho certeza. Perguntei, ele me respondeu: “Votei naquela mulher que falava besteira na TV”. “Besteira” era tudo que se referia a sexo... Como munícipe, sinto que Marta Suplicy foi a melhor prefeita que tivemos em SP: bilhete único, corredores de ônibus e Centro Educacional Unificado, além dos coqueiros na calçada da minha rua...

Já Hélio Bicudo nunca me enganou. Em minha terra, dizem que homem pequeno só serve pra fazer os grandes brigarem. Recomenda-se que somente preto e pobre pode fazer piada contra preto e pobre. Eu, com meus 188 centímetros, não devia usar essa piada contra o Hélio Bicudo... Mas a presença da doutora Janaína Paschoal ao lado dele no centro do Roda Viva me permite ultrapassar as portas da decência...

Mas fiquei encafifado com a fala da Suplicy: Por que “doutor Ulisses” e “doutor Michel”? O imorredouro presidente do MDB era mais conhecido por Ulisses Guimarães embora, às vezes, se referissem a ele como doutor Ulisses. Mas “doutor Michel”? É Michel Temer ou apenas Temer, ninguém fala “doutor Michel”. Só pode haver uma terceira intenção, nessa avalanche de doutores e de intimidades... e, de repente, sem mais nem porque, me veio a palavra “restauração”, com uma certa conotação histórica, cisma de um reles bacharel...

sábado, 26 de setembro de 2015

PIQUENIQUE DE VELHO.



SENTAR NO CHÃO É ...

Alguém aí já avaliou o grau de dificuldade do ato de se sentar no chão e, depois, se levantar? Para um gato, ou um porco ou uma vaca, o ato de sentar é banal, mas para um humano, que anda só com duas patas, ereto, o ato de sentar é grave. Que o digam os velhos e os gordos (jovem nem para pra pensar em tamanha banalidade). Para um humano, dobrar as duas patas e depositar o traseiro no chão quase vai contra a lei da gravidade. Envolve até as juntas do pescoço. As articulações são obrigadas a movimentos contraditórios entre si:  enquanto o tornozelo gira pra frente, o joelho gira pra trás e o quadril torce do lado; a coluna range como uma porta de ferro sem graxa e até o cotovelo se mexe, além dos ombros, é claro. A extremidade superior da coluna, que sustenta a cabeça, estrala quando o pescoço fica inclinado e tem de sustentar a cabeça pendente. Somente os pés descansam, quando o humano senta no chão.

Quando um humano senta no chão, seus músculos sofrem. Sendo aqueles das coxas os mais requisitados: Enquanto um esfrega pra cima, o outro esfrega pra baixo. E a panturrilha aguenta tudo atrás da canela. Os glúteos, coitados, tão despreparados, envolvidos com a mais delicada pele, de repente são abalroados, amassados como se o mundo viesse abaixo. E as “cadeiras”, esses músculos que sustentam as costelas na parte posterior do tronco? Esticam como corda de guindaste a sustentar a volumosa região do quadril em forma de pêndulo. No pescoço em diagonal os músculos se confundem com a pele e a região fica tensa quando o titular quebra o corpo em zigue-zague e se esparrama na horizontal com os pés ao vento.

Os tendões se descontrolam quando o humano senta no chão. Encolhem, esticam, bambeiam, retinem. A começar pelo tendão de Aquiles, que recebe toda a força de tração que o corpo exerce na lei da gravidade. E o ciático? O ciático equivale ao cabo de aço do guincho. E não raro desliza fora do trilho, deixando o titular de mau humor, tamanha a insistência da sua grita. Os ligamentos e os meniscos do joelho berram quando o titular abaixa, se tiver qualquer parte de mais ou de menos no mecanismo. E todo velho tem algo de mais ou de menos ali nos joelhos... Resultado, ele não consegue sustentar o corpo de cócoras. E todos aqueles feixes de nervos que intuímos no pescoço retorcem em parafuso quando a cabeça se movimenta pra lá e pra cá, em negação, movimento necessário para olhar dos lados quando não podemos virar o tronco, eis que pés e pernas descansam inúteis.

E um velho costuma ter capengando várias das funções acima citadas. Mas a maior dificuldade para um velho se sentar no chão está no cérebro. É quando ele exige uma cadeira. Pensa que sentar no chão é coisa de moleque. Não quer sujar a roupa, pensa que roupa suja é coisa de mendigo. Não adapta a vestimenta, já vi homens de gravata caminhando no parque. Bermuda e tênis são coisas de malandro. Ficar sem camisa é falta de respeito. O menor vento provoca resfriado; sol quente dá câncer na pele... Quando a velhice é um estado mental, não tem junta, tendão ou músculo que funcione e sentar no chão é animalesco.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Narrativa Nova na Paulista.



GATO POR LEBRE NA PAULISTA

Cuidado com o gato ali na lateral da banca, pode ser lebre! Tem uns caras querendo abrir a Paulista. Ela não estava bonita ali, sempre fechada? Não fazia sucesso? E agora vem esse povo querendo abrir...

A Avenida Paulista não estava funcionando bem, sempre fechada? Tanto que o povo ia lá, em massa e, das calçadas, assistia extasiado ao vai e vem dos carros, luzes vermelhas de um lado, luzes amarelas do outro... Quando em noite alta caía neblina, as lanternas dos automóveis desenhavam um traço luminoso no asfalto, um traço luminoso vermelho de sangue. Do outro lado, os faróis empurravam uma maçaroca amarelada, que parecia rolar, sem nunca se deixar amassar. Tudo parecia bem, quem tinha carro ia de carro, quem não tinha, ia a pé.

Era bonito o espetáculo dos carros, na Paulista fechada. Quase todos carros novos, vários enormes. Mas nenhum conversível, que nestes tempos fechados é melhor carro fechado e blindado... O povão se apinhava nas calçadas abertas, cada vez mais disputadas por equipamentos comerciais ou sociais, eis que no leito carroçável fechado ninguém tascava. Bem comportado, o povão aguardava o fechamento dos faróis para atravessar o asfalto fechado.

Tempos atrás a prefeitura abriu uma faixa só pra ônibus. Aquilo já foi um acinte. Recentemente, a prefeitura abriu quarenta centímetros para as bicicletas. Ao menos manteve o mesmo número de faixas fechadas...apenas mais apertadas, nada que diminuísse o direito de ir e vir. Mas agora querem abrir a avenida por sete horas na semana. Não concordo. Exijo a manutenção do meu integral direito de transitar pelo espaço fechado!

Viram que, até aqui, o texto constrói  uma outra narrativa? Ééééh! Agora quem constrói narrativa é publicitário ou outro militante qualquer. Usando a TV e os jornais e as rádios e as revistas e as redes sociais.  Romancista e contista é que não é; esses, coitados, nem sei se ainda estão vivos, com seus secretos livros. Perceberam que FECHAR e ABRIR podem ser sinônimos, dizer a mesma coisa? Tudo depende da perspectiva. 

Mas, afinal, queremos a Avenida Paulista ABERTA ou FECHADA.  Eu mesmo fui vítima dessa cilada, no domingo da inauguração da ciclovia. Umas garotas exibiam uma placa enorme, com os dizeres: QUEREMOS A PAULISTA ABERTA. Eu as interpelei, perguntando-lhes se eram contrárias ao “fechamento” da avenida para os carros aos domingos. Me responderam, tolerantes, que eram favoráveis à abertura da avenida aos pedestres aos domingos...

Então fui ensinado que a Paulista fica fechada à maioria dos usuários o tempo todo. E as garotas queriam que ela ficasse aberta apenas sete horas na semana (4% do tempo). Foi então que cheguei querendo a Paulista FECHADA e saí querendo a Paulista ABERTA. E não mudei de opinião! Apenas mudei o referencial, tornando minha luta mais alegre e positiva, eis que o sintagma ABERTA é muito mais otimista e luminoso que o sintagma FECHADA.  Se a moda pega, não fica nada em pé...

domingo, 20 de setembro de 2015

Caipira no cinema 3D.



CINEMA TRÊS DÊS.

Não, o certo é 3 D – três dê – dê no singular, sendo que o certo mesmo seria 3ª D, sendo que D é abreviatura de dimensão, mas o fato é que ontem fui ver EVERESTE em 3 D no Chopim novo da Paulista, andei subindo umas montanhas por aí, o tema me interessa, vi o anúncio... Na entrada eles dão um par de óculo pra gente – um óculus, porém óculus é plural e um é singular... e aí a gente põe os óculus e, de repente, a nave de Star Wars vem por cima da gente que é um salve-se quem puder, isso no começo, propaganda de outro filme.


Sim, foi a primeira vez que vi um filme 3D. Vou ao cinema uma ou duas vezes por ano, pra manter o padrão da minha infância. Antes preciso dizer que sou um sujeito do fundo do fundo do mundo, quer dizer, sou caipira dos caipiras, eu morava no sítio – diminutivo de fazenda – enquanto todo mundo já morava na cidade. Eu utilizava um cavalo como meio de transporte, ou seja, eu ia montado num cavalo pra escola, garoto de onze anos. Dá pra acreditar que ainda vive no mundo um sujeito relativamente jovem e ainda bem disposto que utilizou cavalo como meio de transporte?


Na sétima série eu achei que cavalo era demais e requeri do meu pai uma bicicleta. Bike não, pelamordedeus. Ele comprou, usada. Havia umas cem bicicletas no pátio do colégio, lá todo mundo ia de bicicleta, elas tinham placa, pagavam imposto. Nunca jamais alguém prendeu uma bicicleta com corrente e cadeado, todo mundo conhecia a bicicleta de todo mundo... Enquanto meus colegas ouviam Beatles e jovem guarda, eu ouvia música caipira, sendo que muitas vezes ao vivo, enquanto eles só ouviam disco, acho que é esse o motivo de eu ter saído mais esperto que eles, rsrsrs. O fato é que, enquanto meus colegas citadinos iam ao cinema toda semana, eu ia apenas uma ou duas vezes por  ano...


Em Orindiúva, quando ia visitar meus avós maternos. Década de 1960, cidadezinha de mil habitantes à beira do Rio Grande e havia cinema! Apenas lá eu ia ao cinema, para ver Maciste, Hércules e faroeste italiano. Eu tinha medo de ser atropelado pelo cavalo do mocinho, que vinha disparado na direção da plateia... sendo que era filme dois dê. Maciste jogava uma pedra maior que ele lá de cima da montanha e ela vinha rolando na nossa direção, eu queria morrer. A televisão ainda não havia chegado naquele mundo não.


De modo que abaixei, sim, quando a nave intergaláctica veio em minha direção. Fazer o quê, se essencialmente continuo aquele garoto ressabiado saído do fundo do íntimo da estrada? O filme é fraquinho meio moralista, mas tem umas tomadas 3D interessantes...

sábado, 19 de setembro de 2015

Velho é uma desgraça!



VELHO É UMA DESGRAÇA!

Acreditam que hoje proferi a idiota frase acima? Em voz alta. Havia um interlocutor, outro humano. Humana, no caso, a cobradora do ônibus. Sim, a oração completa, sujeito, verbo, predicado. E a exclamação. Mas foi sem querer... explico. E desde já sei que não convenço. A cobradora era moça, falei para ela, me referindo à velhice em geral, por conta de duas velhas que me desacataram... Sei que quanto mais me explicar, mais me afundarei no pântano dos imbecis... porque, quem fala uma frase dessas não tem perdão nem explicação. Eu me arrependi na hora, mas não pedi perdão. Usei o direito de permanecer calado que a lei me assegura... aqui, no recesso do lar, eu me explico e me expio, mas na vida, pra valer, eu me calei, porque tudo que eu acrescentasse só aumentaria a enorme asneira que tal frase suscita, só agravaria o meu crime.

Mas as duas velhas me  encheram o saco, isso é verdade, só que eu tive culpa também e elas não precisariam ser velhas para fazerem o que fizeram. Vejam que esse “as duas velhas” denunciam o meu preconceito... eu peguei o Parque D.Pedro na Brigadeiro, estava cheio, estava com todas as poltronas ocupadas, nem passei a catraca, me postei ao lado da porta oposta àquelas que estavam operando. É, em S.Paulo os ônibus têm portas dos dois lados, porque alguns pontos são no canteiro central ou do lado esquerdo da via, de maneira que, ali na Praça João Mendes, o tal ônibus para do lado esquerdo e abre a porta... exatamente aquela em que eu estava em frente, atrapalhando o fluxo...  Resultado: as duas velhas iam descer e eu estava na frente delas, feito um paspalho e, em sendo grosseiras e afoitas por natureza, me xingariam mesmo que fossem moças!

Em seguida fui passar a catraca e disparei a frase fatal, me referindo ao episódio. A coitada da cobradora sorriu amarelo e permaneceu calada. Quantos broncos ela ouve por dia? Só que a minha frase pretendia ser irônica, quase uma piada, me incluindo, com meus fios brancos, no meio da desgraça. Mas não consegui a entonação correta e a frase saiu literal. Eu tentei exercer aquela recomendação de que não devemos jamais fazer piada ou brincar contra minorias inferiorizadas por preconceito, a menos que façamos parte da minoria referida. Então, eu, velho, fazia piada contra velho. Porém, como já disse, não deu certo e o que saiu foi uma grosseria monumental.