SENTAR NO CHÃO É ...
Alguém aí já
avaliou o grau de dificuldade do ato de se sentar no chão e, depois, se
levantar? Para um gato, ou um porco ou uma vaca, o ato de sentar é banal, mas
para um humano, que anda só com duas patas, ereto, o ato de sentar é grave. Que
o digam os velhos e os gordos (jovem nem para pra pensar em tamanha
banalidade). Para um humano, dobrar as duas patas e depositar o traseiro no
chão quase vai contra a lei da gravidade. Envolve até as juntas do pescoço. As
articulações são obrigadas a movimentos contraditórios entre si: enquanto o tornozelo gira pra frente, o
joelho gira pra trás e o quadril torce do lado; a coluna range como uma porta
de ferro sem graxa e até o cotovelo se mexe, além dos ombros, é claro. A
extremidade superior da coluna, que sustenta a cabeça, estrala quando o pescoço
fica inclinado e tem de sustentar a cabeça pendente. Somente os pés descansam,
quando o humano senta no chão.
Quando um
humano senta no chão, seus músculos sofrem. Sendo aqueles das coxas os mais
requisitados: Enquanto um esfrega pra cima, o outro esfrega pra baixo. E a
panturrilha aguenta tudo atrás da canela. Os glúteos, coitados, tão
despreparados, envolvidos com a mais delicada pele, de repente são abalroados,
amassados como se o mundo viesse abaixo. E as “cadeiras”, esses músculos que
sustentam as costelas na parte posterior do tronco? Esticam como corda de
guindaste a sustentar a volumosa região do quadril em forma de pêndulo. No
pescoço em diagonal os músculos se confundem com a pele e a região fica tensa
quando o titular quebra o corpo em zigue-zague e se esparrama na horizontal com
os pés ao vento.
Os tendões
se descontrolam quando o humano senta no chão. Encolhem, esticam, bambeiam,
retinem. A começar pelo tendão de Aquiles, que recebe toda a força de tração
que o corpo exerce na lei da gravidade. E o ciático? O ciático equivale ao cabo
de aço do guincho. E não raro desliza fora do trilho, deixando o titular de mau
humor, tamanha a insistência da sua grita. Os ligamentos e os meniscos do
joelho berram quando o titular abaixa, se tiver qualquer parte de mais ou de
menos no mecanismo. E todo velho tem algo de mais ou de menos ali nos
joelhos... Resultado, ele não consegue sustentar o corpo de cócoras. E todos
aqueles feixes de nervos que intuímos no pescoço retorcem em parafuso quando a
cabeça se movimenta pra lá e pra cá, em negação, movimento necessário para
olhar dos lados quando não podemos virar o tronco, eis que pés e pernas
descansam inúteis.
E um velho
costuma ter capengando várias das funções acima citadas. Mas a maior
dificuldade para um velho se sentar no chão está no cérebro. É quando ele exige
uma cadeira. Pensa que sentar no chão é coisa de moleque. Não quer sujar a
roupa, pensa que roupa suja é coisa de mendigo. Não adapta a vestimenta, já vi
homens de gravata caminhando no parque. Bermuda e tênis são coisas de malandro.
Ficar sem camisa é falta de respeito. O menor vento provoca resfriado; sol
quente dá câncer na pele... Quando a velhice é um estado mental, não tem junta,
tendão ou músculo que funcione e sentar no chão é animalesco.
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