sábado, 26 de setembro de 2015

PIQUENIQUE DE VELHO.



SENTAR NO CHÃO É ...

Alguém aí já avaliou o grau de dificuldade do ato de se sentar no chão e, depois, se levantar? Para um gato, ou um porco ou uma vaca, o ato de sentar é banal, mas para um humano, que anda só com duas patas, ereto, o ato de sentar é grave. Que o digam os velhos e os gordos (jovem nem para pra pensar em tamanha banalidade). Para um humano, dobrar as duas patas e depositar o traseiro no chão quase vai contra a lei da gravidade. Envolve até as juntas do pescoço. As articulações são obrigadas a movimentos contraditórios entre si:  enquanto o tornozelo gira pra frente, o joelho gira pra trás e o quadril torce do lado; a coluna range como uma porta de ferro sem graxa e até o cotovelo se mexe, além dos ombros, é claro. A extremidade superior da coluna, que sustenta a cabeça, estrala quando o pescoço fica inclinado e tem de sustentar a cabeça pendente. Somente os pés descansam, quando o humano senta no chão.

Quando um humano senta no chão, seus músculos sofrem. Sendo aqueles das coxas os mais requisitados: Enquanto um esfrega pra cima, o outro esfrega pra baixo. E a panturrilha aguenta tudo atrás da canela. Os glúteos, coitados, tão despreparados, envolvidos com a mais delicada pele, de repente são abalroados, amassados como se o mundo viesse abaixo. E as “cadeiras”, esses músculos que sustentam as costelas na parte posterior do tronco? Esticam como corda de guindaste a sustentar a volumosa região do quadril em forma de pêndulo. No pescoço em diagonal os músculos se confundem com a pele e a região fica tensa quando o titular quebra o corpo em zigue-zague e se esparrama na horizontal com os pés ao vento.

Os tendões se descontrolam quando o humano senta no chão. Encolhem, esticam, bambeiam, retinem. A começar pelo tendão de Aquiles, que recebe toda a força de tração que o corpo exerce na lei da gravidade. E o ciático? O ciático equivale ao cabo de aço do guincho. E não raro desliza fora do trilho, deixando o titular de mau humor, tamanha a insistência da sua grita. Os ligamentos e os meniscos do joelho berram quando o titular abaixa, se tiver qualquer parte de mais ou de menos no mecanismo. E todo velho tem algo de mais ou de menos ali nos joelhos... Resultado, ele não consegue sustentar o corpo de cócoras. E todos aqueles feixes de nervos que intuímos no pescoço retorcem em parafuso quando a cabeça se movimenta pra lá e pra cá, em negação, movimento necessário para olhar dos lados quando não podemos virar o tronco, eis que pés e pernas descansam inúteis.

E um velho costuma ter capengando várias das funções acima citadas. Mas a maior dificuldade para um velho se sentar no chão está no cérebro. É quando ele exige uma cadeira. Pensa que sentar no chão é coisa de moleque. Não quer sujar a roupa, pensa que roupa suja é coisa de mendigo. Não adapta a vestimenta, já vi homens de gravata caminhando no parque. Bermuda e tênis são coisas de malandro. Ficar sem camisa é falta de respeito. O menor vento provoca resfriado; sol quente dá câncer na pele... Quando a velhice é um estado mental, não tem junta, tendão ou músculo que funcione e sentar no chão é animalesco.

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